A curiosa história dos cometas

halley

Um leitor reclamou outro dia que eu não escrevo mais tantos posts sobre ciência, como este das lombrigas ou este aqui das abelhas. Deve até ter alguns outros aí que esqueci.

É irônico que não haja mais textos seguindo esses moldes, porque são os que eu mais gosto. Esses textos são uma mistura das duas características que me definem melhor, desde a infância — insaciável curiosidade, e um hábito de transformar TUDO em piada.

É assim: alguma curiosidade me bate aqui, e aí antes que eu perceba eu já li uns 3 ou 4 ou 50 artigos na Wikipédia sobre aquele tema. No que vou lendo o artigo, me ocorre que há uma boa parcela do meu público que não sabe quase nada sobre o assunto; um espírito meio pedagógico toma conta de mim e eu resolvo então escrever um texto explicando o negócio — com piadinhas.

Então, COMETAS!

porra

Esse passou RASPANDO

A maioria das pessoas sabe bem pouco sobre cometas, eu diria. Um deles teria fodido os dinossauros, ou algo assim…? É o nome de uma empresa de fretes, né não?

Cometas são pequenos pedregulhos congelados que orbitam ao redor de uma estrela, geralmente com uma órbita que vai dar a volta lá na casa do caralho, e por isso eles demoram um tempão pra reaparecer. Pra tu ter uma noção, consideram-se “cometas de período curto” aqueles que demoram “só” 200 anos dando essa volta no sol. O Hale-Bopp, que foi provavelmente o cometa mais observado pela civilização humana, só vai voltar aqui mais de dois mil anos. Aliás, guarde esse nome, será relevante mais tarde.

Como nos ensinou o Balão Mágico, cometas tem cauda. São, até onde sabemos, o único astro com tal característica. Isso acontece porque o núcleo de um cometa, assim como o coração do professor de Cálculo Vetorial que em 2003 me reprovou e falou que se dependesse dele eu reprovaria outras 5 vezes, é feito de gelo. Quando o bicho se aproxima do sol, o cometa e não meu professor de Cálculo Vetorial infelizmente, este ferve o gelo lá dentro.

O gelo sobe à superfície do astro e forma uma mini-atmosfera, que eu interpreto como a sua forma de se entrosar melhor com os planetas dos quais ele se aproxima. O Sol, que é macaco velho e não cai nessas fuleragens, sopra vento solar (que na verdade são partículas ionizadas que o sol cospe pra todas as direções) pra cima do cometa, o que empurra essa atmosfera pra puta que o pariu. E isso cria a tal cauda na qual o Balão Mágico sugeriu que poderíamos pegar carona.

balão

Como eles não eram exatamente astrofísicos de renome, ou até mesmo sem renome, não recomendo essa sugestão

Uma coisa que eu não sabia sobre cometas é que nem todos eles saem do sistema solar. Como passam muito tempo sem dar as caras, como é o caso do famoso cometa Halley — aliás, talvez o MAIS famoso –, eu acha que os bichos saiam do sistema solar pra dar uma volta no espaço interestelar. Não é o caso com o Halley: ele passa perto o bastante de Plutão pra dar um tchau e volta em direção ao sol.

plutao

A propósito, Halley é o único cometa visível a olho nu que pode ser observado duas vezes por alguém. Essa volta toda dele demora entre 75 e 76 anos; sua próxima passagem está agendada pra 2061, que é um excelente motivador para que eu pare de comer no McDonalds ou usar milkshake como o leite do meu sucrilhos. O interessante do Halley é que, apesar de ter sido visto inúmeras vezes pela civilização humana, não tinhamos o know how astrômico pra sacar que aquelas aparições eram o mesmo corpo celeste. Só em 1705 alguém finalmente falou “MATEI A CHARADA, É A MESMA PARADA”, um cara que coincidentemente tinha o mesmo nome do astro: Edmund Halley.

Pra constar, Halley não é o cometa que passa com mais frequência por estas bandas. Nosso freguês cativo é o pequenino 19P/Borrelly, que de 6 em 6 anos dá o ar de sua graça. Na escala astronômica isso é tão breve que é como se ele basicamente morasse aqui com a gente.

Só que um cometinha minúsculo de merda desse que não dá nem pra ver é a coisa mais sem graça do mundo. Aliás, nem “do mundo”: é a coisa mais sem graça do sistema solar.

DE ONDE VEM ESSAS MERDAS, você se pergunta? A teoria vigente é que eles são fabricados na nuvem de Oort, uma espécie de “cerca” que, bem, cerca o sistema solar. A nuvem é composta de diversos pequenos corpos celestiais feitos de gelo, e ocasionalmente um deles é capturado pelo nosso sol e começa essa peregrinação espacial. Curiosamente, a teoria da nuvem foi elaborada justamente pra explicar a existência de cometas, algo que eu também não sabia.

Aliás, o que eu também não sabia é que a nuvem de Oort é IMENSA. Tipo, ela é grande PRA CARALHO, maior do que você deve estar imaginando. Pra você ter uma noção, ela se estende até mais ou menos METADE do caminho daqui até a estrela mais próxima. E se você lembra bem, demora QUATRO ANOS pra luz ir daqui até lá.

A gente demorou a manjar qual que era a dos cometas, e por muito tempo nossos antepassados supersticiosos acharam que a passagem de um cometa significava desastre. Aliás, a própria palavra “desastre” está intimamente ligada a cometas: o termo originalmente significa algo como “má estrela”; daí isso o “astre” na palavra. Não deve ser coincidência que “catástrofe” também tem “astro” no meio (mas é sim, eu pesquisei e descobri decepcionado que curiosamente não tem conexão com “estrela”).

E antes que você dê um tapinha nas próprias costas “rsrs, esses nossos antepassados eram bem bobinhos né…”, fique sabendo que a crença de que cometas tinham algum significância espiritual/metafísica não era exclusividade dos povos da antiguidade.

Mas isso é assunto pra outro post. Lembra do Hale-Bopp que eu mencionei lá atrás? Então. Tem a ver com ele.

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comments

6 comments

    1. É muito sério. A Sociedade da Terra Plana existe há décadas. Começou nos Estados Unidos e como toda bobagem do tipo, vem aos poucos sendo importada pro Brasil.

  1. Eu já tinha ouvido falar da nuvem de Oort e já sabia que ela tinha um tamanho descaralhante.

    E vou sacrificar uma gótica virgem numa encruzilhada rural para ver se as forças do oculto fazem você postar o resto da história sem demorar muito.

  2. “(…)um cara que coincidentemente tinha o mesmo nome do astro: Edmund Halley.”

    Essa é a cretinice característica de Izzy “João Hospital” Nobre. Senasional demais.

    E a propósito, com seu gosto pelo aprendizado e pelas piadas, por que não faz mais UFW? Acho que teve tipo, 3, e agora nunca mais. =/

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