A gafe da NASA

Um negócio legal sobre ser uma “personalidade virtual” — é, não tem jeito de se declarar FAMOSO sem soar babaca ou arrogante, então foda-se — é que há uma variedade imensa no tipo de pessoas que te acompanham.

Ontem mesmo eu recebi um email de um leitor que é PILOTO DE AVIÕES, algo incrivelmente foda que eu jamais farei nessa minha vida miserável.  Tenho dois leitores (ou melhor, sei de dois leitores) médicos. E, pelo que parece, tenho leitores que trabalham na redação de veículos jornalísticos.

A Ana Freitas, por exemplo, trabalha no Estadão. É por isso que você leu aquela matéria sobre trolls lá, com uma entrevista minha. Ou essa matéria no Gizmodo, que me menciona como delator do suposto ataque ao Legendas.tv (que eu comentei target=”_blank”>aqui, lembra?). E ontem rolou isto aqui, no Terra:

No Brasil, a notícia gerou frustração entre os tuiteiros. Como a Nasa havia divulgado que iria anunciar informações relativas à vida extraterrestre, muitos estavam na expectativa de que a descoberta estivesse relacionada a seres mais evoluídos fora do Planeta Terra. O tuiteiro @izzynobre, por exemplo, publicou que a Nasa está “fazendo esse estardalhaço pq ela sofre dificuldade de garantir fundos de pesquisa e quer mostrar bom trabalho (sic).”

A notícia se referia ao anúncio de ontem da NASA, e a decepção generalizada entre internautas que aguardavam da agência espacial uma revelação mais bombástica. Aparentemente o meu mimimi foi mais alto do que da maioria, vá entender essa.

O foda é que simplificaram a minha opinião (desenvolvida ao longo de uns 40 tweets) a uma mísera frase. E pior, atrelaram um (SIC) no final — um termo que por causa da forma que é comumente utilizado, praticamente significa “ignore tudo que esse cara acabou de falar, ele é um analfabeto”.

Sobre a notícia da NASA, algumas considerações:

Primeiro, temos que entender a NASA funciona como uma empresa qualquer — ela precisa garantir capital pra operar suas pesquisas. E como a NASA não mostra nada realmente relevante ou significativo há, sei lá, uns 40 anos, fica difícil justificar a grana que recebe. Não é à toa que todas as notícias recentes envolvendo “NASA” e “fundos” involvem a palavra “cortes” no meio.

Aí uma pesquisadora faz uma descoberta ainda não completamente compreendida ou confirmada, e a NASA faz estardalhaço na forma mais baixa da prática do marketing — ela faz um anúncio de um anúncio.

O pior é a escolha de palavras do tal anúncio. No original, em inglês:

“..an astrobiology finding that will impact the search for evidence of extraterrestrial life”

Ok. O problema é que foi uma “descoberta” biológica, não ASTRObiológica. Quando uma agência ESPACIAL diz que realizou uma “descoberta” ASTROBIOLÓGICA, é óbvio que a imaginação  do povo pintará um quadro de, na pior hipótese, bactérias em uma pedrinha marciana. Se houve decepção sobre o anúncio, foi por causa da forma marketeira que eles escolheram pra divulgar a “descoberta”.

Você deve ter notado o uso das aspas na “descoberta”. O motivo disso é que tal bactéria não foi realmente “descoberta”, pelo menos não no sentido que a maioria das pessoas aplicaria ao termo. Tal bactéria foi o resultado de uma experiência da pesquisadora em que ela pegou bactérias e as expôs a ambiente com níveis crescentes de arsênico. Ou seja, tal “forma de vida” não é naturally-occuring, ela não ocorre naturalmente.

Aliás, pra quem assistiu ontem a entrevista coletiva que a Felisa Wolfe-Simon deu à CNN, era notável o desconforto da cientista com a forma como a NASA anunciou o achado, a julgar pelas repetidas vezes em que ela tentou retificar a situação.

Os vários sites reportando a “descoberta” de uma “nova forma de vida feita de arsênico” cometeram gafe ainda maior (nenhuma nova forma de vida foi descoberta na verdade, e ela não é “feita” de arsênico). Bactérias que subsistem de e sintetizam arsênico não são nenhuma novidade — aliás, bactérias que vivem em ambientes inóspitos e que tornam vida extraterrestre hipoteticamente provável também não são –, ou seja, a menos que tivessem realmente descoberto uma forma de vida NOVA (digamos, baseada em silício ao invés de carbono), aí sim.

E outra coisa a ter em mente: a tal pesquisa que descobriu isso era bancada pela NASA. Tá entendo melhor agora a situação? Esse alarde todo aí é essencialmente um press release: uma empresa mostrando ao público e aos acionistas que seu último “produto” é a oitava maravilha.

Quando você para pra pensar que a descoberta já havia sido divulgada pelo meio científico apropriado (ou seja, numa publicação oficial com crédito perante a comunidade científica, a Science), aí mesmo que fica patente que esse anúncio da NASA foi nada senão uma ação de mídia social feita por gente que tinha mais é que largar o twitter e trabalhar num jetpack viável.

Afinal de contas, já estamos em 2010, caralho.

A descoberta é significativa pra biólogos e demais especialistas na área? Sim, claro. E por isso que o resultado da pesquisa foi publicado numa revista científica. Qualquer anúncio além desse tem como alvo o público não-especialista, e se você, uma agência espacial que põe homens na lua, vai dizer pra nós leigos que fez um ACHADO ASTROBIOLÓGICO e me aparece com míseras bactérias encontradas num laguinho na Califórnia, você esperava o que da gente?

Da próxima vez, não divulguem um press release que insinue descaradamente que vocês encontraram ETs. “Astrobiológico” meu ovo.

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comments

39 comments

  1. Kid, “fundada pela NASA” era pra ser “financiada pela NASA”? Tipo, trocadilho com “to fund”? Claro que você pode ter dito no sentido de “iniciada”, mas me soou estranho…enfim.

  2. Sei que pode parecer inocência minha, mas o Sr.° realmente acredita que haverá uma rage storm quanto a esse post, quando é evidente que não há muitas justificativas em favor da atitude tomada pela NASA?

  3. Concordo que todo o estardalhaço foi mesmo pelos motivos citados, mas pelo que eu li no site da NASA as bactérias são sim feitas de arsênio, já que todo o fósforo do meio de cultivo das bactérias foi substituído por ele.
    E outra coisa, os pesquisadores pegaram uma bactéria de um lago, botaram-na em um meio diferente e ela sobreviveu. Como isso não é naturally-occuring?

  4. Concordo…
    Se não era alienigena eles poderia ter falado que agora teriam que rever todo o conceito de vida para as novas procuras extraterrestes…
    PUTA FALTA DE SACANAGEM DELES

  5. @Eduardo:
    Não foi TODO o fósforo que foi substituído pelo arsênico. Ainda tem fósforo no DNA, e espera-se no futuro saber como vai funcionar o fósforo e o arsênico juntos na hora de replicar o DNA e etc.
    E quanto ao “naturally-occurring”: Você vê quando as pessoas fazem o maior estardalhaço quando um animal procria em cativeiro? É por aí. O meio onde a bactéria vive foi alterado com a retirada gradual do fósforo (que existia no lago). Você não encontrou (na natureza) uma bactéria com dna com arsênico, você modificou o meio pra modificar a bactéria.

  6. Tem uma piadinha infame que rola entre biólogos(na verdade microbiólogos, gente mais maluca ainda. Tipo eu.) que é: “A astrobiologia é a única ciência SEM objeto de estudo”. E porra, pode até aparecer decepcionante pelo jeito que a NASA falou disso, mas a descoberta é fantástica(Pelo menos pra quem trabalha na astrobiologia e na microbiologia. E é sim uma descoberta. Sim, a bactéria não foi descoberta, entretanto ela já estava preparada pra desenvolver esse tipo de adaptação quanto ao arsênico. Afinal ela subistituiu em estruturas vitais o fósforo pelo arsênico. Tem gente especulando(E que fique bem claro, ESPECULANDO)que o arsênico fazia o “papel” que o fósforo tem a um tempo atrás, e essa bactéria manteve a capacidade de utiliza-lo. A questão não é achar bactérias ambientais multiextremófilas, já foram descobertas várias(A Deinococcus radiodurans por exemplo, conhecida como Bactéria Conan). A questão é que essas bactérias multiextremófilas encontradas anteriormente só sobreviviam em ambientes extremos. Essa bactéria especificamente é capaz de utilizar um componente que anteriormente era conhecido como um grande “matador celular” pra subistituir um elemento vital, o fósforo.

  7. Concordo com o @eduardo.
    Tem um detalhe, o achado é sim uma descoberta astrobiológica. Não porque foi feita em outros planetas mas porque tal descoberta a partir de agora exige uma ampliação no leque de possibilidades resultando em um grande impacto à biologia como um todo e por extensão a astrobiologia também.

  8. Astrobiologia é a ciência que estuda as possibilidades de existência da vida no universo(não a vida no universo, pelo menos por enquanto), o que foi descoberto não foi a bactéria mais sim que é possível que vida exista sem precisar de fósforo que é o que se acreditava( e pessoas bem inteligentes ainda não se convenceram) então é sim uma descoberta da astrobiologia já que os modelos de busca de vida agora terão que incluir a possibilidade de vida em lugares com muito arsênio.

  9. Lembrei do HBDcast. NASA fez o anúncio do anúncio de algo que eles estavam procurando a 50 (?) anos e no final era uma supernova. Vocês até disseram que o próximo anúncio da NASA seria algo parecido. HBDcast prevendo o futuro.

  10. E o pessoal ainda usando meu nick ¬¬ Lamentável

    Sobre o tópico, nem acompanhei muito, vi mais as notícias, coisa e tal, nem sabia que o “ser vivo” tinha que ter os tais elementos. Então pensei, “que legal. E eu com isso?”

  11. As Kid, um dos médicos leitores deste ilustre blog sou eu? 😀
    Tb fiquei ansioso com o anuncio da NASA, e mto frustrado tb qdo anunciaram um negocio de 94…

  12. Kid,

    Parabéns cara.

    Sua opinião foi muito bem sustentada e concordo completamente por você.

    Você provou que não é apenas um maluco na net que fala coisas pra gente rir de suas perolas… Nesse caso ri da Nasa também!

    Abs

  13. O negoço é que a bactéria é acostumada a um meio com fósforo e arsênio e usa as duas substâncias no seu metabolismo. O que a pesquisadora fez foi tirar o fosforo e constatar que a bactéria também cresce só com arsênico. Ai que tá a novidade, pois até então só se conhecia bactérias que usam carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, enxofre ou fósforo. Mas isso tbm nao quer dizer q a bactéria seja feita de arsenico. Não é por que vc come alface que vc é um alface. ^^

  14. Ah, quanto a parte de “Naturally-occuring” que alguém falou, não lembro quem, ela não ocorre naturalmente baseada em arsênico por um motivo: Não existe neste planeta um ambiente com nível altíssimo de arsênico e nulo de fósforo(Que se conheça, pelo menos). É justamente a importância do ponto de vista astrobiológico, fazendo da bactéria um modelo para a importante para a astrobiologia(que é extremamente especulativa, como disse antes, por não ter objeto de estudo).
    E voltando um pouco a NASA. Bom, a NASA realmente precisa de verbas, portanto dar essas “sacudidas” midiáticas é vital pra eles. A NASA é uma das poucas “empresas” que financiam pesquisa de base nos estados unidos, geralmente por lá as pesquisas tem um propósito de retorno financeiro direto(diferentemente do Brasil onde grande maioria das pesquisas são de base). Pesquisas de base são o “sustentáculo” dos estudos nessas áreas mais “estranhas” como a astrobiologia, afinal, não tem como se dar retorno financeiro baseado em uma coisa que não se possui. Entretanto, elas são vitais pro avanço da ciência de um modo geral.

  15. Falar em vida extra-terrestre foi um absurdo inacreditável da NASA. A forma de vida era totalmente terrestre.

    Lembro que no primeiro artigo que li a respeito, o termo “ET” nem sequer era atribuído ao organismo. Tanto que quando eu comecei a ler sobre essa palhaçada da NASA, achei totalmente absurdo.

    Mas izzy, isso realmente é uma descoberta e tanto. Como você disse, já existem formas dede vida na terra que conseguiam sobreviver em ambientes com alta concentração de arsênico. Mas essa forma de vida é a única que consegue sintetizar e incorporar o arsênico à sua estrutura. Isso é totalmente inédito e contraria todas as convenções que tinhamos sobre a formação da vida.

    Isso abre um campo IMENSO para a Nasa realmente achar vida extra-terrestre (não que ela tenha achado). Uma vez que atualmente, os planetas sondados eram apenas aqueles baseados nas formas de vida como conhecemos.

    O lance do arsênico serve para quebrar essa convenção que existia. Ou seja, vários dos planetas sondados poderiam ter vida baseada em outros elementos, só que não foram sequer considerados graças a sua formação.

    Para a Nasa, é uma descoberta completamente importante para o trabalho dela. Infelizmente, é algo extremamente técnico que não interessa o grande público.

    Enquanto a nasa não aparecer com um ET de 2 braços, 2 pernas e um cabeção… o povo nunca vai entender pra quê tantos bilhões são queimados ali por ano.

  16. Porra, eu achei ridiculo isso. Sei dessa descoberta há mais ou menos 6 meses, graças ao seriado cientifico do Morgan Freeman, o Through the Wormhole.

    Nesse seriado, mostra a cientista, que diz que pesquisa em um lago e nesse lago ele encontrou condições inospitas e nessas condições encontrou esta tal bacteria que faz parte de uma “linha de evolução” completamente diferente da nossa, e ela vive SIM desta maneira, usaram de experimento somente pra afirmar o que eles esperavam.

    Essa descoberta é ducaralho, ou seja, não é impossivel acharmos seres alienigenas que sua derme seja feito de gelo, por exemplo. A vida não se desenvolve da maneira que nós achamos.

    Agora o jeito que a Nasa fez, algo tão antigo, sendo mostrado pro povão agora, meio estranho, acho que realmente é so pra conseguir financiamentos, afinal, a maior decepção politica, Barack Obama, cortou uma fatia gorda do orçamento dela.

  17. Falou a pura verdade, Kid… Realmente, concordo com cada palavra do seu texto, os caras são muito malas, pra tudo nessa vida tem algum interesse de background.

  18. Pessoalmente não percebo a confusão, “Astrobiologia é o estudo da origem, evolução, distribuição, e o futuro da vida no Universo. Este campo interdisciplinar inclui a busca por ambientes habitáveis no nosso Sistema Solar e por planetas habitáveis fora do Sistema Solar..”, logo quando se diz que se fez uma descoberta com impacto na busca de vida ET é dedutível que se descobriu alguma informação sobre os ambientes em que a vida é possível, e descobrir que é possível ter vida em um ambiente tão venenoso como arsénico é algo grande na astrobiologia.

    Ter impacto na busca de vida ET até encontrar vida ET é preciso muita especulação.

    Pergunto-me se estas a trollar os leitores e eu caí…

    PS. O planeta terra faz parte do universo.

  19. Sem falar que a NASA adora esse clichê: “tem uma pesquisa na NASA…”….

    Como se tudo que tivesse por lá fosse padrão de qualidade. Principalmente, pra galera que não tem conhecimento.

    É como vc comprar uma camisa simples, toda branca da Lacoste, de 200 R$ -- só vai servir pra divulgar a marca! E ter status. E aumentar o selo de “qualidade” da marca etc….

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