Mesmo sabendo que alguns se irritarão com essa declaração, você sabe tão bem quanto eu que não é mentira — nós brasileiros não temos muuuuuuitos motivos pra nos orgulhar da nossa bandeira.

Tirando ser o maior país da América Latina, como se fosse um moleque grandão com quem ninguém mexe no recreio, e o fato de que fomos geograficamente abençoados com a ausência de furacões ou terremotos,1 não sobra muito que nos faça dizer “rapaz, que SORTE de ter nascido no Brasil!”.

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Inglês e português são línguas bastante distintas, como qualquer falante nativo de uma que sofre tentando aprender a outra vai te garantir. Vivenciei os dois lados da moeda — aprender inglês falando português, e ensinar a língua lusófona a um gringo. Uma das grandes dificuldades é o fato de que as expressões idiomáticas de um não tem literalmente nada a ver com o outro. Nada revela tão crua a estranheza que é o modo estrangeiro de pensar do que analisar suas expressões idiomáticas literalmente, sem o contextual cultural que dá sentido a elas.

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Titubeei um pouco antes de escrever esse texto. Descobri já no meio do caminho que o tal Luccas Neto é irmão do Felipe Neto, um cara com quem eu troco ideia tem quase uns dez anos, e até já conheci pessoalmente. Não quero tretar ou esculachar a família do cara, ainda por cima por algo tão bobo quanto um aparente recalque internético por ver o cara gozando de muito mais sucesso que eu terei na vida — mas acredito que fique bastante claro que esse não é bem o tom do artigo. Pra parafrasear uma frase clássica da comunidade rapper americana, eu odeio o jogo, não o jogador.

O assunto é algo que eu já queria conversar com vocês há MUITO tempo; conhecer os vídeos do Luccas apenas catalizou o inevitável.

Felipe e/ou Luccas, caso venham a ler este texto — o que duvido, mas o disclaimer não custa nada –: eu não tenho realmente nada contra vocês, ou seus trabalhos, e sinceramente não acho que nenhum de vocês dois estejam fazendo nada de errado. Minha frustração é mais com o estado das coisas, do que com o que você faz.

Então, vamos lá.

Como vocês sabem, ao contrário de vários criadores de conteúdo na internet, eu tenho um emprego “de verdade”. Por uma pilha de fatores que seria muito maçante explicar em detalhes (mas que pode-se resumir como “meu conteúdo não rende dinheiro o bastante, e sinceramente duvido que jamais renderá”), eu sou obrigado a me manter no mercado de trabalho convencional. Também pudera — paranóico e ansioso extremo como eu sou, a ideia de depender exclusivamente de uma fonte de renda com flutuações como o YouTube provavelmente me faria perder sono todo dia.

Isso faz com que meu dia progrida da seguinte forma: acordo, checo emails/redes sociais, e vou para o computador trabalhar. Dependendo do dia, este “trabalhar” pode ser gravar um (ou mais) podcasts, pesquisar temas pra textos, escrever mais um capítulo do meu novo livro (um dia sai!), escrever roteiros pros meus canais — pra quem não sabe, eu tenho um canal em inglês –, gravar e editar vídeos, e por aí vai.

Terminando tudo isso, eu tenho que sair correndo desesperadamente pro meu trabalho “convencional”, onde passo as próximas 8-9 horas trabalhando (e com isso eu quero dizer “gerando pra alguém um valor maior do que gero pra mim mesmo”).

Talvez por ter um contato tão próximo com tantos broders que já abandonaram a chamada “corrida dos ratos” do trabalho convencional, por ter esse vislumbre de que há outro modo de viver, esse negócio de emprego tradicional me incomoda cada dia mais.

E eu nem odeio meu emprego, ou meus colegas de trabalho, nem nada — é simplesmente o escoamento de tempo, esse recurso tão llimitado e precioso, que me dá um desgosto impossível de mensurar. “Trabalhar” significa que um terço da minha vida será gasta fazendo algo que não é de fato como eu gostaria de gastar meu tempo.

Eu passo bastante tempo refletindo sobre, bem, meu tempo. Mais especificamente, sobre o investimento de tempo que algumas atividades requerem. É o motivo pelo qual você não vê mais tantos Que Diabo é Isso, por exemplo. Xeu explicar de uma forma mais detalhada.

O Que Diabo é Isso é de longe meu projeto mais ambicioso. Entre pesquisar o assunto, reunir o material audiovisual (que editores chamam de “assets” — todas as imagens, sons, músicas, etc), pedir autorização de uso das mesmas, escrever o roteiro, gravar a narração, editar o vídeo, criar um thumbnail, vão facilmente umas 15-20 horas de produção.

E por isso farei algo que nunca fiz antes: vou explicar por que certos vídeos me valem mais a pena, financeiramente falando.

A questão de views e aquisição de novos inscritos eu penso que já era transparente. Caso não seja, veja só.

Esse foi o Que Diabo é Isso mais recente. 41 mil visualizações.

Esse vídeo me rendeu… 20 novos inscritos.

Comparemos com um vídeo em que eu comento a confusão resultante da publicação de um livro de youtuber.

Em relação a aquisição de novos inscritos, esse vídeo aí (que demorou, da concepção à publicação, uns 30 minutos no máximo) rendeu…

Mais de 3 mil novos inscritos. Levando em consideração que meu canal cresce na faixa de 4 mil inscritos por mês, este único vídeo que demorou 30 minutos pra produzir chegou quase ao número de novos inscritos que todos os meus vídeos em um mês inteiro.

Agora vamos ao que realmente interessa: o retorno financeiro, especialmente contrastado com o esforço que cada vídeo custa.

Este é o rendimento típico de um Que Diabo é Isso, que geralmente mal passa das 100 mil visualizações.

Lembre-se: 15 horas de trabalho (na melhor das hipóteses, aliás — teve QDI que demorou uma semana inteira pra terminar) pra ganhar 42 dólares. Vários dias estressado, comendo/dormindo mal, negligenciando a família, chegando atrasado no trabalho, pra pagar… o equivalente a duas entradas no cinema.

No meu trabalho convencional, em contrapartida (onde estarei chegando atrasado vários dias consecutivos pra terminar o vídeo, danificando minha imagem como funcionário), eu ganho isso em pouco mais de uma hora.

Sinto-me num parque de diversões, sofrendo 40 minutos numa fila pra curtir 2 minutos de montanha-russa.

Vamos agora contrastar isso com um vídeo meu sobre uma “treta de internet” — um gênero pelo qual eu sou constantemente criticado. “Tá querendo virar um Treta News, Izzy?!?!” é uma acusação frequente quando faço um vídeo comentando a última rusga virtual desses personagens internéticos que adoramos odiar. Sabe aquele vídeo sobre o livro do Japa, que tantos acharam uma futilidade retardada indigna de um vídeo?

Money talks.

Diga-se de passagem, o meu segundo vídeo mais rentável de toda a minha “carreira” de youtuber foi aquele comentando o aftermath da treta com a Bel Pesce — aquele que seu amiguinho Érico Rocha derrubou com um strike de copyright predatório, só porque no finalzinho do vídeo eu comentava sobre uma aparição dela numa palestra anfitriada por ele.

Um vídeo como esses não requer 15 horas de produção. Dificilmente requer 15 minutos de produção — basta ver o vídeo/artigo de onde a confusão origina, ver opiniões a favor, ver as opiniões contrárias, e explicar o meu ponto de vista sobre a coisa. O retorno com esse tipo de vídeo é imenso, relativo ao esforço pra produzi-los, ao ponto de que eu já vejo isso como meu “nicho” — dar opiniões sobre confusões de internet.

Sem dúvida é o que vocês mais me pedem diariamente. Receber tweets falando “Izzy, fala sobre a treta do (…)” é basicamente como eu me informo sobre o mundo virtual ao meu redor.

E como isso rende mais do que um vídeo bem produzido, isso significa que o “livre mercado” do YouTube incentiva mais a banalidade, do que algo com substância.

***

É particularmente difícil se manter de YouTube com um público brasileiro, especialmente quando você mora fora do Brasil. No Brasil, um vlogger como eu vive o melhor de dois mundos — ganha em dólar, gasta em reais. 500 dólares, por exemplo, significariam 1500 reais. Considerando que boa parte dessa galera YouTuber que tem mais ou menos a mesma idade que eu ainda mora com os pais, são 1500 reais de “disposable income”. É dinheiro pra fazer o que quiser, enquanto o pouco que eu recebo com YouTube vira parcela do meu carro, por exemplo.

A equação fica ainda pior no que diz respeito a fechar negócios com marcas brasileiras, que querem me pagar em reais. Nesse caso, eu recebo em real pra gastar em dólar — literalmente a pior situação financeira que possa existir.

É por essas e outras que eu comecei um canal em inglês. Eu já meti na cabeça que a única coisa que eu sei fazer que pode ser usado pra pagar minhas contas (além da minha formação convencional) são esses vídeos aí que alguns de vocês gostam; tendo em vista que o CPM ($/mil visualizações) gringo é consideravelmente melhor que o brasileiro, a solução é migrar pra outro público.

Diga-se de passagem, essa é uma boa oportunidade de esclarecer um negócio — tecnicamente, meu canal COMEÇOU voltado pros gringos, só lá na frente é que veio a se tornar uma extensão das minhas atividades online em português. Olha um dos meus primeiros vlogs aí:

Resumindo tudo — meu trabalho na internet rende BEM pouco, ao ponto de que eu passo quase todos os momentos da minha vida trabalhando de uma forma ou de outra, e o avanço da idade/o cinismo resultante de uma vida inteira na corrida dos ratos/ver amigos que conseguiram se livrar disso me faz almejar por minha própria liberdade.

Talvez esses vídeos que eu faço aí sejam a chave pra isso, mas ainda não descobri como monetizar isso de forma que resulte em minha alforria.

E enquanto eu avaliava isso tudo, descobri acidentalmente o canal do Luccas Neto.

Eu passei dois dias deprimido por isso.

***

Este foi o vídeo através do qual descobri o trabalho do Luccas.

Num mundo cada vez mais falso de trailers mentirosos e youtube clickbait, os vídeos do Luccas Neto tem um irônico ar de legitimidade: eles entregam exatamente o que prometem. No título, “banheira de nutella”. No thumb, o cara todo lambuzado de nutella. O vídeo não deixa a desejar em nenhuma de suas promessas.

Interessante que a textura da Nutella permanece a mesma, mesmo nessa escala macro de uma banheira cheia de 80 quilos dessa merda. Imaginei por algum motivo que ficaria menos espessa, tipo leite, que parece um pouco mais espesso num copo, mas num barril fica mais parecido com água.

Eu, que tenho uma aversão irracional a ter algo melequento encostando na minha pele, fico imaginando quanto tempo embaixo do chuveiro o maluco precisou passar pra se sentir 100% limpo de novo.

Enquanto via o maluco se bezuntando de Nutella e rindo, eu olhava pro relógio e lembrava que era melhor fechar a aba e terminar meu próximo vídeo — porque se chegar atrasado no trabalho MAIS UMA VEZ por causa distrações com meu trabalho virtual, vai acabar dando treta com a chefia.

O fato de que o livre mercado youtubístico incentiva e recompensa isso mais do que algo como o Captain Disillusion é o melhor argumento contra o anarcocapitalismo que possa existir. Olha o trabalho absolutamente insano que o CD tem pra fazer um vídeo, em contraste.

Caralho, até EU tenho mais inscritos que o Captain Disillusion. Coitado mesmo.

O vídeo da banheira de Nutella rendeu ao Luccas mais de 2 milhões de views, um número que já não deve ser nada extraordinário pra ele. 2 milhões de views é maior do que a população da cidade onde eu moro.

Os outros vídeos do Luccas seguem mais ou menos esse padrão — o cara criando um nugget de frango gigante, ou raspando os recheios de trocentos biscoitos pra fazer uma MEGA bola de açúcar e corante que me deu diabetes só de ver no thumbnail. Ele não é um pioneiro no gênero, o que torna o chilique contra o conteúdo que ele produz ainda mais injusto — ele só tá capitalizando em cima do fenômeno.

Ele viu o que dava certo, e passou a “vender” o mesmo.

É muito tentador apenas desmerecer completamente o trabalho do cara — de fato, eu notei nas redes sociais que muitos de vocês fazem isso. Na realidade, o Luccas Neto tomou a decisão profissional correta:

Ele está atendendo ao menor denominador comum.

Tem gente que gosta de cinema. Tem gente que gosta de games. Tem gente que gosta de política.  Tem gente que gosta de culinária.

Mas no geral, TODO MUNDO curte um bom besteirol. É por isso que sinônimos pra pênis como ESTROVENGA produzem no mínimo uma risadinha; é por isso que peidos são inerentemente engraçados. Até bebês, com seus HDs biológicos zerados de qualquer contexto cultural, riem quando você faz uma careta.

O Luccas Neto apenas percebeu algo que eu já sabia subconscientemente, mas nunca capitalizei em cima de forma eficiente como ele fez: no que diz respeito ao YouTube, o que rende mesmo é agradar a criançada. Low effort, maximum return.

Capitalizar em cima do meu público é relativamente difícil, especialmente porque em geral a turma que me acompanha é macaco velho de internet, o tipo de gente que 1) é menos hiperativo na internet (consome menos, compartilha menos), e 2) costuma ter as manhas de esquivar de anúncios.

Essa pivetada ainda por cima tem o hábito de assistir o mesmo vídeo ad infinitum, como se completamente hipnotizadas, gerando números de visualizações completamente surreais.

Esse é o público certo pra quem quer trabalhar com internet, como vídeos de review de brinquedos deixam bem claro. E a estrela do canal do screenshot acima, um pirralho de 5 anos chamado Ryan, é hoje milionário.

E é por isso que descobrir o canal do Luccas Neto me deprimiu. Não é porque “hahah wow meu conteúdo é tão melhor que essa idiotice e não sou famoso como ele“, isso é babaquice. Aliás, atacar o cara pelo conteúdo voltado pra crianças seria tão bobo quanto um músico erutido criticar a falta de virtuosidade nos discos do Bozo.

Eu investi os últimos quase 10 anos da minha vida no público errado. Eu poderia hoje, se tivesse o insight que pessoas que o Luccas e outros tiveram, não ter mais que ir passar 8-9 horas trabalhando pra alguém e odiando minha própria existência por causa disso.

ESSE é o público certo de alguém que vê no youtube o potencial de uma ocupação alternativa ao enfadonho “trabalho convencional”.

De certa forma, eu mesmo já percebi que a “banalidade” rende um retorno maior do que algo com maiores valores de produção — tanto é que vídeos opinativos sobre uma treta qualquer da internet (produção bem mais enxuta e rápida) são mais frequentes no meu canal do que, digamos, um Que Diabo é Isso que ocupa um bom pedaço da minha vida pra um retorno irrisório.

A real é que embora ter um “hobby lucrativo” seja legal, eu já cansei desse status. Eu cansei de trabalhar 15 horas por dia. Eu cansei de gastar tanto do meu tempo aprimorando minha dicção, atuação e edição (assista um vídeo antigo meu e compare com os de hoje), ou comprando/aprendendo a usar novos equipamentos. O ideal seria poder dar tchau pros meus chefes e viver como meus amigos do YouTube — trabalhando lá suas 4 horas por dia, e curtindo o resto do tempo livre com a família e amigos.

Eu não queria ser um milionáro do YouTube, e falo isso com sinceridade. Se eu pudesse manter literalmente o MESMO estilo de vida que tenho hoje, mas sem ter que dirigir meia hora pra ir bater ponto pra alguém, eu consideraria que venci na vida.

Banalidade é o caminho. Talvez eu simplesmente não tenha ido longe o bastante nele ainda.

sc

Foi incrivelmente difícil achar uma foto pra ilustrar esse post. Embora os sovereign citizens já tenham se tornado uma espécie de meme na internet (“AM I BEING DETAINED?????”), não existe ainda uma fotinha quintessencial que os resume. Então vai a desse maluco aí. Já já explico-o.

Então. Há algum tempo estou ciente das presepadas dos chamados “sovereign citizens” (a quem tem dúvida: se pronuncia “Só-Vren”), ou de sua franquia canadense, os “freemen on the land”. De forma resumida, é uma espécie de variante mais extrema dos anarcocapitalistas: em vez de apenas argumentar no Facebook que imposto é roubo e que o governo do Estado não tem legitimidade sobre eles, os sóvren citizens (vou escrever só SC daqui pra frente, tá? Se eu precisar falar de Santa Catarina ao longo do texto eu te aviso) realmente tentam exercer essa crença no mundo real, e os resultados são exatamente tão hilariante quanto você está imaginando.

De certa forma, há até algo admirável na coragem (estupidez?) dos SC de realmente tentar fazer um live action role play das maluquices ancaps no mundo real. E como isso me provém uma fonte ilimitada de diversão, eu não sei se devo os criticar per se.

Funciona basicamente assim: os SC argumentam, baseando-se em teorias juridicamente inválidas, que a leis não se aplicam a eles. Mas por que isso?

A lógica deles é que um país é essencialmente uma cooporação (obviamente não é); portanto, todas as leis e estatutos nada mais são que um contrato com essa coorporação. E se você não assinou tal contrato, todo o sistema jurídico nacional é como um EULA da instalação do Corel Draw — você pode pular sem problema algum, porque é irrelevante pra você.

Como eles pensam que o Código Penal/Constituição funcionam.

Como eles pensam que o Código Penal/Constituição funcionam.

Por mais inacreditável que pareça, esse é o argumento dos caras, destilado aos seus componentes mais fundamentais. Eu não concordei em ser cidadão brasileiro, visto que nasci no Brasil contra minha vontade. Isso significa que eu não assinei contrato com o instituição judicial brasileira, logo, não estou sujeito às suas leis, que neste caso eu considero equivalentes às regras de um clube ou coisa similar.

E, como você provavelmente suspeitava, essa turma é daqueles que insiste ferozmente que imposto é roubo. A maluquice onde os SC chegam é a conclusão inevitável dessa crença teoricamente correta, mas pragmaticamente insana de que o Estado não tem legitimdade alguma sobre um cidadão.

Aliás, tanto os SC quanto os ancaps tem como característica recorrente usar argumentos que me lembram aqueles truques de álgebra que “provam” que 1=2. Lembram deles?

prova

Discutir com ancaps, ouvir os “raciocínios” dos SC, ler artigos do Mises, é basicamente isso — um argumento aparentemente coerente, teoricamente bem embasado, mas que chega a uma conclusão que absolutamente não condiz com a realidade e que sempre omite uma divisão por zero escondida em algum lugar.

Se você não entende bem o alicerce argumentativo dos caras (se é que algo tão infundamentado pode ser chamado de um “alicerce”), os vídeos parecem insanidade plena. Não que não seja, mas uma vez que você compreende as terminologias que empregam e a “lógica” a que eles aderem, você solta um “ahhhhhh, então é isso que ele quer dizer…“.

Agora, por que eles esperam que juristas aceitem (ou sequer entendam) as suas insanidades continuará impossível de compreender.

Então, os SC são obcecados com distinções semânticas irrelevantes que eles pensam que são um GAME SHARK JURÍDICO. Um bom exemplo disso é a suposta separação entre “pessoa” versus “indivíduo”. Indivíduo, eles argumentam, são eles próprios — o corpo físico que você habita. Pessoa, por outro lado, é a seu alter ego “legal”.

Em outras palavras, a sua “pessoa” (aqui definida como uma entidade incorpórea e imaterial, com um nome coincidentemente igual ao seu) passa a existir uma vez que o Estado toma conhecimento de sua existência e então assina um contrato em seu nome, sem seu consentimento.

Através dessa “lógica”, eles então argumentam que sua “pessoa” (isso é, o “João Silva” sendo citado pelo Estado num mandado de prisão ou coisa assim) é na verdade… a sua certidão de nascimento.

Assim sendo, o Izzy Nobre que recebeu uma multa de 120 dólares por dirigir acima da velocidade não é o Izzy Nobre que você vê nos vídeos ou xinga no tuiter; é aquele papel que meus pais assinaram num cartório em Fortaleza em 1984.

multa

Achou que era piadinha né

Aliás, os caras se apegam tanto a essas maluquices triviais que alguns chegam a argumentar que o uso de letras maiúsculas em documentos oficiais “provam” que aquilo não se refere a eles. Trocando em miúdos: Eu sou Israel Nobre. Já esse ISRAEL NOBRE na multa não sou eu; é, obviamente, a minha “pessoa”. Israel Nobre é um indivíduo que não assinou nenhum contrato com a coorporação “Canadá”.

Conclusão: não tenho nenhuma obrigação legal.

(No meu caso o exemplo não é o melhor, já que eu emigrei pra cá, então pode-se dizer que assinei um “contrato” sim — minha papelada de cidadania. Mas SCs nascidos aqui argumentam exatamente da forma descrita no parágrafo acima)

Pra você ter uma idéia da completa insanidade: uma das coisas que os SC argumentam é que se  a bandeira no tribunal tem borda dourada, isso torna aquele tribunal um tribunal marítimo; como tal, ele tem jurisdição apenas sobre pessoas jurídicas, ou a “pessoa” de um SC, e não ao “indivíduo” do SC, e portanto o processo é inerentemente inapropriado.

Aliás, por que lei marítima? Porque o sufixo “-ship” (equivalente ao nosso “-dade”) permeia o vocabulário legal. Ownership, citizenship, censorship, guardianship, etc. Isso seria uma prova de que o contexto é de lei marítima, e que esta não julga “pessoas”.

Sério mesmo.

Outra viagem semântica é que eles se opõem a dizer que entendem ordens policiais ou leis. Quando um juiz ou policial pergunta se eles entenderam a ordem ou lei citada (“do you understand blá blá blá?)”, eles alegam que o understand (“compreender”) é na verdade “under stand”, ou “stand under”, no sentido de “concordo e aceito os termos”. Logo, eles estariam perguntando se você CONCORDA se sujeitar às ordens deles; basta dizer “não” que tá tudo ok.

Entendeu mais ou menos como é a a maluquice? Agora o vídeo abaixo fica mais claro:

Aos 3 minutos, esse David Hall (preso por dirigir bêbado e sem carteira de motorista) explica que ele não é o DAVID HALL sendo procurado pela justiça. Um pouco mais tarde, ele elabora que ele não é a “pessoa” DAVID HALL, ele é o “indivíduo” David Hall. Ao que o juiz pergunta onde está David Hall, o réu então diz que DAVID HALL só existe no papel; é uma coorporação.

Vendo esse vídeo sem conhecer as minúcias da fé dos caras — porque achar que essas maluquices seriam reconhecidas em tribunal tem que ser fé –, você poderia concluir que o cara é clinicamente insano. O que acontece é que ele quer usar juridiquês fictício pra enrolar um juiz como se fosse um jedi mind trick. Então, pensando bem, de repente é maluquice literal mesmo.

Aliás, repare que no começo o Hall pergunta ao juiz se o tribunal “reconhece seu juramento de exercício da profissão” ou algo assim, que o juiz nem entende imediatamente. Com isso, ele quis saber basicamente se o tribunal reconhece ele… como juiz.

Esse fetiche na literalidade de alguns termos (e mais especificamente, as definições alternativas que eles dão pra eles) faz esses caras me lembrarem os jogadores de RPG que tentam discutir regras com o mestre. Nesse vídeo, e em vários outros, os SC refutam a acusação de que estavam “dirigindo”, insistem que estavam “viajando”, o que seria um direito constitucional (ir e vir). Logo, não precisam de carteira de motorista.

Este vídeo clássico mostra um mindset semelhante. Quando o cara falou que não tem nome nem sobrenome, ele não estava sendo apenas um babaca gratuito — ele de fato pensa que não tem nome nem sobrenome, porque estes são apenas artificialidades inventadas pelo Estado num papel chamado “certidão de nascimento”. Pra recusar dar o nome ao segurança, o cara diz que ele não quer “create joinder with you“, que seria algo como “não estou assinando nenhum contrato que reconheça você como uma figura de autoridade”. Eles realmente acham que alguém vai reconhecer essa metodologia no mundo real, o que é incompreensível.

No decorrer do vídeo o sujeito acabou peitou um dos seguranças do tribunal, tomou um choque bonito (cuja filmagem ele mesmo disponibilizou na internet, achando tratar-se de uma vitória), e voltou ao mesmo tribunal pra ser julgado pela presepada.

Repare a altivez do moleque, e a impressionante (mas ao mesmo tempo previsível) falta de moral da mãe do pirralho. Tanto a postura do moleque quando o jeitão de “ah, esse meu filho é foda né…” da mulher me faz pensar que esse desgraçado passou uma vida inteira sem qualquer disciplina, e agora quer estender a carta branca pra fazer o que dá na telha pro universo fora da sua casa.

Se você quer algumas risadas adicionais, aqui tá uma compilação de SCs se fodendo lindamente ao pensar que suas estratagemas pseudo-legais tem qualquer efeito no mundo real:

AM I BEING DETAINED?!??!?!?!?!?!

Se você quer imaginar como seria uma sociedade anarcocapitalista, basta imaginar um país INTEIRO repleto dessa galera aí.

Eu já falei aqui que é impossível agradar os idiotas úteis que compoem a força dos movimentos de justiça social? Talvez não, porque é tão auto-evidente que apontar este detalhe torna-se até redundante. Mas enfim, tenha isso em mente, porque será relevante na história.

musk

Pra quem não sabe, o sujeito aí é o Elon Musk. O cara é um empresário sul-africano que na juventude imigrou (graças a conexões familiares) pro Canadá, que ele então usou como um atalho pros EUA — dando mais legitimidade à lenda de que somos o quintal americano.

Musk tornou-se bilionário (e, eu acrescentaria, o homem mais interessante do planeta no momento) perseguindo um sonho maluco de empreendedorismo e inovação. E não o empreendedorismo e inovação a la Bel Pesce, que está tão em alta no Brasil ultimamente pelo jeito. Em vez de platitudes vazias sobre “acreditar em seus sonhos!!!”, curtos estágios intencionalmente caracterizados na mídia como posições de liderança e “aulas” de como ser empreendedor, Musk vende soluções. Durante a explosão das pontocoms nos anos 90, ele bolou o que eventualmente tornaria-se o PayPal; mais tarde, ele investiria boa parte dessa grana na então semi-inexistente indústria de veículos elétricos e na expansão espacial comercial.

E é com essas duas empreitadas que ele está ocupado atualmente — acabar com nossa dependência de combustíveis fósseis, o que está destruindo nosso mundo tanto ecologicamente quanto geopoliticamente, e sair fora dessa porra de planeta desgraçado. Aparentemente isso não é o suficiente para os sacerdotes do culto da justiça social, que insinuaram que o sujeito é um bosta porque… não segue mulheres o bastante no Twitter.

No artigo do Motherboard, o argumento é que Elon Musk não segue mulheres porque é machista ou coisa equivalente. Eles não dizem isso diretamente, talvez porque o non-sequitur da acusação fique claro se alguém a verbaliza de forma explícita. Só que a insinuação está lá e é mais pesada do que o Interplanetary Transport System, o maior foguete da história no qual o cara tá apostando todo o futuro da empresa simplesmente porque é a primeira pessoa na história da raça humana a levar a sério a idéia de explorar outros planetas e vocês ainda estão enchendo o saco dele com babaquice.

A autora do artigo até aponta que o cara segue apenas 54 contas, a grande maioria delas de sites de notícias. Em vez de concluir que o Musk não está lá tão interessado no bate-boca que nos atrai ao Twitter, e que por isso sua lista de seguidos não pode ser usada como um medidor apropriado de suas inclinações e preferências sociais, a implicação é de que o cara é um machista do caralho que silencia mulheres.

Provando, mais uma vez, que o MO da justiça social de internet é achar qualquer coisa que possa ser tangencialmente caracterizada como malícia, e insistir ferrenhamente pros outros “fieis” de que não há outra alternativa. Se o Musk, que quase não segue NINGUÉM no Twitter, não está seguindo mulher, SÓ PODE SER MACHISMO.

No texto, a filha da puta fala casualmente que “sabemos que pelo menos uma mulher trabalha pro Musk, a Gwynne Shotwell”. Que é apenas a PRESIDENTE da porra da SpaceX — uma empresa que está, preciso relembrar o leitor, TRAÇANDO NESTE EXATO MOMENTO PLANOS CONCRETOS PARA A EXPLORAÇÃO E COLONIZAÇÃO DE MARTE. E uma mulher tá apitando essa porra toda.

“Pelo menos uma mulher trabalha pro Musk”, ah, vai se foder, na moral.

É frequente nestes círculos a cobrança de que empresas de tecnologia dêem mais oportunidades para mulheres, e ter uma mulher no comando da SpaceX é incrivelmente notável. Mas como este detalhe é contrário à narrativa de que o Musk é algum tipo de piroco opressor, o papel de liderança da moça é citado brevemente, como quem o faz por obrigação. E as DÚZIAS de outras mulheres que trabalham na SpaceX são completamente apagadas, porque aparentemente, só sabemos de uma que trabalha lá.

Imagine o quão mais produtivo pra alavancar sua causa teria sido se a Motherboard fizesse um artigo sobre a trajetória da Shotwell na SpaceX. Seria excelente, só que como isso vai contra a narrativa de que é impossível uma mulher ser bem sucedida no ramo tecnológico porque “patriarcado”, dá pra entender por que a colunista achou mais interessante manufaturar uma controvérsia literalmente do nada ao mesmo tempo que menciona a mulher só de passagem e finge que não há outras na empresa.

A autora insistindo que o Musk não seguir mulheres “é um problema” é de um asco extraordinário. Não é de hoje que noto que no centro da ideologia de justiça social mora um autoritarismo repugnante; não consigo pensar em algo mais mesquinho e controlador do que ditar quem alguém deve seguir. Seria hilário se em reposta o Musk seguisse a Christina Hoff Sommers, ou a Shoeonhead, ou a Lauren Southern.

A propósito: não há como vencer com SJWs. Simplesmente não há. Tal qual a cena clássica de Goodfellas, uma vez que os paladinos sociais decidiram que você é um alvo, não importa o que você fala ou faça — eles vão, com a facilidade característica de alguém que pratica isso religiosamente, torcer qualquer coisa que você diga como algo ofensivo.

Por exemplo: o Musk tentou explicar que prefere usar o Instagram como rede social, e o Twitter pra consumir notícias. Lá, ele segue um número igual de homens e mulheres (tem até uma brasileira). Ainda assim, repare que é constante sua seletividade nas redes sociais: ele só segue 12 pessoas lá.

A resposta da autora? Insinuar (novamente, eles nunca acusam diretamente — talvez porque uma acusação explícita requer embasamento?) que ele faz isso só pra espreitar as fotos das minas. Este aqui sugeriu que uma mulher no Instagram não tem nada a oferecer além de sua imagem (o que me soa como algo INACREDITAVELMENTE sexista, vá entender esse povo).

O cara então resolve seguir uma moça, a editora da revista americana GQ. A reação dos SJW, obviamente, é zoa-lo por isso E sugerir que ela bloqueie o cara de pirraça. Lembra que eu falei láááá no começo que não adianta tentar se curvar às exigências?

O Motherboard fazer o Musk parar (mesmo que só por dez segundos) o seu trabalho de expansão planetária humana pra responder essa imbecilidade é basicamente um crime contra a humanidade.

nao jogar

Não podemos exatamente alegar surpresa, né?

Como toda outra onda popular, o sucesso de Pokemon Go resultou em uma penca de postagens mimimisticamente reacionárias ao sucesso do jogo. A propósito, podíamos despir o termo “reacionário” desse tom obrigatoriamente político que a palavra adquiriu nos últimos anos, por obséquio? “Reacionário” não é apenas quem vota no Aécio ou pede a saída da Dilma; reacionário é simplesmente qualquer pessoa que se opõe de forma bem enérgica a algo que geralmente representa uma mudança na ordem social das coisas.

Eu queria poder usar o termo sem ter que sempre dar esse disclaimer chato. Ajudem aí, por favor.

Então. Após o sucesso de Pokemon Go, surgiu em inúmeras pessoas o desejo irresistível de ser o contrariador diferentão hipster que só gosta de coisas rebuscadas (mas que por algum motivo ainda frequentam assiduamente justamente a porra do Facebook).

pika

Antes de Pokemon Go, ninguém andava por aí olhando pros celulares

Eu teria uma certa dificuldade em entender por que tanta gente criou uma antipatia gratuita contra o jogo, se eu já não estivesse acostumado com esse hábito que as pessoas tem de desdenhar as coisas à toa. Só que ainda assim, me parece um gasto de energia totalmente incompatível com a coisa da qual estão reclamando.

Se pusermos Pokemon Go na ponta do lápis, perceberemos o seguinte. É nada senão um joguinho gratuito que:

  • Está tornando as pessoas mais ativas, e sem qualquer gasto monetário ou as usuais promessas ilusórias da indústria fitness. É, possivelmente, o mais eficiente incentivo pras pessoas saírem por aí se exercitando. Vagabundo não levanta do sofá pra ficar menos gordo e quiçá pegar aquela amiguinha da faculdade, mas pra pegar um Bulbassauro maluco vai correndo até a cidade vizinha se for preciso;
  • Está ajudando crianças com deficiências psicológicas a se socializarem com suas famílias, como foi o caso aqui;
  • Está fazendo pessoas explorarem e apreciarem mais as suas próprias cidades, irem a locais que normalmente não iriam, e por consequência acabar movimentando a economia local;
  • Falando em economia, Pokemon Go está despertando um inesperado sentimento empreendedor. Estão pipocando por todo canto nano-empresários que servem à comunidade de jogadores, provendo amenidades, transporte, recarga de celular, entre outros. Considerando que somos de um país onde ser funcionário público concursado é um objetivo de vida nacional, eu considero esse surto de empreendedorismo muito bem vindo.

O joguinho que você acha “idiota” tá colocando comida na mesa de alguns

  • Está unindo pessoas de gerações diferentes num hobby em comum. Nessa atualidade hiperpolitizada que nos estratifica até dentro da própria família (quem aí não conhece um parente que se desentendeu com outro por causa de uma ideologia ou inclinação partidária?), é um pouco confortante até ver que existem algumas coisas que todos podemos apreciar juntos, sem precisar transformar o tempo todo em uma disputa política.
  • Está trazendo alívio a pessoas com saúde limitada, como pacientes de câncer em hospitais infantis. Debilitados e às vezes com poucas esperanças no horizonte, a pivetada se sente mais incluída e se distrai dessa desgraça inenarrável que é o câncer infantil brincando da mesma coisa que seus amigos saudáveis também estão — um luxo que eles raramente tem. E, novamente, sem custo adicional pra uma família que já está à beira de um colapso nervoso.

A rede pública de saúde da minha província espalhou esse cartaz em todos os hospitais aqui

Eu não consigo lembrar a última vez que um joguinho grátis de celular — algo totalmente inconsequente pra sua vida caso você não esteja interessado em participar, parece importante lembrar — teve tantos efeitos colaterais benéficos. Sim, existem histórias de retardado que bate o carro porque estava tentando pegar um Charmander e coisa assim, mas retardado dirigindo de forma imprudente não foi uma invenção de Pokemon Go.

Particularmente, eu não  gostei de Pokemon Go. Quase nada do que me atrai aos jogos da série está nessa versão pra celular; eu acho genial o incentivo de sair andando por aí, mas o processo de captura dos bicho é basicamente um joguinho de ficar passando o dedo na tela do celular.

E me sinto mal por isso. Vejo meus amigos curtindo pra caralho, comparando as capturas, planejando caminhadas pela cidade, apreciando um interesse em comum… e eu de fora.

Não consigo entender a mentalidade de se encher de prazer auto-congratulatório por ser excluído de algo. Não é possível que pagar de hipster do contra no Facebook seja tão bacana assim.

Oi. Lembram de mim? Perdão pela ausência. Me esforçarei para que isso não aconteça novamente.

ENTÃO NÉ, Pokemon Go. A Nintendo finalmente falou “ahhh caralho vocês querem um Pokemon pra celular? Taí então, porra” e no processo alterou fundamentalmente a maneira como a sociedade ocidental funciona. Eu nem vou gastar muito tempo falando aqui sobre o número de bizarrices que o joguinho (que mal conta como um jogo, diga-se de passagem — eu considero mais um gastador de bateria/manchador de tela onde animações de pokemons tridimensionais aparecem às vezes) proporcionou. O que importa no momento é a bizarrice relacionada a Pokemon Go que eu protagonizei.

Pois bem. Vi passando na minha timeline um vídeo que você certamente deve ter visto por aí: uma turba ensandecida no Central Park atrás de um Vaporeon, que de acordo com meus informantes que são especialistas em Poke Mongo, sequer é um bicho raro então o fato de que pessoas estavam abandonando seus veículos no meio da rua pra não perder a oportunidade de ter uma animação deles no seu celular é meio inexplicável.

O vídeo havia sido uploadeado por uma conta chamada “AcessoGeek”. Fiz o que faço sempre que vejo algo interessante: copiei a URL e compartilhei no meu Twitter gringo, com um comentário em inglês. E deu nisso:

izzyn

(Alguns perguntaram por que eu não apenas dei RT do AcessoGeek lá no @MrNobre. Por dois motivos — um, porque eu não dou RT de conteúdo em português lá. E dois, porque eu não tinha a menor idéia de que alguém pensaria que eu filmei o vídeo)

Ao todo, deu mais de 40 mil RTs. Eu não tenho tantos seguidores assim no meu Twitter gringo, mas sou seguido por algumas personalidades do mundo geek americano — o Razorfist (um ácido e eloquente comentarista de jogos/filmes/notícias), o Barnacules Nerdgasm (um nerd envolvido com a comunidade de impressão 3D, jogos e gadgets em geral), a Tara Babcock (uma modelo gostosíssima, gente boa, e envolvida também com tudo relacionado a game, anime, essas coisas), o Mundant Matt (outro comentarista de cultura popular e notícias), o Ed the Sock (um fantoche criado por um apresentador/comediante canadense), o Jon Paula (um dos primeiros youtubers de destaque, presente no site desde 2007) entre outros.

Eu suponho que algum desses caras, que tem muito mais seguidores que eu, deu o RT “paciente zero”. Alguma outra celebridade que os segue deu também, e de repente atores de Hollywood, cantores, desenvolvedores de games e outras pessoas de renome estavam retuitando a parada.

Eu estava trabalhando quando isso aconteceu. Meu celular começou a vibrar com tanta frequência que eu pensei que alguém tinha vazado meu número na internet ou algo assim. Tive que desligar todas as notificações da minha conta em inglês.

E aí os veículos de notícia começaram a reportar a história. Se você jogar IZZY NOBRE VAPOREON no Google, verá inúmeras publicações mencionando meu tweet, como o Telegraph, o Daily Mail, o Mirror, o CNET, entre muitos outros.

Achievement unlocked: ser citado como podcaster e escritor pela mídia gringa! Pena que foi por algo besta: postar um vídeo qualquer que achei na internet

Uma coisa curiosa é que muitos acharam que eu tinha sido o autor do vídeo, embora nunca tenha sido minha intenção. Aparentemente, copiar a URL “pic.twitter” de um vídeo postado no Twitter (que é o método pra fazer o vídeo ser “embutido” na timeline pros seus seguidores) leva muitos a acharem que você fez o upload do vídeo. A única indicação que o vídeo não havia sido uploadeado por mim era o avatar do AcessoGeek embaixo do tweet, que aparentemente inúmeros veículos de jornalismo não notaram.

Mais curioso ainda é o fato de que os únicos sites que vieram a mim no Twitter perguntar se o vídeo era de minha autoria não eram os que vem à mente quando você pensa em “responsabilidade jornalística”. Vários sites naqueles moldes de clickbait besta estilo Buzzfeed vieram verificar a procedência do vídeo, enquanto jornais supostamente confiáveis apenas jogaram lá “…o vídeo, filmado pelo Izzy Nobre…”. Achei isso curioso.

Mas não posso culpar jornais por não entender como o Twitter funciona. Aparentemente, nem o Twitter entende.

Alguns dias depois do fuzuê de ser retuitado quarenta mil vezes, percebi que meu tweet havia sido removido. Olha o que aparece agora:

Eu fiquei surpreso. Por que o Twitter deletaria meu tweet…? Linkar um vídeo agora pode configurar como infração de copyright?! Corri pra ver o que tinha acontecido com o tweet do cara que realmente ripou o vídeo e postou no Twitter:

Fiquei sem entender. Por algum motivo, o cara que realmente uploadeou o vídeo — e, querendo ou não, infringiu o copyright de terceiros — teve apenas o vídeo bloqueado. Já eu fui penalizado com a remoção do tweet inteiro. Pra contextualizar, é como se alguém roubasse um vídeo da Kéfera, digamos, reuploadeasse no Twitter, e o Twitter punisse mais severamente quem compartilhou o link do que quem de fato “roubou” o conteúdo.

A única explicação pra essa inconsistência é que o Twitter, ao receber a reclamação, também pensou que eu tinha feito upload do vídeo. Não entendendo a própria plataforma, me castigou com a remoção da mensagem inteira.

O pior é que MUITOS realmente acharam que eu tinha feito upload da parada, o que sem dúvida seria algo questionável pra um criador de contéudo como eu. Pra tentar deixar evidente que eu apenas linkei o vídeo, tentei chamar atenção à diferença entre a sintaxe dos dois tweets. O do AcessoGeek é:

https://twitter.com/AcessoGEEK/status/754143454310109184/video/1

O meu é:

https://twitter.com/mrnobre/status/754144048529625088

O /video/ presente na URL deixa notável que trata-se de um tweet carregando mídia uploadeada no serviço de microblogging. O meu tweet (preservado aqui através do Wayback Machine, pra que ninguém possa me acusar de algum tipo de falcatrua) é apenas um tweet de texto, ou seja — obviamente eu não fiz upload de nada.

Eu nem culpo o dono do vídeo por derrubar meu tweet. Sem dúvida ele achou que eu havia simplesmente tomado posse do material dele, e qualquer um ficaria puto nessa situação.

Mas fica uma lição curiosa pro futuro — para o Twitter, por acidente ou deliberadamente, compartilhar um link de um vídeo pode configurar infração de copyright.

Senta que lá vem (uma longa) história.

A versão resumida pra você que não tem tempo é que não, aquele site racista/misógino que você viu no Facebook ou sei lá onde não é escrito por mim. Não faria muito sentido escrever um site paralelo com meu nome e foto, afinal de contas — se eu tivesse que falar algo usando meu próprio nome e imagem, eu falaria aqui — um site que existe há mais de dez anos, que é inegavelmente meu, ou no meu Twitter (que é verificado, aliás).

Também não faria sentido eu estar escrevendo esse site paralelo COM MEU NOME E FOTO, e estar desmentindo autoria do mesmo nos meus canais oficiais.

Se você tem um pouco mais de tempo pra entender o desenrolar do negócio, aqui vamos nós.

Então né. Fui avisado há alguns meses que um maluco (que já nutre uma paixão/ódio por mim há anos) planejava criar um site cheio de textos ofensivos e atribuir a mim. “Colocar um BO neles”, acredito que é a expressão que a turminha usa.

A idéia começou aqui. Clique nas imagens pra expandir, e reze pra que seja lá que maluquice aflija estas pessoas não se transmita por arquivos .JPG:

4

A propósito, eles configuraram o fórum lá deles com a data de 2009 numa tentativa pífia de… não entendi ao certo. Invalidar os screenshots…? Enfim.

Uma vez que eu fui eleito o alvo mais proveitoso pra essa estripulia — diga o que quiser dos malucos, mas ao menos são democráticos…? –, começaram a elaborar melhor a idéia. Alguns especialistas em photoshop ajudaram com algumas montagens como a que você vê abaixo:

1

Os administradores do site configuraram o negócio com datas de 2009, vá entender por que.

Essa imagem do Mein Kempf na minha mão, diga-se de passagem, vem do thumbnail desse vídeo:

Porra, que thumbnail mais escroto! O youtube naquela época era outro mundo. Ninguém se preocupava com thumbnails. Ou vai que se preocupavam, eu que era muito preguiçoso mesmo?

Então. Nesse protótipo malacabdo de 4chan aí deles, estes cebolinhas virtuais passaram vários dias masturbando-se mutualmente com com idéia deste plano infalível contra mim, mas a ideia acabou como a vida desse tipo de indivíduo: não foi a lugar nenhum. Ontem, no entanto, a molecada se reenvigorou com a ideia e puseram o site no ar.

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O plano é lotar esse site com textos ofensivos, e então criar perfis fakes no Facebook pra me “denunciar” pra comunidades feministas. O que eles começaram a fazer hoje:

CkRVJhlUgAAJRgC

É um plano semelhante ao que puseram em ação contra Lola Aronovich, uma blogueira bem conhecida no meio feminista a quem eles odeiam tanto ou mais do que eu. A Lola documentou muito detalhadamente a palhaçada lá no blog dela, aliás.

INCRIVELMENTE, este plano retardado de incriminar alguém conhecido com um site obviamente exagerado (e ainda por cima sendo tudo planejado num site público) fracassou novamente, o que não exatamente surpreende seus criadores porque eles estão bem familiarizados com fracasso:

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Na imagem acima, eles pareciam inicialmente desesperançosos que o negócio colaria. Em seguida, passaram a abertamente hostilizar o pai da ideia, que virou apenas mais uma linha em seu longo currículo de fracassos.

burro

Coitado, mano. Quando os próprios desajustados com os quais você confraterniza te zoam por ser um perdedor completo, a tristeza deve bater lá no âmago da alma.

Aliás, quem seria o idealizador da parada? Conheça Marcelo Valle Silveira Mello, um fracasso humano:

https://www.youtube.com/watch?v=0QV8efD7rcg&ab_channel=NAZIPARDO

O sujeito é infame na internet há alguns anos, forçando loucamente essa batalha-de-um-retardado-só contra negros, nordestinos, mulheres, e qualquer outro ser que ele julgue inferior a ele mesmo (e sendo preso e/ou avacalhado pelos próprios amiguinhos). É como um Don Quixote de la Mancha (se tivesse sido acidentalmente derrubado de cabeça pelo médico durante seu nascimento), constantemente cercado de moinhos que ele autisticamente tenta combater com esses sites falsos.

Voltando ao seu plano mirabolante de vilão de filme silencioso que amarra mocinha no trilho do trem e afina o bigode entre os dedos soltando uma risada teatral (no caso do Marcello, ele afinaria a monocelha, sei lá — sequer tem testosterona o suficiente pra pelos faciais), lá no chan de seus não-tão amigos, ele está sendo continuamente zoado por sua tentativa falha de me atacar:

gado

“Gado”, no caso, seriam as feministas a quem eles tentam enganar com o plano. O “idoso pai de família” que perdeu emprego seria nosso velho conhecido Albertinho Gázio, que meras HORAS após fazer um vídeo direcionado a mim se gabando de ter um excelente emprego, foi hilariamente demitido do mesmo:

https://www.youtube.com/watch?v=la3USK7IyQI&ab_channel=AlbertinhoGazio

(A propósito, me consta aqui via informantes lá da cidade dele que não é só o emprego que ele vai perder essa semana, mas não quero estragar a surpresa. Deixarei que ele mesmo nos informe a próxima novidade em mais um desses vídeos ridículos dele. Mesmo perdendo um emprego algumas horas após falar sobre ele na internet, o Albertinho tem a mentalidade de uma criança inconsequente e jamais aprenderá a ficar calado)

Pra ser totalmente sincero: quando vi esse vídeo pela primeira vez, eu tive uma pena do cara. No fundo é apenas um coitado sem instrução alguma que encontra alguma realização sendo marginalmente “famoso” no YouTube. Aí eu lembrei que o sujeito falou da minha mãe, pai e até mesmo da minha esposa e passou uns 50% ou 60% da pena que eu estava sentindo.

E não, eu não fui o responsável pela demissão dele. Nem em casa eu estava quando a parada rolou, e eu sequer sabia desse outro emprego dele; mas eu fui informado por email de quem fez o negócio. Existe toda uma pequena multidão de brasileiros lá de Maryland que estão fazendo de TUDO pra foder o cara porque ele deixou alguns “clientes” dos seus tempos de coiote na merda; o próprio já falou nas entrelinhas de seus vídeos que tem muito “brasileiro safado” lá que o odeia. Por que será, Albertinho?

Parece-me que fazer um vídeo me chamando de “cearense cabeça chata” foi a gota pra que a maré virasse contra o sujeito; nos comentários do vídeo (que ele então desativou), vários antigos fãs se mostravam decepcionados com o cara, dizendo que são também nordestinos e que não esperava que ele apelasse pra termos xenofóbicos.

Como em toda treta em que me meto, desafetos vem sempre correndo dar munição, e frequentemente aproveitam o embalo pra se vingar de algum antigo vacilo do sujeito.

Enquanto isso, o que estão falando lá na máquina de destruir reputações zoar o Marcello?

zoado

burroes

Não foi dessa vez. Os coleguinhas que não alopraram o Marcello por este fracasso retumbante o consolam dizendo que talvez um site em inglês rendesse mais, e mal posso esperar pra ler essas baboseiras de channer desajustado escritas em inglês macarrônico. Eles pensam que eu me amedrontarei com isso “por que não sou conhecido entre Norte Americanos”, então dessa vez vai dar certo!!!!

CdV6tWA

“Meu inglês é bom”

“Confunde ROLE (papel) com ROLL (rolar)”

Escolha um, colega channer poliglota.

A ideia, no caso, é fazer o site em inglês pra que viralize, e alguma feminista canadense descubra onde eu trabalho, pra que eu então perca meu emprego. Quando apresentei a parada pra minha representante do sindicato hoje, ela literalmente riu — regras seríssimas de confidencialidade impedem legalmente a empresa pra qual eu trabalho de confirmar a terceiros se eu trabalho lá, não importa o que. Nem com ordem judicial eles podem confirmar se alguém trabalha lá ou não. É um nível de sigilo incrível, me sinto trabalhando na Batcaverna.

Pra você ter uma noção, eu tenho que fazer um pedido formal, por carta escrita (não pode ser por email), pedindo que a empresa confirme pra terceiros que eu trabalho lá; se eu tiver que aplicar pra uma vaga em um outro local por exemplo, e esquecer de fazer isso, a empresa não vai me dar uma referência quando ligarem pra perguntar sobre mim. AINDA que o plano fracassado do Marcello rendesse alguma viralização entre Norte Americanos, ao contatar meu empregador eles diriam apenas “me desculpe, não temos a liberdade pra discutir se esta pessoa trabalha aqui ou não” e pronto.

Essa turma não entende como empregos de verdade (leia-se: com real segurança trabalhística) porque nas ocasiões em que essas turbas de internet conseguiram demitir alguém, em todos os casos era algum tipo de trabalhador semi-autônomo com conexões tênues ao empregador, alguém que eles possam se livrar facilmente. Eles pensam que todo mundo tem ESSE nível de relacionamento com seu empregador — alguém reclama por algo que a pessoa (supostamente) falou na internet, e o cara é demitido no ato. Se soubesse o quão realmente difícil é demitir alguém protegido por um sindicato…

Mas vai fundíssimo com o blog em inglês, Marcello. O que seria mais um fracasso humilhante pra um profissional em vexames internéticos?

Ah, a propósito? Eu me mudaria URGENTEMENTE se fosse você. Quem avisa amigo é.

Pra finalizar, esta bela canção com imagens da última vez que o Marcello desceu pro chilindró.

Não será a última vez.

[ Update ] Lá vem a próxima empreitada…

lolwut

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