A primeira batida de carro a gente nunca esquece

Lá estava eu, na esquina do prédio de ciências médicas e escaneando impacientemente os 360 graus ao meu redor. Nem sinal da viatura do Policial Fulano, que há 10 minutos atrás me ligou pra falar que já havia chegado no campus da minha faculdade.

A temperatura no momento oscilava em torno de -5 e 0 graus (e sensação térmica de -10) e eu, tendo sido contactado quando estava no meio de uma aula, estava vestindo apenas isso no momento:

 

Essas vestimentas hospitalares, que chamam-se “scrubs” e que todos que me seguem no tuíter acreditam erroneamente que se traduzem como “jaleco”, oferecem a mesma proteção contra o frio que tentar enrolar-se num guardanapo molhado com água gelada. Quando saí da sala pra encontrar com o Policial Fulano lá no térreo cogitei pegar meu casaco, mas como ele estava no meu armário em outro andar decidi “foda-se” — uma decisão pela qual eu me arrependeria amargamente minutos mais tarde.

Passaram-se dez minutos e nada desse corno, digo, deste respeitável membro da força policial de Calgary, aparecer. Fantasiei um cenário em que eu daria uma bronca no policial pela sua demora, usando como justificativa o fato de que meus impostos pagam seu salário e ele trabalha pra mim.

Por motivos óbvios, cheguei à conclusão que dar uma lição de moral num homem armado com autoridade pra me jogar numa cela repleta de estupradores não é uma idéia sábia.

Olhei pro meu braço e notei que todos os pelinhos do meu corpo estavam fazendo um ângulo de 90 graus com minha pele, numa frustrada tentativa de trazer meu corpo cearense à temperatura a qual ele está mais acostumado. Isso me fez perceber, subitamente, que essa tal de evolução ainda tem que comer muito feijão.

Ficar exposto a esse tipo de frio é o tipo de experiência sensorial que faz você se convencer firmemente que se existir um Inferno mesmo, ele será frio, e não quente. As tribos nômades do Oriente Médio que escreveram a bíblia imaginavam um Inferno incandescente porque pra eles, o calor era a expressão máxima da indiferente brutalidade do universo natural. Ande por anos pelo deserto com sol cozinhando os miolos e sem dúvida você imaginará que a pior coisa que pode acontecer com alguém é se submeter ao calor pelo resto da eternidade.

O frio, por outro lado, dói de uma forma que o calor jamais sonhará em doer. A evolução (que a essa altura eu já visualizo como um daqueles alunos meio burros que fazem o máximo esforço possível pra entregar um trabalho feito nas coxas que dificilmente valeria uma nota 5) faz nossos vasos sanguíneos se contrairem pra manter o calor no centro do corpo, e o maravilhoso efeito colateral disso é que duas extremidades congelam, morrem e caem. Pesquise “FROSTBITE” no Google (Imagens de preferência) e se horrorize.

Eu não consigo imaginar nada mais horrível, nada que roube mais a esperança de alguém e que a faça se sentir mais abandonada por seu suposto Criador do que ser abandonado num mundo vazio e frio por toda a eternidade. E olha, se uma mera variação angular na rotação do nosso planeta provoca um frio cuja horripilância pode ser transmitida pela frase “seus dedos vão cair”, imagina um frio projetado pra te punir por todos os teus pecados.

Olhei em volta pela viatura pela milésima vez. Nada. De repente, meu celular apita. É o Policial Fulano, pedindo desculpas por ter entrado na rua errada, e me garantindo que em 10 minutos estaria na frente do meu prédio.

Talvez eu deva explicar por que diabos eu estava plantado no meio da esquina esperando um policial.

Tudo começou por causa do meu iPhone 5.

You see, em sua infinita sapiência, a Apple decidiu trocar o port connector do seu novo smartphone. Isso significa imediata obsolescência de todos os meus carregadores, adaptadores, acessórios, etc.

Ok. Se fodemos até mesmo o próprio planeta com a desculpa do preço do progresso, um port de celular é o de menos. Né?

Só que eu percebi, ao chegar na escada do prédio e com as chaves do carro já na mão, que eu havia esquecido o cabo do iPhone — o único capaz de recarrega-lo entre os trocentos cabos de iPhone em minha posse — em casa. Subo as escadas completamente emburrecido.

Só que abrir a porta do apartamento acordou minha mulher. Ainda deitada na cama e cheia de dengo, ela me pediu pra fazer café pra ela. Olhei pro relógio e praguejei silenciosamente. “Tudo por causa da porra desse cabo! Vou me atrasar mais ainda!”.

Resignado, comecei a fazer o café pra esposa — o que deveria ter demorado pouco tempo, se ela não tivesse recentemente aderido à moda do café descafeinado (por causa de alguma baitolagem relacionada a pressão arterial). Como nunca tomo esse café frouxo, gastei preciosos segundos procurando a lata dessa merda na dispensa.

Vou deixar essa merda aí na frente de agora em diante

Qual o propósito de café descafeinado, a propósito? É como bater punheta e parar antes de gozar, dizendo “pronto, tá bom por hoje já, vou estudar agora”. Você já está se dando ao trabalho de fazer o café e de consumir as calorias inúteis dele, faça direito então e se beneficie do único propósito que o café tem.

Parece que esses segundinhos procurando a porra dessa lata não seriam capazes de causar consequência nenhuma, né? Pelo contrário — momentos mais tardes, toda essa série de eventos (incluindo os segundos procurando o café na dispensa) provaram-se peças integrais num fenômeno de sincronização fatídico.

Finalmente achei a lata do café descafeinado. Pus-me a tarefa de preparar a bebida; acontece que eu sou distraído demais e, em minha tentativa de adoçar seu café e usar o celular ao mesmo tempo, acabei derrubando a porra do café nas minhas calças. Praguejei não tão silenciosamente dessa vez.

Corri pro meu escritório ejetando as calças no meio do percurso, tal qual um foguete multiestágio Saturn V liberando seu primeiro módulo. Revirei o escritório em busca de um outro par de calças. Finalmente achei-as, vesti-las, berrei pra mulher me desculpando por estragar seu café e saí correndo de volta pro carro.

E ao chegar na calçada, lembrei que tinha esquecido da porra do cabo do iPhone. Subi correndo e já completamente puto a essa altura. Achei o cabo na mesa do computador, enfiei no bolso, saí correndo de novo. Minha mulher pergunta o que houve, e eu gasto mais alguns segundos pra explicar, berrando da porta, que havia derramado o café e esquecido o cabo do celular pela segunda vez, por isso havia voltado ao apartamento.

Essa inacreditável série de eventos infortunos me fez chegar no meu carro no momento exato para preparar a desgraça que aconteceria dali poucos minutos. As forças do acaso sincronizaram minha viagem diária da ida à faculdade com a rotina cotidiana de outra pessoa, com efeitos catastróficos.

E tudo por causa da porra do iPhone 5.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

33 comments

  1. Hahaha a incrível habilidade que o Izzy possui pra descrever suas desgraças diárias é fenomenal, conseguiu conectar todos os pontos que culminarão no finado Toyota Camry,parabéns cara e estamos no aguardo da próxima (se te conheço bem serão próximas) parte da história

  2. Ah, outra coisa:
    É interessante observar como as vezes eventos inesperados sincronizam conclusões catastróficas assim, porém da mesma forma que esses eventos te foderam hoje, eles podem ter salvado sua vida ou alterado-a drasticamente sem você nunca perceber…

  3. Não deixo de sentir um certo schadenfreud (é assim que se escreve?) de você ao ver que se fudeu por causa do iPhone 5. O SJ deve estar fazendo um trollface na tumba uma hora dessas…

  4. Pode ser cruel (e é, não dá pra evitar), mas só tenho uma coisa a dizer sobre isso tudo: bem feito.

    1. Quem mandou ser um maníaco por tecnologia e querer pegar logo o iPhone 5, mesmo sabendo que ia dar uma dor de cabeça do caralho pela troca do port connector, que inutilizou todos os seus cabos e acessórios?

    2. Na mesma linha acima, quem mandou não ser capaz de largar a porra do celular por +- um minuto pra fazer um simples café?

    Espero que você agora aprenda a se controlar. Ou não, e continuemos a ser agraciados com belos e hilários textos sobre você se fodendo, para nosso entretenimento :’D

  5. Tu por acaso não ta postando isso do presídio com os caras na cela tentando te agarrar?

    Continuação…

    Depois de ter saído correndo tu perdeu o controle do carro ao atender o policial no iphone. Este mesmo policial teve que te multar por atender ele enquanto dirigia. E agora tem que arrumar o carro e pagar a multa. :O seria incrível ahueaheuaheua

  6. Na faculdadde a gente chama isso de “roupa de bloco círurgico”. E aqui é grossa pra caralho, muito grossa a ponto de eu sentir calor. Tudo bem que moro no inferno, mas.

  7. Compartilho da sua raiva em relação a esquecer algo.

    Amanhã eu tenho que sair às 4 da manhã para pegar o avião para trabalhar em outro estado. O problema é que estou saindo da casa dos meus pais, onde estou brevemente hospedado para ficar próximo à seção de votação. (meu prefeito tem ganhar ou eu mato ele)

    Com toda certeza eu vou ter problemas por esquecer algo insubstituível (bota bico de aço tamanho 48), indispensável (capacete), importante (material de trabalho, máquina fotográfica) ou algo cujo esquecimento tornaria a viagem desagradável (cabo do notebook) ou um inferno (cabo do celular, onde estão todas as informações de viagem, nome e telefone dos contatos em Salvador, etc.)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *