A subcultura “Juggalo”

Vocês sabem quem são os Juggalos? Hoje eu queria conversar sobre isso com meus seguidores do Twitter mas notei que esse é um daqueles fenômenos tão intrinsicamente norte americanos que não parece ter sido importado — e duvido que jamais seja. Então, cabe a a mim explicar o que essa parada significa.

juggalo

Juggalos são como se chamam os fãs do grupo de rap americano Insane Clown Posse. O grupo usa e abusa da iconografia circense, pintando-se de palhaços e tudo — um gesto emulado pelos fãs. O próprio termo “Juggalo” veio da horrível “The Juggla“, que é uma corruptela de “juggler”, ou “malabarista”. Um dos rappers começou a chamar o público de “jugglas” durante uma performance da música; o termo eventualmente virou “juggalos”, e pegou.

Particular ao subgrupo é sua devoção ao Faygo, um refrigerante vagabundo de Detroit, a mesma cidade do grupo. Imagine um refrigerante competidor do guaraná Dolly; é mais ou menos isso.

Uma das coisas mais difíceis de achar no fandom do Insane Clown Posse é um fã negro. Isso acontece porque o grupo é a parada mais quintessencialmente “white trash” que existe; eles fazem sucesso entre adolescentes brancos de classes mais baixas, geralmente com pouca educação/poder aquisitivo.

Por essas e outras, ser abertamente fã do grupo é visto como coisa de gente sem sofisticação. Tanto musicalmente quanto culturalmente, é muito parecido com o fenômeno do funk no Brasil.

Dá pra ter uma noção do nível da fanbase quando você vê vídeos que os caras gravam com o público. Como por exemplo, este aqui:

Não que hajam apenas aspectos negativos do fanclub dos rappers — existe um senso de coesão entre os entusiastas; a maioria se considera ostracizado pelo mainstream (sabe nos filmes americanos, os caras “losers”, pobres, e tal? Então), mas entre si eles se entendem. Tanto é que o grupo foca repetidamente, em suas letras, no aspecto de “família” que os fãs compartilham entre si.

A banda promove um evento anual chamado “Gathering of the Juggalos”. É um misto de Spring Break com Woodstock, se você substituísse a música por um ruído insuportável e os hippies sujos por fãs de rap (porém igualmente sujos).

Só de ver os vídeos do negócio eu já sinto como se tivesse pego tétano e/ou clamídia. Observe:

Tem este documentário sobre o Gathering, especificamente sobre a competição de Miss Juggalette (e a tentativa de “consertar” o rumo que a competição ia levando nos últimos anos, de acordo com alguns):

Além do aspecto circense, com essas pinturas de palhaço na cara e letras que fazem referências a picadeiro, mágicos e o caralho, há uma veia meio… agressiva nas músicas também. São constantes as referências a assassinatos (particularmente com machadinhos — é uma especie de signature move deles). Isso fez com que a revelação de que o ICP era na verdade um grupo cristão ainda mais surpreendente.

Yep. Em 2002, o grupo gravou “Thy Unveiling”, onde finalmente explicaram que a parada toda era uma metáfora cristã. Olhaí:

A propósito, acredito que a maior exposição do grupo pros internautas brasileiros foi graças à (horrível) Miracles. Parte apreciação dos fenômenos naturais ao nosso redor, parte retorno à alegoria cristã que ninguém sabe ao certo se é sincera ou trollagem, o vídeo foi amplamente detonado pela cultura popular gringa e até zoado no Saturday Night Live.

Uma parada que eu esqueci de mencionar é que o Gathering of the Juggalos tem como “tradição” zonear apresentações da galera mais “mainstream” que aparece no evento. O mais icônico foi o caso do Andrew WK. Rever esse vídeo hoje foi o que me inspirou a escrever esse post, aliás:

Curiosamente, o Andrew WK é tão carismático e bonachão que parece ter convencido a platéia a dar o braço a torcer.

Três anos mais tarde, quando o Charlie Sheen tentou transformar aquele seu meltdown público numa turnê de stand up ou seja lá o que era aquele “My Violent Torpedo of Truth/Defeat is Not An Option”, a galera não teve a mesma boa vontade:

Outra vítima notória dos Juggalos (ué, cadê o tal clima de camaradagem, família, paz e amor e tal?) foi a proto-cantora e clinicamente desesperada por atenção Tila Tequila. Nem os peitinhos da asiática foram suficientes pra satisfazer a turba, que protestou contra a performance jogando várias garrafas de Faygo cheias de mijo.

A última vez que vi alguém se apresentando rodeado de tanto segurança, era um líder de estado — e isso nem foi o bastante, porque alguns Juggalos tinham mira melhor que os outros e acertam pedras na fuça dela.

E… é basicamente isso. A lição de moral aqui, acredito, é que antes de torcer o nariz pra nossa “cultura do povão”, achando que países de primeiro mundo não tem equivalentes… pense novamente.

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8 comments

  1. Um outro possível ponto de contato do público brasileiro(especialmente mais jovem, 18 anos pra baixo) é a webcomic Homestuck, que tem um personagem notoriamente Juggalo, com o detalhe de que ele é um alien, logo ele não faz idéia do que seja Juggalo, e daí… bom, eu não vo uexplicar Homestuck porque eu não tenho 5 meses pra desperdiçar aqui. Enfim: Juggalos, Juggalos everywhere.

    Na verdade o mais incrível é que eu achei que já conhecia os Juggalos(inclusive de outro post anterior do senhor, sobre trolls e tals) e ainda assim eu aprendi coisas novas. Como diz o Jurandir, a Internet nunca decepciona. :V

    Acho que a lição de “moral”, no fim das contas, é que não temos monopólio da escrotidão. 😛

  2. Mas esses caras ainda fazem sucesso? Pensei que os caras fossem mais das antigas, pois de acordo com Sanchez (2014): “2003 just called, it wants it`s easy target back”.

    Fire, water, air and dirt…

  3. Pior que o funk está pegando nos jovens das classes altas agora… Vai em qualquer festa de 15 de rico que vai tocar pelo menos uns 3 funks (e quando só tem a molecada metade da festa é de funks)

  4. Nossa, esses filhos de uma puta rampeira ainda são relevantes? Se não conhecesse seu blog Izzy, diria que você está sem o que escrever, pq não consigo acreditar que esse câncer ainda existe.

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