[ Além do Vídeo ] Eis o que há de errado com o sistema educacional

Eu sempre me considerei uma vítima do sistema educacional brasileiro. E essa semana, gravei um vídeo pra explicar melhor o que quero dizer com isso — mas obviamente não devo ter me explicado bem o suficiente, porque dessa vez preciso fazer um Além do Vídeo.

Acho que o ponto mais crucial que preciso martelar aqui é que há muitos anos, te ensinaram uma ladainha mentirosa pra justificar o processo enlouquecedor (e caro, e ineficiente) de decorar inutilidades gerais por 13 ou 14 anos pra vomitar tudo numa prova para entrar num curso sobre o qual não te deram literalmente nenhuma informação.

Não, nem todo conhecimento é útil.

Eu já consigo ouvir você rejeitando a minha heresia anti-científica e bolando cenários absurdamente específicos pra justificar que sim, aprender multiplicação de matrizes ou logaritmos ou as regras de um verbo transitivo direto traz algum benefício. Seja porque “estimula o raciocínio”, ou porque em uma condição extremamente particular você conseguiu achar uma aplicação prática de algo que você aprendeu ao longo de mais de uma década pagando pra ser programado pra passar num vestibular.

Vamos por partes. Primeiro, a gente precisa questionar seriamente essa noção idealista e romântica de que passar horas enclausurado numa sala fazendo e refazendo equações de segundo grau é uma espécie de “ginástica mental” que exercita o raciocínio, e por extensão o pensamento crítico, analítico, científico.

Soa bonito no papel; é aquele tipo de coisa que alguém te oferece como justificativa e tu pensa “é, tem razão, faz sentido“, e para imediatamente de criticar o sistema.

Só que aí você percebe que o Brasil não tem um prêmio Nobel sequer, ou que somos um país em que milhares (milhões?) de pessoas protestam pelo “direito” da Telexfree de roubar seu dinheiro, e precisamos admitir que essa noção de que ficar passar horas divindo polinômios talvez não tenha o menor efeito positivo em nossa capacidade analítica ou científica.

Aliás, esse bizarro e auto-flagelante culto à práticas matemáticas abstratas não nos rende benefícios nem mesmo no domínio da matemática.

Se você duvida, dê uma olhada no quadro de medalhas da Olimpíadas Internacionais de Matemática:

Ó o Brasil ali na lanterna. E olhe que a China, líder absoluta no placar, manda MENOS atletas pra lá, e participa a menos tempo que a gente.

O nosso último conterrâneo a entrar no Hall da Fama do evento teve sua última participação nas Olimpíadas há quase 3 décadas.

Já os americanos, a quem adoramos categorizar como burros porque acham que se fala espanhol no Brasil (a despeito do fato de que você provavelmente NUNCA ENCONTROU UM AMERICANO QUE ACHASSE ISSO, mas ouviu várias pessoas falando que acontece então deve ser verdade né? Olhaí os tais skills analíticos nos quais somos profissionais!), estão em segundo lugar no ranking.

Olha a posição brasileira. Você está entendendo o que eu estou tentando te dizer…? Esse foco todo na matemática abstrata não nos rende bom desempenho nem mesmo na matemática, que dirá então em faculdades mentais não-relacionadas. Eu simplesmente nunca vi evidência alguma de que passar anos decorando fórmulas de Física, e em seguida inserir números no lugar das variáveis, torna alguém mais intelectualmente apto a qualquer coisa. E OLHA QUE EU CURSEI BACHARELADO EM FÍSICA.

A segunda coisa que me incomoda nos defensores dessa teoria de que “todo conhecimento é útil” são as justificativas inacreditavelmente tortuosas pra justificar o currículo escolar que é essencialmente o mesmo há séculos. Por exemplo: nos comentários deste meu vídeo acima, alguém falou que o estudo de química é útil porque sem ele, você não saberia que compostos químicos são perigoso pra se ingerir.

Sim, porque sem decorar “Foi Clovis Bornay que Incendiou Atenas” (F Cl Br I At, a família 7A da tabela periódica), eu sou sair por aí bebendo querosene e água sanitária. Em seguida o mesmo rapaz falou que balanceamento de equações químicas é igualmente fundamental, porque sem ela sua mãe não conseguiria seguir uma receita de como fazer sabão.

Porque, naturalmente, pra seguir esses cinco simples passos você precisa estudar estequiometria por 3 anos.

O que me dá mais raiva é que eu, que sempre odiei química, teria achado FODA DEMAIS ver na escola uma aplicação prática de estequiometria como essa fabricação caseira de sabão aí. Consigo imaginar uma aula de equação química bolada em torno do processo de medição das proporções desses reagentes, mas obviamente isso seria muito interessante então é claro que não é assim que nos ensinaram.

Continuando o tema de “pessoas perdidamente acostumadas com um sistema caro e ineficiente inventando desculpas absurdas para defender sua perpetuação”, teve um outro sujeito (um médico!!!) que comentou que o ensino de geografia é igualmente essencial, porque é através dele que aprendemos as doenças típicas de uma região.

A absurdíssima insinuação aqui é que, sem ter ouvido uma vez na quinta série que há incidência de esquistossomose no Nordeste, um médico daria a esse paciente tratamento para dor de dente.

Os comentários do vídeo estão repletos de argumentos desse naipe. “Não, mas you see, eu trabalho com X e uma vez numa condição bem específica que só aconteceu comigo e que muito provavelmente jamais se repetirá eu pensei ‘ah é uma vez vi isso na escola’, logo, o currículo inteiro está justificado”.

Acho que o ímpeto por trás desse tipo de comentário é uma vontade irresistível de contradizer, mesmo que pra isso você defenda um caríssimo sistema de treinamento que demora mais de uma década porque UMA VEZ você conseguiu usar UMA COISA das 4789374892 que te ensinaram.

Não, nem todo conhecimento é útil. Seria se você fosse uma entidade imortal, com tempo de sobra pra dedicar a qualquer atividade (por mais trivial que fosse), e que pudesse aprender tudo de graça. Entretanto, não somos um Tio Patinhas vampiro. Nosso processo de aprendizado gasta tempo e dinheiro, dois recursos finitos que, como qualquer outro, precisam ser gerenciados e priorizados.

Na próxima vez que alguém vier com esse argumento idiota e pedante de que “todo conhecimento é útil”, pergunte imediatamente se essa pessoa está disposta a pedir uma folga no trabalho pra ler a biografia de Leonid Kravchuk, o primeiro presidente da Ucrânia. Ou um atestado médico pra faltar na faculdade e se ocupar lendo os artigos da Muneeza Shamsie sobre a literatura clássica paquistanesa. Pergunte quando foi a última vez que ele revisou um manual de conserto de videocassete.

Mas ué, se todo conhecimento é útil, por que você está priorizando o aprendizado de X mas não de Y…? Pelo motivo óbvio de que há uma distinção claríssima entre conhecimento PRÁTICO, necessário, e conhecimento sem uso algum, e apenas alguém num arroubo de empáfia acadêmica insistiria que não há diferença entre ambos. O problema é que o nosso modelo de educação — a preparação ao todo-poderoso vestibular — colocou conhecimento sem uso na categoria de conhecimento prático, ainda que seja prático APENAS no contexto “preciso saber disso pra passar numa prova”.

Você não tem noção de quanto eu odeio essa ladainha mentirosa de que aprender coisas inúteis te ajudam a “exercitar o cérebro”. Esse argumento é uma admissão de que a parada realmente não tem valor prático, mas ao mesmo tempo sem querer admitir isso totalmente.

Sim, eu sei, você nunca na vida precisará calcular uma equação de segundo grau no braço, sem usar uma calculadora ou consultar fórmulas — mas nós determinamos que saber fazer isso vai te tornar uma pessoa inteligente. Por que? Porque sim. E você não quer ser burro, né?

E não é apenas o ensino da ciência exata que tá errada, as humanas não são muito melhor que isso. Como qualquer pessoa que gosta de escrever, eu gostava também de ler. Aos 9 ou 10 anos lia calhamaços imensos do Crichton, Clarke, Clancy, repetidamente; aí na escola me obrigavam a ler O Cortiço — um livro de 200 anos atrás que não interessa de maneira alguma um moleque que curte viagem no tempo, espiões e robôs assassinos.

Aí eu não lia. E tentava chutar tudo na prova. Frequentemente me dava mal, e voltava pra casa com aquela nota vermelha que dizia implicitamente “desculpaí senhora Nobre mas esse teu filho é um vagabundo que não sabe ou não gosta de ler”.

E não apenas isso, mas o mais chato nesse currículo monolítico e imutável de literatura (O Cortiço. O Alienista. A Moreninha. Noite na Taverna. O Auto da Barca do Inferno, QUE FOI ESCRITO HÁ CINCO SÉCULOS) é que todas as interpretações manjadíssimas já foram determinadas e é justamente essas que os professores querem que você decore pra responder na prova.

E redação?! Redação deveria ser, idealmente, um exercício de criatividade e auto-expressão. No entanto, os meus professores determinavam o assunto sobre qual o deveria escrever, e ai de mim se eu “fugisse do tema” — era um zero no meio da cara. O que, por extensão, significava que eu não sabia ou não queria escrever.

Isso estimula tanto a criavidade quanto dizer que um moleque pode desenhar o que ele quiser, mas tem que ser só com esse lápis verde, e tem que ser uma árvore, e não pode ser uma árvore muito grande, e aliás aqui está o layout de árvore que eu quero. Faça uma igual.

OK IZZY já entendi é uma merda mesmo QUAL A SOLUÇÃO?

Eu já falei, mas no seu ímpeto de insistir que equações quadráticas são conhecimento valiosíssimo você não ouviu. Embora o sistema norte-americano definitivamente não seja perfeito, tratar o colegial como uma faculdade, com disciplinas obrigatórias somadas a matérias eletivas que dêem ao moleque 1) uma exposição maior a possíveis carreiras e 2) um marketeable skill que ele possa usar pra entrar no mercado de trabalho.

Eu sou o único que acha completamente insano que um moleque de 16 ou 17 anos tenha que decidir um futuro de carreira sendo que o mais próximo que ele chegou de Direito/Jornalismo foi decorando conjugação de verbos, ou a maior exposição que ele teve a Medicina foi aprender que DNA significa Ácido Desoxirribonucleico…?

Eu escolhi Física porque curtia ficção científica, somado ao fato de que minha tia é uma renomada Física brasileira e a jornada dela é uma fonte inesgotável de inspiração e orgulho pra mim. Mas e um moleque que queira fazer literalmente qualquer outra coisa…? A escola falha de forma estupenda em nos oferecer qualquer direcionamento nesse sentido.

Enquanto isso, o currículo colegial gringo ensina coisas como Introdução ao Direito — que é não apenas melhor pra preparar um aluno pra ser um advogado do que saber diferenciar um verbo transistivo de um verbo intransitivo, mas é por si só útil na formação cívica do indivíduo.

E alguém que queira fazer algo voltado às Artes? Você ri, claro, porque o contexto acadêmico brasileiro te treinou a ver como “ensino útil” apenas aquilo que é diretamente necessário pra passar no vestibular. Só que sem artes você não teria os filmes, ou música, ou quadrinhos, ou videogames, basicamente nenhum dos seus principais hobbies.

Aqui no Canadá tu pode estudar, através do sistema público de educação, Film and Video Production. Se interessa em atuação, ou talvez em performance como comediante? Há aulas de teatro. Minha esposa, aliás, foi atriz estudantil e atuou numa peça chamada The Insanity of Mary Girard.

Aliás, ela também participou de um Improv Club, que é um clube misto de atuação e comédia. Olha ela aí, circulada com caneta hidrocor vermelha no Yearbook da escola:

Photo 2015-11-07, 11 15 50 AM

Você talvez tenha se perguntado alguma vez porque minha mulher é tão animada e dada a fazer gracinhas e palhaçadas o tempo todo; é o jeito dela.

Que é o meu jeito, também, exceto que enquanto aqui ela tinha um veículo pra exteriorizar isso de forma criativa/produtiva, no Brasil eu era mandado pra fora de sala diariamente — sem exagero — porque estava “distraindo os outros estudantes”.

Talvez você queira ser um chef. A experiência colegial brasileira não vai fazer absolutamente nada pra te ajudar nesse objetivo. Aqui, por outro lado? Eles te ensinam.

Resolver uma divisão de polinômios: talvez eu use uma vez na vida. Cozinhar: usarei literalmente todo dia, mais de uma vez por dia, pra mim mesmo e pra toda a minha família, até o dia da minha morte. Claramente polinômios é o que deveríamos priorizar na formação educacional de um indivíduo.

Eu terminei o colegial em 2003 sem saber basicamente nada sobre o mundo fora das fronteiras brasileiras. Os alunos secundaristas aqui, por outro lado, viajam pelo mundo, tendo uma imersão na cultura e língua estrangeira na época formativa de suas vida.

Photo 2015-11-07, 11 16 26 AM

“IZZY MAS É QUE O CANADÁ É RICO AQUI NÃO TERIA DINHEIRO PRA ISSO” talvez porque estamos gastando dezenas de milhares de reais pagando alguém pra nos explicar, 5 dias por semana, 4 semanas por mês, 10 meses por ano, o que é um logaritmo ou um número irracional ou a “fórmula do sorvete”.

De repente o moleque não tem o MENOR interesse ou aptidão pra matemática, ou química, ou porra nenhuma, mas quer muito ser um músico. No Brasil? Tu tá totalmente fodido. Nos EUA? Tu recebe treinamento musical (novamente: na rede pública de ensino) no colegial, se quiser.

Enquanto eu aprendi NA MINHA TERRA TEM PALMEIRAS ONDE CANTA O SABIÁ/SENO A COSSENO B SENO B COSSENO A, o primo da minha esposa aprendeu a tocar bateria.

E ele toca bateria hoje. Já eu não sei mais nem o que é um cosseno OU um sabiá. Eu preferia INFINITAMENTE ter tido acesso a treinamento clássico em guitarra do que aprender trigonometria.

E a questão é essa. Preferência. Eu não estou dizendo que temos que matar todos os professores de matemática e queimar os livros; eu estou dizendo que deveriam haver outras opções que preparassem alguém melhor pra vida real. Estou dizendo que os 12 ou 13 anos que passamos enfurnado em cadeiras desconfortáveis vestidos exatamente iguais e fazendo exatamente a mesma coisa e dando exatamente a mesma intepretação pro mesmo livro de 300 anos atrás e ouvindo alguém explicar um monte de coisa que você nunca vai usar na sua vida não são um bom uso de dinheiro ou de tempo ou de energia.

Vamos parar com essa insistência da virtudes de saber balancear uma equação química, e admitir que tá passando da hora de considerar uma alternativa.

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Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

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20 comments

  1. O irônico é que o patrono da nossa educação é o Paulo Freire, que pautou toda sua teoria pedagógica na ideia de que o aluno era uma vítima, um oprimido. O que temos são estudantes vítimas desse sistema que, como muito bem descrito por você, não forma o indivíduo para vida e nem para o que ele se propõe, i.e.:, se sair bem no vestibular. O pior é que esse modelo também se estende ao ensino superior: Estudo ciências da computação e não tenho UMA matéria optativa! Sou obrigado a estudar várias matérias que não tenho interesse. Estudei um ano nos EUA e o volume de matérias era muito inferior ao que tenho aqui, além de ter uma liberdade para escolher o que fazer infinitamente maior. Enfim, compartilho do seu asco por esse sistema nojento e ineficiente de ensino brasileiro. Acho um crime submeter um filho a isso, mas se você não o fizer você é preso por abandono de menor.

  2. Cara, eu sou professor do Ensino Médio na rede estadual de SP e eu concordo ABSOLUTAMENTE contigo. Não estou dizendo que as matérias que ensinamos são inúteis, mas as coisas que ensinamos… algumas são. Deveria haver uma reestruturação no currículo para ensinar aquilo que realmente forma o indivíduo como um cidadão capaz de escolher a sua carreira e capaz de viver bem em sociedade.

    A pouco tempo foi proposta uma reformulação do ensino estadual, com matérias obrigatórias (português, matemática, etc) e matérias eletivas. O jovem poderia escolher, por exemplo se iria aprender como língua estrangeira o espanhol ou inglês. Isso já faria uma diferença tremenda.

    Sabe o que aconteceu? Estão fazendo um escândalo querendo barrar essa reforma. Eu tenho colegas professores lutando ativamente contra isso. Eu tenho até colegas que lutam contra a o diário de classe digital!

    O que me parece é que as pessoas simplesmente não gostam de mudanças, nem quando elas são para melhor. Enfim, adoro seu blog, sou leitor desde 2005 e comento pouco, mas to por aqui cara. Obrigado.

  3. Só não concordo com a parte da redação. Há redação com temas livres e outros direcionados. Esse último serve para que o aluno tenha -- ou venha a ter -- conhecimento e argumentação para defender um determinado tipo de raciocínio. Até porque, pra muitos, é difícil tirar um tema da cartola aleatoriamente: preferem que o professor diga para que possam ter um ponto de partida.

  4. izzy, tenho 16 anos e vou terminar o ensino médio esse ano. concordo PLENAMENTE com TUDO o que você disse no video. agora que eu tenho que procurar algo que eu goste pra definir uma profissão que eu talvez leve pro resto da minha vida, eu percebo que eu não sei NADA util, e tudo o que eu sei são coisas inúteis que eu decorei só pra entrar em uma faculdade, e aí sim, ver se eu vou gostar do curso que eu escolher. muita gente inclusive larga o curso logo no começo e vai tentar fazer outra coisa, justamente por não ser aquilo que ele queria. é impossível terminar o ensino médio hoje no brasil e falar ”tá bom, acho que vou começar a trabalhar”, é IMPOSSÍVEL, justamente porque a gente termina SEM SABER FAZER NADA além de passar em um vestibular pra entrar em uma faculdade. esse 3º ano particularmente foi terrível, pois toda a matéria que os professores passavam, alguém perguntava: ”isso aí cai no ENEM?. invés de estudarmos pra ter conhecimento pra vida, agora estudamos porque cai no ENEM, vai tomar no cú.
    eu sou o tipo de cara aparentemente chato, que os professores odeiam porque vive perguntando: ”eu vou usar isso daí em que na minha vida?” e eles geralmente ficam bravos, porque lá no fundo eles sabem que aquilo, que o trabalho deles, é inutil pra mim.
    efim, estou com muita duvida pra saber no que eu sou realmente bom. gosto muito de processos criativos, então estava pensando em qualquer coisa entre game designer, designer gráfico, carpintaria ou engenharia industrial. se eu estivesse trabalhando esse gosto criativo desde o inicio do ensino medio, talvez eu já soubesse o que eu realmente gostaria de trabalhar

  5. a propósito: tenho um colega (que é muito amigo meu) que é definido socialmente como burro. é o cara que cola em todas as provas ”não sabe nada” e só passa por que copia do quadro. mas aí é que está: não é verdade que ele ”não sabe nada”. ele se interessa MUITO por corridas de jipe e consequentemente por mecânica, e sabe muito da prática de mecânica também, mas infelizmente ele não tem chance nenhuma de entrar nesse curso em uma faculdade, justamente porque ele não se dá bem em português, geografia, biologia história… e o que ele deveria saber (principalmente física e química) foi ensinado através de formulas desgraçadíssimas de serem aprendidas ou sequer decoradas. resultado, digamos que ele saiba como misturar químicos pra limpar uma peça, mas justamente por não facilitarem na escola, ele não sabe que aprender química faria ele misturar isso de maneira mais facil, muito menos sabe que ele pode se interessar por quimica e que aprender a materia pra ele é mais facil, pois ele se interessa

  6. Izzy, o problema não é oq o sistema se propõe a ensinar (claro que deveria flexibilizar e tem muita coisa pouco importante, oq não é o caso dos polinômios). O problema é que, na escola, simplesmente nos jogam um monte de informações sem contexto, sem exemplo de uso no dia a dia. Nos mostram os atalhos antes mesmo do caminho original! Eu estou estudando matemática na Khan Academy e, cara, percebi o quão LIXO é o ensino de matemática nas escolas.

    Um macaco, deparado com a tarefa de apertar um parafuso, nem imagina a utilidade que teria saber usar uma chave de fenda. Todo conhecimento é “inútil” quando não sabemos onde utilizar.

  7. Entendo seu ponto, mas tem coisa que me soa estranho. Se é muito cedo para um jovem de 16 ou 17 anos escolher a profissão que vai exercer o resto da vida, como podemos pedir a um ainda mais jovem -- 12, 13 anos -- para direcionar deus estudos escolhendo matérias que serão úteis profissionalmente? Porque você pode escolher por afinidade, sem problema. Mas afinidade às vezes puxa para um hobbie e não uma profissão. Por exemplo, eu certamente teria escolhido aulas de teatro (que inclusive fiz, fora da escola), mas não teria escolhido introdução ao estudo do direito de jeito nenhum. E hoje eu sou advogada. Entendo que há um problema de currículo; acho o conteúdo muito extenso para ensino básico; a gente vê coisas que deveriam ser vistas no ensino superior. Mas pedir a uma criança que faça escolhas que vão impactar seu futuro profissional também me parece bem ruim.

    1. >>Mas pedir a uma criança que faça escolhas que vão impactar seu futuro profissional também me parece bem ruim.

      Exceto que nós já fazemos isso. Eu tinha 15 anos quando marquei no formulário da UFMA que queria prestar vestibular pra Física. Tinha 0 experiência de vida. Era uma criança pra todos os fins práticos. Então qual a diferença de fato?

      No sistema atual esperamos que um garoto de 15 ou 16 anos ponha num formulário o curso para o qual ele quer prestar vestibular. Sendo que ele teve contato ZERO com aquelas disciplinas/indústrias no âmbito universitário

      No sistema gringo eles fazem garotos de 13-14 anos escolher em cada um dos 3 anos do colegial 4 matérias diferentes que darão uma visão melhor do que ele poderá ter aptidão melhor.

      Como você pode achar que o primeiro sistema é melhor…?

      BTW: se essa criança acabou escolhendo 12 matérias e NENHUMA servirá pra sua formação universitária/profissional (raro), ele pode quando mais velho fazer “academic upgrading”, ou seja: digamos que faltou biologia avançada pra ele fazer medicina agora que decidiu ser médico. Em 5 meses ele faz um intensivo gratuito, pega a nota necessária, e então aplica pra faculdade.

      O problema é que, por só conhecer um sistema, você enxerga problemas intransponíveis que na real não existem. É INFINITAMENTE mais difícil e caro pra um aluno brasileiro que não se esforçou no colegial entrar numa faculdade aí, do que o aluno equivalente gringo entrar numa aqui. Não há como discutir isso, eu tô te falando por conhecer as duas realidades.

  8. eu até acho interessante pra caramba saber um pouco de tudo, mas reconheço que sou um ponto fora da reta e que é insano querer cobrar isso de um aluno de mes em mes ou de uma vez no vestibular. To prestando vestibular esse ano e acho irreal a quantidade de conteúdo que você aprende que realmente terão a ver com o curso que escolhi.
    e o lance do brasileiro não ter hábito de leitura advem desse lance de jogar livros antiquissimos e complicados pra garotos que estão longe de ter maturidade ou mesmo vontade para ler esses livros.
    ai voce ve o porque de tanta gente em cursinho que chega sem saber nada tentando aprender pelo menos 3 anos de colegio em menos de um ano.

  9. Oi Izzy. Fui uma dessas que ficou um pouco revoltada à primeira vista pelo seu vídeo. Mas parei pra pensar e, realmente, você tem razão. Existe muita coisa falha no sistema brasileiro, e acho que com a implementação do ENEM como vestibular geral as coisas só pioraram. Antigamente, o vestibular ainda era divido na prova geral e específica. Existiam turmas para cada setor: humanas, biomédicas e exatas. Cada turma tinha aula de tudo, mas obviamente, tinham mais aulas das matérias específicas de seu curso e menor carga horária para as matérias que não interessavam. Embora esse método ainda não seja tão bom quanto o daí, ainda era melhor do que vemos hoje: um ensino focado numa prova com todo o conteúdo, milhões de questões, tempo mínimo e mal formulada. Sem contar a teoria de resposta ao item, que eu acho patética.
    Hoje eu curso engenharia química, e sabe a primeira coisa que meu professor de química geral disse pra nossa turma? Esqueçam tudo o que vocês aprenderam no colégio. Ou seja, além daquela quantidade absurda de matéria que temos que aprender, por mais que aquele assunto ainda seja útil na profissão que escolhemos, a forma como é dada na escola ainda está errada. Uma vez vi um currículo de engenharia na Inglaterra, e no primeiro ano eles já davam as matérias específicas do curso. Coisa que só começamos a ver no terceiro ano, no ciclo profissional. A forma como as coisas são dadas no Brasil é tão errada que ainda temos que perder dois anos da faculdade no ciclo básico, estudando química, física e matemática. Enquanto que em outros lugares, os alunos já optaram por matemática avançada no colégio e já se formam sabendo cálculo, por exemplo. Enquanto eu me formei sem nem saber o que era uma derivada.
    A maioria das pessoas defendendo o Brasil dizem que é importante saber um pouco de tudo. Eu também. Mas acho que é exatamente isso que vemos até a 8ª série (9º ano agora, né?). Somos introduzidos a todos os assuntos e temos uma noção geral. Acho que o ensino médio devia ser mais focado no nosso futuro profissional, é a época pra buscarmos nossos interesses e conhecer melhor as profissões do mundo. Infelizmente, acho que isso não vai mudar tão cedo.

  10. “Nem todo conhecimento é útil” é uma ideia com a qual eu concordo plenamente, ainda mais em se tratando de educação no Brasil. Posso contar nos dedos de uma mão coisas úteis que aprendi na escola.

    Se molhar uma latinha de coca antes de botar no freezer ela gela em meia hora (termodinâmica)

    Se usar uma chave de roda com cabo mais longo, você faz menos força pra trocar o pneu (física)

    Se uma abelha lhe picar, coloque leite pra parar o ardor; se uma vespa picar, bote coca-cola (relação ácido-base, química)

    E um professor de biologia deu pra turma uma receita de bife de casca de banana.

    Se aprendi algo mais que seja útil, não lembro. Por outro lado a expressão que eu mais uso como sinônimo de inutilidade foi aprendida na escola; o cálculo do número de mols de átomos de uma panela de alumínio. Nem sei mais o que é um mol nem lembro qualquer cálculo além das 4 operações fundamentais e regra de três simples.

    E só pra dar uma ideia de como o currículo escolar é inútil até pensando em vestibular, eu fiz dois vestibulares (um pra Letras e outro pra Artes Visuais) sem estudar. Não respondi mais que três ou quatro questões nas provas de exatas, o resto foi tudo no chute, e mesmo assim eu passei. Sem saber NADA de três provas. Durma com um barulho desses.

    1. Tirando alfabetização, aritmética simples e regra de 3 eu não aprendi mais nada útil na escola. Sério mesmo. Nada do que eu faço hoje se deriva de nada que aprendi na escola.

      E isso é muito absurdo, porque novamente: nós treinamos por 12 anos pra não saber fazer nada. Se você gastasse o mesmo período de tempo treinando QUALQUER OUTRA COISA — bicicleta, skate, atletismo, fisiculturismo, música, literalmente qualquer outra coisa — você teria benefícios bem tangentes. Você certamente ainda saberia, por exemplo, tocar guitarra.

      Agora pega alguém que terminou o colegial há alguns anos e bota pra dividir um polinômio. Impossível ainda lembrar A MENOS que esteja cursando faculdade de exatas E OLHE LÁ.

      1. Pois é, Izzy. Eu faço Artes Visuais e adoraria ter tido a opção de estudar desenho na escola. Em vez disso tive trocentas aulas de matemática com trocentos professores diferentes e hoje nem lembro o quê eles ensinavam…

      1. Israel essa receita aqui é bem básica e você encontra várias diferentes na internet. Essa aqui é a mais parecida com a que o professor passou.

        Ingredientes
        Cascas de 6 bananas maduras
        1 xícara de farinha de rosca
        1 xícara de farinha de trigo
        3 dentes de alho
        Sal a gosto
        2 ovos

        Como fazer

        1.Higienizar as cascas das bananas e lavar em água corrente.

        2.Cortar as pontas.

        3.Retirar as cascas na forma de bifes sem parti-las.

        4.Amassar o alho e colocar numa vasilha junto com o sal.

        5.Colocar as cascas das bananas nesse molha.

        6.Bater os ovos como se fosse omelete.

        7.Passar as cascas das bananas na farinha de trigo, nos ovos batidos e, por último, na farinha de rosca, seguindo sempre esta ordem.

        8.Fritar as cascas em óleo bem quente.

        9.Deixar dourar dos dois lados.

        10.Servir quente.

        Ele disse que gostava de deixar as cascas lavadas por um tempo no freezer e cortar em cubos pequenos pra fritar mais rápido. Mas como não faço a menor ideia de que jeito se empana cubinhos, eu ficaria com as cascas inteiras mesmo.

  11. É Izzy… O sistema educacional brasileiro está falido desde a época em que foi criado. Aliás, não é um problema só do Brasil, mas de boa parte do mundo.
    As pessoas se esqueceram das origens das escolas, com os mestres filósofos gregos -- em tempo: talvez a ligação da instituição “escola” com os mestres seja implícita demais pra ser considerada uma origem, não tenho certeza, me corrija se eu estiver errado.
    Eles que ensinavam normalmente ao ar livre, coseguiam transmitir lições práticas, o que pode parecer absurdo pra algumas pessoas que consideram a filosofia “inútil” (em contraste, por exemplo, com a matemática/biologia/química/física -- ramos que derivam **diretamente** da filosofia).
    Eu também acho um absurdo a criança/adolescente ter que decidir sua vida inteira numa idade tão cheia de altos e baixos. Sim, a vida inteira, porque no modelo de sociedade em que vivemos, a profissão é uma baliza pra vida…
    Enfim, se falei besteira pode me corrigir!
    Abraços!

  12. Então, sou brasileira, estudei durante toda minha vida em escola pública e atualmente faço intercâmbio no Canadá estudando em escola pública também.

    No Brasil estudava das 7:30 às 17:00 15 matérias por semana, fora as matérias “normais” estudava também direitos humanos e cidadania, espanhol e inglês, empreendedorismo, esse tipo de coisa, 9 aulas por dia, é impossível apreender tudo o que ensinam, e eu tentava! Acabava sempre tendo que decorar algo horas antes da prova. Não tenho como discordar que o ensino no Canadá da de 7x1 no brasileiro, aqui tenho que estudar 4 matérias, matemática e inglês são meio q obrigatórias e os alunos podem escolher duas outras matérias que pode ser algo tipo química,física ou teatro, fotografia, culinária, música… São tantas as opções que fica quase impossível escolher 2, alguns professores utilizam a hora do almoço e fazem clube de tudo que vier na cabeça, aqui o aluno se sente livre pra estudar o que gosta, o que elimina os alunos que atrapalham as aulas.

    A metodologia é muito superior também, aprendo na pratica. A aula de matemática vai muito além de fazer contas. A aula de artes no Brasil por mais que eu tentasse ouvir a professora, eu cochilava 70% das vezes, aqui eu faço uma caneca personalizada, em geografia meu dever de casa da semana passada foi planejar milhas férias de um mês com dinheiro infinito colocando todos os detalhes, aprendi mais nesse pouco tempo que estive aqui do que aprendi no Brasil nos últimos 6 anos. Estudamos MUITA COISA INÚTIL, pode até ser útil uma vez na vida, mas o tempo perdido aprendendo aquilo poderia ser empregado aprendendo algo que você utilizaria todos os dias.

    Parabéns pelo texto.

  13. Concordo 100% com você Izzy, o sistema educacional brasileiro é muito errado, e é triste ver o resultado disso, eu por exemplo, Sou professor de inglês e não uso absolutamente nada que aprendi na escola no meu dia-a-dia profissional.
    Só queria complementar dizendo que não é só o ensino fundamental e o ensino médio que tem grandes problemas, as faculdades também possuem sérios problemas, e o mercado de trabalho possui grandes problemas.
    As pessoas hoje correm atrás de diploma, mas tem muito administrador de empresa que forma sem saber fazer um relatório.
    Abraços Izzy

  14. Esse é um de seus melhores posts. Não vi o vídeo ainda, mas li o artigo e concordo plenamente com você.

    Me identifiquei com certas coisas. Eu nunca me interessei muito por matemática, mas adoro música e adoraria ter a oportunidade de estudar isso na escola pública.

    Existem escolas particulares que oferecem aulas de música, mas tem que pagar mensalidade. O governo de SP criou alguns programas, mas nem todo mundo conhece, e não estão disponíveis em todos os lugares.

    Poderia ter ‘clubes’ nas escolas assim como nos EUA, Canadá, Japão, etc. Os alunos poderiam criar novos interesses, amizades, whatever.

    A administração também deixa muito a desejar. Muita bagunça na sala de aula… na TV, aparecem reportagens falando de brigas na sala de aula e até sexo entre estudantes. (!)

    Bullying é comum, mas não deveria ser. Apesar de que isso acontece em qualquer país… só que aqui não fazem nada. Às vezes não são só os alunos que discriminam.

    A diretoria de um lugar que estudei recomendou que meus parentes procurassem psiquiatra pra mim. Eles também quiseram me tratar como se eu fosse uma deficiente ou algo do tipo. Tenho algumas dificuldades, mas fora isso, não sou tão diferente assim, eu acho.

    Os professores são mal pagos e aulas vagas são extremamente comuns.

    Falta assistência médica em caso de acidentes. Deveria ter pelo menos uma enfermaria pra cuidar de machucados. Ter ‘counselor’ pra ajudar com a saúde mental já diminuiria um pouco os casos de bullying.

    E por assim vai.

    Esses dias, o povo anda protestando porque aqui em SP, a prefeitura decidiu que vai separar os alunos do ensino infantil, fundamental e médio, então, por exemplo, se eu for do ensino médio e meu irmão do fundamental, ele vai ter que estudar em um lugar diferente, mais longe.
    Eles querem fechar certas unidades pra abrirem creches e/ou escolas técnicas no lugar.

    A justificativa é: os estudantes aprendem mais se estiverem juntos com pessoas da mesma faixa etária.

    Eu discordo, pra mim não faz diferença alguma, até porque existem séries diferentes.

    Quem sai perdendo é a população.

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