[ Além do Vídeo ] Está na hora de banir armas?

Ontem eu postei esse vídeo:

Como eu esperava, iniciou-se um shitstorm nos comentários do vídeo, com as já esperadas acusações de esquerdopatia, comunismo, etc.

Acho que uma das partes mais frustrantes de criar conteúdo na internet é ser obrigado a lidar com esse tipo de pessoa — alguém que sequer compreendeu o ponto que você fez (ou seja, que parece incapaz de processar o significado de um simples vídeo de alguns minutos), mas que acha que analisou todas as nuances delicadas da situação socio-cultural de um país com 200 anos de existência e sabe exatamente o que se deve fazer pra consertar um problema endêmico que dura várias gerações. E cujas conclusões são tão infalíveis que você precisa ser obviamente burro e/ou investido cegamente em algum partido político pra negar.

Essa arrogância lamentável no discurso político atual brasileiro me deixa triste por vocês, que tem que aturar isso diariamente na vida real.

Caso seja necessário explicar mais cuidadosamente: eu não sou favor do desarmamento. Já argumentei mais em favor dos seus méritos, mas aceito a situação de que condições desesperadas requerem medidas desesperadas. Eu continuo rejeitando todos os pseudo-argumentos das grandes figuras em favor do armamentisto — que se resumem a comparações míopes dos níveis de segurança em países onde posse de armas é menos regulada, e a conclusão apressada de que um é a causa do outro. Soa mais ou menos como dizer “carros tem antenas, e carros andam rápido, logo, o motivo pelo qual carro andam rápido é a antena!”, mas eu não acho que eles percebem isso. E o constante apelo por esse tipo de “argumento” me deixa sem vontade de da-los razão no debate.

Eu continuo convencido que o PRINCIPAL fator na qualidade de vida de um país são as condições econômicas. Sem querer soar muito como os Daniels Fragas da internet afora, (quase) tudo se deriva, inevitavelmente, das políticas econômicas de um país. É através de medidas econômicas falidas que se caga um país, e igualmente, é consertando essa base que teremos esperança de um Brasil melhor. Educação tá ali pertinho no páreo, também.

Aí vem um grande porém.

O processo de mudança socioeconômica é um plano a longo prazo, coisa de 50 anos ou mais. Não dá pra ficar assistindo impassível 50 mil assassinatos anuais na esperança de que quandos seus NETOS estiverem terminando a faculdade o Brasil TALVEZ será o país melhor.

O ideal seria uma mudança socioeconômica que tornasse a “empreitada criminosa”, digamos assim, algo indesejável ou desnecessária. Meter bala na vabagundagem seria menos eficiente do que não ter tanto vagabundo pra começo de conversa.

Veja o caso do Canadá, por exemplo — onde a economia é bastante livre (embora com algumas medidas estatais de cunho social ainda rolando; seria desonesto omitir esse detalhe) o salário do cidadão médio é de 50 mil dólares por ano. No Brasil, a família média ganha 25 mil dólares por ano. Com menos oportunidades e menos dinheiro, a vida de crime parece uma opção viável.

O problema é, primariamente, econômico. Só que não dá pra ver cenas como as do vídeo acima e pensar “ah, não, coitados. São pessoas sem oportunidades, são vítimas da sistemática opressão do status quo” e não sei o que mais. Eu posso entender, do ponto de vista teórico, os mecanismos que levam alguém a recorrer ao crime — mas não preciso aceitar isso, ou ficar impassível diante da situação. Eu sei que a galera de Humanas se recusa a atribuir qualquer responsabilidade pessoal a um marginal que sai na rua com uma faca na intenção de perfurar o fígado de um trabalhador que voltava pra sua esposa e dois filhos ao fim do expediente, mas EU não preciso me recusar.

Aliás, posso aceitar ambos fatores: o sujeito está realmente em clara desvantagem social se comparado a mim, mas isso não o dá aval pra esfaquear alguém em plena luz do dia pra roubar um cordão de ouro — e algo precisa ser feito AGORA em relação a isso.

Por isso, e chegando ao cerne do debate do vídeo, talvez esteja na hora SIM de dar ao povo uma chance de se defender. Não encaro isso como a solução final; o discurso de alguns é que isso é A saída para o problema da segurança pública no Brasil e eu sinto uma vontade simultânea de rir e chorar porque esse tipo de miopia vinda de pessoas com um certo alcance político não tem como gerar bons resultados.

Só que é pelo menos uma alternativa enquanto a Terra Prometida da plena igualdade socioeconômica não chega, se é que um dia chegará ao Brasil.

Aliás, acho que a maior ironia de todo esse debate é que a galera da esquerda socialmente consciente com diploma de Humanas prega incondicionalmente que se dêem a todos oportunidades iguais… a menos que esta seja a oportunidade igual de se defender.

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comments

19 comments

  1. O armamento da população deveria vir acompanhado de uma série de testes psicológicos e de boa conduta, no estilo “na situação X, o que você faria?”. Se até pra tirar a carteira de motorista são requeridos vários destes testes, deveriam ser obrigatórios também pra quem quiser uma arma. Dá uma regulada no acesso, mas não proíbe. E também algo como “segurança com armas e “como usar uma arma corretamente”.

    1. Felipe, hoje, no Brasil já é assim. Se você quiser uma Arma não basta apenas comprar, precisa passar por varias etapas, uma delas os testes ‘psicológicos e de boa conduta’…

      Caso você esteja se referindo a como deveria ser no EUA, então concordo com você.

      1. Tu ainda precisa de uma autorização do delegado federal responsável pra ter a licença, que tradicionalmente é negada para quem não tinha arma antes, ou pra quem não é colecionador

        1. Sim, e esse é o real problema. E é o que quem é a favor por exemplo da PL 3722/12 tenta derrubar. Não se pode deixar a autorização de forma tão subjetiva.
          Deve ser conforme outras coisas que precisam de alguma autorização ou você está apto ou não. Da forma como está hoje é virtualmente impossível conseguir a autorização dentro dos conformes.

  2. “Como eu esperava, iniciou-se um shitstorm” hauauha Izzy e seus termos em inglês, e sobre aguentar diariamente esses retardados, você se acostuma o mais rápido do que parece e depois nem lembra mais deles, nada que um unfolow no Facebook ou uma ignorada básica não faça.

  3. IZZY eu seria contra armar o cidadão se NINGUÉM tivesse acesso à armas. Agora, no Brasil qualquer noia com 300 reais compra um “oitao” ou até mesmo armas que entram contrabandeadas no país. E as pessoas que seguem a lei ficam a mercê desses bandidos sem ter como se defender. Em suma, se desarmarem os bandidos também eu aceito o desarmamento, caso o contrário quero minha arma para defender a mim e a minha família.

  4. A liberação da compra de armar pela população alem de diminuir a criminalidade e facilitar a vida de malucos sociopatas (que seriam malucos sociopatas mesmo desarmados) tem o aspecto moral, proibir deliberadamente nega o direito do individuo de se utilizar do dinheiro como bem entender com o plus de diminuir a chance dele preservar a integridade física.
    A solução do pais vem de uma populaça que seja livre para progredir sem o estado estorvar toda tentativa de gerar riqueza. Qualidade de vida para uma nação é algo que depende de um longo processo no qual existam bases sólidas de desenvolvimento.

  5. Sabe Izzy, uma questão tensa no Brasil é a impunidade. no estado do Rio de Janeiro 50% dos crimes, furtos, assaltos, homicídios, sequestros etc, não chegam e ser julgados e os que são julgados nem todos cumprem pena pois não tem vaga em cadeia. Falta estrutura de cadeia, faltam celas, faltam funcionários para trabalhar em cadeia. Enfim, enquanto os governos gastarem mais com publicidade do que com saúde, educação e segurança publica, as coisas vão só piorar por aqui.

    1. Vou te dizer que esse número de 50% me pareceu até alto. Tenho vários conhecidos que desistiram de fazer BO por roubo porque a polícia dificulta de todas as formas possíveis. Um outro, por ter sido agressão, insistiu até conseguir fazer. Mas demorou mais de 10 horas para fazerem. Não tem um zero a mais ali, não. Foram mais de dez horas na delegacia. :-/ Minha experiência com a polícia foi apenas não mandarem viatura quando chamei para avisar de uma ocorrência. Tanto essas ocorrências que são ignoradas quanto esses BOs que não são feitos não entram nos números oficiais.

  6. O que me preocupa são os efeitos colaterais de uma liberação como essa.

    Já vi brigas de trânsito que, se um tivesse uma arma, seria uma tragédia. Prevejo nego se matando por briga de torcida, por briga política, ou qualquer outro motivo fútil.

    Não que isso não exista, mas em uma sociedade imediatista e inconsequente, colocar armas a disposição de todos seria mesmo a estratégia de segurança mais inteligente?

    Lembra o vídeo do cara que atirou no vizinho que invadiu sua casa (aquele da porta de papelão)? Agora imagina que esse vizinho doido também tivesse uma arma de fogo…

  7. Kid,

    Apenas complementando, e talvez lhe ajudando a ficar mais facilmente do lado pro armas para população…

    Concordo com você em vários pontos, e em alguns dos tópicos a seguir serei redundante, mas apenas para esclarecer alguns pontos para você e para quem mais se interessar em ler este comentário:

    1 -- Por mais que no Brasil nossa “independência” tenha vindo de maneira um pouco diferente em relação dos EUA, a premissa de ‘o povo tem o direito de estar preparado para se defender dos inimigos internos e externos, governo ou não’ é uma boa ideia e já vale levar em consideração mesmo para o Brasil

    2 -- O que poderia provocar os mesmos massacres que acontecem nos EUA aqui no Brasil, ao meu ver é mais algo em relação a cultura que necessariamente a liberação das armas. Se alguém quiser fazer uma chacina, vai fazer, com ou sem arma, legalizada ou não. Vide no nosso caso o ocorrido la em realengo. Psicopatas e assassinos encontram um jeito…

    3 -- Fora os que talvez já estejam um pouco inflamados com a discussão de longa data sobre o assunto… Não partimos da ideia que ter a posse de arma vai acabar com a criminalidade de uma vez. Apenas garantirá em alguns casos a chance de se defender e sim inibir alguns bandidos, não todos, mas alguma diminuição é melhor que nenhuma, ou pior, o aumento ano a ano como temos visto.

    3.1 -- Não se espera também que após a liberação o estado não tenha mais que cuidar da segurança pública e nem pare com outras medidas para reduzir criminalidade. Apenas que se crie mais um ‘braço’ auxiliando nisso. Até por que o estado não é onipresente e nem sempre poderá socorrer a tempo todos os cidadãos.

    4 -- No Brasil já foi permitida o cidadão ter sua arma, a proibição veio, foi feita a consulta popular, o povo disse que era contra a proibição e ignoraram solenemente a vontade do povo. Há quem diga que o povo não sabe o que é melhor pra ele. Mas sendo um país democrático tem que se respeitar. Fora o fato de anos após o estatuto do desarmamento estar em vigor os crimes cometidos com arma de fogo só aumentaram… então a proibição não surtiu nenhum efeito benéfico para a sociedade.

    5 -- Por mais que a população brasileira diga que quer ter este direito garantido, pesquisas realizadas mostraram que a maioria, após a liberação, não pretende adquirir uma arma. Apenas quer ter garantido o direito.

    No mais acho que os EUA deveriam talvez adotar algumas regras que filtrassem pelo menos os casos mais críticos de pessoas que não tem minimas condições de possuir uma arma de fogo.

    abs

    1. Só uma correção no seu comentário. A proibição em portar armas existe, porém, o povo nunca foi consultado quanto a ela. A consulta que houve no Referendo de 2005 foi referente à possível proibição do comércio de armas e munições em território nacional. O não ganhou e está sendo respeitado, uma vez que existe o comércio de armas e munições no Brasil. Além disso, o cidadão pode, ainda que seja muito difícil, possuir uma arma, ele não pode portá-la sem prévia autorização e uma série de burocracias. Pode ter em casa, não pode andar com ela. No mais, não sabemos se a proibição não surtiu nenhum efeito benéfico na sociedade, uma vez que não podemos projetar como seriam as mesmas estatísticas sem a proibição. Há inúmeros fatores que influem direta ou indiretamente nessa questão, o que torna impossível afirmarmos se estaríamos melhor ou pior sem a proibição.

      1. Vitor. Quando você propõem uma lei que tira uma liberdade do cidadão em prol a ele o minimo que se espera é que ela trata um benefício real para a sociedade. Podemos projetar tendo como base 10 anos antes do estatuto do desarmamento e pegarmos 10 anos depois. Ao verificarmos isso vemos que não houve diminuição muito menos manutenção do numero de homicídios com arma de fogo. O que nos mostra que manter o cidadão desarmado só serve para uma coisa. Manter o cidadão desarmado. O bandido não se preocupa em comprar e registrar sua arma, não se preocupa em entregar sua arma(ou ferramenta de “trabalho”, se preferir) para a policia e não tem como prioridade roubar arma de cidadão se pode conseguir armas ilegais com poder de fogo mair através do tráfico de armas.

        Então se o propósito da lei que era melhorar a segurança do cidadão não foi cumprido. O minimo seria rever se não esta na hora de voltar atrás com uma lei que apenas diminuiu a chance de uma pessoa de se defender.

  8. Imagina que beleza se a população pudesse sair armada na rua sem qualquer restrição, aquelas manifestações de 2013 que teve em todas cidades e milhões de pessoas que invadiram o congresso acabaria bem melhor, em uma reforma política de verdade e instantânea sem burocracia. Dilma jamais seria reeleita, não teria Copa, as passagens não aumentariam 20 centavos, a conta da luz não aumentaria 50%, talvez nem faltasse água em SP já que não teria tanta gente pra consumir-la.

    1. Acontece que nenhum desarmamentista sério defende o armamento irrestrito e indiscriminado aqui no Brasil.
      Até o mais ferrenho dos armamentistas é a favor de mecanismos de controles, desde que estes sejam razoáveis e justificados.

  9. Armar-se só é resposta imediata contra a violência se as pessoas fizerem extensos cursos de manuseio, técnicos e psicológicos. Isso não acontece, armas são adquiridas por pessoas despreparadas e acabam sendo alternativa fácil para que as armas cheguem a criminosos.

    1. “Armar-se só é resposta imediata contra a violência se as pessoas fizerem extensos cursos de manuseio, técnicos e psicológicos. Isso não acontece”, essa é uma das falácias mais repetidas, para se ter uma arma no Brasil, legalmente falando, deve-se passar por um curso de manuseio, testes psicológicos e técnicos. A maior crítica dos armamentistas é a discricionariedade e o excesso de burocracia que impedem o cidadão de portar armas legalmente. Em resumo, empurram boa parte da população, que precisa dessas armas, para a ilegalidade. Gostaria de sabe o que é preferível, cidadãos armados legalmente ou cidadãos armados ilegalmente? Mais uma dúvida, se essas armas dos cidadãos “despreparados” são as armas que chegam aos criminosos, me explica como um cidadão consegue comprar um fuzil legalmente?

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