O texto é uma repostagem. Estou delirando com cenas de filmes indianos de “ação” no YouTube e achei que podia trazer este clássico ao conhecimento dos novos leitores do site. Se você já leu, paciência — amanhã tem post novo!

Ou leia de novo. É grátis!

Você deve saber que a Índia, além de monopolizar call centers e competir com a China pela posição de provável superpotência mundial nos próximos 20 anos, tem uma afeição por cinema.

Acredito que isso aí é o equivalente indiano de “Senhor e Senhora Smith”. London deve ser “Smith” em indiano.

E a máquina do cinema indiano – referida carinhosamente como “Bollywood” – não se limita a comédias românticas não recomendadas pra diabéticos nem drama mela-cueca, não! De vez em quando um estúdio qualquer libera alguns quatrilhões de rúpias (a Índia, como qualquer país fodido que se preze, deve ter uma inflação astronômica), e algum Steven Spielberg de bigode põe a mão na massa e tentam emular a ação cinematográfica americana.

Olha só. Se você alguma vez se lamentou pelo fato de que o cinema brasileiro não faz tentativas similares, rapidinho você vai entender que isso é na verdade uma benção. Xeu explicar por que.

O cinema indiano é que nem a menina de 7 anos que, após observar a mãe se arrumando pro trabalho, pega o estojo de maquiagem e pinta a cara com oito cores diferentes, passa baton na orelha, come um pouco do ruge e vomita em cima da cama: através da observação eles pegaram a idéia principal, mas a execução – além de falhar catastroficamente – é uma das coisas mais engraçadas que você já viu na vida.

Estava eu noutro dia passeando por um desses fóruns em que os usuários, unidos pelo amor pela pornografia, trocam largas quantidades de links pra todo tipo imaginável putaria. Um dos foristas devia ter dado Ctrl C no link errado, porque o que ele postou no tópico foi isto aqui.

O épico acima se chama “Alluda Majaka”, e a única coisa que sei sobre ele é que é um filme de ação indiano lançado em 1995.

O forista misterioso, que nunca mais retornou ao tópico aliás, não nos deu nenhum contexto em relação ao filme ao qual a incrível cena pertence. Fomos obrigados a teorizar que é um trecho de Puta Que Pariu! – O Filme.

O filme (vou tratar a cena como se fosse O FILME, tá? Mais fácil que ficar falando “naquela cena do filme…” o tempo todo) abre com o nosso Herói algemado e sendo levado de camburão à delegacia – provavelmente.

Que crime o sujeito teria cometido? Podemos ver que ele adere pelo menos a uma das leis indianas mais importantes, que é manter um bigode de pelo menos 8 centímetros de comprimento. Então, não deve ser um completo fora-da-lei.

Como o Herói tinha coisas mais importantes a fazer naquele dia (“não ser espancado por policiais corruptos de terceiro mundo”, logo após “levar o menino pro dentista”), ele nem pensa duas vezes – com potentes chutes bem no meio do peito de seus captores, ele os projeta pra fora do camburão, derrubando as portas laterais que estavam presas por um clipe de papel aparentemente.

O Herói salta pra fora do veículo, desce o cacete em mais um policial armado. Enquanto ambos dançam um balé coreografado, o policial dispara vários projéteis.

Considerando que a Índia é um dos países mais populosos do mundo, cada uma daquelas balas deve ter matado ao menos cinco transeuntes. E se os tiros forem à queima-roupa, estamos falando de vários metros de bigodes chamuscados.

O policial então é arremessado contra o primeiro de muitos parabrisas que explodirão ao longo do filme. Um outro tira apanha o rádio e chama reforços, e então começa a perseguição mais alucinante (e surreal) jamais capturada em celulóide.

O Herói sai correndo no meio de um engarrafamento, e um dos policiais acredita que é uma boa idéia persegui-lo DE MOTO, EM ALTA VELOCIDADE. Previsivelmente o motociclista se enfia no primeiro veículo  que bloqueia sua trajetória, e o impacto projeta o pobre policial a órbita geosíncrona.

blastoff

O Herói jamais pára, nem mesmo após ter praticamente iniciado o programa espacial indiano. Dois jipes tentam bloquear sua correria, mas o habilidoso indiano pula por cima dos dois como se fosse um ginasta olímpico. Se o Herói fosse um personagem de 3D&T, ele e seu bigode juntos teriam oito pontos de Habilidade.

O cara então decide que esse negócio de andar no chão é meio perigoso e decide sair correndo por CIMA dos carros. Quando menos se espera, o espaço aéreo da região é invadido por uma moto voadora inexplicável (que diabo de técnica de perseguição policial é essa? “Jogue uma moto contra o suspeito!”?), mas o Herói desvia com habilidade e escapa.

E aparentemente ele gastou toda a habilidade dele, porque na queda ele engancha o pé entre dois carros. De longe vemos outro jipe da polícia, em alta velocidade ao seu encalço. Nosso Herói se tornará pizza de asfalto em poucos segundos, e os créditos rolarão.

O nosso MacGyver asiático então remove um pedaço do carro sob o qual ele se encontra preso, e o arremessa contra o jipe que se aproxima. O troço se prende à grade do jipe e por motivos que desafiam tudo que conhecemos sobre as leis naturais que regem o universo, isso faz o jipe sair voando.

Futuramente disponível no Flight Simulator - Indian Edition

A única maneira dessa sequência fazer sentido é se as viaturas policiais indianas têm um “modo avião”, assim como o meu celular, mas de forma mais literal. O susto provocado pelo cano arremessado contra o jipe fez o policial apertar um botão sem querer, que causou o jipe a decolar com destino à altitude comercial de trinta mil pés.

Infelizmente como a decolagem súbita não foi antecipada pelo motorista/piloto,  ele falhou em checar todos os sistemas pré-vôo. Por isso, o reversor da turbina invisível (outra tecnologia indiana que um dia dominará o ocidente) não foi desativado, resultado num desastre aéreo que vitimou os tripulantes do carro/aeronave.

Agora, a próxima cena é importante. Eu imagino que eles mataram uns sete ou oito cavalos filmando essa sequência.

Uma inexplicável cavalaria aparece em perseguição do Herói. Por que afinal de contas, se motos e carros não conseguiram alcançar o cara, talvez um downgrade nos modos de transport… wait, isso não faz o menor sentido, porra! Eu imagino que o diretor do filme ganhou esses cavalos numa rifa ou algo assim, e decidiu que ia coloca-los na fita não importa o que.

(Aliás, deixa eu mencionar aqui que a trilha que toca na cena é familiar porque uma musiquinha muito semelhante foi usada no filme A Rocha)

Na tentativa de apreender o fugitivo, um dos policiais montandos enfia as patas do cavalo por mais um parabrisas. O Herói, mais safo que um sabonete besuntado com KY, escapa por um fio mais uma vez.

É nessas que dois dos tiras chegam mais perto e, usando laços que soam como QUALQUER COISA menos laços, conseguem capturar o Herói. E eles saem arrastando-o pela rua, levantando ainda mais questões sobre os procedimentos policiais indianos.

Eis que um poste se aproxima. Os policiais que seguram as cordas vão um pra cada lado do post, o que implica que eles planejavam realmente matar o protagonista, ou não entendem como o corpo humano funciona.

O Herói, agindo rapidamente pra salvar a própria vida salta do chão e… acerta o poste com a virilha. Isso mesmo. ESSE ERA O PLANO DELE: bloquear o impacto com os testículos.

Essa acrobacia – que se tivesse acontecido no planeta Terra teria partido o personagem em duas fatias simétricas – não apenas salva a vida do cara, como também faz os cavalos que o arrastavam dêem uma cambalhota em câmera lenta e caiam num mangue que brotou ali nas rendondezas.

Alguém escreveu essa cena, leu-a, e pensou "yep, é assim que o mundo real funciona"

E pra tornar a coisa maleficamente hilária, você pode ver claramente os fios que usaram pra fazer os cavalos tropeçarem de cabeça na água rasa. E seus jóqueis saem voando, como praticamente tudo no filme.

Mas ainda há outros policiais montados atrás do protagonista. Usando a corda que o prendia (e que não está atada a nada, lembre-se), ele derruba o resto da cavalaria inteira.

Novamente, atente pros fiozinhos atados nas pernas dos pobres animais. Dá pra ver elas por um segundo, logo antes do momento em que os bichos enfiam a cara no chão enquanto desenvolviam velocidade máxima.

O Herói, que até então tava se dando muito bem a pé, decide pegar emprestado um dos cavalos que não sofreu traumatismo craniano na queda. E surgem do éter indiano mais policiais montados correndo atrás do cara.

E chega um momento icônico do filme, imortalizado na internet no formato .GIF. Quando um caminhão bloqueia a trajetória do Herói e seu cavalo, o cara faz a coisa mais fisicamente impossível jamais concebida por um escritor de filme de ação. Nem quando brincava com meus bonequinhos eu desrespeitava tanto as leis universais que descrevem movimento e fricção.

O cara poderia ter pulado o caminhão com facilidade, já que  a cena inteira parece acontecer num cenário montado na Lua. Ao invés disso, ele DESLIZA COM O CAVALO POR BAIXO DO CAMINHÃO, como se este estivesse deitado em cima de vários skates.

Já o jipe que perseguia o cara passa voando sobre o caminhão, de acordo com o esperado.

cena

Tou sem palavras pra descrever o resto do filme. Há mais sequências-clichê de gente (e objetos inanimados) voando, parabrisas sendo estilhaçados, nego caindo por cima de balcão de feira de fruta, tá tudo lá.

Tal qual o exemplo da criança tentando se maquiar, todos os elementos da perseguição hollywoodiana estão lá, mas misturados exageradamente um por cima dos outros, de uma forma que o resultado final é praticamente uma paródia do objetivo desejado.

E pra não dizerem que faltou explosões, a seqência termina com a ignição espontânea de uma frota inteira de carros, e o uso mais evidentemente óbvio de chroma key que eu já vi na vida.

Industrial Light and Magic, filial de Nova Déli

Se você achava que o uso da técnica em Chaves era hilariamente forçado, think again.

A cômica incorência do filme se estende até ao artigo da Wikipédia que o descreve. Segundo ela,

The movie was directed by E.V.V. Satyanarayana and was released in 1995, at a time when Chiranjeevi was slightly less obese than usual.

Ou seja, o filme foi lançado em 95, quando o ator principal “era menos obeso do que de costume”. Não “menos gordo”, veja bem.

Menos OBESO. O ator principal da película é alguém que, quando em seu melhor condicionamento físico, é referido como “MENOS OBESO”.

O humor não-intencional de Alluda Majaka é tão denso que passa por osmose até mesmo pras mídias relacionadas, como esse artigo da Wikipédia. O descompromisso com a realidade é tamanho que, perto desse filme, Comando Para Matar e Stallone Cobra parecem documentários.

Temo que o imperialismo norteamericano que oprime a indústria de locadoras aqui  do bairro me impedirá de assistir Alluda Majaka em toda a sua glória e esplendor, mas eu sinto que esses cinco minutos aí do youtube me mostraram tudo que eu precisava saber sobre o filme.

(Postado originalmente em março de 2010)

Alluda Majaka

Eu não sei nem o que dizer sobre o poster do filme.

Você deve saber que a Índia, além de monopolizar call centers e competir com a China pela posição de provável superpotência mundial nos próximos 20 anos, tem uma afeição por cinema.

Acredito que isso aí é o equivalente indiano de “Senhor e Senhora Smith”. London deve ser “Smith” em indiano.

E a máquina do cinema indiano – referida carinhosamente como “Bollywood” — não se limita a comédias românticas não recomendadas pra diabéticos nem drama mela-cueca, não! De vez em quando um estúdio qualquer libera alguns quatrilhões de rúpias (a Índia, como qualquer país fodido que se preze, deve ter uma inflação astronômica), e algum Steven Spielberg de bigode põe a mão na massa e tentam emular a ação cinematográfica americana.

Olha só. Se você alguma vez se lamentou pelo fato de que o cinema brasileiro não faz tentativas similares, rapidinho você vai entender que isso é na verdade uma benção. Xeu explicar por que.

O cinema indiano é que nem a menina de 7 anos que, após observar a mãe se arrumando pro trabalho, pega o estojo de maquiagem e pinta a cara com oito cores diferentes, passa baton na orelha, come um pouco do ruge e vomita em cima da cama: através da observação eles pegaram a idéia principal, mas a execução – além de falhar catastroficamente – é uma das coisas mais engraçadas que você já viu na vida.

Estava eu noutro dia passeando por um desses fóruns em que os usuários, unidos pelo amor pela pornografia, trocam largas quantidades de links pra todo tipo imaginável putaria. Um dos foristas devia ter dado Ctrl C no link errado, porque o que ele postou no tópico foi isto aqui.

O épico acima se chama “Alluda Majaka”, e a única coisa que sei sobre ele é que é um filme de ação indiano lançado em 1995.

O forista misterioso, que nunca mais retornou ao tópico aliás, não nos deu nenhum contexto em relação ao filme ao qual a incrível cena pertence. Fomos obrigados a teorizar que é um trecho de Puta Que Pariu! – O Filme.

O filme (vou tratar a cena como se fosse O FILME, tá? Mais fácil que ficar falando “naquela cena do filme…” o tempo todo) abre com o nosso Herói algemado e sendo levado de camburão à delegacia – provavelmente.

Que crime o sujeito teria cometido? Podemos ver que ele adere pelo menos a uma das leis indianas mais importantes, que é manter um bigode de pelo menos 8 centímetros de comprimento. Então, não deve ser um completo fora-da-lei.

Como o Herói tinha coisas mais importantes a fazer naquele dia (“não ser espancado por policiais corruptos de terceiro mundo”, logo após “levar o menino pro dentista”), ele nem pensa duas vezes – com potentes chutes bem no meio do peito de seus captores, ele os projeta pra fora do camburão, derrubando as portas laterais que estavam presas por um clipe de papel aparentemente.

O Herói salta pra fora do veículo, desce o cacete em mais um policial armado. Enquanto ambos dançam um balé coreografado, o policial dispara vários projéteis.

Considerando que a Índia é um dos países mais populosos do mundo, cada uma daquelas balas deve ter matado ao menos cinco transeuntes. E se os tiros forem à queima-roupa, estamos falando de vários metros de bigodes chamuscados.

O policial então é arremessado contra o primeiro de muitos parabrisas que explodirão ao longo do filme. Um outro tira apanha o rádio e chama reforços, e então começa a perseguição mais alucinante (e surreal) jamais capturada em celulóide.

O Herói sai correndo no meio de um engarrafamento, e um dos policiais acredita que é uma boa idéia persegui-lo DE MOTO, EM ALTA VELOCIDADE. Previsivelmente o motociclista se enfia no primeiro veículo  que bloqueia sua trajetória, e o impacto projeta o pobre policial a órbita geosíncrona.

blastoff

O Herói jamais pára, nem mesmo após ter praticamente iniciado o programa espacial indiano. Dois jipes tentam bloquear sua correria, mas o habilidoso indiano pula por cima dos dois como se fosse um ginasta olímpico. Se o Herói fosse um personagem de 3D&T, ele e seu bigode juntos teriam oito pontos de Habilidade.

O cara então decide que esse negócio de andar no chão é meio perigoso e decide sair correndo por CIMA dos carros. Quando menos se espera, o espaço aéreo da região é invadido por uma moto voadora inexplicável (que diabo de técnica de perseguição policial é essa? “Jogue uma moto contra o suspeito!”?), mas o Herói desvia com habilidade e escapa.

E aparentemente ele gastou toda a habilidade dele, porque na queda ele engancha o pé entre dois carros. De longe vemos outro jipe da polícia, em alta velocidade ao seu encalço. Nosso Herói se tornará pizza de asfalto em poucos segundos, e os créditos rolarão.

O nosso MacGyver asiático então remove um pedaço do carro sob o qual ele se encontra preso, e o arremessa contra o jipe que se aproxima. O troço se prende à grade do jipe e por motivos que desafiam tudo que conhecemos sobre as leis naturais que regem o universo, isso faz o jipe sair voando.

Futuramente disponível no Flight Simulator - Indian Edition

A única maneira dessa sequência fazer sentido é se as viaturas policiais indianas têm um “modo avião”, assim como o meu celular, mas de forma mais literal. O susto provocado pelo cano arremessado contra o jipe fez o policial apertar um botão sem querer, que causou o jipe a decolar com destino à altitude comercial de trinta mil pés.

Infelizmente como a decolagem súbita não foi antecipada pelo motorista/piloto,  ele falhou em checar todos os sistemas pré-vôo. Por isso, o reversor da turbina invisível (outra tecnologia indiana que um dia dominará o ocidente) não foi desativado, resultado num desastre aéreo que vitimou os tripulantes do carro/aeronave.

Agora, a próxima cena é importante. Eu imagino que eles mataram uns sete ou oito cavalos filmando essa sequência.

Uma inexplicável cavalaria aparece em perseguição do Herói. Por que afinal de contas, se motos e carros não conseguiram alcançar o cara, talvez um downgrade nos modos de transport… wait, isso não faz o menor sentido, porra! Eu imagino que o diretor do filme ganhou esses cavalos numa rifa ou algo assim, e decidiu que ia coloca-los na fita não importa o que.

(Aliás, deixa eu mencionar aqui que a trilha que toca na cena é familiar porque uma musiquinha muito semelhante foi usada no filme A Rocha)

Na tentativa de apreender o fugitivo, um dos policiais montandos enfia as patas do cavalo por mais um parabrisas. O Herói, mais safo que um sabonete besuntado com KY, escapa por um fio mais uma vez.

É nessas que dois dos tiras chegam mais perto e, usando laços que soam como QUALQUER COISA menos laços, conseguem capturar o Herói. E eles saem arrastando-o pela rua, levantando ainda mais questões sobre os procedimentos policiais indianos.

Eis que um poste se aproxima. Os policiais que seguram as cordas vão um pra cada lado do post, o que implica que eles planejavam realmente matar o protagonista, ou não entendem como o corpo humano funciona.

O Herói, agindo rapidamente pra salvar a própria vida salta do chão e… acerta o poste com a virilha. Isso mesmo. ESSE ERA O PLANO DELE: bloquear o impacto com os testículos.

Essa acrobacia – que se tivesse acontecido no planeta Terra teria partido o personagem em duas fatias simétricas – não apenas salva a vida do cara, como também faz os cavalos que o arrastavam dêem uma cambalhota em câmera lenta e caiam num mangue que brotou ali nas rendondezas.

Alguém escreveu essa cena, leu-a, e pensou "yep, é assim que o mundo real funciona"

E pra tornar a coisa maleficamente hilária, você pode ver claramente os fios que usaram pra fazer os cavalos tropeçarem de cabeça na água rasa. E seus jóqueis saem voando, como praticamente tudo no filme.

Mas ainda há outros policiais montados atrás do protagonista. Usando a corda que o prendia (e que não está atada a nada, lembre-se), ele derruba o resto da cavalaria inteira.

Novamente, atente pros fiozinhos atados nas pernas dos pobres animais. Dá pra ver elas por um segundo, logo antes do momento em que os bichos enfiam a cara no chão enquanto desenvolviam velocidade máxima.

O Herói, que até então tava se dando muito bem a pé, decide pegar emprestado um dos cavalos que não sofreu traumatismo craniano na queda. E surgem do éter indiano mais policiais montados correndo atrás do cara.

E chega um momento icônico do filme, imortalizado na internet no formato .GIF. Quando um caminhão bloqueia a trajetória do Herói e seu cavalo, o cara faz a coisa mais fisicamente impossível jamais concebida por um escritor de filme de ação. Nem quando brincava com meus bonequinhos eu desrespeitava tanto as leis universais que descrevem movimento e fricção.

O cara poderia ter pulado o caminhão com facilidade, já que  a cena inteira parece acontecer num cenário montado na Lua. Ao invés disso, ele DESLIZA COM O CAVALO POR BAIXO DO CAMINHÃO, como se este estivesse deitado em cima de vários skates.

Já o jipe que perseguia o cara passa voando sobre o caminhão, de acordo com o esperado.

cena

Tou sem palavras pra descrever o resto do filme. Há mais sequências-clichê de gente (e objetos inanimados) voando, parabrisas sendo estilhaçados, nego caindo por cima de balcão de feira de fruta, tá tudo lá.

Tal qual o exemplo da criança tentando se maquiar, todos os elementos da perseguição hollywoodiana estão lá, mas misturados exageradamente um por cima dos outros, de uma forma que o resultado final é praticamente uma paródia do objetivo desejado.

E pra não dizerem que faltou explosões, a seqência termina com a ignição espontânea de uma frota inteira de carros, e o uso mais evidentemente óbvio de chroma key que eu já vi na vida.

Industrial Light and Magic, filial de Nova Déli

Se você achava que o uso da técnica em Chaves era hilariamente forçado, think again.

A cômica incorência do filme se estende até ao artigo da Wikipédia que o descreve. Segundo ela,

The movie was directed by E.V.V. Satyanarayana and was released in 1995, at a time when Chiranjeevi was slightly less obese than usual.

Ou seja, o filme foi lançado em 95, quando o ator principal “era menos obeso do que de costume”. Não “menos gordo”, veja bem.

Menos OBESO. O ator principal da película é alguém que, quando em seu melhor condicionamento físico, é referido como “MENOS OBESO”.

O humor não-intencional de Alluda Majaka é tão denso que passa por osmose até mesmo pras mídias relacionadas, como esse artigo da Wikipédia. O descompromisso com a realidade é tamanho que, perto desse filme, Comando Para Matar e Stallone Cobra parecem documentários.

Temo que o imperialismo norteamericano que oprime a indústria de locadoras aqui  do bairro me impedirá de assistir Alluda Majaka em toda a sua glória e esplendor, mas eu sinto que esses cinco minutos aí do youtube me mostraram tudo que eu precisava saber sobre o filme.

(Este texto foi originalmente postado em maio de 2010)

Você alguma vez se chateou imensamente por algo completamente banal e inconsequente? Tou me referindo àquela bobagem totalmente inofensiva, e que você pode reverter com pouco ou às vezes nenhum esforço, que não deixa qualquer sequelas permanentes.

Hoje isso aconteceu comigo.

No meio dos anos 80, a Coca-Cola lançou uma promoção em que você levava algumas tampinhas de garrafa e uma quantia desprezível de dinheiro aos “postos de troca” e obtinha iô-iôs iguais a estes aí:

ioantigo

Eu nasci em 1984, então obviamente os únicos iô-iôs dessa série aí que eu tive contato foram as relíquias que meus tios deixaram pra trás nos seus antigos quartos na casa da minha avó.

Felizmente nos meus queridos anos 90 a promoção dos iô-iôs (“iô-iô” é uma palavra incrivelmente chata de digitar, tenta aí procê ver) voltou, com uma remodelação dos brinquedos:

yoyo

Foto do Roberto Tumminelli

Eu sempre tive a teoria de que a promoção dos iô-iôs (sério, não aguento mais digitar essa palavra. Tu tentou aí?) era o resultado de algum tipo de ordem judicial com o objetivo de responsabilizar a coca-cola pelos bilhões de tampinhas de garrafa que se acumulavam nas sarjetas do nosso Brasil. Nos meses seguintes ao início da campanha, não se achava mais UMA SÓ tampinha no chão em todo o solo nacional.

Então, assim como muitos de vocês, fucei todas as esquinas num raio de dez quilômetros da minha casa (não se consumia muito refrigerante lá em casa, aí tive que dar uma de indigente catador de latinha mesmo), economizei duas ou três idas à cantina da escola, e adquiri meu próprio ioio. Sim, “ioio”. Cansei mesmo de digitar corretamente.

Bons tempos. Avance a fita pra uns 20 anos mais tarde.

Em uma de minhas sessões nostálgicas, percebi num estalo que havia quase duas décadas que eu não amarrava um ioio no dedo médio da mão direita e me divertia em fazer o briquedinho desafiar a lei da gravidade.

Comentei com a muié e esta, se compadecendo da minha ânsia de reproduzir uma fase icônica da minha infância, saiu comigo à caça de um ioio. Fomos ao Walmart e achei isso aqui:

ioio

Se houvesse na prateleira do lado uma máquina que transformasse peidos em barras de ouro, pelo menos preço do ioio, e eu tivesse 2 dólares no bolso, eu teria comprado dois ioios.

Peguei o troço no ímpeto e corri pro caixa. Já no caminho pra casa, destruí a embalagem, fixei o bichim no dedo e me deleitei falhando desgraçadamente em todas as tentativas de reproduzir os truquezinhos rudimentares que eu saiba fazer quando criança.

O barbante apertava o dedo cortando a circulação e eu não tava nem aí. A cada rodopio, um grama daquela clássica habilidade infantil perdida voltava; pouco a pouco meus músculos lembravam exatamente a sequência de movimentos sutis que faziam o ioio parar a centímetros do chão e rodopiar em seu eixo sem subir de volta.

E tudo estava perfeito com o mundo.

Hoje fui jogar Magic com meus broders, como fazemos várias vezes por semana – tou vivendo um período de vício doentio no jogo.

lol

A casa do meu chegado (que não aparece nessa foto) fica próxima ao McDonalds da região, então virou tradição se empanturrar de comida porcaria após jogar com as cartinhas. Fomos à lanchonete, e eu rodopiando o ioio com alegria e explicando pros amigos a história da promoção da coca-cola, a caça das tampinhas, etcétera.

Após o lanche meu irmão recebe uma ligação do meu pai – ele estava nas redondezas, e nos ofereceu uma carona de volta pro nosso apê.

E lá estava eu, ocupando o assento da frente (que é meu direito inalienável de filho primogênito) e, enquanto meu irmão e irmã tagarelavam no banco traseiro, notei que havia algo de errado. Bati nos bolsos e detectei que havia um ioio a menos do que esperado.

Houve um misto de tristeza com desespero. Comecei a apalpar todos os bolsos da bermuda, do suéter, os compartimentos da mochila. Nada. O ioio havia sumido, certamente deixado pra trás na mesa do McDonalds.

Senti como se meu próprio espírito tivesse levado um chute na cara. Como uma legítima criança de 11 anos, eu havia esquecido meu brinquedo na porra de um restaurante!

A tristeza foi irresistível. Sem muita esperança, continuei tateando os bolsos, revirando a mochila, tendo a plena certeza que o brinquedo havia sido perdido, mas incapaz de parar de procurar.

“Não há motivo pra chateação”, tentei negociar comigo mesmo. “Amanhã você vai no Walmart e compra outro, aliás, foda-se, compra logo DEZ duma vez se quiser”. Afinal, a porra do ioio custa um mísero dólar. Não é um imenso prejuízo.

Mas algo ainda continuava me chateando, e eu não sabia por que. E finalmente entendi a tristeza.

A minha infância, assim como aquele ioio, foi perdida — deixada pra trás há mais de duas décadas. E embora há muito tempo eu tento revive-la (aquele post dos abandonwares é um exemplo recente desse hábito, assim como a própria compra do ioio), volta e meia eu sou relembrado que o que passou passou e jamais voltará de novo. Assim como o ioio que eu deixei no McDonalds, minha idade áurea já era.

Mas lá vou eu tentar comprar outro pra mitigar a perda. Perder o ioio que me trouxe tanta alegria e planejar substitui-lo foi um triste paralelo da minha condição de estar eternamente tentando reviver minha infância esquecida.

🙁

Como todo imigrante que chega no exterior sem dinheiro e sem domínio pleno do inglês, eu também tive uma pequena coleção de empregos, digamos, fodidos. Longe de mim querer desmerecer qualquer trabalho honesto; acontece que não há como glamurizar o tipo de coisa que eu fiz nos meus primeiros anos no Canadá. Lavei prato, tirei neve de calçada, vesti-me de macaco pra trabalhar numa espécie de casa mal assombrada no Halloween (sério) e vendi picolés.

Sim, vendi picolés. Pra CANADENSES, o que é quase equivalente a vender gelo pra esquimó. Que demônio de vida maluca é essa que eu vivo, mano.

Pois bem. Como tudo mais que me acontece, meu breve emprego de vendedor de picolés rendeu um post no HBD.

O texto a seguir foi originalmente publicado no meu site há mais de 7 anos. Como de lá pra cá meus leitores aumentaram uns 15000%, achei justo republicar esta lamentável história.

******

5 de maio de 2006

Oshawa, nos arredores de Toronto, Canadá

Rapaz, a temporada mal começou e já tou cheio de causos consideravelmente verídicos pra contar. Se o ritmo de aventuras se manter estável, aguardem um post em que eu relatarei ter assistido um atropelamento ao vivo ou coisa parecida — isso se o atropelado não tiver sido eu mesmo.



Desde a minha chegada ao país canadense popularmente conhecido como “quintal da América” ou “Estados Unidos Júnior”, acumulei debaixo do meu cinto uma porção média de fritas de experiências pouco satisfatórias com a gurizada gringa.

Entre o hilário porém traumatizante emprego de Halloween, o cansativo trabalho de sorveteiro do ano passado (que repito este ano), e por último mas não menos importante, a constante convivência com Dana, minha “cunhadinha” de 7 ou 8 anos, eu desisti de ter filhos.

Não sei quanto tempo demorará pra que eu ao menos considere remotamente a idéia do conceito da possibilidade de que eu mesmo, um dia, por motivos talvez contrários à minha vontade, seja o responsável pela existência de uma criatura infernal dessas.



Conheça Dana, a irmã da namorada.

Se você ainda não sente vontade de arrancar a cabeça desta menina com um abridor de envelopes, uma de duas possibilidades está acontecendo aqui – ou você é uma pessoa infinitamente melhor que eu, ou sua internet está provavelmente com defeito.

Ao longo do tempo desenvolvi um sofisticado sentimento de puro ódio por qualquer ser humano com idade escrita com menos de dois dígitos. Esses abortos ambulantes, que não têm o menor senso de responsabilidade ou respeito por alguém que está apenas tentando fazer seu trabalho, são um verdadeiro desperdício de órgãos. Se algum dia um político de verdade subir ao poder em algum país obscuro do continente africano ou do leste europeu, teremos a felicidade de ver no jornal uma manchete como “Extra – Primeiro Ministro do Turcomenistão aprova hoje lei que torna obrigatória a remoção de fígados de todas as crianças acima de 4 anos. O programa de transplate involuntário, já considerado um sucesso pelos cientistas políticos internacionais, beneficiará centenas ou até milhares de alcóolatras e restaurantes de baixa qualidade no interior do país.”

A mera presença da criançada catarrenta ao meu redor já é suficiente pra me desejar que seus pais sofram um ataque cardíaco fulminante e cada um dos pivetes fique preso dentro de casa, sofrendo de inanição fatal e convivendo ao redor de seus próprios excrementos, tendo que lutar contra ratos pra garantir suas fezes como sua única forma de alimentação.

Sim, eu estou um pouco chateado. O motivo pelo qual não me importaria se todas as crianças do mundo entrassem em ignição espontânea é que anteontem algo bastante curioso aconteceu. Tenho que te contar, nada jamais me deu tanta vontade de realinhar a configuração facial de alguém com um martelo de açougue como os eventos de quarta feira.

O dia começou tranquilo. Lá estava eu na minha bicicletinha, desfrutando a presença de ninguém além das moléculas de gás carbônico que eu exalava após cada fungada, quando de repente fui abordado por um desses demônios em forma de gente, que segurava uma nota de cinco dólares na mão. Atraídos pela musiquinha da bicicleta, seus pequenos companheiros das profundezas infernais saíram correndos de suas respectivas casas terrenas, sacodindo cédulas na mão e derrubando moedinhas no chão. Me vi cercado de moleques endinheirados, e por um momento pensei “fenomenal, farei uma nota preta aqui. Que diz feliz e agradável

Quão enganado eu estava. É como ir pra casa todo feliz achando que descobriu a festa surpresa que a família e os amigos estão preparando pra você, mas ao chegar no seu domicílio você descobre que ao invés de preparar uma festa, todos os seus familiares e conhecidos cometeram um ritualístico suicídio coletivo deixando provas suficientes pra convencer a polícia de que você os matou.

Os moleques começaram a rodear a bicicleta, todos pedindo seus sorvetes simultaneamente porque afinal de contas qual é a melhor forma de ser atendido por alguém senão gritar seus pedidos ao mesmo tempo que outras vinte crianças fazem o mesmo?

Alguns decidiram que isso não me irritaria/desorientaria o bastante, então um deles aproximou-se por trás de mim e injetou um berro de quatrocentos decibéis diretamente dentro do meu canal auricular. Sou um cara que sabe levar as coisas com esportividade, então relevei a animação da pivetada e pensei nas milhares de vendas que faria. Eu precisaria apenas 1) pegar a grana dos infelizes, 2) entregar as guloseimas, 3) dar o fora, 4) arrumar uma forma de esfregar tais picolés em meus testículos entre a primeira e segunda etapas.

Rapidinho eu estaria longe dos moleques, é melhor ficar calmo.

O problema é que naquele dia, a molecada decidiu que não descansaria enquanto não me tirasse do sério. Acho que eles se reuniram todos no pátio da escola no dia anterior e formaram uma assembléia pra debater formas de irritar o próximo sorveteiro que se atrevesse a tentar trabalhar na rua deles. Foi de fato o que aconteceu.

Contrariando minhas maiores esperanças, os moleques não saíram do meu redor após adquirir seus sorvetes e terem 10% de seu troco surrupiado por alguém que entende um pouco mais de matemática que eles. Eles ficaram lá, plantados ao redor da bicicleta, coletivamente devorando seus picolés e tagarelando animadamente sobre qualquer coisa certificadamente insignificante que esse tipo de criança costuma conversar. Pelos dois minutos que eles demoraram pra devorar os picolés e ao mesmo tempo sujar a cara toda no processo, tive considerável paz. Eu poderia ter ido embora naquele momento, mas achei que poderia arrumar mais algumas vendas se ficasse na rua dos moleques mais um tempinho.

Grande, grande erro.

Terminado os picolés, a gurizada voltou à animação de antes. Um deles quebrou a última barreira de autoridade que eu poderia ter e desafiou minha presença sentando na bicicleta. Foi a deixa – como movidos por molas, a pivetada saltou de onde estava e SUBIRAM NA BICICLETA. Um ficou em pé em cima do parachoque da frente, outros dois sentaram em cima da caixa frigorífica, um outro sentou no quadro do da bicicleta. Um último pivete cuja presença eu não tinha notado até então pôs-se a empurrar a bicicleta, na intenção de levar a molecada a um passeio pela rua.

Imagina a cena. Simplesmente levaram meu instrumento de trabalho embora.

Nos dois segundos que a situação acima demorou pra se estabelecer, consegui apenas assistir perplexo. Esses moleques sequestraram minha bicicleta na minha frente? Apressei-me e alcancei aquela putaria sobre rodas, e tentei convencer a gurizada a sair de cima da bicicleta. Chamem-me de imbecil por achar que os demônios me ouviriam, mas foi o que erroneamente pensei. Ao notar que os pivetes não estavam dispostos a colaborar a menos que eu começasse a distribuir pequenos presentinhos de violência corporal, abandonei a diplomacia e tentei manualmente remover as crianças de cima da bicicleta. Estendi os braços, agarrei o moleque mais próximo – o único que estava sentado no local corredo da bicicleta, o assento — e ergui-o de lá.

Não parei pra pensar isso no momento, mas esta inocente manobra magicamente transformou minha bicicleta numa gangorra. E pior ainda, uma gangorra desequilibrada. De um lado da bicicleta estava a caixa frigorífica repleta de sorvetes E crianças, do outro, um assento vazio. A bicicleta inclinou-se pra frente assim que o contrapeso em forma de pivete foi removido do assento. Larguei o moleque e joguei a mão na bicicleta, tentando impedir que ela tomasse pra frente. Com o movimento, a criançada saiu de cima da caixa.

Minhas tribulações não haviam acabado. Pensar em manifestar-se violentamente estava fora de cogitação. Tendo o dobro do tamanho e peso daquela criançada, qualquer gesto de auto-defesa seria compreendido como ato sádico de violência contra os pequeninos canadenses que representam o futuro da nação; um futuro que eu sinceramente espero não viver o bastante pra ver.

Agora a molecada meteu na cabeça que não me deixariam em paz se eu não desse sorvete de graça pra eles. Não adiantava tentar explicar que eu não daria sorvete de graça pra eles nem que alguém tivesse sequestrado toda a minha família e pedissem sorvete de resgate — os pivetes não entendem lógica. Eles não entendem a questão de que eu trabalho em função de vendas e que se desse sorvete de graça, teria que pagar o prejuízo. Eles não compreendem coisa alguma. Pra eles, sou apenas um humano lutando contra suas investidas e impedindo o acesso ao sorvete.

De repente, não mais que de repente, um dos moleques me aparece com uma bola de basquete e sem a menor cerimônia, atira-a em cima do guarda-sol da bicicleta. O resto da pivetada aproveita a distração pra abrir a caixa frigorífica e meter a mão dentro. Apenas um dos guris foi mais ágil e conseguiu alcançar um sorvete antes que eu pudesse os afastar da bicicleta. Corri em volta da caixa, agarrei o moleque pelo braço e tomei o picolé da mão dele, ignorando suas ameaças de processo por ter tocado em seu braço. Quando penso em dar uma resposta, sou interrompido pela música da bicicleta.

Olho pra trás e vejo que o mesmo moleque que havia arremessado a bola contra a bicicleta estava agora montado nela, tentando alcançar os pedais e brincando com o aparelho de música da bicicleta. Tento tirar o menino de lá, e ele começa a gritar.

Desligo a música e viro-me pra pivetada pra inventar alguma ameaça tipo “nunca mais venderei sorvete pra vocês, ein!” e antes mesmo que eu pudesse fazer isso, outro moleque enfia a mão na caixinha que guarda o aparelho de música e liga aquela porra de novo. Seus companheiros berram em êxtase.

Fiquei de saco cheio. Dei a volta na bicicleta, peguei minha mochila (que eu havia deixado na calçada por causa de uma desconfortável irritação nos ombros) e, quando eu preparava-me pra subir na bicicleta, um moleque vem correndo, levanta a tampinha da caixa que guardava o aparelho musical e liga aquela desgraça pela milésima vez. Tento tirar a mão do pivete do botão, mas ele está irredutível.

Chega. Foda-se.

Sem pensar duas vezes, cerro o punho e bato com força na tampa da caixa, prendendo a mão do moleque. A criançada berra em êxtase, e o moleque — por algum motivo que nem Satanás entenderia — apenas riu. Soltei a mão dele e me preparei pra abandonar aquela rua maldita.

Eis que nesse momento uma menina chega por trás de mim e me manda um belo chute no meio da batata da perna. “Isso é por não ter me dado sorveteeeee“, argumenta ela.

Ahhhh, que se foda mesmo.

Ignorando a (i)legalidade da ação, pus a mão no ombro dela com firmeza e dei um safanão na menina, fazendo com que o centro de gravidade dela se deslocasse pra uma cidade próxima e ela caísse de bunda no chão. A menina preparou a patenteada Cara de Choro®, mas antes que os amigos pudessem dar apoio moral, abri o meu próprio berreiro.

Com frases decididas, expliquei pra eles que da próxima vez que eu aparecer naquela rua (se eu algum dia perder minha sanidade e concordar pôr os pés naquela rua mais uma vez), ao invés de uma calculadora, estarei trazendo um lança chamas. Completei a ameaça abusando de gentis palavrões e apontando pra cada um dos moleques com um olhar assassino na cara. Aí fui em direção ao moleque da bola e meti um chute por baixo do braço dele, o que fez a bola projetar-se no ar como a conclusão da minha explosão furiosa.

Por uns dois ou três segundos a gurizada apenas olhou pra mim estupefata. Estava esperando alguma resposta, mas nenhuma veio — logo em seguida cada um deles deu meita volta, apanhou seu skate/gameboy/bicicleta e voltou pras suas casas.

Todo mundo caladinho.

O texto a seguir foi publicado aqui em 2005, quando eu estava cursando o colegial canadense e tal. O post retrata a minha quase trágica viagem a um resort de ski em Ontario. Muitos de vocês devem lembrar do texto, que na época foi publicado em 3 partes, enquanto a maioria de novos leitores provavelmente nunca leu. Aí está sua oportunidade de acompanhar uma saga clássica do HBD.
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Dando uma olhada no mundo e na Intarnetch atualmente – tomando o devido cuidado de evitar passar muito perto do orkut, uma vez que cientistas de renome finalmente descobriram que retardadice é de fato espalhada pelo mundo virtual -, percebo que devo ter dormido durante uma reunião ou perdido algum memorando. É a única explicação pro fato de que eu não fui informado de que nos últimos anos, todos os seres humanos com acesso a clientes de torrent e codecs de divx devem obrigatoriamente venerar qualquer tipo de animação que tenha sido feita dentro do território japonês.

Meus esforços em entender o fenômeno (pesquisar “fenomeno” no Google, sem acento, e ver se o corretor ortográfico do sistema de busca compreende as nuances da pontuação portuguesa), foram infrutíferos. Com toda certeza, desenhos japoneses – conhecidos como “anime”, o que soa como um demônio romano com hemorróidas – são líderes mundiais em categorias prestigiosas como “cenas com flashes induzidores de ataques epiléticos” e “aberturas cantadas por mulheres que soam como um sujeito que teve as bolas explodidas por C-4”, sem contar no sucesso de crítica “lutas chatas na frente de linhas coloridas”, mas isso ainda não explica como a cultura Oriental em geral conseguiu invadir o nosso espaço. Se a Segunda Guerra Mundial me ensinou alguma coisa, é que japoneses tem uma pré-disposição para invasões inesperadas e para afundar navios de guerra arremessando aviões neles. A História nos deu uma lição sobre a insidiosa prática nipônica de atacar quando menos se espera, mas nós a ignoramos.

Existe um grupo responsável pela expansão da japanofilia em nosso hemisfério. Tal grupo responde pelo nome “otaku”. Falo japonês tão bem quanto falo japonês, então desconheço o significado “oficial” do termo e, francamente, eu nem quero saber. Uma tradução livre mais adequada poderia ser “adolescentes desprovidos de identidade cultural que pensam que espremer os olhos e fazer o símbolo da paz em toda foto que tiram é algo legal”.

Para entender melhor a complexidade da situação, precisamos compreender todas as facetas do fenômeno e identificar as raízes do problema. Mas antes de mais nada, você deve se fazer uma pergunta – quem é um otaku?


Esta mulher é moderadora de um fórum sobre Inuyasha

Qualquer pessoa pode ser um otaku. A nomenclatura arcaica exigia que um sujeito passasse horas e horas em canais obscuros na Undernet, trocando terabytes de vídeos de desenhos japoneses sobre samurais e ninjas e meninas que se transformam em gatos, se dando por satisfeito até mesmo por assistir animes em outras línguas e sem nenhuma legenda (para um anime, se tornar “mais incoerente ainda” é uma impossibilidade prática, então assistir o mesmo desenho em português ou em javanês faz pouca diferença), contanto que ele os assistisse por um mínimo de cinco horas por dia. Nos dias de hoje é mais fácil ser aceito no meio dos otakus, e a falta de critérios mais rígidos tornou o fenômeno extremamente popular.Quem pode ser um otakus? Eu receio que esta frase tenha se tornado redundante atualmente, e que a forma mais sensível devesse ser “quem NÃO É um otaku”? Qualquer pessoa pode ser um otaku. Sua mãe, seu vizinho, seu contador, sua professora de geografia, seu cachorro, ninguém está a salvo. Até você pode ser um otaku – se você alguma vez comprou uma peça de roupa dolorosamente ridícula apenas porque havia um ideograma japonês em algum lugar nela, a japanofilia já ceifou sua vida, assim como ceifou muitas outras que se aventuraram a assistir um episódio de Naruto porque “todo mundo tá assistindo cara!!!


Este rapaz é considerado o mais prolífico cosplayer da atualidade, tendo sido fotografado vestido como mais de 2678 personagens de desenhos animados japoneses

O otaku comum é um sujeito branco, de classe média alta, e tem entre 14 e 18 anos de idade. Embora espécimes mais velhos tenham sido encontrados, considera-se que o desvio japanófilo tende a desaparecer quando a pessoa começa a ter obrigações adultas de uma pessoa normal, como um trabalho fixo e o interesse por temas que não sejam diretamente relacionado a animação japonesa. O otaku também coleciona aquelas revistinhas horríveis que exigem que você jogue toda sua dignidade na lata do lixo e as leia ao contrário e passa horas aprendendo frases triviais em japonês que ele prontamente usará erroneamente quando se encontrar com outros otakus na loja de artigos japoneses do shopping, pra debater sobre a última vídeo-montagem de Naruto, proclamada como a melhor vídeo-montagem dentre as 367 outras que eles uploadearam no YouTube ontem à noite. Otakus são – por via de regra – absolutamente inexperientes em qualquer atividade que requer destreza com o sexo oposto, tornando 135% deles virgens eternos.Um outro hábito característico do grupo é a mania de adicionar sufixos como “chan”, “kun” e outras palavras de origem satânica aos seus próprios nomes, em uma tentativa desesperada de se aproximar mais ainda da cultura nipônica. Nos fóruns otakus, locais amplamente reconhecidos por cidadãos de bem como “o ânus da Internet” é bastante comum ver participantes formando imensas famílias de faz-de-conta, adotando e declarando-se como tios, pais, sogros e irmãos de outros membros do fórum, catalogando esta árvore genealógica de mentirinha nas suas assinaturas. Como se sabe, isso é uma ridícula e deprimente forma encontrada pelos párias de simular o convívio social que eles não têm na vida real.

Qualquer otaku que se preze jamais seria surpreendido sem trazer no seu mp3 player ao menos 400 mb de j-rock, um estilo que é o equivalente musical de merda de bebê recém nascido. Os mais versados abrangem em suas coleções musicais o J-pop, e é sabido que pop é exponencialmente pior que rock qualquer seja sua forma.

A predileção otaku por j-rock é apenas rivalizada pela sua predileção por pirocas veiosas e/ou representações gráficas de pirocas veiosas desvirginando pequenas estudantes. O que levaria alguém a se masturbar vendo tais desenhos está acima de minha compreensão, mas por outro lado, muito do que os otakus fazem está acima da minha compreensão. O perturbador vídeo do link anterior é motivo mais do que suficiente pra chegar à conclusão de que otakus tem um profundo despeito pela humanidade e tudo que consideramos sagrado.

E como esquecer o cosplay? Para os que não conhecem o termo, cosplay é o que acontece quando anos de abandono e falta de convivência social encontram um cartão de crédito e um site de fantasias de personagens de desenhos animados. Abandonando de vez qualquer último resquício de dignidade que tenha sobrevivido a maratonas consecutivas de OVAs de Evangelion, o otaku não apenas se veste como um personagem fictício de seus desenhos favoritos, mas sai em público trajando essa atrocidade. Há diversos sites e fotologs dedicados a veicular imagens de pessoas que se sujeitam voluntariamente a esse tipo de humilhaçào pública. Sinta-se à vontade para pesquisar sobre o assunto, averiguar as fotos e rir com maldade dessas pessoas.

Otakus, como todo grupinho ignorante de subcultura pseudo-alternativa, se vêem no direito de rotular os outros de forma bastante preconceituosa, julgando-se com a autoridade de desprezar aqueles que em sua opinião não merecem ostentar o título de adorador de animes. Uma subcategoria dos otakus são os otakus posers, ou seja, todo aquele que não se masturbe ao menos cinco vezes por dia lendo fan-fics de Full Metal Alchemist ou que não tenha serialmente pensado em vender todos os seus pertences e mudar-se para o Japão. Para o resto do mundo, otakus posers são apenas pessoas que gostam de alguns desenhos japoneses. Para os otakus, qualquer sujeito que assista animes apenas como hobby casual e não como religião é sem qualquer sombra de dúvidas um mal caráter que merece a pior morte imaginável – o que me faz lembrar que a sociedade em geral raciocina de uma forma bastante injusta. Um sujeito pode ser um cidadão de bem, pagar seus impostos em dia, frequentar a Igreja e até dedicar seu tempo livre a fazer Mapas de Team Fortress de graça pros amigos. No entanto, basta ele fazer sexo com UM cavalo e a sociedade dará as costas para ele.

Agora você pode ser considerado um profissional no tema otaku. O que fazer para impedir o avanço dessa nova onda?

Resista. Otakus são conhecidos por ter uma atração patológica pelo defunto formato Real Video (assim como uma atração patológica por desenhos de tentáculos estuprando gatos antropomórficos). Como todos sabemos, o Real Player é um terrível software programado por Osama Bin Laden em pessoa, em mais uma tentativa de destruir a liberdade ocidental e instalar spywares que colocam “funcionalidades” não-requisitadas no seu navegador, como a excelente “funcionalidade” de mudar a sua página inicial e a “funcionalidade” de ser o pior player na história dos players. Enquanto você estiver longe desse software, anime não poderá tocar você. Cruzes e alho talvez ajudem também.

Ajude. Um otaku pode não ser uma pessoa como eu e você no sentido ético da palavra, e portanto não ser agraciado pelos Direitos Humanos que a sociedade mundial preza tanto. No entanto, isso ainda não é motivo para serrá-los no meio com uma moto-serra enferrujada. Faça como Jesus faria e os ame ou ande sobre água ou reparta pães ou expulse mercadores de um templo ou inicie um feriado mundial para celebrar seu nascimento ou algo assim. ENTRETANTO, se seu amigo otaku aparecer em sua residência com um convite extra praquela AnimeCon exclusiva, saiba que nenhum júri no planeta o condenaria por remover a coluna vertebral dele com uma lixa de unhas ali mesmo.

Espalhe a palavra. Mostre esse texto para todos os seus amigos, otakus ou não. O poder é de vocês, já dizia Capitão Planeta. Juntos podemos trazer essa invasão japonesa a um fim relativamente não-trágico. Pra fins práticos, qualquer meio de ação que resulte, mesmo que indiretamente, no fim da cultuação de iconografia japonesa – isso inclui por exemplo desenvolver uma nova forma do vírus Ebola que se propague através de arquivos .avi cujo nome contenha qualquer combinação das palavras “samurai” e “ninja” – será considerado não-trágico.

Uma das grandes vantagens de sair do Nordeste pra ir morar no exterior — além do acesso à tecnologia barata e apreciar épocas do ano em que as temperaturas não fazem os líquidos no seu globo ocular ferver — é ser exposto à mundialmente notória e surpreendentemente divertida estupidez gringa.

Já mencionei a célebre burrice norte-americana centenas de bilhões de vezes aqui no HBD, mas quase sempre eu me referia à burrice no sentido acadêmico. Felizmente, a estupidez destes branquelos não se limita a ignorância relativa a conhecimentos gerais escolares.

Eu já fui alvo de perguntas geniais e nem um pouco imbecis como “Existem hamburguers no Brasil?”, “Você já tinha visto um carro de controle remoto antes de sair do seu país?” ou até mesmo “Vocês têm macacos de estimação, ou geralmente se contentam com uma ou duas jibóias mesmo?”.

E sinto uma dor no coração quando algum amigo canadense me faz uma pergunta dessas com o maior olhar de inocência no rosto. Tento vasculhar o semblante do sujeito por traços de arrogância ou até mesmo sarcasmo, já que essas características são geralmente encontradas em piadas mal-intenciondas, mas pra minha (antiga) surpresa, a molecada realmente achava que o Brasil ficava na Europa e que nosso presidente era também capitão da seleção nacional de futebol. As perguntas eram genuinas, por mais incrível que parecesse.

E por isso eu me sentia super mal em destruir suas fantasias de um Brasil retrógrado e absolutamente fodido. Como explicar pra um canadense que sim, nós temos TVs no Brasil, ou que não, não moramos em casas feitas com papelão e barro?

É praticamente como admitir pro seu filho de 8 anos que Papai Noel foi preso na véspera do Natal por acusações de pedofilia — pode até ser verdade, mas todo mundo ficará mais feliz se seu mundinho de fantasia for mantido graças a uma mentirinha de bom coração.

Por isso eu teci estas amáveis lorotas sobre nossa Pátria amada salve salve, pra manter a ilusão gringa sobre este lugar misterioso que é o Brasil.

1) A moeda oficial brasileira é o olho de baiacu, de preferência fresco. A moeda antiga, pequenos pacotes de papelao contendo aproximadamente cinquenta gramas de arroz, foi abolida na Revolução Popular de 1997, que pôs no poder o primeiro presidente que não alcançou o cargo através do uso de Magia Negra.

Fig1: O brasileiro em seu habitat natural

2) Não, não temos televisores no Brasil. As tecnologias necessárias para a construção do aparelho (como as substâncias adesivas que fixam decalques plásticos que dizem “Panasonic” ao painel da TV) ainda não existem no nosso país, infelizmente.

No entanto, temos macacos que entram nas nossas casas e desenham figuras festivas nas nossas paredes quando deixamos as janelas abertas. Modelos mais avançados desses símios conseguem desenhar quase três frames por minuto, o que dá uma breve ilusão de movimento caso você tenha esquecido de tomar seus medicamentos neste dia em particular.

3) Antes da chegada da Internet (e por extensão, Google, Wikipédia e derivados) ao solo brasileiro no mês passado, tínhamos um funcionário do governo que ia à praça na frente da igreja nos sábados para distribuir cópias em preto e branco de uma Playboy de 1976 e responder breves dúvidas sobre geografia.

4) A versão brasileira do que os países civilizados chamam de “processo jurídico” resume-se a ir à casa do seu oponente armado de talismãs e ramos de arruda e invocar entidades sobrenaturais que se encarregarão de causar diarréia initerrupta no seu desafeto até que ele concorde em devolver os 500 olhos de baiacu que ele pegou emprestado mês passado, e com “pegar emprestado” eu quero realmente dizer “tirou da sua sacola após entrar na sua casa por meio de um trator pela parede”).

5) Nossos principais produtos de exportação são açúcar, futebol, carnaval e Doença de Chagas — uma assustadora moléstia tropical que faz seu coração explodir. Os métodos de prevenção mais populares incluem a) não morar no Brasil, b) mudar-se do país o mais rápido possível.

6) Produtos usados antes do advento da pasta de dente em 1998 incluem manteiga caseira, água sanitária e, mais frequentemente, nada.

Fig2: Dois companheiros de trabalho no trânsito

7) O maior atentado terrorista em solo nacional aconteceu em julho de 2003, e o alvo foi o prédio do Ministério de Telecomunicaçoes em Buenos Aires.

Um sujeito identificado como “seu José da Esquina” invadiu o casebre onde se localiza o Ministério e destruiu todos os tambores, impossibilitando comunicações com o vilarejo vizinho por quase trinta minutos até decidir-se que ir até lá andando com a mensagem em mãos era menos demorado que a tradução das batidas dos tambores.

José foi preso e flagrante e em seguida recebeu uma condecoração do Presidente pelos seu papel no avanço da telecomunicaçoes.

8) A temperatura mais baixa registrada no país em seus quatro anos de uso do Sistema Internacional foi 35 graus Celsius. O frio era tão perceptível que boa parte da população usou camisetas nesse dia.

Partidas de futebol foram interrompidas e escolas de samba mandaram os alunos pra casa mais cedo. No dia seguinte, uma onda de calor extremo matou 30% da população brasileira. O número é apenas uma aproximação; a contabilização do número exato de vítimas se tornou difícil uma vez que boa parte dos corpos entrou em calefação ao cair no asfalto quente.

O filho do presidente havia emprestado a Calculadora Nacional pra um amigo da escola, o que dificultou ainda mais a contagem.

9) Em 1999, projetos sociais orquestrados por Sílvio Santos (um milionário que comprou o Brasil de Portugal na década de 70) geraram uma onda de melhorias atingiu o Brasil como uma bola de pé esquerdo no cantinho do gol: o salário mínimo foi elevado ao equivalente a 4 dólares por mês; “chutar cachorros nos domingos”, um costume nacional centenário, deixou de ser uma prática socialmente aceitável; o país importou quatro novas ambulâncias, o que não apenas elevou a frota nacional a quatro ambulâncias, mas também mudou o Brasil do segundo pro quinto lugar na lista de países com pior sistema de saúde no planeta.

Fig3: São Paulo, a capital do Brasil

10) A inserção de tijolos no útero, o método anticoncepcional recomendado pelo governo até pouco tempo, foi recentemente abolido. Postos de saúde agora distribuem grampeadores e ampolas com álcool.

11) O primeiro censo nacional (realizado pouco tempo após a adoção do sistema decimal em 1989) revelou que os sonhos de consumo dos brasileiros incluem fogões, meio quilo de cimento, e água filtrada.

12) O processo eleitoral brasileiro não envolve votações populares. Ao invés disso, os candidatos devem passar por uma bateria de testes físicos que envolvem levantamento de vacas, aragem com obstáculos, e recitar a tabuada do 7 de trás pra frente.

Os finalistas então vão em debate público (que será tamborilado para todos os vilarejos próximos) em que cada candidato tentará, com suas próprias palavras, convencer os habitantes da aldeia que ele é de fato filho do deus Sol e que portanto deverá governar.

O debate deverá durar oito dias; ao fim deles, o candidato que ainda quiser o cargo e/ou ainda estiver falando no palanque será coroado como Rei do Brasil. Caso todos os candidatos se matem na inevitável briga de foices que costuma acontecer nos primeiros dois minutos do debate, o espectador mais parecido com o último candidato a morrer é coroado.

Fig4: um popular shopping brasileiro

13) O sistema penal brasileiro é considerado por especialistas mundiais como o mais avançado da América Latina. Tomem isso como exemplo – no mês passado um notório molestador de crianças foi sentenciado à pior pena dada a esse tipo de crime na Constituição Brasileira – 30 chicotadas em praça pública. Em países menos desenvolvidos como a Argentina, a pena teria sido no máximo 15 chicotadas.

14) O PIB nacional triplicou este ano, quando um rapaz de Quixadá-CE finalmente conseguiu um sinal telefônico, se cadastrou no eBay e vendeu uma calça velha que ele havia encontrado flutuando no córrego atrás de sua cabana.

Por algum motivo, após recitar alguns desses itens a antiga vontade de visitar o Brasil parece abandonar meus amigos.

Em março de 2004, na sequência de um texto bastante polêmico criticando um certo subgrupo, publiquei um post que se tornou indiscutivelmente o maior sucesso deste blog. O texto foi citado, linkado e plagiado em inúmeros fóruns, comunidades no orkut e blogs ao redor da internet. O que me deixou imensamente feliz, a propósito, já que foi meu primeiro texto a receber tamanha visualização e até então eu não achava que produzia alguma coisa que valesse a pena ser lida. A aparição no Uêba cimentou a notoriedade daquele texto, e muitos leitores old-school conheceram o HBD justamente por causa daquele post.

Acontece que o post era diretamente dependente das imagens que ele trazia. Tragicamente, seis meses após a publicação do texto, o servidor do Yuri – um amigo que me cedia hospedagem virtual – foi passear. Sem nenhum backup, as fotos foram invariavelmente mandadas pro limbo. O post continuava nos arquivos do site, mas sem as imagens, metade do humor se perdeu.

Apesar de inúmeros pedidos de um remake do post – o que requeriria fotos novas -, eu sempre me negava a faze-lo. Não queria apelar pra uma “fórmula de sucesso”; antes escrever um texto completamente novo e original que tentar atingir a mesma fama do post original de forma preguiçosa. Sabe quando uma continuação acaba ficando uma merda e suja o nome do original? Então.

Por essas e outras, preferi não dar um irmãozinho àquele post. Sem que eu pudesse republica-lo para os leitores antigos, e sem querer criar uma nova versão pros leitores novos, aquele texto seria eternamente apenas uma lembrança. Nada mais que uma parte do legado do site.

 


Até agora. Fuçando no Google, esbarrei com um dos muitos blogs que na época copiaram o texto. Muitos plagiadores, reforçando sua natureza preguiçosa, apenas linkaram as imagens. Mas acabei descobrindo uma garota que hospedou as fotos em seu servidor.E hoje, quase dois anos após a estréia do texto que catapultou as visitas e a visibilidade do Hoje é um Bom Dia, eu lhes dou o célebre MANUAL DOS GÓTICOS, versão remixada e aditivada.

 

 


Recebi muitos elogios por causa do post sobre os góticos, mas também recebi muitas reclamações. As pessoas ficaram com uma impressão errada de mim. Eu disse que odiava os góticos?

Foi um erro de digitação, minha gente. Eu ADORO os góticos. Sério mesmo, amo de coração.Nesses últimos dias resolvi elevar minha devoção pelo goticismo a um nível nunca antes alcançado por ninguém: eu descobri a verdadeira ESSÊNCIA DO GOTICISMO!

Sim, amiguinhos vampiros. Eu achei o que vocês procuravam esse tempo todo. Agora você poderá adquirir todo esse conhecimento, e não mais pagará mico quando algum coleguinha seu ler meu blog e arrumar um motivo pra encher seu saco.

Então, você quer ser gótico?

 


Certo. Mas a primeira coisa que precisa aprender é que a bela e transcendental filosofia gótica se basea – exclusivamente – em estética. Então se livre desse boné, ele não é nem um pouco gótico.


A propósito, se livre de qualquer peça de roupa que não seja de cor preta.

Você é um vampiro deprimido, um poeta atormentado pela dor de coisas que nunca aconteceram, e esse tipo de pessoa não costuma usar roupinhas coloridas.


Isso mesmo, bom garoto. Agora entraremos num outro quesito importante: música!


11 em cada 10 góticos concordam que Blink 182 é uma das coisas menos góticas do mundo, perdendo apenas para “ser uma pessoa feliz” e “ter amigos”.

Se você possui algum CD da alegre banda, jogue fora. Ofereça-os em sacrifício aos deuses pagãos nórdicos, à mãe natureza, ao Conde Drácula, sei lá.Vá à loja de CDs mais próxima da sua casa.

Não vá de ônibus, isso é totalmente anti-gótico. Ao invés disso, espere pelo dia mais quente do ano, vista três camisetas pretas e cinco calças (pretas também, pra combinar) e vá caminhando até a tal loja de discos. Adquira o CD mais gótico que seus olhos góticos encontrarem.

 

 


Esse é um ótimo CD. Ele foi premiado três vezes consecutivas por revistas especializadas como melhor álbum gótico do milênio. Suas belas canções o ajudarão a percorrer o longo caminho de ser tornar um gótico. Mas se bem que já estamos na metade mesmo.


Isso mesmo. Sinta o goticismo penetrando o seu ser (não se preocupe, você vai conseguir sentar no dia seguinte). Sinta o ódio, a raiva, a depressão, a dor de barriga. No último caso, vá ao banheiro. E porra, eu não mandei você jogar esse boné fora, caralho? Que merda de gótico é você?


Hunf… Ok, ok.Agora você precisa de TATUAGENS. Você não será um gótico de verdade enquanto não tiver tatuagens. Afinal, o grande lance do goticismo é desenvolver uma personalidade única e ser diferente de todo mundo, e que melhor forma pra atingir isso que fazendo algo que milhões de pessoas ao redor do mundo inteiro já fizeram?

Mas não vá em estúdios de tatuadores, isso é para os consumistas e os massificados. Você sabe, aquelas pessoas que compram roupas na C&A e assistem MTV (coisas que você também faz, embora não admita antes de uma tortura). Faça suas próprias tatuagens góticas com pincel marcador.

 


Perfeita tatuagem! Extremamente sinistra. Com apenas quatro riscos, você conseguiu captar todo o espírito e essência da filosofia gótica. Nem Edgar Allan Poe faria melhor, até porque ele era escritor e não desenhista, o que torna essa analogia injusta.Agora, seus cabelos. Vamos dar uma gotizada neles.

 

 


Sinta a essência do goticismo tomando conta da sua cabeça – literalmente.


Fenomenal! Ninguém diria que esse revoltado garoto gótico há apenas alguns minutos atrás era fã de Blink 182 e usava roupas felizes. A julgar por essa foto, poderíamos até imaginar que o sujeito realmente tem algum motivo pra andar por aí de cara fechada! O objetivo foi atingido com perfeição.Mais um cliente satisfeito.

Agora, o passo fundamental:

Gótico que é gótico precisa tentar se suicidar, nem que seja ao menos uma vez, por motivos banais e/ou inexistentes. Visto que ninguém consegue lembrar a forma certa de cortar os pulsos, não se perturbe com tecnicalidades e vá de cabeça num método testado e aprovado.

 


Se você obteve êxito, meus parabéns! Agora você é um gótico!

Dê alô ao Cão por mim, a propósito.Se você não conseguiu da primeira vez, não deixe a ida ao hospital e a possível internação forçada numa ala psiquiátrica desencorajá-lo – continue tentando! Desistir de primeira é coisa pra porcos capitalistas.

O corpo humano não é assim tão resistente quanto parece. Envenenamento, enforcamento, salto livre de um prédio de onze andares, jogar World of Warcraft por dias seguidos sem se alimentar ou tomar banho… Há muitas opções de suicídio neste mundo moderno em que vivemos. Escolha a opção que combine melhor com seu estilo gótico de ser.

 

Agradecimentos ao Trunks, modelo fotográfico profissional e meu irmão nas horas vagas

 


Ahhhh, que curiosa sensação de viagem no tempo.

Se há uma característica marcante da raça humana, além da nossa habilidade natural de não se dar bem uns com os outros, é o dom da criatividade. Duvido muito que um ser de outro mundo fosse capaz de escrever peças de teatro, compôr músicas que ficam presas nas nossas cabeças meses após termos ouvido-as pela primeira vez, ou descobrir como equilibrar um salário mínimo até o fim do mês que vem.

E a humanidade mostrou essa criatividade ao longo de sua (relativa) breve existência nesse planeta. Os nossos ancestrais primordiais combinaram pedras afiadas, cipós e paus e inventaram ferramentas que os permitiram pela primeira vez quebrar as cabeças de seus semelhantes. Os homens mesopotâmicos criaram um Deus que até hoje faz com que gente dê dez porcento do que ganha a líderes de igrejas. Nos tempos mais modernos, o homem misturou pólvora e ferro e criou as armas de fogo, excelentes ferramentas para acabar com discussões. Mais recentemente, o homem uniu computadores através de cabos e protocolos de comunicação e descobriu uma forma revolucionária de receber pornografia de graça em casa. Não precisa ser um gênio pra perceber que a criatividade humana foi a ferramenta que nos permitiu ser algo além de macacos jogando cocô uns nos outros.

Criatividade é um privilégio de qualidade divina. Vemos-na em muitos locares (entre os quais podem-se excetuar por exemplo o blog do Eduardo), e ela é sempre recompensada onde é encontrada. Porém, não há um grupo mais criativo neste universo do que os jogadores de videogame. Por um motivo simples.

Basta entregar um jogo qualquer na mão de um moleque de 13 anos, em menos de uma hora ele jurará que existem ao menos 3 vezes mais fases do que realmente há no jogo.

Xeu explicar melhor.

Todas as pessoas que têm mais ou menos a minha faixa etária, ou seja, que cresceram e amaram os mesmos jogos eletrônicos que eu, devem conhecer estas fábulas a que me refiro. Promessas de segredos escondidos, profecias sobre mundos nunca antes explorados, lendas de mistérios que esperavam por você.

Parece muito importante, a despeito do fato de que na verdade não era nem um pouco. Estou falando aqui daquilo que aconteceu com todos aqui, em algum momento de suas vidas, se você possuiu um videogame: seu primo/amigo de sala/vizinho chegava pra você e contava algo sobre alguma área secreta em um jogo qualquer, e a partir daí você deixava de ser um mero jogador de videogame, mas se tornava um verdadeiro desbravador.

Todos aqui tiveram experiências do tipo, de ter ouvido sobre uma suposta fase secreta/item escondido/personagem oculto no seu jogo preferido. Tais mistérios não eram como os de outrora, que eram confessados no leito de morte de um explorador moribundo, mas por um moleque cujo primo tem um amigo que pegou uma revista americana emprestada do vizinho, e que a tal revista explicava todos os passos de como atingir o Eldorado eletrônico.

E nós, claro, caíamos como patinhos. Toda vez. E passávamos boa parte de nossas infâncias procurando os tais locais misteriosos.

E é disso que esse post fala: das lendas mentirosas e dos sonhos destruídos quando descobríamos que não havia área secretíssima porra nenhuma. Algumas vezes a verdade era mais cruel; o amigo do primo do irmão do menino da escola nem existia!

A Fase na Nuvem
Essa aí esteve nos meus sonhos e pesadelos por quase 5 anos. Desde a época em que eu não tinha videogame e jogava minha mesada fora em locadoras em Fortaleza, eu já venerava Super Mario World. Dedicava todo meu tempo livre a catar moedas embaixo do sofá pra ir jogar na locadora do seu Roberto, um argentino que me odiava por causa de um certo episódio envolvendo um rato (explico um dia). Então. Um belo dia, eu e um vizinho discutíamos sobre quem havia aberto mais fases no jogo. Falei, orgulhoso, que tinha quase todas as 96 fases destravadas no meu cartucho de Mario. O garoto soltou, com um ar de desdém, que duvidava que eu tivesse aberto a “fase na nuvem”. Perguntei, intrigado, “que fase é essa?”. Ele tomou o controle da minha mão e levou meu Mario pixelizado até o segundo mundo, você pode ver na imagem aí em cima. Tá vendo essa nuvenzinha no meio do oceano? Então. O cara jurava que tinha uma fase aí. É desnecessário dizer que eu passei boa parte da minha infância em Donut Plains, o segundo mundo de Mario, tentando achar a passagem que me levaria pra Fase na Nuvem.

A banheira do Honda
Lendas videogamísticas envolvendo partes do cenário que são supostamente interativas com o jogador são mais numerosas que a quantidade de leitores que são gordos, mas a Banheira do Honda era a mais proeminente. Eu particularmente nunca fui muito chegado a Street Fighter, mas como vocês já devem saber, as lendas dos jogos não se limitam aos grupos que têm afinidado com os tais jogos. Eu só devo ter jogado Street Fighter umas duas vezes na vida, duas experiências extremamente tediosas (caralho, eu odiava esse jogo mesmo), mas ainda assim ouvi a história da banheira do Honda. Supostamente, havia uma combinação secreta que, se executada corretamente, no tempo certinho, permitia ao Honda pular dentro da banheira no fundo do cenário e lavar a bunda, ou algo do tipo. Vale lembrar nesse ponto que as lendas tinham muitas micro-variações, mas a idéia principal era sempre a mesma. Um dia, peguei Street Fighter emprestado de um amigo da escola, só pra ver se o negócio era verdade – a lenda tinha feito mais uma vítima. Imagino que pelo menos uns cinquenta mil controles de SNES foram destruídos por jogadores frustrados ao perceber que a banheira do Honda era tão inacessível pro avantajado lutador de sumô como portas, corredores e outras passagens estreitas.

A Triforce
Tenho certeza que quando leram os primeiros parágrafos do post, muitos se perguntaram se eu ia falar sobre a lendária Triforce em Zelda The Ocarina of Time. Não é pra menos; a lenda da Triforce era mais notória que Jebus, o doente mental que passa o dia inteiro lá no centro da cidade gritando contra semáforos e pedras. De longe a lenda mais bem trabalhada, a história da Triforce envolvia até mesmo, pasmem, a suposta participação da própria Nintendo! A lenda, ou ao menos a variação que ouvi, era a seguinte: um programador que trabalhou na equipe de de produção de Ocarina of Time fez, sozinho, um JOGO INTEIRO e escondeu o tal jogo, ou ao menos a passagem para ele, num artefato conhecido por gamers no mundo inteiro como Triforce. O tal programador teria morrido (e o contador da lenda sempre enfatizava o drama do cara, dando-o pestilências como hemorróidas cancerígenas ou tuberculepra leucêmica, porque afinal de contas todos tínhamos 13-14 anos e nomes complicados davam credibilidade à história) e o segredo do jogo escondido foi levado junto pra cova. A Nintendo ouviu o boato sobre o tal jogo secreto, e queria descobrir onde ele se escondia, para poder aproveitar e honrar o trabalho do programador, lançando o jogo no mercado. Obviamente a Nintendo não ia fazer algo inteligente, barato e rápido como, digamos, abrir o código fonte do jogo e localizar a anomalia. Não, não. Ao invés disso, a empresa resolveu pagar CINQUENTA MIL DÓLARES pra qualquer jogador que encontrasse a Triforce, tirasse uma foto da tela da TV e mandasse pra eles.

Essa lenda afetou a vida de muita gente. Amigos antes felizes e sorridentes viraram nada além de uma sombra do que eram antes, de tão obcecados estavam em encontrar a tal Triforce e filar os cinquenta mil paus. Tinha neguinho fazendo até planos pro dinheiro, e não tou inventando. Era uma parada semi-deprimente (não totalmente deprimente porque, em retrospecto, os caras eram otários mesmo e mereciam sofrer pela ingenuidade).

Quando Majora’s Mask, a continuação de Ocarina of Time, foi lançado, a lenda morreu. Os boateiros de plantão ainda lançaram mão de uma última tentativa de manter a saga viva, ou seja, deram uma espécie de patch na lorota: eis que de repente, “descobre-se” o sobrenome do tal programador morto era justamente MAJORA, e que o novo jogo era exatamente o mundo secreto atrás da Triforce! Como se pode ver, o engodo é realmente notável. A Lenda da Triforce foi a única mentira que conheço que passou até por update.

O Combo de 99 hits do Subzero
Esse não podia faltar, pois foi uma das lendas que mais ouvi na época gloriosa do SNES. Muitos clamavam ter alcançado o tal combo, outros diziam ter testemunhado a tal sequência, e um número equivalente alegava ter parentes que conseguiram acertar a combinação que fazia o Subzero desferir exatas noventa e nove porradas no seu inimigo. O combo de 99 hits virou uma espécie de nirvana dos videogames, um estado de espírito que apenas os mais iluminados poderiam alcançar. Até o grupo dos Grandes Mestres do MK (que era composto de malucos mais ou menos dois anos mais velhos que o resto da turma e que dominavam técnicas milenares dos jogos de luta como cobrir o controle com a camisa pra facilitar o desenvolvimento dos golpes) foi pego de surpresa com o boato. Júnior a.k.a. “Cabeça”, o líder não-oficial daquela patota de pré-adolescentes que controlava as partidas de Mortal Kombat com punhos de ferro e camisas de campanhas políticas, foi um dos primeiros a comprar a briga contra a lenda. O moleque passou MESES jogando MK3, e após muito tempo sem notícias sobre ter conseguido ou não o tal combo, foi obrigado a inventar as próprias mentiras. Segundo ele, uma vez ele QUASE conseguiu, mas faltou energia na hora H. Quando essa lorota se tornou velha, ele passou a alegar que tinha conseguido, e que tinha dado pause no jogo (usando um cheat code que permitia pausar partidas de MK3, o que realmente existe) mas aí a mãe dele não deixou ele sair de casa pra dar as boas novas pros amigos. Como ele tava com medo de deixar o videogame ligado por muito tempo e assim foder o aparelho, acabou desligando-o.

Eu tenho minhas suspeitas a respeito dessa lenda. Imagino que alguém tenha visto Killer Instinct pela primeira vez e achado que se tratava de um outro jogo como, digamos, uma versão nova de MK (a confusão entre jogos era um fenômeno muito comum). Havia um personagem em KI, o Cinder, que quando era azul parecia ser feito inteiramente de gelo. Alguém viu o jogo de luta, o personagem de gelo e aqueles combos brutais que eram o carro chefe de Killer Instinct, e pronto. Surgiu uma lenda que, se minha teoria está correta, foi mais um engano do que uma mentira proposital.

Da forma que vejo, as lendas dos videogames não são muito diferentes das lendas sobre montros marinhos, quedas d’água no fim do mundo e muitas outras histórias similares que eram senso comum em séculos passados. Assim como os primeiros navegadores, os jogadores de videogame estão diante de um mundo (ainda que virtual) praticamente inexplorado. Superstição, ignorância e imaginação são os responsáveis para que os exploradores preencham as lacunas desconhecidas com invenções próprias. Hoje, com o advento da informação (no caso, os sites especializados que podem rapidamente confirmar ou omitir tais segredos em jogos), as lendas deram lugar ao conhecimento (quase) pleno.

A humanidade pode ter demorado pra descobrir que um navio não cairá num abismo sem fim ao se aproximar do “fim do mundo”, mas eu demorei mais ainda pra finalmente abrir mão do sonho de jogar numa fase nas nuvens.

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