As "7 pedras de crack por dia" do Charlie Sheen: mais um FAIL do jornalismo brasileiro

E já que o assunto da semana é Charlie Sheen…

Nessa semana o canal americano ABC veiculou uma entrevista com nosso Senhor e Salvador Charlie Sheen.  Como sabemos, o Messias está meio desvairado e tocou o foda-se de maneira nunca antes vista: mandou o criador do seu seriado se foder, desistiu de reabilitação — embora insista que parou de usar drogas — e fugiu pra uma ilha paradisíaca onde ele está comendo três gostosas neste EXATO MOMENTO.

De alguma forma a mídia jornalística espera que acreditemos que o cara é digno de pena. Enquanto isso você está aí tirando xerox no seu estágio.

Então. O Good Morning America foi lá entrevistar o nosso herói, cujo nome real caso os senhores não saibam é Carlos Irwin Estevez, e o resultado foi este vídeo (que poderia muito bem servir como prova de que ele não abandonou as drogas coisa nenhuma, mas isso é outro assunto):

[youtube]

(os cornos desabilitaram o embed do vídeo, target=”_blank”>assiste lá)

O resumo do vídeo é essencialmente a mensagem que o Reverendo Sheen já vem pregando há algum tempo: “fodam-se”.

Mas há algo peculiar nesse vídeo. Atente para o momento 2:28. O doutor Sheen diz o seguinte:

“I don’t know, man. I was banging seven-gram rocks (…)”

A frase era uma resposta à pergunta da reporter Andrea Canning sobre quanta droga o cara estava consumindo. Traduzida, a frase significa:

“Sei lá, broder. Eu tava detonando pedras de sete gramas (…)”

Não sou usuário de drogas, mas sei que “rocks/pedras” pode significar pelo menos três tipos de droga diferente — crack, ópio, e crystal meth. Tais pedrinhas são minúsculas, geralmente medidas em miligramas.

Que o ator andava fumando “pedras de sete gramas” me pareceu uma hipérbole — e considerando o tom da entrevista, essa é provavelmente a hipótese mais cabível. De repente ele nem consome drogas em pedra realmente (o cujo público alvo é geralmente gente pobre, ricaços cheiram pó), e ele usou a figura da pedra como alegoria pra quão drogado malucão vidaloka ele era.

Aliás, eu imagino que uma pedra (seja lá que droga for) de sete gramas sequer caberia num cachimbo. Pensa só: crack é vendido geralmente em dois formatos, pedras de 1/4 de grama e pedras de 1/10 de grama. Imagina a pedrinha de crack que você já deve ter visto no jornal ou nos filmes, e vamos supor que ela era a maior que os caras vendem, essa de 250 miligramas.

A tal “pedra de 7 gramas” que o Charlie Sheen alegou fumar seria portanto VINTE E OITO VEZES mais pesada que uma pedra convencional. Imagina o tamanho dessa merda.

Conclusão: o cara estava obviamente exagerando e galhofando o tom da entrevista.

Mas não foi isso que os jornais brasileiros noticiaram.

Me dá agonia ler isso

Até onde sei, foi a Folha que publicou a matéria primeiro. Como tradução ao “banging 7-gram rocks“, o intérprete ofereceu o “fumando sete pedras de crack por dia”, o que é bizarramente errado em três níveis:

  • “Seven-gram” significa “de sete gramas”, não “sete pedras”;
  • O ator nunca falou “crack”;
  • A frequência “por dia” foi completamente inventada.

Incrível como um erro de tradução alterou completamente o que o cara falou. Charlie Sheen admitiu, meio em tom de gozação, que se drogava muito (e usou como exemplo hiperbólico fictícias pedras de sete gramas, algo que já sabemos fugir completamente do padrão em que as drogas são oferecidas).

O tradutor da Folha transformou uma brincadeira numa confissão chocante — “eu fumava sete pedras de crack por dia”, inserindo na frase do cara três palavras que o ator NUNCA FALOU e alterando o significado da frase totalmente.

E pra misturar mais a merda, dois bilhões de sites reportaram a “confissão”. E até o momento, nenhuma errata da Folha. E nem terá, provavelmente.

Agora, imagina as outras traduções de merda que essa turma em cargo de reportar as “notícias” já deve ter deixado passar…?

Tradução é quase uma arte. Eu já trabalhei com isso (aliás, eu VIVO diariamente com isso, já que moro no exterior), e conheço como ninguém as dificuldades de adaptar as nuances de um texto pra outro idioma. Algumas palavras não existem na outra língua, há também piadinhas que dependem de referências culturais ou particularidades da grafia/sonoridade das palavras (algo que nunca sobrevive ao processo de tradução). É complicado mesmo, e muito do que compreendemos como TRADUÇÃO é na realidade ADAPTAÇÃO.

Traduzir um texto é como jogar um sapo no liquidificador. O resultado é ainda, tecnicamente, um sapo (no sentido de que todas os componentes que fazem do sapo um sapo ainda estão lá), mas mutilado a um ponto irreconhecível. Mas isso não é desculpa pra que um jornal cometa uma cagada dessa.

Na próxima vez que você vir alguém citando as tais sete pedras de crack por dia, POR FAVOR, mostre este texto pra ela.

[ Edit ] Opa, eles corrigiram o erro!

Pena que era outro.

A melhor parte? O tal Cellep na área de publicidade é um CURSO DE INGLÊS.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

77 comments

  1. first?
    realmente muita invenção kkkkkkkkkk conseguir mudar tanto uma frase e o pior é que todo mundo acredita ‘-‘

  2. Os tablóides gostam de fazer sensacionalismo pra satisfazer o desejo do público de pensar “Oh, meu Deus! Como esse cara famoso e rico está perdido e fora de si! Eu estou aqui tirando xeróx no meu estágio nesse exato momento, mas ao menos tenho minha moral e bom senso! Oh! Ah!!”

  3. O pior é saber que todos os outros “jornalistas” nem se deram o trabalho de assistir o vídeo (ou não prestaram atenção suficiente). Apenas copiam, colam e mudam algumas palavras de lugar. É fácil ser jornalista assim.

  4. Ainda bem que o Charlie Sheen está na vibe foda-se por enquanto. Quando ele voltar a si, a Folha vai ter uma dor de cabeça dos diabos.

  5. Vi ontem uma amiga falando “omg, Charlie Sheen vai morrer” e eu disse a ela que Lendas nunca morrem. E provavelmente ela deve ter certeza que o cara vai morrer se ela ler a notícia da Folha. Valeu, vou repassar pra ver se coloco na cabeça dela que Charlie Sheen não vai morrer pois nem o Chuck Norris quer ele morto.

    1. E ainda há jornaburro que não sabe a diferença entre letra maiúscula e letra minúscula.

      Já li quilômetro [km] sendo abreviado de umas duas ou três formas diferentes.

      Isso quando um ou outro tecnojornaburro passa a impressão de querer ser norte-americano, metendo p ao invés da / de divisão de unidades do SI.

      Exemplo: quilobyte por segundo é abreviado por kB/s, mas já vi kBps. Só falta esses metidos a yankee abreviarem km/h como “kmph”.

  6. Fala sério, ser um pseudo-jornalista (pseudo, porque né, essa galera nem tem diploma) deve ser muito fácil, copia aqui, cola ali, é sempre assim. Você viu a história do cara do não salvo? foi zoar o site do santos, acabou saindo de hacker e provavelmente sofrerá um processo, sem falar que a galera só copiou e colou as noticias, IDENTICAS, só com uma palavra ou duas alteradas

    fala sério, brasil :/

  7. Cara, eu com 15 anos na cara eu consegui traduzir isto normal, que até me deixou confuso ao ler nos sites tupiniquins, até você tuitar sobre o assunto.
    Realmente, foi um um erro que nunca deveria se cometer, mas cometeram. Ah! O inglês não é fácil, mas há também como moderar e o aprendizado, que isto é bem fácil.
    Por isso que eu parei de ler notícias no Brasil para ler os jornais lá de fora.

  8. Me graduei na Faculdade como Tradutor e Intérprete Trilíngue. Esse erro cabalístico da Folha é um dos “menos piores” que já vi. Nas aulas era usual destroçar tudo que era jornaleco com suas traduções medonhas, haha.

  9. não é fantástico saber que uma pessoa dessas tem emprego — e vai continuar tendo — sendo que macacos fazem melhor?

    e mais: se erram assim em ‘bobagens’ da cultura popular, imagina as IMBECILIDADES que a gente vêm lendo em textos sobre a cura do câncer, o futuro da economia mundial etc etc etc.

  10. A Folha vai se retratar da tradução ruim? Pff… a não ser q alguém “buzine” na orelha do agente ou sei lá quem cuida dos negócios do “Charlie” e a Folha e todos os outros veículos que fizeram a “merda” tiverem que engordar a conta do rapaz em mais alguns milhões pela burrada.

  11. ator FAIL!!
    seriado FAIL!!
    tradução FAIL!!
    notícia FAIL!!
    correção FAIL!!
    propaganda FAIL!!
    site do Israel unFAIL!!

    but still, life is good 😉

  12. Eles lançam uma errata só pra dizer que a entrevista foi na ABC e não na CBS… e a merda das 7 pedras de crack continua lá.

  13. Cocaína também pode vir em pedras E é medida em gramas (sete gramas é uma quantidade alta, mas consumível sem causar a MORTE). Acho que ele se referia a isso.

    Don’t ask. 🙂

    1. É uma possibilidade.

      Mas o fato permanece — ele jamais FALOU o que atribuiram a ele. ele falou que tava “banging 7-gram rocks”. Não que tava “fumando 7 pedras de crack por dia”.

    2. Tu tá mais que certo Fernando, Coaína apesar de pó, pode vir empedrada, e vc ter o trabalho de amassar e refinar o produto.

      1. Deve ser isso que me refiro é o comentário do Fernando. E não, cocaína em pedra não é crack. Isso diz respeito apenas ao estado da matéria. Só.

  14. mas a errata é sobre qual o canal que noticiou a entrevista, e não sobre as “7 pedras”…rs. A emenda ficou pior que o rasgo.

  15. todo mundo aqui zuando a folha pelo fail, chamando de burro e tal.
    se não fosse o izzy ninguem ia perceber e ainda iam achar que o cara é o maior drogadão

  16. Jornal é que nem religião: não importa quanta besteira sem sentido falem, sempre tem gente que acredita, defenda e financie.

  17. Qualquer mané que entende o minimo de inglês e já viu ele no seriado sabe que ele usa girias em praticamente todas as frases.. acho que cabe nessa colocação de frase.. quantas vezes a pessoa não fala “ja fiz isso um milhão de vezes”. quer dizer que já? não, é uma expressão aumentativa.. vacilaram total nessa

  18. “o cara estava obviamente exagerando e galhofando o tom da entrevista.” -- Vai esse é o novo tipo de droga que ele chama de “droga Charlie Sheen”.

  19. Basicamente, sempre que tem algo sobre “rock” significa crack, as traduções geralmente estão ficando assim (mas mesmo assim, rock continua sendo pedra, e não crack, obviamente), logo, todos os tradutores brasileiros são burros e vagabundos, um outro bom exemplo é o fato deles trocarem o nome do filme ao invés de traduzir, poucos continuam com o mesmo nome ou são traduzidos.

  20. Sei que o foco aqui é a tradução, mas mesmo assim pode-se observar no Charlie:
    1- (Sequelado?): O cara tá meio doido, no sentido que o discurso dele é meio errático (as ideias estão um pouco desconexas)
    2- (Mania?): Ele está se achando de certa forma invencível, acredita ser diferente.

    Ele realmente é diferente (todos são), mas também vai morrer (todos vão).
    O cara bem que parece estar na filosofia do Marley:
    “Para que levar a vida tão a sério, se a vida é uma alucinante aventura da qual jamais sairemos vivos.”
    “Vocês riem de mim por eu ser diferente, e eu rio de vocês por serem todos iguais”
    “Preocupe-se mais com a sua consciência do que com sua reputação. Porqe sua consciência é o que você é,e a sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, é problema deles.”
    “Não ligo que me olhem da cabeça aos pés..porque nunca farão minha cabeça e nunca chegarão aos meus pés”
    e outras…

  21. Tópico fail. A matéria já tinha sido corrigida antes (só ver a data na foto).
    E que estardalhaço em cima de uma besteira, hein? Esse é o HBDIA entrando para imprenssa cor-de-rosa.

  22. Hahahaha, fucking imbecils.
    A Folha vive dando cagada. Assim como o Estado, o JT, a Veja, o Agora, o Diário e qualquer outro meio em que o nome da empresa seja maior do que o próprio trabalho deles.
    Impagável a errata! O canal estava errado. Ponto.
    Fucking morons.

  23. Nos Estados Unidos é comum para quem usa drogas e tem muito dinheiro procurar cocaína com maior pureza, sem as misturas que fazem para render maior volume e lucro, essa cocaína com maior grau de pureza muitas vezes é vendida em pedras prensadas, o que serve como uma marca registrada ou diferencial da cocaína comum. Quem compra é que destrói a pedra a transformando em pó novamente para cheirar, injetar ou até mesmo fumar misturando em algum tipo de fumo ou outras drogas

  24. O problema com traduções no Brasil é que um profissional é muito caro (pros padrões brasileiros) e tem-se a ilusão de qualquer estagiário pode sair traduzindo, desde que tenha cursado 2 anos de Yazigi ou morado no exterior.
    Ledo engano.
    Para se formar tradutor estuda-se versão da língua, cultura do país de origem da língua (e dos principais falantes dessa língua), literatura dessa língua, tem-se mais de 8 cadeiras só do idioma aprendendo gramática, idiomáticos e uma série de intrincadas relações das duas línguas (a sua materna e a que você irá traduzir) e isso em entrer no conhecimento linguistico que envolve tudo isso e que é necessário para evitar esse tipo de situação embaraçosa.
    Todos esse pontos são ignorados solenemente quando um jornal grande coloca um cara que, visivelmente não ter a formação, para traduzir uma matéria/vídeo/depoimento.
    Outro exemplo do amadorismo do ramo no Brasil: Legendagem. Aqui o que mais se vê são erros grotescos de tradução nas legendas de grandes emissoras, quando não usam as legendas dos grupos da internet (que são, via de regra, muito mais bem feitas do que as “profissionais”).
    Novamente, o que pesa é o custo de ter um profissional preparado e formado para isso. Aqui no Brasil a coisa corre sempre no “mais barato” sem se preocupar com qualidade.
    É bizarro, mas longe de ser incomum.

  25. Texto muito bom. Legal pra caramba mesmo. Estou prestes a começar o meu curso de jornalismo em uma faculdade federal e espero ter a oportunidade de publicar verdades sobre palhaçadas como essa em algum lugar muito visado. Realmente excelente, parabens.

  26. Ótimo post!

    Ainda assim, penso em 2 hipoteses. Uma “cagada” devido a pressa em ser o primeiro a deflagrar o podre de Charlie ou realmente fazer sensacionalismo a lá “RedeTV”, com akele programa idiota de fofocas de artistas… sei lá o nome… que tem akele apresentador tosco com o chavão “aumento mas não invento”.

  27. Admito que tenho um lado sensual toda mulher temSandy cantora anunciada como nova garota-propaganda de uma cervejaria. Ela alegou que ficou impossibilitada de trabalhar como atriz por causa do relacionamento e teve contratos publicitarios cancelados. Isso me soava como um elogio indireto do tipo nao e uma vergonha que do pescoco para baixo voce esta questionavelKate Winslet atriz em entrevista a revista Glamour Gosto do Silvio Santos ele foi maravilhoso comigo durante 21 anos depois comecou a me menosprezar.

  28. é totalmente possivel véio fumar uma pedra de 7 gramas e com certeza é de crack ou meth pela maneira q ele falo e se encontra. opio nao é em pedra .

  29. Sou tradutor e o que mais vejo são essas cagadas feitas por amadores.
    Infelizmente qualquer um que tenha lavado pratos no exterior por alguns meses volta para o Brasil se achando tradutor.
    O sujeito nunca deu importância para o próprio idioma, não sabe acentuar nem pontuar e muito menos INTERPRETAR.
    Daí não tem jeito -- só sai bosta.

  30. Daí a necessidade da faculdade de jornalismo ser obrigatória para a execução de trabalhos nessa área. Espera-se que um ferinha com canudo não apronte peripécias como essa. Beijo no coração, Israel!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *