malafaia

Como já cansei de falar aqui no site, eu fui cristão evangélico por boa parte da minha vida — desde a infância até aproximadamente os 16 ou 17 anos. Nesse período, me congreguei na Assembléia de Deus Betesda, o que renderá eternamente piadinhas sobre o game Fallout. Caso você não saiba, o nome “Betesda” vem de histórias bíblicas featuring Jesus curando pessoas e sendo de forma geral um cara gente boa.

Eu lia bastante a bíblia, como é comum a ex-cristãos — como diz o ilusionista Penn Jilette em seu livro God, No!, “ler a bíblia é o atalho para o ateísmo“. Além de lê-la (constantemente) em casa, eu a lia nos três cultos semanais dos quais eu participava, e lia nas escolas religiosas que faziam a leitura das Escrituras parte do currículo educacional.

Após toda essa exposição à fé cristã, e tendo uma natureza de curiosidade e dificuldade de aceitar regras, algumas coisas começaram a não fazer mais tanto sentido. E lá pela adolescência eu comecei a questionar abertamente a narrativa bíblica e o conceitos da fé cristã.

Foi um período muito assustador. Imagine passar a vida inteira sendo “moldado” de acordo com uma certa interpretação do mundo — existe um Deus, existe um diabo, Deus tem um filho, esta aqui é a mensagem divina d’Ele(s), e você precisa segui-la para se salvar –, e subitamente não crer mais em nada naquilo.

Meus pais, irmãos, amigos, namoradas, professores, pastores, todo o meu círculo social e as minhas figuras de autoridade me diziam algo… que me parecia estar errado. Eu lembro que a súbita realização de que a minha religião era tão fantasiosa como qualquer outra das milhares que existem no mundo foi traumática. Num piscar de olhos, fui de “privilegiado por entender a real mensagem divina à humanidade” pra “seguidor de apenas mais uma religião falsa, como todos os outros que eu até hoje julguei estarem errados”.

Eu passei a orar mais fervorosamente, a ler a bíblia com mais afinco, sofrendo de um medo visceral de que a Salvação estava escapando dos meus dedinhos. Tive pesadelos recorrentes em que minha família inteira ia ao céu e eu, pro inferno. Tinha medo de admitir que nada mais daquilo que eu via e ouvia na igreja me convencia.

Dou essa introdução pra que você, amigo cristão, consiga controlar o ímpeto de correr aos comentários do site berrando “ahhh mas você não leu a bíblia! Não entende a tradição cristã! Não sabe do que está falando!!!!” e de fato leia e absorva os argumentos que farei aqui.

O pastor Malafaia é um dos proeminentes líderes religiosos brasileiros que adotou como missão de vida uma cruzada quixotesca contra os gays pelo aparente motivo de acreditar que homossexualidade, tal qual gripe ou um Fiat Uno movido a álcool, é algo que se passa pros outros.

É sabido por qualquer praticante da religião cristã (por mais que sequer leia a bíblia; ou talvez, por isso mesmo) que homossexualidade “é pecado”. Eu quero analisar aqui com você o que exatamente a bíblia fala sobre sobre esse comportamento sexual.

Existem inúmeros… quatro versículos bíblicos que condenam diretamente a homossexualidade. Entre 31 mil versículos, apenas quatro sobre gays — sendo que um deles gera inacabável debate teológico por causa de um possível erro de tradução.

Você imaginaria que, baseado no furor com o qual o Malafaia prega esse ponto às suas centenas de milhares de seguidores, o título oficial da bíblia seria algo como “Os Gays Que Se Fodam Para Sempre: A Vida e Obra de Jesus Cristo”. Entretanto, a bíblia é curiosamente omissa nesse assunto. Existem mais versículos bíblicos sobre como você deve cortar o cabelo, e no entanto não vi Malafaia organizando uma marcha pelo corte de cabelo tradicional brasileiro.

Mas continuemos. Dois das quatro referências bíblicas sobre homossexualidade vem do Levítico, um livro que é basicamente uma imensa lista de coisas que você não pode fazer porque afinal de contas religião é divertida assim.

Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é“, diz Levítico 18:22. Mais tarde, em Levítivo 20:13, você lê que “Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão“.

Mesmo que ignoremos a interpretação protestante mainstream de que a lei mosaica foi cumprida no sacrifício de Jesus e já prescreveu (que torna obrigações do Velho Testamento irrelevantes). O que é preciso atentar é que é difícil seguir o Velho Testamento à risca porque esse livro proíbe quase TUDO.

A seguir, uma breve lista de coisas que o Velho Testamente condena. Repare a maioria dessa lista é punível com morte:

  • Não sangrar na primeira relação sexual — sim, até coisas totalmente fora do seu controle a bíblia tenta regular (Deuteronômio 22:20 e 21)
  • Estuprar uma noiva virgem — o que me obriga a interpretar que as não-noivas e não-virgens é liberado (Deuteronômio 22:25)
  • Transar com uma mulher menstruada — aí tou de boa “à cabidela” não é meu estilo (Levítico 20:18)
  • Adultério (Levítico 20:10)
  • Ingerir qualquer comida com sangue — sim, isso inclui até mesmo um bife mal passado (Genesis 9:4 E Levítico 17:10. Pelo jeito um frango ao molho pardo é ESPECIALMENTE pecaminoso)
  • Comer gordura — estou fodido (Levítico 3:17)
  • Comer qualquer coisa que misture carne e laticínios — digamos, um xisburger. Estou fodido mesmo (Êxodo 23:19)
  • Comer porco — porra, mas eu não posso comer nada mesmo?! (Levítico 11:7 e 8)
  • Não ser circuncidado (Gênesis 17:14)
  • Matar um escravo — repare que não é TER um escravo que é o pecado (Êxodo 21:26)
  • Plantar sementes de plantas diferentes no mesmo campo (Levítico 19:19)
  • Usar roupas com tecidos mistos — digamos, uma calça jeans com um cinto de couro (Levítico 19:19 de novo)

Eu te pergunto — alguém em sã consciência poderia defender essas práticas, ou pior ainda, advogar que elas sejam punidas com a morte como a bíblia manda? Em nome da coerência, Malafaia deveria estar fazendo campanhas para ilegalizar o divórcio, também — a bíblia deixa irrefutavelmente claro que Deus odeia divórcios.

Seja pelo dogma de que sacrifício de Jesus na cruz revogou a lei mosaica, ou pelo claro disparate que seria empregar hoje instruções de cunho social de 5 milênios atrás, aceita-se que a maioria (senão TODAS) as instruções acima não valem para nós.

Mas Malafaia e sua laia se apega teimosamente a UMA dessas instruções — curiosamente, aquela que permite negar dignidade básica aos outros, sem por um segundo se preocupar em ainda ter um prepúcio ou usar uma camisa de algodão com uma gravata de seda no culto de domingo.

É impossível tentar pôr em prática os mandamentos do Velho Testamento sem ser também um infrator.

Alguns tentam, claro — como esse rapaz que comentou hoje no meu Instagram.

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Mas ok, você é dos evangélico que ignora de boa todos os mandamentos do Velho Testamento, porque o sacrifício de Jesus os invalidou. Caso você queira se ater ao Novo Testamento, existem duas passagens bíblias que lidam com homossexualidade — ambas escritas pelo mesmo cara: Paulo.

Em Romanos 1:27, Paulo diz que “semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.” É um alerta gravíssimo; é uma pena que Jesus tenha esquecido de nos avisar sobre isso em sua passagem pela terra. 

E em I Coríntios 6:10, Paulo reafirma que “(…)nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

Vamos ignorar rapidamente que existe um debate teológico/semântico sobre essa última, já que o termo grego que foi traduzido como “efeminado” (malakoi) também significava “mulherengo” ou, em outras traduções, “fraqueza“, e não claramente “homossexualidade”.

A questão real aqui é: devemos seguir as instruções de Paulo sobre comportamento sexual? Entre todos os autores do Novo Testamento, Por que Paulo — e APENAS PAULO — parecia se preocupar com isso…?

Uma coisa que cristãos homofóbicos raramente atentam — porque essa turma dificilmente LÊ a bíblia; é mais fácil ouvir o resumão do pastor no domingo — é que Paulo, muito transparentemente, era contra qualquer tipo de sexo. Mesmo entre homens e mulheres.

Na mesma epístola aos Coríntios (aliás, no capítulo seguinte!), Paulo diz o seguinte:

É bom para um homem não ter relações sexuais com uma mulher.”

No versículo 27 do mesmo capítulo, vem uma outra instrução clara e inequívoca:

Estás livre de mulher? não busques mulher.

Mas ein?! Agora até sexo hétero não pode? Se você continua lendo o capítulo, o motivo se torna aparente: Paulo considerava atração sentimental uma distração nociva da Palavra de Deus. Na cabeça de Paulo, uma pessoa que se entregue à atração esquece de Deus. A missão do indivíduo deveria ser, primariamente, buscar a Deus e nada mais.

Acompanhe os versículos 32 e 33:

E bem quisera eu que estivésseis sem cuidado. O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor; Mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher.

Não é nem uma questão de que não se deve transar antes do casamento, como frequentemente se interpreta o primeiro capítulo dessa epístola. Paulo deixa claro no versículo 7 que seria preferível que todos fossem castos, como ele era. O ideal, de acordo com o apóstolo, seria não trepar e PRONTO.

Para Paulo, sexo era imorável, reprovável, um empecilho. Qualquer sexo.

O que faz sentido se você considerar o contexto — Paulo, um fariseu seguidor de filosofias estóicas, naturalmente sincretizou suas práticas de auto-renúncia emocional à sua nova fé cristã. Cristo nunca sugeriu que solteirice e celibato tornariam alguém mais próximo de Deus — seria estranho que seu primeiro milagre fosse justamente num casamento se ele condenasse a união matrimonial como Paulo claramente condenava.

Acontece que Jesus, infelizmente, não deixou absolutamente nada escrito em sua breve passagem pela Terra. Paulo, por outro lado, escreveu metade do Novo Testamento. E assim, a visão dele se estabeleceu como norma. O fato de que Jesus Cristo em pessoa nunca mencionou nada disso se torna detalhe.

E agora eu te pergunto, amigo cristão. Que moral você tem, em pleno 2015, de usar as cartinhas escritas por um judeu sexualmente neurótico do século I como indicador de integridade…?

Não que eu culpe todos os cristãos, naturalmente. O Pastor Ricardo Gondim, que por muitos anos liderou a Betesda e é amigo da minha família, se destaca entre os líderes evangélicos por não condenar os gays. Infelizmente, a histeria esganiçada dos Malafaias e Felicianos se amplificam, enquanto a ternura e compaixão dos Ricardos Gondins são abafadas.

Ah, e pra finalizar. Sabe aquele livro de Coríntios que o Malafaia usa pra justificar seu ódio por gays…? Na MESMA carta aos Coríntios, Paulo teve o seguinte a dizer sobre mulheres falando perante uma igreja:

As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei.
E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja.

Entretanto, eu conheço uma mulher que está desrespeitando este ensinamento bíblico. Ela se chama Elizete Malafaia, a esposa de Silas Malafaia:

Cadê então a Marcha Por Mulheres Caladas na Igreja, pastor Malafaia?

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Um dos argumentos mais perenes usados pela comunidade cristã em defesa de sua doutrina é o argumento da moralidade. Especificamente, eles alegam que a bíblia contém importantes lições morais, e que um mundo completamente ateu e secular (ou seja, sem nenhuma influência bíblica) seria um total antro de perdição e imoralidade.

Existem inúmeras maneiras de provar o quão hilariantemente errônea essa proposição é; entretanto, eu gostaria de usar um exemplo que vem diretamente dos confins da minha querida infância.

Como já mencionei aqui neste site diversas vezes, nasci em lar cristão. O meu próprio nome (“Israel”, possivelmente o nome mais significativo em toda a cultura cristã depois de “Jesus”) reflete essa inclinação religiosa da família, inclusive. E como tal, eu fui doutrinado nos princípios cristãos (pelo menos, de acordo com a interpretação da nossa congregação, evidentemente — não há muito consenso no cristianismo se você parar e prestar atenção) desde criança.

E um dos métodos que famílias cristãs empregam pra catequizar as crianças é isto aqui:

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Livrinhos bíblicos infantis. Eu tinha inúmeros, mas muitos MESMO. Sabe aquela anedota de que nos tempos medievais, tantas igrejas alegavam ter pedaços da cruz de Jesus que se juntassem todos, dava pra montar um navio? Então, eu tinha TANTO livrinho infantil bíblico que se você batesse o olho, julgaria que dá mais história do que contém a própria bíblia.

Eu tinha todo tipo de livro — um novo testamento ilustrado que eu adorava (e que mencionei aqui), livros com desenhos bem cartunescos, livros com ilustrações mais foto-realistas… toda a literatura com a qual entrei em contato entre minha alfabetização e meus 7 ou 8 anos consistia nesses livrinhos cristãos. E eu tinha livros de todas as histórias que você pode imaginar: das mais populares (como a Arca de Noé aí em cima) até as mais obscuras (o encontro de Jesus com Zaqueu, por exemplo, que não recebeu marketing similar e é conhecido mesmo só pelos true aficcionados).

Então, porque estou falando dos livrinhos infantis e da doutrinação que crianças recebem desde cedo em lares cristãos? Bom, pra ilustrar isso, usemos o mesmo livro sobre a Arca de Noé aí em cima.

Você conhece a história de Noé, né? Todos conhecemos. Deus tava revoltado porque a humanidade estava tocando o puteiro, se arrependeu de criar o homem, e resolveu dar fim naquela porra toda. Mas antes de detonar a parada ele informou Noé, o único homem de bem no planeta inteiro, que começasse a construir um barco imenso porque ele estava prestes a afogar todo mundo, num dos raríssimos usos da expressão “TODO MUNDO” que não é hiperbólico.

(Vamos ignorar por um instante o fato de que a menos que Deus executasse uma vasectomia mágica em Noé e seus filhos, o problema “humanos tocando o puteiro no planeta” se repetiria muito em breve, e que este bug no projeto deveria ter sido notado por uma entidade onisciente)

(Vamos também rapidamente ignorar o fato de que o mito da arca existe em diversas outras culturas, em datas ANTERIORES ao relato do Gênesis, e que muitíssimo provavelmente era uma lenda mesopotâmica antiga que foi simplesmente cooptada por Moisés quando este escreveu o Pentateuco — um esquema tipo “vocês ouviram essa história né? Bom, NA REAL foi o nosso Deus que fez as paradas, e foi assim…”)

Então. Quando criança, eu e meus irmãos aprendemos que Deus decidiu salvar uma única família, e chacinar o resto do planeta inteiro — até mesmo animais inocentes que não ganharam a loteria de entrar na arca. Parece um dano colateral absurdo pra um ser onipotente que poderia, se quisesse, executar sua matança de forma mais precisa, mas vamos ignorar isso também.

Se algum de nós questionasse “mas mãe/pai, Deus matou MILHARES de pessoas assim do nada…?”, a resposta inevitavelmente era “ah, mas eles eram pecadores/seguiam outra religião, eles mereceram”. Vamos, novamente, ignorar o fato de que até esse ponto na história dos judeus não existiam regras específicas de conduta — e mesmo quando elas surgiram, eram cheios de mandamentos sem sentido como não comer porco, não usar roupas que misturassem lã com linho, ou não cortar o cabelo.

E note que há gente que defende que a bíblia contém importantíssimos conceitos de moral, ein.

Então. A morte de centenas de milhares de pessoas era relativizada com pouca importância (quase descaso, mesmo): eram pecadores, seguiam outra religião, mereceram morrer. Uma fatalidade global era tratada com um gesto apatético de ombros, como quem diz “ahh, isso aí? Nem dá nada, relaxa”.

Talvez seja mais fácil relativizar a morte de centenas de milhares quando o fato aconteceu milhares de anos antes de você existir. Pra compreender o que o dilúvio de Noé significa em termos mais tangíveis, vamos contextualizar com algo que aconteceu quase 10 anos atrás.

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No dia 26 de dezembro de 2004, um tsunami no Oceano Índico atingiu 14 países naquela região da Ásia com ondas do tamanho de prédios de 9 andares.

Imagina uma onda desse tamanho indo pra cima de você.

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Talvez não seja surpresa que o desastre causou 230 MIL mortes.

Poise bem. O tsunami de 2004 seja talvez o mais próximo que nós passaremos de presenciar um cataclisma nas proporções do dilúvio descrito na bíblia.

Você seria capaz de dizer “ahhh, mas aqueles caras lá da Ásia adoram outros deuses e/ou eram tudo pecadores. Eles mereceram isso aí”…? Você conhece alguém que seria capaz de raciocinar assim…?

Se sim, eu recomendaria ficar longe dessa pessoa. Essa completa falta de empatia com outros seres humanos, a ponto de justificar ou até mesmo trivializar a morte de centenas de milhares (incluindo aí, não esqueça, crianças, idosos, e outros indivíduos de em condições de fragilidade, como pessoas com deficiências mentais), está muito longe de ser uma evidência de “moral elevada”.

Na realidade, essa total apatia com sofrimento e morte humana é uma característica de serial killers. É completamente impensável que se racionalize uma fatalidade de tamanha magnitude, e no entanto, é isso que a bíblia nos ensina.

Pior, é isso que pais cristãos ensinam a seus filhos! A morte indiscriminada de centenas de milhares não é causa pra preocupação ou questionamento da real moral da história; ademais, o cara que CAUSOU essa matança homérica não apenas é o mocinho da história — ele é a mesma entidade que adoramos, em honra da qual escolhemos o seu nome até!

É completamente ABSURDO que se ensine essa história pra crianças usando “ahhhh mas esses caras aí mereceram mesmo, nem se preocupe com isso” como justificativa ou moral da história.

Tendo tudo isso que eu te falei em mente, me diz se o vídeo abaixo não é literalmente ASSUSTADOR:

https://www.youtube.com/watch?v=4RmoNfKk7_c&ab_channel=DurvalPereira

Não estou usando de hipérbole aqui não. Ver um bando de crianças cantando alegremente que “quem pecar vai morrer” — uma punição que muitos debatemos se é válida em casos extremos, que dirá então quando “pecar” pode simplesmente ser “comer carne de porco” — me causa um arrepio. Chega a ser cartunesco esse total descaso pela vida humana.

Não sei se você reparou, mas o nome da música é DEUS NOS AMOU. Ele criou um lugar pra onde enviará pessoas que não acreditaram nele pra sofrerem eternamente (independente de terem sido boas pessoas ou não), mas ele nos ama. O nível de lavagem cerebral necessário pra conciliar essas duas idéias claramente contraditórias é incalculável — e não é diferente do que acontece com habitantes de países ultra-autoritários, reparem. O regime dos Kim na Coréia do Norte matou, direta e indiretamente, uma multidão incontável. Apesar disso, olha como a galera lá reagiu com a morte do Kim Jong-il:

Dissonância cognitiva é isso aí.

Agora me responde: ISSO AÍ é a filosofia de vida provida de maiores valores morais…?

Este é o meu aquário.

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Tá bem sujo, eu reconheço, mas é que hoje é justamente o dia de limpa-lo. E foi justamente de frente com ele, lendo pela milésima vez as instruções do processo de limpeza (eu sou muito burro), que eu pensei no assunto deste post.

Pra entender a história desse aquário precisamos voltar aos longíquo ano de 2007. Minha mulher trabalhava numa pet shop e tinha acesso (com desconto) a tudo que era bichinho e acessório vendidos pela loja. E ela tava no tesão de ter um animal de estimação, mas a casa em que morávamos inviabilizava tal coisa. Sobrava apenas a opção de peixinhos.

Então minha mulher saiu comprando os materiais pra construir nosso aquário. Comprou o aquário e as pedrinhas, o material de limpeza, o filtro, e finalmente os peixinhos. A menina chega lá em casa com os peixinhos num saco, igual criancinha voltando da feira agropecuária, dizendo “olha, olha! Os peixinhos!”

E tal como a mesma criancinha, o interesse da Bebba nos seus novos animaizinhos de estimação teve pouca longevidade. E eu me vi herdando as responsabilidades de cuidar dos peixinhos.

De lá pra cá, sou o único responsável pelo aquário. Alimento os peixinhos, troco a água, compro filtros novos quando necessário. de uma certa forma, eu sou o deus desses peixes. Tenho poder completo sobre a existência e a qualidade de vida deles.

Não tenho qualquer expectativa dos peixes. A mim, tanto faz se eles “acreditam” em mim ou se acham que a comida aparece espontaneamente e a água fica limpa por mágica. Não observo o que eles fazem o tempo inteiro e tou cagando se os peixes machos estão se comendo.

Eu jamais mataria um peixe sequer, por qualquer motivo. Inclusive, quando minha mulher — a essa altura já totalmente de saco cheio do aquário — sugeriu que deveríamos apenas “nos livrar dele”, eu fiquei completamente horrorizado. E fazer o que com os peixinhos? MATA-LOS?! De forma alguma. São seres vivos que dependem completamente de mim. O único motivo pelo qual eles existem é porque eu me importo o bastante com eles pra ter o trabalho de, de 2 em 2 semanas, colocar um balde embaixo do chuveiro, encher dágua, esperar aclimatizar, levar o balde até o aquário (molhando todo o carpete no processo) e lentamente encher o aquário de volta.

E enquanto eu limpava o aquário eu não conseguia parar de pensar na disparidade entre a forma com a qual eu cuido do meu pequeno habitat, e a forma como Jeová cuida do nosso planeta. Tragédias naturais, fome e pestilências é apenas o topo do iceberg: o que dizer da idéia de um ser que nos criou e, embora ocupe um plano incrivelmente superior que o nosso — supostamente com coisas mais importantes a tomar conta — se ocupa obsessivamente com nosso comportamento, decidindo que alguns merecem sofrer eternamente por trivialidades como fazer sexo sem ser casados ou beber álcool?

Se uma mosca tem uma proximidade genética tão próxima com a gente, eu imagino que peixes devem estar mais próximos ainda

(Sim, eu sei que você vai falar que a sua congregação é super liberal e modernete não há dogma contra álcool. Acontece que existem muitos que dizem que é, e ambos não podem estar certos. Então temos que avaliar a possibilidade de que os alcool haters estão certos)

Por que Deus não cuida melhor do aquário dele…? Acho que nem em meus tempos de maior descaso e preguiça eu deixei o meu aquário ficar na condição em que Deus supostamente nos deixou. Sei que existe toda uma corrente de pensamento dogmático pra justificar o aparente descaso divino, mas nem quando eu era evangélico conseguia aceitar.

Se sem onipotência eu sou capaz de promover uma existência muito melhor pros meus peixinhos…

ACALMA ESSE CU porque meu argumento não é “ain meu coitado dos bichinhos”, a la PETA, não. Quer dizer, até um certo ponto meio que é, mas não é o mote central.

Como você talvez saiba, o mesmo Deus que a bíblia diz ser “o mesmo hoje, ontem e sempre” tinha métodos diferentes para a expiação dos pecados do seu povo. Por que um ser perfeito teria bolado um plano e depois mudado de idéia eu não entendo, mas isso é algo que acontece BASTANTE na bíblia. Deus criou os homens, se arrependeu, tentou aniquila-los, depois se arrependeu também. Deus tornou Saul o rei de Israel e, estranhamente, se surpreendeu quando o cara virou um filho da puta (ele não era onisciente?), e aí colocou Davi em seu lugar.

Aliás, em Jeremias 15:6 Deus literalmente diz que tá cansado de ficar mudando de idéia o tempo todo. E em Isaias 45:7 Deus admite que ele faz coisa boa E desgraças também (e de propósito), então tente entender essa.

Pois bem. O método antigo de conexão com o Divino era sacrificar um animal ritualisticamente, com inúmeras estipulações sobre que bicho usar, como matar o pobre coitado, como drenar o sangue, coisital. A parada tinha mais regrinhas que manual de GURPS.

O método atual (e extremamente mais conveniente) é pedir perdão telepaticamente para um judeu que morreu há 2 mil anos e pedir que ele “entre” no seu coração. 

Cristãos apelam para o malabarismo retórico de que antes vivíamos o tempo da “lei”, e após a morte de Cristo vivemos o tempo da “graça”. Todo esse dogma (que é um pedaço importantíssimo da doutrina cristã) basea-se essencialmente em UMA passagem bíblia que sequer respalda a conclusão que eles tiram dela. Em Romanos 6:14, Paulo — SEMPRE ELE — estabeleceu que o pecado não pode te pegar porque “vivemos o tempo da graça”.

Essa é toda a base para a idéia de que a vinda de Jesus anula todas as leis do velho testamento. O problema é que o mesmo Paulo, em II Timóteo 3:16, falou que TODAS as escrituras continuam valendo. 

Tá vendo a bagunça que esse negócio é? Tá vendo porque existem TANTOS subgêneros de cristianismo…? 

Falando nisso: a parada é tão confusa, aliás, que não são todos os cristãos que abolem (eita verbo irregular) os mandamentos do Velho Testamento.

Os Adventistas por exemplo seguem um dogma que diz que toda a bíblia deve ser usada como bússola moral, e não apenas o Novo Testamento. E não estou me referindo só aos 10 Mandamentos, não — existem inúmeros outras instruções morais e sociais (completamente bizarras) no Velho Testamento que algumas seitas cristãs/judaicas insistem que devemos seguir à risca. Não usar roupas que misturem algodão e linho, por exemplo. 

Curiosamente, quando o versículo condena homossexualidade, citar Levítico 18:22 é de boa. A inconsistência em relação a seguir ou não instruções do Velho Testamento é total.

Voltamos ao sacrifício animal. Tente compreender a situação — fomos criados por um ser cósmico, mais poderoso que o Galactus e o Thanos juntos, de sabedoria insondável. Este ser cria o ser humano e estipula que ele deve obedece-lo. Por que? Porque sim.

Quando o ser humano o desobedece, Deus fica puto. E para resolver a cagada, o vacilão deve pegar um cordeiro sem nenhuma mancha, mata-lo, e oferecer a morte do bicho pro tal ser onipresente que criou o universo.

É isso que o Criador das Galáxias quer pra te perdoar: a carcaça flamejante de um cordeiro que não tinha porra nenhuma a ver com a história.

Mano… você não acha isso um pouco estranho? Isso não parece uma instrução ou um requerimento de um ser que está acima de toda a existência. Isso parece mais o que uma tribo bárbara nômade de judeus malucos ACHAVA que um suposto ser supremo queria deles. Parafraseando Kirk em Star Trek V, pra que diabos Deus quer uma ovelha morta…?

(E por que ele não quer mais?)

Quando você analisa esse tipo de coisa objetivamente, fica meio óbvio que isso não tem COMO ser o desígnio de uma criatura responsável por estabelecer as leis da física, dar carga aos elétrons do universo e criar os ingredientes necessários para uma deliciosa coxinha. Este é o plano dEle? “Mate um bicho, ateie fogo, e tá tudo de boa”.

Quando mais você lê a bíblia, mais as instruções que os profetas atribuiam ao povo (o sacrifício animal, a circuncisão compulsória, um dilúvio que matou todo mundo) parecem tentativas retardadas de explicar o mundo natural ao seu redor, e as supostas vontades do Deus que eles cultuavam. Era o que a mente de uma cambada de jockey de camelo que viveu milhares de anos atrás ACHAVA que Deus queria.

“Yep, ele quer que eu corte fora meu prepúcio. Por que? Porque sim ora. Esse é supostamente o sinal secreto de que somos os favoritos dele — um pau deformado através de um método ‘cirúrgico’ executado com pedras afiadas e nenhuma anestesia ou técnica sanitária”. Sim, pedras afiadas. Apesar de metalurgia já existir 8 mil anos atrás, estes iluminados profetas responsáveis por desvendar os mistérios insondáveis do criador supremo andavam por aí se cortando com pedras.

ESTES são os indivíduos a que você dá crédito pela revelação divina.

Pense nisso. Qual o sentido de uma divindade suprema querer que você mate um cordeiro pra que ele possa te perdoar…? Você não acha que é imensamente mais provável que isso saiu da cabeça de um chefe tribal/religioso de uma cambada que mal sabia limpar a bunda direito? 

Como vocês sabem, eu sou ateu. E tive, como muitos vocês, meu tempo de ateísmo revoltado adolescente — que, apesar de estereotípico e meio infantil até, é nada senão um resultado inevitável da criação religiosa opressiva: você se sente finalmente “livre” de algo e, portanto, irado contra a prisão a qual foi submetido.

Ultimamente no entanto eu adoto mais a postura de “viva e deixe viver”. Respeito a crença alheia, não engato debate com ninguém a menos que a pessoa venha atrás de mim propo-lo (o que acontece pra caralho), e compreendo o conforto que certas crenças dão às pessoas.

Sim, eu sei que você vai falar que me viu dando chiliques histéricos no tuiter tentando convencer a todos de que o cristianismo é uma farsa. Creia-me, em 99.999% das ocasiões em que isso ocorre, eu não comecei a falar sobre religião “do nada”. Inevitavelmente é algum broder cristão que puxa um debate e eu, que infelizmente gosto muito de discutir — digo “infelizmente” porque o tempo e energia que gasto batendo boca na internet poderia ser melhor aplicada em outra finalidade — e sempre mordo a isca e passo a debater com a pessoa.

Hoje foi um desses casos. Não vou citar nomes porque não quero que os envolvidos achem que estou usando o HBD como plataforma para ridiculariza-los, mas o que rolou é que fui novamente atraído pelo canto de sereia que é a discussão internética sobre religião.

Em minha experiência discutindo com cristãos na internet (e como currículo ofereceço este meu perfil num fórum evangélico onde tenho quase 900 posts, datando desde 2004 — parei de postar lá pelo motivo que expliquei no segundo parágrafo deste texto), aprendi que eles usarão duas coisas em quanto todos os seus debates:

Caso você desconheça as tais vias ou o Tomás de Aquino que as formalizou (e não queira clicar no link), é o seguinte: o cara era um padre e filósofo que viveu no Século XIII e bolou umas “regrinhas”, digamos assim, que supostamente provam que Deus existe. Essas tais vias foram refutadas até na época do cara, e eis aqui um texto conciso que explica a falácia por trás de cada uma delas.

O fato de que tem crente até hoje usando tais vias é um testamento de quão pouco tempo eles dedicam a analisar algumas de suas crenças.

Aliás, isso é um testamento também de onde a civilização humana estaria se seguíssemos o modelo religioso de “eterna confirmação de dogmas antigos”, em vez de adotar a objetividade e o progresso do método científico. Enquanto a religião está ainda usando métodos do século XIII, a ciência nos deu ringtones, camisinhas e o PlayStation 3.

Aliás, se não fosse a ciência e sua histórica rejeição da justificativa “é assim porque Deus quis assim e pronto”, não teríamos nem esta lanhouse de um real onde você está lendo o HBD neste exato momento.

Mas este texto não é pra refutar as vias de Aquino, quero me focar mais na bíblia. Como vocês sabem, a bíblia é para os cristãos um documento assinado por Deus e contém as regras sob as quais você deve se submeter caso não queira ir para o inferno.

Ignoremos por enquanto o argumento circular que é a única coisa que dá base para a santidade da bíblia.

A bíblia é a palavra de deus. Sabemos isso porque a bíblia diz isso. E a bíblia não mente porque ela é a palavra de deus.

Meu problema com a bíblia é que ela, falando de forma simples, não faz o menor sentido. Vamos ver a coisa de forma analítica, despida de qualquer preconceito religioso.

Aliás, se você é crente, finja que o texto abaixo se refere aos tomos sagrados de outra religião, tipo Macumbeirismo ou algo assim. Você notará que quando a bíblia não é a sua, a boa vontade com as pequenas inconsistências é bem menor.

Temos aqui como protagonista da história o Deus supremo, onipotente, bondoso e perfeito, o criador de todo o universo. Eu quero enfatizar aqui o ponto de que Deus é um ser completamente ilimitado, seu poder é pleno e ele pode fazer ou criar literalmente qualquer coisa que quiser. Nem o Maxwell do Scribblenauts tem esse poder.

 

Por outro lado, se Maxwell pode criar Deus…

Então. O dilema deste Deus (e já começamos com o paradoxo) é que ele precisa mandar uma mensagem ao homem. Por que um Deus pleno e perfeito e completo e onipotente precisava criar o homem é outro motivo pra debate de teólogo, mas vamos pular este probleminha.

Temos aqui um ser de poder ilimitado tentando mandar uma mensagem para o homem. O método que tal ser perfeito, onisciente e onipotente é:

Falar com um punhado de homens no oriente médio para que eles escrevam pergaminhos ao longo de vários séculos (no caso de Jesus é pior ainda — Jesus não escreveu nada, e as pessoas que escreveram sobre ele o fizeram várias décadas após sua morte, se baseando no telefone-sem-fio que é a tradição oral).

Tais pergaminhos serão eventualmente compilados pela Igreja Católica muitos séculos mais tarde, e alguns séculos depois “corrigidos” por Martinho Lutero. Os tais pergaminhos, agora conhecidos oficialmente como “Bíblia”, traduzidos e retraduzidos diversas vezes — explicarei mais sobre o problema disso — até finalmente chegar até você, onde ela será então interpretada de acordo com a postura dogmática da denominação a qual você se afilia (Seja você Católico, Adventista, Batista, Pentecostal, Anglicano, Mórmon, Testemunha de Jeová, Espírita…).

E se você nasceu ANTES de todo esse processo, você se fodeu automaticamente, já que não existia bíblia através da qual você receberia a mensagem divina e então salvar a própria alma. Qualquer justificativa para este problema (já ouvi dizerem “ah, mas naquela época não precisava ter bíblia, Deus falava diretamente com você“) será admitir que a bíblia então não era necessária. Por que antes Deus falava diretamente com os homens — um método IMENSAMENTE mais eficaz e abrangente — e agora fez esse downgrade?

Ignore o fato de que esse método não é de forma alguma o modus operandi do cara que criou o universo inteiro do NADA, apenas dizendo “universo, faça o favor de existir AGORA, obrigado“. O mesmo homem que cria vida usando lama inanimada demorou mais ou menos 7 mil anos pra publicar a porra dum livro? E quando finalmente o fez, o livro é tão vago e suas instruções tão incoerentes que permitem múltiplas (e conflitantes) interpretações?

ISSO AÍ é o resultado do Ser Supremo do Universo tentando mandar uma mensagem? Essa confusão imensa?

Não, esse não é nem o problema real. O problema real é o seguinte:

Existem atualmente em torno de 2 bilhões de cristãos. A religião existe (oficialmente) desde o século II.

Curiosamente, 2 bilhões de pessoas é também o número de pessoas que usam a internet. Só que a internet como a conhecemos hoje só existe há 20 anos, mais ou menos.

Isso significa que o homem falho, corrupto pelo pecado, com inteligência e poderes limitados criou uma forma extremamente mais eficaz de distribuir uma mensagem do que o Ser Supremo do Universo.

Isso faz algum sentido pra você? Esse é o grande problema do Deus cristão — ao definir sua divindade como um ser com poderes ilimitados, eles se colocam numa sinuca de bico. Como explicar as inúmeras vezes em que os métodos divinos parecem a obra de um estagiário com síndrome de Down?

Parece até piada, mas o panteão romano (ou o de qualquer religião na verdade) faz mais sentido que Jeová. Os deuses da antiguidade não eram onipotentes e nem eram uma bússola moral. Por isso faz sentido as merdas que eles aprontavam os as artimanhas com as quais eles atingiam seus objetivos.

E tem o lance da tradução ainda. Vou dar um exemplo prático aqui.

Este aqui é Presa, um livro do Michael Crichton (que é um dos meus autores favoritos). Nele, há um trecho em que o protagonista diz algo mais ou menos assim:

“E trabalhávamos à noite toda, regados a coca cola e chips da Sun”

O personagem em questão trabalhava numa empresa de tecnologia. Quando li o livro pela primeira vez, imaginei que eles estavam virando a madrugada trabalhando furiosamente, com latinhas de refrigerante e processadores da Sun espalhados por todo lado.

Reli o livro anos mais tarde, agora morando no Canadá. O texto original dizia:

“We worked all night, fueled by coke and sun chips”

Sabe o que são os tais sun chips, meu caro amigo leitor? Isso aqui:

Poisé. Não eram chips da Sun; eram sun chips. Eram salgadinhos. O cara trabalhava bebendo coca cola e comendo salgadinho.

Isso é apenas um exemplo. Teve este outro aqui, quando uma tradução errada da Folha mudou completamente o que o Charlie Sheen dizia sobre seu hábito de drogas. Eu tenho certeza que vários de vocês estão familiarizado com os bizarros erros de tradução mencionados neste blog aqui.

Tradução não é uma ciência exata. Requer conhecimento profundo não apenas das suas línguas, mas também de certas idiossincracias das culturas (sun chips, por exemplo, não existem no Brasil — talvez isso tenha confundido o tradutor?). Quando você tá traduzindo um filme ou um livro, beleza, os errinhos não provocam tanto problema.

Mas e quando o texto em questão é visto por muita gente como um manual de conduta (e, se a vontade de alguns tipos fosse feita, doutrina legal)? Como confiar que você está lendo a mensagem original intacta quando bíblias em portugues e inglês já mostram pequenas variações suficientes pra criar todo um dogma em cima?

Quer um outro exemplo? O sexto mandamento: “não matarás“.

Na bíblia João Ferreira de Almeida, a mais comum bíblia protestante em português, Deuteronômio 5:17 é apenas “não matarás“. Não mate, ponto final. Não há exceçõess, ressalvas ou nuances; o mandamento é direto e definitivo.

Já na New International Version, o versículo é “thou shall not murder“. Acontece que há uma pequena diferença semântica entre “murder” e “kill”, e por isso existe todo um dogma que justifica assassinatos em alguns contextos.

Ou seja: um dogma inteiro criado por causa da pequena diferença entre duas palavras que são praticamente sinônimos. E estamos falando de apenas UM VERSÍCULO DE QUATRO PALAVRAS. Leve em consideração agora que existem 31103 versículos na bíblia.

Se eu, que sou um zé ninguém, consigo apontar um erro desse só puxando de memória o que eu sei sobre a bíblia, imagina quantas divergências de tradução existem na bíblia?

Esse é realmente o canal de comunicação estabelecido pelo Ser Supremo e Perfeito do Universo? Sério mesmo?

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