O Paradoxo da Celebridade acontece quando as escolhas no elenco do filme implicam no fato de que aqueles atores (e seus trabalhos passados) não poderiam existir no universo do filme, mas no entanto eles existem. Um dos filmes que brinca abertamente com isso é O Último Grande Herói, do Xuazinéguer:

A idéia é basicamente essa: num mundo em que o personagem é interpretado pelo ator X, os outros trabalhos deste ator existem, ou não…? Em outras palavras: O Tom Hanks existe no universo em que Forrest Gump se passa?* As pessoas que vêem o Forrest Gump reparam que ele se parece com o Tom Hanks…? Ou teria o Tom Hanks desse universo uma aparência totalmente diferente…?

O Último Grande Herói interpreta a situação da forma nesse vídeo que você vê acima. Exterminador do Futuro (e presumivelmente outros filmes do Xuaza) existem no universo do filme, mas foram atuados por outros atores — no caso, o Stallone. Seria o mesmo caso com todos os outros paradoxos…?

Eis alguns exemplos disso:

– Em Armageddon, o Max (vivido pelo Ken Hudson Campbell, que meio que sumiu dos filmes) diz pra enfermeira que se ela enfiar essa agulha nele, ele vai crava-la no peito dela, e pergunta se ela já assistiu Pulp Fiction. Tanto o Bruce Willis quanto o Steve Buscemi aparecem em Pulp Fiction.

armageddon

“You stick that in me, l’m gonna stab you in the heart with it. You ever see Pulp Fiction?”

– Outra com o Bruce Willis: Em Cop Out, um dos personagens recita vários bordões cinematográficos. Quando chega no icônico “Yippie-ki-yay, motherfucker!” de Duro de Matar, o personagem vivido pelo Bruce Willis diz que “nunca viu esse filme”:

A propósito, “yippie-ki-yay” é uma frase tipicamente cowboy que era usava na música de abertura de um seriado americano de faroeste. John McClane a usa no primeiro filme após ser chamado de “cowboy” pelo Hans Gruber.

– Em De Volta para o Futuro Parte 2, Marty entra no Cafe 80s e vê inúmeras telas de TV. No universo do filme, este restaurante faz homenagem aos anos 80, e por isso nas telas aparecem inúmeras referências àquela década (Michael Jackson, Ronald Reagan, Aiatolá Khomeini), incluindo inúmeras séries de TV da época. Uma delas é Family Ties, uma série estrelada pelo Michael J Fox!

Ainda em De Volta para o Futuro, a trilha sonora do filme (Back in Time, do Huey Lewis) toca no rádio-relógio do Marty. Ele só ouve o refrão, e sai da cena. Acontece que o resto da música faz referência a toda a trama do filme!

– Outro exemplo com conexões musicais: Em Star Trek de 2009, há uma cena em que o Kirk criança rouba um carro. Esta cena:

Além do jabá tosco da Nokia, vemos que o Kirk se amarra nos Beastie Boys. Acontece que os Beastie Boys, que seriam basicamente música clássica no século XXIII em que Star Trek é ambientado, tem uma música que faz referência direta ao Spock!

– Em Tango e Cash, um personagem diz que o Tango (vivido pelo Stallone) “pensa que é o Rambo”. O Tango vai e comenta que “o Rambo é uma bichinha”. O Rambo, como você sabe, foi vivido pelo próprio Stallone:

– Em Fight Club, o Edward Norton e a Helena Bonham-Carter tão passando na frente de um cinema. A marquise do cinema anuncia que 7 Anos no Tibet está em cartaz — um filme do Brad Pitt!

fight club

– Em Zombieland, os personagens encontram o Bill Murray. O Tallahassee, vivido pelo Woody Harrelson, claramente conhece o ator e o trabalho dele, tanto que fica visivelmente empolgado em conhece-lo.  Olha a cena:

Acontece que o os dois contracenaram juntos num filme!

– Em Ace Ventura 2 (um dos primeiros filmes que assisti no cinema sem meus pais, aliás!) o Ace Ventura faz referência a Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redemption, no original). Observe nos 3:10:

Aí que está: lembra deste ator?

bob gunton

Ele se chama Bob Gunton, faz quase sempre papel de vilão e aparece tanto em Um Sonho de Liberdade quanto em Ace Ventura 2.

Que outros exemplos você conhece?

*Este asterísco do qual você já tinha até esquecido de ler lá em cima é meio tangente ao ponto deste texto, mas a resposta desta pergunta, curiosamente, é SIM. Na continuação do livro Forrest Gump (que se chama Gump and Co., ou “Gump e Cia.”), o filme Forrest Gump existe, assim como o Tom Hanks no papel titular. E o Forrest Gump do livro reclama que o filme tá todo errado!

O TVTropes é um dos sites que mais consomem a vida do freguês. Basicamente, é uma wiki que registra os “tropes”, que é um termo menos pejorativo pra “clichês”. Seriam aqueles temas e elementos comuns entre vários filmes/livros/novelas/videogames e o caralho.

Há muito tempo quero escrever uma série de posts baseados no TVTropes, porque são assuntos interessantes — entrar no TVTropes basicamente arruina a produtividade do seu dia; esse tipo de conhecimento aleatório inútil é mais viciante que crack.

Tive a idéia há MESES e demorei a implementa-la porque achei que os chatos de plantão iam me acusar de “plagiar” o TVTropes, como se plágio funcionasse assim: alguém falou sobre o assunto, é terminantemente proibido a qualquer outra pessoa elabora-lo. Como haters irão hatear de qualquer forma, e nem todo mundo sabe ler inglês e por isso fica de fora do conhecimento legal lá do TVTropes, pensei “foda-se, farei minha série, haverá nela valor pra várias pessoas”.

E começaremos com A ARMA DE CHEKHOV, ou “Chekhov’s Gun”.

Bond. James Bond.

“A propósito tem esse negócio aqui. Quando tu aperta este botão, ele faz isso. Tou mencionando só de passagem mesmo, não é relevante pra sua missão nem nada”

Chekhov’s Gun, ou Arma de Chekhov, é quando o filme apresenta algo de passagem que vai ser extremamente útil ou relevante lá na frente. Os gadgets do James Bond são o exemplo mais clássico desse clichê.

O nome vem do dramaturgo russo Anton Chekhov (o que mais ele poderia ser com esse nome senão russo, né. Mais russo que isso, só se o cara se chamasse BORIS VODKA); que defendia o seguinte dogma de roteirização: se tu vai mostrar uma arma em algum lugar na peça (digamos, pendurada na parede, mesmo que só de enfeite), ela TEM que ser disparada em algum momento, senão, qual o propósito de te-la ali?

Mas a Arma de Chekhov tem seu valor também — sem o estabelecimento prévio daquele elemento, seria muito aleatório o James Bond puxar DO NADA um aparelhinho que tem justamente a função que ele precisa pra sair da situação em que ele se encontra, né?

A propósito, a Arma de Chekhov não tem que ser uma arma literal. Pode ser qualquer coisa apresentada no começo do filme, e que depois aparece miraculosamente porque a situação pede.

Então. Vamos a alguns exemplos clássicos de Arma de Chekhov:

– Em Aracnofobia, carpinteiros construindo a adega do personagem principal o apresentam a uma nailgun — uma daquelas armas que disparam pregos. Adivinha o que ele usam pra matar a aranha-general no final do filme!

– Em Batman Begins, o trem construído pelo pai do Bruce Wayne acaba virando a arma que o Ra’s al Ghul planejava usar contra Gotham!

–  Em Homens de Preto, o K (Tommy Lee Jones) explicitamente diz pro J (Will Smith) pra nunca apertar o botão vermelho. EVIDENTEMENTE isso se torna necessário no clímax do filme:

– Em Prometheus, a Vickers mostra pra Shaw uma máquina médica super avançada capaz de fazer operações complexas em seres humanos. Evidentemente vemos a máquina em ação lá na frente.

– Em Todo Mundo Quase Morto acontece um exemplo perfeito do clichê, conforme descrito pelo próprio Chekhov: os dois protagonistas em um momento se perguntam se a arma atrás do balcão do pub é de verdade. E lá pelo final do filme eles tentam usa-la e descobrem.

E eis o meu exemplo favorito de Arma de Chekhov:

loader

– Em Aliens – O Resgate, a Ripley usa uma Power Loader pra ajudar os Colonial Marines a carregar sua nave. Lá no final do filme, quando você tinha completamente esquecido da parada, ela aparece com ela pra chutar bundas!

Me dê mais alguns exemplos de “Arma de Chekhov”, e inclua os seus favoritos!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...