Como o metal mudou minha vida

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Houve uma época em que eu odiava música indie. Não sei explicar exatamente o que era; provavelmente, o som meio leve não atendia as minhas necessidades de adolescente revoltado com o mundo. Algo como o Two Door Cinema Club, ou o Capital Cities, que são duas de minhas bandas favoritas atualmente, era o tipo de coisa que me causava urticária tamanho era meu desgosto por aquele estilo.

Aliás, nem era só indie que eu odiava — qualquer música mais “calma” me causava, paradoxalmente, profunda irritação. Instant Crush do Daft Punk com o Julian Casablancas, uma das canções que mais ouço hoje em dia, é o tipo de música que me faria arrancar a própria piroca e jogar pela janela, tamanha era minha insatisfação com esse tipo de música.

Meu negócio era METAL. Todo tipo de metal. Nu metal, black metal, death metal, speed metal, metal melódico, eu só ouvia isso. Se não tivesse guitarra distorcida, bateria com pedal duplo e alguém gritando (geralmente sobre dragões e feiticeitos, como era o caso do metal melódico), eu não queria nem saber do que se tratava.

Aliás, essa temática meio Terramédia do metal melódico era curiosa. Fonte de galhofa pra alguns e motivo de orgulho pra outros, a inspiração claramente tolkeniana tornava as capas dos discos virtualmente indistinguíveis de livros de RPG ou cartas de Magic. Por exemplo, abaixo coloquei várias imagens. Qual deles você acha que é uma capa de um álbum do Rhapsody, e qual é um livro do jogador de Dungeons and Dragons?

carta de magic

Se você respondeu que alguma dessas é a capa de um livro de RPG, você errou. Todas são ilustrações de discos do Rhapsody.

Então, hoje eu estava tentando re-experimentar um pouco do meu antigo apreço pelo metalzão de outrora. E explorando o catálogo metálico do Apple Music (com quem fiz as pazes, finalmente encerrando os perrengues centenários que tenho com o iTunes e a sincronização meio bugada com meu celular), percebi um fato que nunca contemplei antes: se eu não fosse metaleiro, eu não teria conhecido minha esposa.

Eu e a Bebbinha nos conhecemos em 2004, na festinha de um amigo em comum chamado Chris. Este é o Chris:

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Duas coisas dignas de nota: não, ele não é maconheiro; e na PRIMEIRA foto que catei dele no FB, ele tá com uma camiseta temática ao post. Sensacional.

Conheci o Chris totalmente por acaso — meu pai estava consertando o computador de uma senhora do nosso bairro pra tirar uma grana extra, notou uma revista de metaleiros na mesa de centro (que pertencia ao filho dela), e falou “olha, meu filho toca guitarra também, e tá em casa sem fazer porra nenhuma, posso chamar ele aqui pra conhecer o seu filho?“. Mais ou menos um mês depois, eu e o Chris tocávamos numa banda junto. E foi tocando nessa banda que eu conheci a Bebba — que era amiga dele de escola, e igualmente metaleira.

Aliás, olha uma foto aí de quando ela tinha míseros 16 aninhos:

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Mudou quase nada

E foi aí que eu percebi que, não fosse o gosto mútuo por Linkin Park, Metallica e Dragonforce, eu provavelmente não teria conhecido o Chris. E, consequentemente, não teria começado uma banda com ele, e assim não teria conhecido a Bebbinha.

A vida é curiosa desse jeito. As circunstâncias que me levaram a conhecer minha esposa foram extremamente tênues — um delicadíssimo balanço de acontecimentos se fez necessário, e se qualquer daquelas variáveis não estivesse milimetricamente posicionada, minha vida hoje seria dramaticamente diferente.

Se você é daqueles que acredita em destino, você provavelmente dirá “mas se não fosse através do Chris, e se não fosse por causa daquela revista, você teria conhecido ela de alguma outra forma”. Os mais céticos, como é o meu caso, vêem o universo de outra forma. Não acho que existam “inevitabilidades”; não creio que eu estava de alguma forma destinado a um futuro específico, que aconteceria a despeito de qualquer circunstância.

Se o Chris tivesse trazido a revista pro seu quarto naquele dia, em vez de deixado-a na mesa, eu não teria conhecido minha esposa. Um gesto tão absolutamente trivial que mudou fundamentalmente a vida de duas pessoas (na verdade, até mais — um casamento une duas famílias, afeta incontáveis vidas), pra sempre.

Isso me faz pensar em todas as coisas que NÃO me aconteceram por fatores microscópicos. Será que comer num certo restaurante em vez de outro teria resultado numa morte prematura, sendo atropelado a sair de lá? Ou perder o trem me levaria a conhecer alguém com quem eu iniciaria um negócio, me tornando rico…? As possibilidades são literalmente infinitas. Tragédias devem ter sido evitadas por circunstâncias trivial.

Tenho um exemplo bem recente disso, aliás: há algumas semanas, ao sair do trabalho, percebi que a fome não me permitiria chegar em casa. Passando por um posto de gasolina, senti água na boca imaginando um sorvetinho gelado. Sei que eu sabia que deveria evitar tais quitutes, mas a gula falou mais alto. Entrei no posto e comprei um Cornetto de chocolate.

Aliás, foda-se. Pra que mentir? Comprei três.

corneto

Só deus pode me julgar

Pois bem. O processo todo demorou apenas uns 2, 3 minutos.

Saí do posto e, ao chegar na 16th Ave, uma das maiores avenidas da cidade, percebi uma comoção em um dos semáforos. Um carro branco, com janelas quebradas, cercado de transeuntes. Um grupo de pessoas tentava agitadamente tirar do carro uma garota que parecia estar desmaiada. Não havia ainda polícia nem ambulância no local — e eles costumam chegar na cena MUITO rápido aqui na América do Norte –, o que indicava que o acidente deveria ter acabado de acontecer. Foi disso que eu imaginei que a cena se tratava: um acidente, possivelmente causado por embriaguez, e a galera tava tirando a menina do carro pra evitar que ela fugisse.

Até pensei em tirar uma foto pra comentar ocorrido no Twitter, mas repensei por causa da imprudência que é tuitar digirindo.

Então. Eu estava trafegando na faixa da direita, porque teria que entrar à direita dali alguns quarteirões, mas tinha uma massa imensa de pessoas bloqueando a pista. Fui pra faixa da direita, onde passei devagarinho tanto pra evitar a multidão, quanto pra dar uma olhada na cena. A galera tava colocando uma garota negra desacordada no chão ao lado do carro, e berrando pra alguém “chamar a polícia”.

Nossa, essaí bebeu todas pelo jeito“, pensei, e segui meu caminho.

Na manhã seguinte, descobri o que havia acontecido. Alguém havia parado o carro do lado esquerdo do carro da menina (que estava na faixa do meio), e eu… pera, vô precisar de uma imagem pra explicar isso.

carros

Carro A está na faixa e que eu geralmente transito, já que saio da avenida à direita, dali alguns quarteirões. Carro B é onde o carro da garota estava. Carro C é pode onde precisei passar, porque a galera tava amontoada nas outras duas faixas. Entendeu?

Pois bem. O que rolou é que alguém passando na faixa do Carro C FUZILOU o carro da garota — matando a menina, ferindo o passageiro dela (que era o real alvo), e enchendo a parede do banco, que fica do lado oposto (ali no lado esquerdo da foto), de balas.

Agora vem a parada tensa. O assassinato rolou quase exatamente 3 minutos antes do momento em que eu passei por lá. Eu estava na faixa onde o se encontra o Carro A na foto acima, ou seja — se eu não tivesse parado pra comprar sorvete, EU PODERIA TER PEGADO TIRO NA CARA TAMBÉM. Estaria na linha de fogo.

metero bala

Você não faz idéia do choque que foi ver isso na manhã seguinte nos jornais, e perceber que você passou PERTÍSSIMO de morrer a toa.

Isso me faz perceber que a nossa vida é muito menos “fixa” do que gostamos de imaginar. No ponto de vista micro, sua vida é igual todo dia — acorda, levanta, escova os dentes, vai pro trabalho, volta pra casa, joga videogame… previsível. Imutável. Every day is exactly the same, diria o Trent Reznor.

Mas quando olhamos de forma macro, dando um “zoom out”, estão acontecendo todo dia MILHÕES de interações aleatórias, cada uma delas com o potencial invisível de mudar sua vida COMPLETAMENTE. A vida não é uma caminhada tranquila por terreno tranquilamente familiar. Em vez disso, estamos em cima de uma corda bamba, constantemente.

O que eu estou querendo dizer aqui é, compre sorvete sempre que sentir vontade, e deixe revistas de metal espalhadas pela casa. Pra mim sempre rendeu bons resultados.

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comments

14 comments

  1. Não sei se tu já ouviu falar nessa teoria, Izzy, mas é bem isso que o Efeito borboleta (não o filme) trata: uma pequena variação dentro de um sistema (situação) pode ocasionar em consequências completamente diferentes. Aí pode ser aplicado em matemática, física, química etc.

  2. Quanto mais a gente dá um zoom out nessa parada, mais ainda isso impressiona.

    Em 2006 troquei de escola, onde conheci um amigo (David), que começou a trabalhar numa pizzaria, onde eu passei a comer com frequência e comecei a trabalhar também depois de um tempo. Fiquei amigo do meu patrão e da família dele. A filha dele se tornou uma grande amiga. Mudei de cidade depois de um tempo, e a prima dessa minha amiga me apresentou outra amiga que depois de um tempo acabou começando a namorar comigo.

    Seja a diferença de 3 minutos pra um sorvete ou uma sequência de fatos durante anos, é impressionante o quanto o efeito borboleta é capaz de fazer.

  3. belo texto izzy…

    por incrivel que pareça conheci teu canal no youtube (e esse recinto consquentemente)numa treta sua com aquele-que-não-deve-ser-nomeado e não me arrependo de ter virado seu inscrito (sem puxa-saquismo, não faz parte do meu estirpe), voce é bem coerente no que diz (apesar de não concordar com parte de suas opiniões, sei reconhecer isso).

    sobre o texto: é o tal do efeito borboleta, como já disseram, o foda é prestar atenção nesses infemos detalhes no dia-a-dia.

    Abraços

  4. Cara, isso me faz lembrar que eu também já escapei por pouco num dia que uma estante de livros bem pesada se soltou da parede da casa dos meus pais, eu devia ter uns 10 anos, na melhor das hipóteses eu machucaria a cabeça feio com a porrada por que a mesa que estava embaixo ficou detonada com o impacto, já que ela estava cheia daqueles livros técnicos enormes de medicina.
    Acho que se pararmos pra pensar, TUDO que acontece com a gente é fruto de todas as nossas escolhas passadas, e essas coisas, pequenas coisas ou coisas que salvam a nossas vidas, acontecem toda hora. Eu penso muito nisso também, mas as vezes nem é bom porque isso só piora a ansiedade.

  5. É uma boa reflexão de vida,que na minha opinião,prova que nosso subconsciente tem um certo “poder” de premeditar o futuro.e que prova que Deus não manda e desmada de forma que ele achar melhor nas nossas vidas e deixa um poder de escolhas nas nossas vidas,como por exemplo esta menina que morreu,ela escolheu andar com o sugeito que ficou vivo neste atentado que erra para ele e como você que escolheu comprar o sorvete,que também Deus fando com você,e você teve o poder de seguir o que você acho melhor.

    Ou seja sua vida ficou por um sorvete.

  6. Muito bom Izzy! Parabéns! Um bom exemplo desse efeito borboleta no cinema é no “O curioso caso de Benjamin Button”, quando a Daisy é atropelada, e nós vemos que qualquer pequena mudança em eventos totalmente aleatorios mudaria a vida de Daisy e ela poderia não ter sido atropelada. É muito assustador pensar nisso, ahhrg, quantas coisas em nossas vida poderia ser diferente? Dá pra ficar louco.

  7. Então Izzy,

    Ontem coincidentemente aconteceu uma merda que teve grande importância na vida de toda minha família. Olha isso:

    Por volta das 22:00hs da noite de 09/10, estava lá eu fazendo a barba na pia pois iríamos sair às 08:00hs do dia seguinte para viajar.

    Acontece que abri a janela, que é de Vidro Temperado, e quando fui agarrá-la novamente pra fechar, do nada, sozinha, a janela estourou, partindo em mil pedaços e me dando uns cortes na mão.

    MERDA!

    Além de fuder com minha viagem,ainda terei gastos, etc..

    Hoje de manhã chamamos um vidraceiro que veio e colou um novo vidro provisório só pra tampar o buraco até o vidro temperado ficar pronto. Até terminar o serviço, já eram 10:00hs da manhã. Resolvemos então viajar, mesmo com atraso de 2hs.

    No meio da viagem uma fila enorme de carros na estrada e tudo parado. Ficamos por ali na pista e conversando com outros motoristas ficamos sabendo que houve um acidente envolvendo 06 carros de passeio, e quem não morreu está em estado grave. O acidente tinha ocorrido há aproximadamente 02 horas atrás!!!

    Pensei na hora: PQP! Se eu tivesse saído às 08:00hs, conforme planejado antes da P* da janela estourar, eu estaria passando neste local no mesmo instante que aconteceu este acidente, e talvez estivesse no meio dos carros acidentados. Eu estava viajando com a mulher e dois filhos, então Deus me Livre estaria toda a família envolvida!

    Tem coisas que são inexplicáveis, como uma janela estourar sozinha. Mas acho que eu e toda minha família tivemos um livramento, neste caso.

  8. Izzy, tem um filme de 1998 que brinca justamente com esse tipo de coisa, se chama Sliding Doors. A história gira em torno de Helen, personagem da Gwyneth Patrow, que certo dia pega o metrô em um horário mais cedo do que o habitual, e ao chegar em casa, acha o marido com outra mulher. Após este momento, o filme volta à cena inicial onde ela está no metrô; só que dessa vez, ela n consegue pegá-lo a tempo e, consequentemente, não descobre que está sendo traída. A partir daí, o filme passa a mostrar duas linhas temporais: uma na qual ela ainda está casada e outra na qual ela refaz a vida depois do divórcio. É uma típica comédia romântica, mas achei interessante mostrar essas duas realidades paralelas, acho q deveria haver mais filmes assim.

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