Confissões de um baderneiro escolar

material

Quando moleque (e não apenas quando moleque), eu era incrivelmente bagunceiro e desleixado.

Eu era um pirralho muito irriquieto, e que fazia de TUDO pra arrancar risadas dos coleguinhas de sala. Os professores me odiavam; passar o dia escolar inteiro sem ser expulso de sala pelo menos em UMA das aulas era TÃO raro que minha mãe me fazia promessas tipo “se você passar um mês sem ir pra sala da coordenadora eu comprou um SNES pra você” (em vários meses diferentes!) sem jamais ter que se preocupar com a logística de cumpri-la.

Era um win-win pra ela, porque a esperança de ganhar um SNES me mantinha na linha por um bom tempo, mas o ímpeto galhofeiro era tão potente que geralmente no finalzinho do prazo eu tocava o puteiro de novo e ela tinha justificativa legal pra não me dar porra nenhuma.

izzy jovem

Uma das minhas palhaçadas de classe clássicas era o “Nômade”. E sim, eu realmente usava esse termo pra definir a brincadeira — devo ter lido em algum livro de história na semana em que bolei o chiste.

Consistia no seguinte: quando o professor virava pro quadro negro (um minuto de silêncio por uma geração inteira dos meus professores que devem ter morrido de câncer após inalar tanto pó de giz), eu levantava minha carteira e a movia alguns metros pra trás. Dependendo da geografia da sala, dava pra me movimentar relativamente sem muitas obstruções, e a graça era ver quão longe eu chegava antes que o professor se emputecesse e inevitavelmente me expulsasse da classe

gincana 1994

Uma gincana escolar em 1994 (que nosso grupo ganhou, aliás). A seta verde sou eu. A seta vermelha aponta pro @ericxlive, um grande amigo infantil que eu tenho contato até hoje. Nos conhecemos na alfabetização, há mais de vinte anos!

Um dos reflexos da minha vagabundagem escolar eram as condições lastimáveis do meu material escolar. Quando criança, os flipbooks me cativavam, e então eu convertia as margens de todos os meus livros da escola em flipbooks rudimentares. Você não podia pegar um livro meu de matemática ou ciências sem ver bonequinhos palito pulando, fazendo polichinelo ou qualquer outra atividade fácil de desenhar nas beiradas das páginas.

Um outro hábito semi-artístico que eu nutria era desenhar adereços por cima das ilustrações de personagens do nosso folclore histórico. Se havia um retrato em bom tamanho do Santos Dumont, por exemplo, o ímpeto de desenhar óculos, uma barba, e as vezes band-aids (?) na cara do Pai da Aviação era absolutamente irresistível — imagino até que fosse tão irresistível quanto sua gana por ganhar os céus franceses no começo século 20, então por termos paixões de igual intensidade eu acho que ele me perdoaria.

O problema era quando meu pai via essas putarias no meu material. De vez em quando, meu pai chegava em casa puto com alguma coisa, e talvez pra manter o momentum da raiva, ele exigia inspecionar nosso material escolar pra avaliar seu estado de conservação e o status das tarefinhas de casa.

Aí que tá. Meu irmão era o comportadinho, o almofadinha que se comportava na sala (ou seja, não tinha histórias geniais pra contar durante a aula inteira), nunca brigava com os coleguinhas (ou seja, não tinha a fibra moral para defender com os punhos sua convicção na superioridade do SNES sobre o Mega Drive), não era chutado de sala quase todo dia (ou seja, não deixava os professores invejosos de sua popularidade na sala). Até penteado pra escola ele ia.

irmãos nobre

Essa foto ajuda a ilustrar a diferença nos nossos temperamentos. Às esquerda, meu irmão: comportado, engomadinho, servindo como pajem no casamento da minha tia. Às direita, eu: estragando uma foto familiar com uma lagartixa de brinquedo com a qual eu planejava assustar minha avó. Repare a mão da minha tia, tentando impedir que eu estragasse o registro fotográfico familiar com a parada.

Então. Meu pai pegava o material do Daniel e lá estava tudo bonitinho, com as tarefas de casa terminadas, o encapamento dos livros impecáveis, como se tivesse acabado de ser feito por minha mãe.

Aí ele ia ver o meu. O encapamento todo rasgado e riscado, com super heróis desenhados em todo canto. Animações de bonequinhos pulando em uma cama elástica nas margens. Uma ou outra página julgada como “inútil” estava em falta, certamente usada como matéria prima para um aviãozinho de papel no dia anterior. Ao abrir as páginas do livro de história, meu pai era recepcionado por um Dom Pedro II de óculos escuros, fumando cachimbo, com uma cartola e com uma inexplicável tatuagem de uma caveira na bochecha. Minha reinterpretação da figura do nosso último imperador certamente não foi apreciada pelo meu pai.

Minha vida escolar foi inteiramente assim.

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comments

20 comments

  1. Ótimo texto Izzy! Deu saudades dos meus tempos de escola. Não era tão peste quanto você diz ter sido, mas eu também fazia trabalhos de “restauração” das fotos nos meus livros. E, acho que na quarta ou quinta série, eu e meus amigos desenvolvemos uma brincadeira, ou devo dizer desafio, parecido com o Nômade, mas na nossa versão tínhamos que mudar de carteiras e, assim, atravessar a sala de um lao ao outro.

    1. Verdade!
      Um dos melhores posts dos últimos tempos.
      Ri alto no trabalho aqui. Ainda bem que hoje tem jogo do Brasil e o escritório tá vazio.

  2. Baita texto. Deu até saudade dos tempos de criança.

    O layout do site tá massa mesmo, mas leio pelo Feedly e acabei nem vendo. Só abri o site pq achei que ainda tinha texto faltando.

    Abraço

  3. Criança é o capeta em forma de gente, né? Todo mundo passa um pouco por essa fase de desafiar os professores (uns mais, outros menos).

    Imagino como deve estar a situação hoje, com os professores perdendo autoridade e autonomia em sala de aula em prol de uma pedagogia meio louca que dá liberdade d+ para os alunos.

    Ah! Chamar o @ericxlive de “grande amigo infantil” fica bizarro! Parece que ele é um crianção de 30 anos! Fica menos tosco chamá-lo de “amigo de infância” etc.

  4. Caraca.. ri muito, velho! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.. eu vivi os 2 lados metafísicos aqui, bem descritos!

  5. na parte do Santos Dumont, apos criar o aviao ele criou também o analógico e posteriormente o dualshock, como todos nós ja sabemos.
    quanto ao texto: começei na escola como o Daniel, porém hoje no 2º ano estou como o izzy (pelo menos um pouco, ainda nao saio da sala) mas a filha-da-putiçe é igual. hoje mesmo fiz uma gandiosa analogia na aula de história sobre como deus e Hittler eram/são parecidos

  6. Parabéns por ter aproveitado a infância!

    Nasci em 87, e sei que você não pediu pra saber de nada sobre mim, mas TOMA!

    Eu era como seu irmão, levava a escola à sério e meus pais nunca precisaram se preocupar, pois eu realmente gostava de ir pra escola e fazia as lições sem eles precisarem ficar no meu pé o tempo todo.
    Minha meta era sempre terminar o ano com média acima de 9! Assim eu ganhava balinhas importadas de um “tio japa”, amigo de longa data dos meus pais.
    É, também penteava meu cabelo, e ia todo faceiro (de ônibus) pro colégio… não era uma saga tão grande quanto a tua em Fortaleza, mas pro tamanho da cidade (Dourados-MS), estudar a 5km de distância de casa aos 11 anos, é realmente longe! E eu ia sozinho…

    Bem, não sei se meus pais REALMENTE “não tinham de quê se preocupar”… eu era esquisito e alguns traços de esquisitices me acompanham até hoje.

  7. Kid, curti para caralho esse texto seu !
    Eu não sou como você era (tô no 1° ano do ens. Médio), mas também não sou igual ao seu irmão. Eu brinco, dou risada, rabisco o caderno, porém acho que o professor merece respeito e nunca desrespeito ele (à não ser que o mesmo seja um filho da puta).

  8. hahahahahhaahha

    A minha vida escolar foi um misto entre a do seu irmão e a sua. Tive a fase engomadinho, certinho de fazer todas as tarefas e ser o orgulho de todos os professores e a fase aonde eu era expulso todos os dias de alguma aula.

    Infelizmente(ou felizmente, dependendo do ponto de vista) a minha fase baderneira foi meio tarde, eu já devia estar na sexta ou sétima série quando comecei e fui levando essa vida até o último ano do ensino médio.

    Bons tempos…

  9. Assim como alguns, achei que faltou um restinho. Mas ainda saí satisfeito porque pra ser sincero eu cheguei no meio do texto (onde está o vídeo de Santos Dumont) e achei que já tinha acabado porque me acostumei com os textos menores, e aí achei bom todo quando notei que continuou por mais alguns parágrafos. =D
    Assim, só o que concordei que faltou foi uma última frase mais no estilo “e aí eu me fodi porque X”, tipo “Nesse dia o lençol da minha cama achou que eu tinha ido à praia e não usado protetor, porque fui inevitavelmente dormir de côro quente*.” (*parcialmente copyright Jean Guedes nos comentários pelo Facebook)

  10. Hahaha, exatamente igual a minha em praticamente todos os aspectos. A diferença era que meu pai não inspecionava meu material ;P

    Nas festinhas de família, eu levantava a camisa e secava a barriga bem na hora das fotos, pra sair com as costelas aparecendo. Naquele tempo era bom demais.

  11. o texto ficou muito bom. O texto não ficou pela metade ?
    Finalmente você e seu irmão se formaram em qual curso?
    Cheguei nesse site através do seu canal do youtube com o vídeo falando sobre a derrota do Brasil contra Alemanha.

  12. o texto ficou muito bom. O texto não ficou pela metade ?
    E finalmente você e seu irmão se formaram em que curso ?
    Cheguei nesse site através do seu canal do youtube com o vídeo falando sobre a derrota do Brasil contra Alemanha.

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