[ Diário de um (quase) paramédico ] A chegada na base de emergência

bulancia

Como expliquei num texto passado, estou finalizando meu curso de paramedicina com um estágio não-remunerado numa cidadezinha no interior da província canadense onde moro. No artigo anterior dessa série, apresentei a vocês a pacata cidade de Mayerthorpe — e ao mesmo tempo esqueci de explicar um detalhe crucial. Na base onde estou, não atendemos apenas à cidade de Mayerthorpe. Nossas ambulâncias respondem a emergências num raio de até 150 quilômetros daqui. Então, a nossa atividade não é tão pacata assim.

Como falei no texto anterior, de quatro em quatro dias eu jogo minhas tralhas mais essenciais numa imensa mochila (iPhone, Macbook, iPad, leitor digital, algumas HQs do Quarteto Fantástico e se sobrar espaço, comida e desodorante) e viajo 430 quilômetros em direção ao interior.

Meu turno começa às 6 da tarde e termina às 6 da tarde do dia seguinte. Isso se repete por 4 dias, ou seja, na prática eu estou de plantão por 96 horas. Felizmente, não temos que responder chamados durante 24 horas seguidos, mas em dias de azar rola de você sair da base de manhãzinha, antes do sol raiar, e acaba voltando na madrugada do dia seguinte por causa de pessoas desastradas decidindo se acidentar sincronizadamente naquele dia específico.

No meu primeiro dia aqui em Mayerthorpe, cheguei bastante cedo na base, e descobri subitamente que não sabia ainda o código pra abrir a porta. Me vi contemplando o dilema videogamístico clássico — você sabe, o “se tenho uma bazuca, por que precisaria do cartão de acesso azul pra abrir a porta na fase 4?” Da mesma forma, se tenho um veículo automotor e espaço o bastante pra atingir pelo menos uns 70km/h, por que fui barrado pela mera ignorância de um código de 4 dígitos? “Videogames não são tão irreais assim como julgávamos”, fui obrigado a concluir  meneios positivos com a cabeça e aquela expressão universal de quem diz “é mermo”

PODE CRER

Sem ter o que fazer, rodeei a base futilmente. Mandei um email pro coordenador do estágio, sabendo que baseado em seu histórico de prontidão de resposta de email posso concluir que eu já terei meu diploma em mãos quando ele resolver dar sinal de vida. Após uns 10 minutos decidindo o que fazer, a porta se abre subitamente. Um dos paramédicos, um cara baixinho e musculoso com corte de cabelo distintamente militar e cara de ser o rapaz da turma que sempre conta boas piadas, estava indo buscar algo no carro. Ele me olha de alto a baixo e pergunta:

“Você é o Stewie novo?”

Não entendi a pergunta, e meu rosto deixou isso claro. Odeio esses momentos, porque geralmente eu pergunto “o que?”, a pessoa repete exatamente a mesma coisa, eu continuo sem entender, e sou forçado a mais um “ahn, o que?”. O sujeito então repete mais uma vez, e pra evitar esse combo de “O QUE?”, eu então finjo que entendi — o que tem potencial para uma situação de mal entendido de nível Seinfeldiano.

Mal comecei a dizer meu nome, na esperança de que talvez o cara me explique pra onde eu devo ir, e…

“O Stewie do G. É você?”, ele elabora. G é o nome do meu preceptor, ou seja, o paramédico que está diretamente responsável por mim durante o estágio.

“Sim, estou procurando o G”, confirmei, me perguntando como teriam confundido IZZY com STEWIE no email que o coordenador enviou pra base. “Ele já está aqui?”

O rapaz olha pro relógio, franzindo os olhos sob o sol da tarde canadense pra ver o mostrador.

“Não, tá cedo ainda. Ele só deve chegar daqui uns quarenta minutos. Mas você já pode ir subindo e esperar por ele lá em cima com os caras.”

Peguei as minhas tralhas e subi pros alojamentos. Chegando lá em cima, fui recepcionado pelos outros paramédicos, e percebi um padrão — o ar meio militar que senti quando conheci o primeiro maluco lá embaixo parecia uma constante ali. Botas alinhadas e perfeitamente engraxadas na entrada do salão, beliches impecavelmente arrumados, e um perfil físico de macho alfa pegador das baladas.

Todos os caras ali, com exceção minha, poderiam estar em capas da Menshealth. O mais baixo entre eles tem 1,76m (e fica parecendo um anão cercado dos outros marmanjos de 1,90m), todos em boa forma física, e são o tipo de caras que vão pra academia da base quando estão entediados enquanto eu na mesma situação assistiria uma maratona de BobSponja no Netflix comendo manteiga ou algo assim. Terei que me adaptar de alguma forma.

E os caras continuaram me chamando de Stewie, mesmo depois que eu me apresentei como Izzy. Resolvi perguntar que porra era aquela. O que acontece é que “STEWIE” não era confusão de nomes, e sim o nome que eles dão a estudantes. A palavra em inglês é STUDENT, que eles abreviam pra STU. E STU acabou recebendo um diminutivo e se transformando em STEWIE, como se fosse uma espécie de apelido carinhoso. Trocando em miúdos, é como ser chamado de “bicho” pelos veteranos na faculdade — há um misto de carinho e de zoação do recém-chegado.

E todos em plena forma física, com cortes de cabelo nitidamente militares. O ambiente militarizado não deveria ter me surpreendido tanto, afinal, a medicina emergencial nasceu bem recentemente nos campos de batalha modernos, sob tutela e desenvolvimento das Forças Armadas. Por isso, existe ainda hoje uma mentalidade bem militar no exercício da profissão. Imagino que o corpo de bombeiros funcione de forma semelhante.

Pra você ter uma noção da casca-durice dos caras. Um dia desses eu estava lendo alguma bobagem e um dos rapazes berrou “ô Stewie, estou com sede”. Passei por um breve momento de indecisão, até cair a ficha de “ah é, sou o ‘calouro’ aqui, essas filha da putice com calouro fazem parte”. Levanto pra pegar uma garrafa de água mineral da geladeira e o cara fala rindo:

“A geladeira tá muito longe. Me traz lá uma intravenosa, nível 18. Vamo ver se tu é bom, Stewie!”

Ou seja, a “brincadeira” é que ele está com sede mas quer que eu injete soro fisiológico nele em vez de oferecer uma garrafa d’água.

Agora, um negócio: eu não tenho frescura com agulha. Após levar TANTA agulhada no curso, você realmente nem sente mais. É apenas um leve desconforto e só. Este sou em em uma das aulas de intravenosa:

Eu não me incomodo nem quando a furada não sai tão bem.

sangue

Só que nem eu sou maluco a ponto de PEDIR pra levar uma agulhada de um cara que ainda é estudante da coisa. E esses caras não tão nem aí.

Vou na ambulância, pego os materiais, e a propósito? Isso aí não é um pino de encher bola de futebol. É uma agulha 18:

agulha imensa

O cara voluntariamente pediu pra eu fura-lo com isso só pra analisar meu skill na parada.

E é com esses malucos que eu convivo de quatro em quatro dias.

No próximo capítulo, te contarei sobre uma das primeiras emergências REAIS a que tive que responder — um maluco de 40 e tantos anos que tava passeando num daqueles quadriciclos motorizados e capotou (e teve seu pélvis EXPLODIDO no processo) no meio de uma trilha íngreme numa floresta a quatro quilômetros do acesso mais próximo de veículos.

Até lá!

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comments

14 comments

  1. Izzy, são por textos como esse que me tornei leitor assíduo do blog (mais do que do vlog). Sei que dá um trampo enorme produzir esse material e no momento não posso ajudá-lo com o Patreon, mas saiba que aprecio demais essas coisas que você faz e espero que continue com sucesso em sua vida profissional.
    Esse próximo texto parece estar sinistro hehe.

    1. Me expressei errado; embora a gente não atenda Edmonton no sentido literal, transportamos muitos pacientes de Mayerthorpe e adjacentes para os hospitais maiores (em caso de trauma muito grave/cirurgia/raio X e outras coisas); então nosso raio operacional é de 150km. Mas a gente não sai de Mayerthorpe pra Edmoton pra socorrer a galera lá. Ficou mais claro agora?

  2. Temos agora uma história ao estilo ”Patricinhas intercambistas”, que você vai demorar uns 2 anos pra escrever

  3. É serio isso??
    A pessoa prefere soro fisiológico na veia do que beber água??
    Eu como totalmente leiga no assunto, eu com a garganta seca querendo água tenho a mesma saciedade tomando soro na veia??

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