[ Diário de um (quase) paramédico ] Resgate na Floresta, o capítulo final

AMBU

No último capítulo desta saga Dragonballzística, eu havia chegado ao paciente acidentado no meio da roça, e durante minha examinação do sujeito percebi que havia algo de errado com o quadril dele.

Pois bem. Lembra que o nome do paciente era J? Aposto que tu esqueceu, porque eu demorei 50 anos pra concluir a porra dessa história. Mas aí está, o nome do cara era J.

Fui apalpando o corpo do J, não por prazer sexual e sim porque faz parte do processo de examinação. Somos treinados a reconhecer, através do toque cuidadoso, três circunstâncias que podem indicar traumatismo — Tenderness, Instability, e Crepitus. Durante o treinamento, nos referimos a esses três como “TIC”

Do que se trata o TIC? É assim:

  • TENDERNESS: o paciente protesta quando você pega naquela parte, sentindo dor. Forte indicador de que houve uma fratura ou deslocamento.
  • INSTABILITY: uma parte do corpo que deveria ser firme como uma garra de adamantium se move de forma não-natural, como se estivesse “solta” no corpo.
  • CREPITUS: quando as texturas porosas e irregulares de ossos quebrados sendo apalpados raspam uma contra a outra, provocando uma leve vibração que dedos bem treinados podem detectar. Não deve ser extremamente boa a sensação, mas por outro lado, se você não queria seu fêmur quebrado sendo esmirilhado dessa forma, você não deveria ter se acidentado.

Então. Notei que a perna direita do J estava meio encurtada, e levemente rotacionada pra fora. Assim:

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Isso é um indicador visual importante: uma perna encurtada e rotacionada externamente pode significar fratura do quadril. O motivo pelo qual isso acontece é que seus músculos estão exercendo tração constante contra seus ossos; se eles quebram, os músculos “puxam” os dois pedaços de osso um contra o outro.

Aliás, eu sempre achei, burro que sou, que QUADRIL e CINTURA eram sinônimos. E não quero culpar inteiramente a Shakira pela minha confusão mas ela não contribuiu de forma positiva.

Aliás, revendo esse clipe eu percebo que ela era infinitamente mais gostosa do que eu a dava crédito. Mas prosseguindo…

Suspeitando que o problema maior estava de fato ali no quadril, dei a apalpada de leve pra medir o limiar de dor que aquele ponto estava causando no cara. O J protestou imediatamente, violentamente, tal qual um cara que descobre que os Correios entraram em greve no dia seguinte após a compra de um videogame na internet.

E deu pra sentir uma protuberância, também. Mesmo sem visão de raio X, pude concluir com um certo grau de segurança que o quadril do sujeito havia sido fraturado ou deslocado.

Me volto pros meus dois parceiros. Ofereci a conclusão de que o paciente estava relativamente estável, com um nível de dor “gerenciável” (ou seja, que podíamos da conta com o que tínhamos no equipamento), contanto que a perna dele fosse imobilizada completamente.

Ordenei que os dois começassem o processo de SMR, ou “spinal motion restriction”. O instrutor, que ainda estava segurando a cabeça do paciente, deu aquela pigarreada que significa “não tá esquecendo de nada, não, seu filho da puta?“. Meneio positivamente com a cabeça e peço que um dos policiais troque de lugar com meu instrutor, pra que ele então comece o SMR.

Tirando o berro que o J deu quando apalpei seu quadril, ele estava bastante calmo — talvez, calmo demais pra alguém que está no meio do mato com uma possível fratura. A tranquilidade exibida pelo acidentado rivalizava aquela do sujeito que descobriu que a menstruação da namorada finalmente desceu após 5 dias de pleno terror. E aí as engrenagens começaram a girar na cachola — estaria o J sob efeito de algum psicotrópico…? Teria sido ISSO a causa do acidente?

Embora pareça que não, essas zonas rurais enfrentam um problema grave com drogas. Não sei exatamente QUAL a causa disso (e suspeito que não haja uma única causa), mas certamente o fato de que nessas cidadezinhas não tem NADA pra se fazer não contribui de forma positiva com a situação.

Existem basicamente dois tipo de drogas que são comumente (ab)usadas naquela região: narcóticos como oxycontin ou vicodin, ou benzodiazepinos como os da família “pam” — lorazepam, clonazepam, diazepam. O motivo pra isso é que, ao contrário de metanfetamina (que requer um certo nível de know-how químico pra produzir, Heisenberg que o diga) ou cocaína (que é importada, logo, escassa e cara), benzos e narcóticos existem em forma farmacêutica. Maconha é bem mais fácil de produzir, mas é “leve” demais pra galera que busca aquilo que na indústria médica nós especialistas chamamos de “uma lombra muito loka”

Então, como há um acesso farmacêutico (relativamente fácil) aos benzodiazepinos, isso reduz o nível de envolvimento de elementos mal encarados te vendendo a droga num estacionamento escuro às 2 da manhã com uma pistola na cintura e um semblante de tensa paranóia (ou talvez sob os efeitos da própria mercadoria). Basta conhecer um amigo com dor crônica e/ou problema de ansiedade pra descolar um monte dessas pílulas.

E eu estava começando a suspeitar que este meu novo amigo, o Sr J, meteu umas pírula no goela antes de sair por aí de quadriciclo. Como parte do meu “interrogatório” — e não uso a palavra de forma hiperbólica; às vezes tu tem que interrogar o cara mesmo, porque detalhes cruciais (como envolvimento com drogas) são frequentemente omitidos por receio de consequências legais.

O J poderia mentir o quanto quisesse. Sabe quem nunca mentirá? O Superman. Ele não mente nunca. Mas além dele, os efeitos fisiológicos causados por certas drogas também não mentem.

Um dos efeitos que esse tipo de droga causa é a constrição das pupilas. Entender por que isso acontece é mais simples quando você entende primeiro o que as drogas “inversas” fazem com o seu corpo.

Basicamente, existem dois tipos de drogas — as que aceleram seu corpo, que chamamos de simpaticomiméticas, as  que… bem… percebo agora que não existe um termo em português equivalente ao verbo “slow”, então cunho aqui o neologismo DEVAGARIZAR™.

Como eu ia dizendo, as drogas que devagarizam seu sistema nervoso são chamadas “simpaticolíticas”.

As simpaticomiméticas — como cocaína, anfetamina e em menor efeito, a cafeína — fazem tudo no seu corpo disparar, mudando os settings do seu organismo pro tal “lutar ou fugir”. Coração bate mais rápido, pra suprir o aumento antecipado na demanda de oxigênio; brônquios se dilatam para acomodar o volume aumentado de ar nos pulmões, o sangue que estava trabalhando nas tripas é redirecionado para os músculos, para que você possa dar poderosos socos e voadoras com os dois pés.

E as simpaticolíticas são o inverso disso: em vez de preparar seu corpo pra um quebra-pau, elas retornam seu organismo à condição natural. Pessoas com problemas de ansiedade crônica, por exemplo, tem dificuldade de reestabelecer esse equilíbrio; o corpo delas está FREQUENTEMENTE nesse estado de quebra pau, achando erroneamente que há algo terrível na esquina e que você precisa se preparar urgentemente.

E é aí que entra os benditos simpaticolíticos.

Eu adoraria poder dizer que manjo disso aí tudo porque sou um estudante muito dedicado mas na real eu tive que sofrer bem mais pra aprender essas porras.

O resumo disso é o seguinte: se essa calma toda do indivíduo acidentado (e, de fato, a causa do acidente) estivesse relacionada ao uso de simpaticolíticos, há uma forma bem simples de confirmar isso parcialmente — as pupilas.

Simpaticomiméticos, seguindo aquele script de “vamo preparar esse cidadão pra cair na porrada!”, dilatam as pupilas — porque isso permite que mais luz entre no olho, tornando a imagem mais clara e te permitindo enxergar melhor em condições de baixa luminosidade. Afinal de contas, como você acertará aquela voadora com os dois pés se não conseguir enxergar a cabeça do adversário?

Aliás, vamos aqui concordar que o sistema operacional do corpo humano é foda pra caralho. Os do meu PC, do meu celular e até o do videogame requerem chatíssimos updates frequentes que volta e outra quebram funcionalidades, enquanto o da minha cabeça tá aí desde 1984 funcionando super de bo…

…ah, é.

E as simpaticolíticas, tal qual um pai preocupado com a conta de luz seguindo os filhos pela casa apagando as luzes que estes acenderam, vai “desativando” esses efeitos. Ou seja, pega a pupila que estava dilatada, e a leva de volta ao normal.

E se a pupila do sujeito já estava normal (ou seja, se ele tomou um rivotril só pra curtir), ela então se contrai.

Puxei a minha lanterninha do cinto e liguei na cara do paciente, dizendo “dá uma olhadinha aqui rapidinho” estilo Men In Black. Nada. As pupilas estavam perfeitinhas, 4 milímetros.

A “investigação” estava basicamente terminada. O sujeito bateu numa pedra, capotou, tem aparentemente um quadril direito fraturado. Autolocomoção impossível. Nada de errado com as pupilas, nem com o nível de glicose no sangue, nenhuma dor no pescoço (mas não podíamos vacilar com isso, então vai com colar cervical por via das dúvidas). Nenhuma outra fratura, pelo menos de acordo com o que podemos verificar sem acesso a um raio X. Nada muito significativo além do quadril possivelmente fraturado.

Pedi que meus instrutores trouxessem o scoop stretcher, que até então eu NUNCA tinha usado numa pessoa de carne e osso. Isso aqui:

Normalmente, a gente usa uma prancha que parece com isso:

spine

Na maioria das situações, a gente coloca isso do lado do paciente, o “rola” pra um lado, empurra a prancha embaixo do cara, e o deita novamente. Aqui há um bom exemplo do movimento (que, como todos os outros vídeos instrucionais, tem o benefício de estar acontecendo num ambiente controlado, perfeitamente plano, com um “paciente” que não tem múltiplas fraturas e que não sofre de sangramento arterial volumoso)

Acontece que esse movimento de rolagem não é indicado quando o paciente fraturou ambas pernas, OU quando há suspeita de fratura no quadril. Virei pra um instrutor e pedi o kit de intravenosa (havia acabado de perceber que o paciente ia certamente precisar de medicamento intravenoso ao chegar no hospital); virei pro outro e pedi que medisse o scoop stretcher (que é ajustável) pra coincidir com a altura do paciente

Os anos furando pacientes no hospital me tornaram um exíminio iniciador de IVs, o que foi durante todo o meu estágio uma pequena fonte de orgulho. Eu errava diagnósticos, tomava decisões questionáveis, ficava sem fôlego correndo com o Lifepak na mão, me atrapalhava com a maca, escrevia relatórios incompletos, até lavar mal a ambulância eu consegui. Diz-se que estagiário é o único ser que pode cometer erros com impunidade porque esse é justamente o momento de fazer cagada; eu abusei mais dessa “imunidade diplomática” mais do que aquele vilão de Máquina Mortífera 2

final

Com a diferença de que eu fui impune MESMO, ao contrário dele. Aliás, spoiler de Máquina Mortífera 2 no parágrafo anterior, não leia.

Então, como estudante estagiário burro sem experiência eu cometi todos os erros do mundo, PORÉM na hora de meter uma intravenosa num paciente eu era mais habilidoso que os correios me dando desculpas pra explicar por que minhas muambas chinesas ainda não chegaram. O que era um curioso contraste, porque meus instrutores (embora extremamente capazes em todos os outros aspectos) eram quase hilariamente ruins em iniciar intravenosas.

Meti uma IV no maluco e começamos o “translado”. Pra colocar a scoop stretcher no sujeito (que continuava muito plácido pra alguém com uma possível fratura), tínhamos que primeiro “amarrar” sua pelvis com um cobertor, pra limitar ao máximo o movimento da fratura, e afixar esse cobertor em vários pontos com hemostats. Descobri no twitter que o nome delas em português é “grampo hemostático”, e percebendo que pro público leigo o nome em inglês e o em português provavelmente significam a mesma coisa (nada), eis uma figurinha:

hemo

Nessa hora, como é preciso apertar o quadril do coitado com bastante força, o J começou a berrar de novo. Estalei os dedos pedindo o cilindro de entonox.

Me senti extremamente cool. Imaginem-me voltando a cabeça pro parceiro atrás de mim e dizendo “I NEED ENTONOX, STAT”, o que provavelmente teria sido uma cena mais legal se eu não fosse gordo e estivesse suando pra caralho com a correria até esse ponto, a camisa saltando pra fora da calça devido à pressão exercida pela pança e tal. Agora que paro pra pensar não teve nada de cool nessa cena, esqueça ela.

O J tomou uns tragos do entonox e ficou mais tranquilo. Amarramos a pélvis do maluco, transferimos-no pra scoop stretcher, e aí veio a indecisão:

Como exatamente vamos carregar uma maca nesse terreno íngreme e enlamaçado por uns quatro quilômetros…? A parada demoraria absurdamente, o que atrasaria demais o resgate do pobre coitado. A mata ali era muito espessa; o mais próximo que o helicoptero do STARS poderia pousar era bem do lado de onde paramos a ambulância. Não apenas isso, mas alguns pontos da passagem eram tão íngremes e escorregadios que não era mais nem uma questão de “vai demorar muito”, era mais “a chance de nós obtermos um paciente a mais nessa travessia são altas”.

A idéia veio do próprio acidentado — e se usássemos o quadriciclo dele pra fazer o transporte? Colocariamos o stretcher em que ele estava preso em cima do quad, e alguém montava no bicho e ia guiando devagarinho. Os outros membros da equipe, aos lados do veículo, iam segurando a prancha firmemente.

Era uma solução extremamente não-ortodoxa, já que o quad não oferece nenhum suporte especial para o scoop stretcher. Mas a situação era essa: ou bolávamos uma forma de converter o quadriciclo numa carroça improvisada, ou o transporte do cara tinha chance considerável de dar merda.

Olhamos pro G, que era o líder do time. O líder “de verdade”, digo; enquanto a situação era boring e relativamente sob controle, eu era o líder “de mentirinha”, tomando decisões, dando ordens (ou “ordens”, na real). Quando surgia um pepino mais sério, rolava um implícito “ok moleque senta aí, deixa os adultos resolverem isso aqui”.

O G coçou a cabeça suada (estávamos todos bem suados, a bem da verdade), pesou os pros e cons da solução MacGyverística e, tendo em mente que apelar pra essas soluções mais “fora da caixa” carregam consequências sérias caso algo dê errado, ele concluiu que aquela era a única forma de executar o resgate com segurança.

E isso me deixou muito pensativo. Como estudante, eu pelo menos tinha o benefício de estar protegido sob um monte de legislações/protocolos que isentam o aprendiz de culpa quando algo dá errado, especialmente quando a decisão que rendeu o infortúnio não foi tomada por ele (na verdade, mesmo que seja — porque como os instrutores presumivelmente aprovam todas as decisões que você tomam, uma parcela de culpa de qualquer coisa é deles).

Mas no final das contas, a REAL responsabilidade de tudo ali era do G, e ele tinha que fazer uma decisão quando tanto a opção A quanto a opção B eram uma merda. Foi a primeira vez que eu entendi DE FATO que entrar nesse ramo é uma responsabilidade tremenda.

Vi-o soltar um “aaah, fuuuuck” baixinho, resignado, claramente impaciente, e disse:

“Vamos lá, coloquem ele no quadriciclo.”

Usando aquelas cordas elásticas de motoqueiros (que o próprio paciente tinha no seu quad), amarramos o stretcher como pudemos. Eu e um dos paramédicos de um lado, os dois policiais do outro, todos segurando a prancha com firmeza, e o G pilotando o bicho a 3 quilômetros por hora, com toda a cautela de um cego raspando o saco após ouvir um alerta de terremoto.

E assim, conseguimos resgatar o cara. Tendo tomado conhecimento das dificuldades que enfrentamos, tinha outro time esperando a gente no topo da colina, caso a porca chiasse. O gato fosse pro brejo? Esqueci qual era a metonímia. Aliás, o nome disso não é metonímia. Esqueça essa frase inteira.

E um dos outros paramédicos achou a situação tão cômica (um bando de socorristas subindo uma colina com um paciente amarrado a um quad) que tirou essa foto:

rindo

Por motivos óbvios eu tive que remover da foto qualquer coisa que identificasse qualquer pessoa na situação exceto eu mesmo, então aí está a pior foto que já postei neste site.

Eu espero que o J seja mais cuidadoso dali em diante.

Nunca determinamos exatamente o que o tornava tão calminho, apesar da situação grave em que ele se encontrava. É possível que ele fosse de fato meio maluco das idéias, tal qual O Médico Maluquinho que eu iria conhecer dali alguns dias.

Mas isso é uma história pra outra ocasião. Aguarde o próximo capítulo da saga Diário de Um (Quase) Paramédico!

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comments

10 comments

  1. Izzy, creio que o termo correto para a substância que contém benzodiazepina seja “benzodiazepínico” e não “benzodiazepino”

  2. “Embora pareça que não, essas zonas rurais enfrentam um problema grave com drogas. Não sei exatamente QUAL a causa disso (e suspeito que não haja uma única causa), mas certamente o fato de que nessas cidadezinhas não tem NADA pra se fazer não contribui de forma positiva com a situação.”

    Eu não tenho conhecimento pleno do fenômeno, mas no Brasil o problema de drogas nas zonas rurais só aumentam. O que eu ouço dizer é que traficantes vão pra essas áreas pelo baixo risco(polícia menos preparada para/disposta a lidar com traficantes armados), um mercado não explorado e menos problema de disputa territorial.

    E caralho, esse post foi longo mas valeu muito a pena.

  3. Izzy poderia mostrar a foto inteira, desfocando o rosto dos outros para não serem identificados ficaria muito melhor pra mim que sou curioso

  4. Aleluia o/
    Pelo amor de Zeus não faz mais isso de cortar uma história em 4 posta. Eu li teu livro em um dia, é muito aguniento ter que esperar tanto D:

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