[ Diário de um (quase) paramédico ] Resgate na floresta, parte 2

E aí cambada. No último episódio desta novela digital, eu estava correndo ofegante no meio de uma floresta no interior canadense quando uma picape da RCMP (o equivalente canadense da polícia federal, ou seja — é como o FBI canadense) veio subindo a trilha atrás de mim.

Continuemos então.

AMBU

Então. A picape da RCMP parou do meu lado. Olhei pros meus instrutores, que a essa altura já estavam longe na trilha. Não sabia como lidar exatamente com a polícia.

“Aê, tu é o stewie?” perguntou um dos polícia, me olhando de alto a baixo.

“Sim, eu sou” pensei em dizer mais alguma coisa, talvez dar alguma informação sobre o paciente, mas nenhuma palavra me veio. Eu não sabia qual era o protocolo exatamente.

O policial cortou o silêncio.

“São o C e o T ali na frente?” ele perguntou, meneando naquela direção com a cabeça, e depois olhando naquela direção e espremendo os olhos tentando identificar as silhuetas correndo lá na frente. O parceiro dele, digitando algo no celular, parecia completamente desinteressado na situação.

“Sim, são eles” pigarreei, procurando as palavras “a gente estava ind…”

“E esses filhos da puta te deixaram aqui atrás?” ele interrompeu, rindo e dando uma cotovelada no parceiro, que sequer tirou os olhos do celular.

“Poisé…” respondi com vergonha. O policial pelo jeito conhecia os caras, e deveria ter algum tipo de rivalidade amigável com ele — polícia, corpo de bombeiros e paramédicos tem essa relação meio fraternal um com o outro –, então eu sei que ele estava apenas usando isso como oportunidade pra dar uma zuadinha nos colegas. Só que não consegui não me sentir envergonhado, afinal, o que estava implícito no ar (mesmo que não tenha sido a intenção do cara) é que eu não consegui acompanhar os malucos na corrida.

“Haha, vamos dar um susto neles. Entra aí” — dito isso, ele acionou algum dispositivo no painel que destrancou a porta do passageiro da picape.

Foi minha primeira, e espero que última, vez no banco de trás de um veículo policial. Uma divisória de polímero transparente reforçado com barras de metal dividiam o compartimento traseiro do dianteiro, com uma pequena abertura pra permitir comunicação entre os dois ambientes. O interior das portas não era de estofado como num carro comum, mas sim de metal liso de alto a baixo, sem qualquer protuberância, e definitivamente sem a alavanca que abre a porta. Barras de metal protegiam as janelas do assento traseiro.

Era basicamente uma cadeia móvel. Me senti subitamente BEM desconfortável.

Do outro lado do banco, uma caixa comprida de plástico, trancada com dois cadeados grossos. É a caixa do Colt Canada C7, uma variante do AR-15 que é usado por forças policiais no Canadá. Me pareceu bizarra a idéia de que os rifles da polícia são mantidos no mesmo local onde eles prendem os vagabundos, mas se um sujeito com as mãos algemadas atrás das costas conseguir abrir a caixa E tirar os cadeados da arma, talvez ele MEREÇA um C7 novo.

“Me dê o fouroneone aqui” o policial perguntou, voltando a cabeça pro lado enquanto navegava os buracos no meio da trilha com a picape. O barulho da picape, junto com o fato de que o policial falou muito rápido, e de que o pedido veio até mim passando por um buraquinho de 5 por 10 centímetros, fez com que a pergunta fosse inicialmente mal compreendida. Eu não tinha nem total certeza de que ele estava falando comigo na hora. Depois de uns 3 ou 4 segundos de silêncio constrangedor é que caiu a ficha de que ele havia perguntado sobre o “411”, uma gíria que significa basicamente “informação”, ou “detalhes”.

“Ahhh… um capotou num quadriciclo e parece que se arregaçou todo na queda.”

“Eita nóis!” falou o policial em um equivalente qualquer em inglês. “Esses caras que andam nesses negócios são loucos, vivem se fodendo”. O motorista tinha uns 30 e tantos anos, a minha idade, mas era também alto, com bíceps delineando a manga da camisa do uniforme de policial federal. Como se o distintivo no peito e a Glock 18 na cintura já não fossem intimidante o bastante.

“Poisé” foi tudo o que eu consegui falar. Meu conhecimento a respeito de caras que andam nesses negócios é limitado; eu estava a caminho de conhecer meu primeiro, não achei que eu pudesse ficar os julgando de forma generalizada. Nem gosto de atribuir comportamentos a um grupo de pessoas de forma genérica dessa forma, como se eu fosse um corintiano.

“O primo da minha esposa, aquele que mora lá em British Columbia, lembra dele?” o motorista da picape perguntou ao seu parceiro, que continuava totalmente indiferente. “Ele queria que eu fosse andar de quadriciclo com ele no verão passado”.

“Humrum”, grunhiu o parceiro.

“E eu falei que nunca! Prefiro levar um tiro, haha!” disse o policial exageradamente. “Pelo menos um tiro entra e sai, não dá nada! Lembra do Fulano, lá da 16a DP (estou adaptando para a terminologia brasileira, obviamente)? Ele levou um tiro de um vagabundo em 2010 e ele falou que nem dói tanto assim! Foi o que ele falou pra todo mundo. Lembra?” o cara era realmente tagarela.

“Eu lembro”, disse o parceiro dele, pela primeira vez usando palavras de verdade.

“E tu, Stewie, já levou um tiro?” antes que eu pudesse responder, ele continua “QUER LEVAR UM? Hahaha, tô brincando cara, relaxa, a gente precisa de estudantes aqui. Por que de repente agora estão ensinando vocês direitinho, porque esses teus amigos aí são uns açougueiro do caralho! Se duvidar eles vão quebrar mais o coitado lá, hahaha!”

Dito isso, passamos pelos meus instrutores na trilha. Eles AINDA estavam correndo.

Poucos instantes depois, chegamos a um ponto da trilha em que a vegetação era espessa, com uma mini-trilha onde dificilmente passaria alguém de moto. Na beirada dela, estava um cara segurando um capacete, com um macacão jeans todo sujo, cabelo comprido e mal-cuidado semi-escondido embaixo de um boné do Black Sabbath. Era o amigo do acidentado, presumi, nos esperando na beira da trilha pra nos levar ao amigo fodido. Isso é, a menos que estivesse rolando um encontro de fãs do Black Sabbath no meio de uma floresta random no interior do Canadá.

“Chegamos no teu ponto aí, Stewie” disse o motorista, destravando a porta. Saltei pra fora, e alguns instantes depois os instrutores nos alcançaram.

Tomando a iniciativa, me aproximei do metaleiro sujo e perguntei onde estava seu amigo.

“Tá ali embaixo, descendo essa ribanceira” ele apontou pra dentro da trilha com o capacete. “Uns dois quilômetros, acho. É só vocês vindo mesmo?” ele perguntou, apontando pra nós e os dois policiais que acabavam de saltar da caminhonete.

“Por enquanto, sim” meus parceiros já estavam do meu lado, mas tipicamente silenciosos pra me permitir tomar controle da situação. “Vamo lá ver ele.”

Começamos a caminha em fila única, igual aquela turma lá no Senhor dos Anéis, porque a trilha era muito estreita. Dessa vez todos andávamos mais cautelosamente, sem correr, porque o terreno era íngreme e cheio de raizes brotando no chão em ângulos estranhos. A trilha subia, descia, fazia curvas fechadas, e por um tempo achei que o nosso “guia” tinha se perdido e não queria admitir.

Uns 15 minutos depois, a trilha (que eu descobri depois ser um atalho que o broder do acidentado usou pra encontrar com a gente mais rápido) se abriu num “corredor” mais largo, bem íngreme também, com marcas profundas na lama indicando passagem de quadriciclos. Ali devia ser o point da galera quadriciclista.

Ainda se fala isso? “Point da galera”? Virei meu pai, usando expressões arcaicas que revelam minha idade?

Perto do ponto de onde emergimos da folhagem da trilha estreita, estava um quadriciclo de cabeça pra baixo, todo sujo, com partes da carroceria quebradas. E mais acima na ladeira, estava nosso paciente.

E você não vai acreditar no que aconteceu em seguida.

(Continua semana que vem)

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comments

18 comments

    1. Ele disse “semana que vem”, mas não especificou que seria a próxima semana que viesse, então pode ser qualquer semana que venha. u_u

  1. Porra, eu realmente to ansioso pra saber o desenrolar disso ai hehehe. Só me esclarece um coisa, por volta de que horas essa epopeia aconteceu? Digo, tava escuro já ou ainda tinha luz do sol?

  2. Mto bom izzy, quero logo um livro seu, cara, as compilações de histórias do HBD são boas, mas queria ler um livro seu, quem sabe um romance, sei lá, ta pensando em escrever algo assim?

  3. Quando vc chegou lá viu que o cara capotou do quadriciclo pq um negro derrubou ele por ser o único branco num raio de 30 milhas

  4. Izzy, decorou mesmo a fisionomia dos “puliça”… hehehe
    Semana que vem tem mais, aham, to ligado nesse teu The Last Guardian ai!

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