[ Diário de um (quase) paramédico ] Resgate na floresta, parte 3

No capítulo anterior, nossa pequena caravana de resgate — eu, dois policiais, dois EMTs, e o amigo do sujeito acidentado — finalmente chegamos no local onde a vítima se encontrava.

Emergimos do mato para a trilha onde o paciente havia caído. À nossa esquerda, o quadriciclo capotado e arregaçado, meio coberto de lama, com algumas partes da carroceria claramente quebradas. À direita, subindo um pouco a trilha íngreme, o nosso paciente, deitado meio de lado no chão — e casualmente fumando um cigaro, enquanto segurava a perda direita com a mão livre. Chamarei-o de J.

Os policiais rapidamente se mostraram semi-inúteis na situação em questão, ambos puxando o celular do bolso e perdendo completo interesse na parada. “Se eles precisarem de ajuda, nos chamarão”, deveria ser a idéia deles.

Meus dois parceiros abriram alas e fizeram aquele movimento de mão clássico de alguém que dá passagem a outrem. Dava pra ver claramente que o paciente não estava em muuuuita dor, e não parecia estar sangrando nem nada. Quando a condição do paciente não é imediatamente crítica (sangramento excessivo, paciente inconsciente, amputação de um olho, etc), eles dão ao aprendiz liberdade total de conduzir a chamada.

Segurando o lifepak, subi a trilha seguido dos meus instrutores. Ao alcançar o paciente, coloquei o lifepak no chão e comecei a dar instruções aos meus parceiros. A um, pedi que segurasse a coluna cervical do paciente — a primeira precaução que se deve tomar num acidente em que o “mechanism of injury“, ou seja, a maneira em que o cara se fodeu, pode implicar em fraturas na coluna. Capotar num quadriciclo definitivamente se encaixa nesse critério.

Logo de cara, notei que a perna direita do cara, aquela que ele tentava futilmente segurar com a mão, estava levemente rotacionada e “encolhida” — um sinal clássico de quadril deslocado, ou possivelmente quebrado.

Eita porra.

Meu instrutor foi pra cabeça do maluco, alertando-o pra continuar com a cabeça imóvel. Ele se colocou de joelhos próximo à cabeça do J, plantou os cotovelos no chão, e segurou a cabeça do indivíduo. Assim:

wikihow

Virei ao outro e pedi que iniciasse uma rodada completa de sinais vitais, incluindo eletrocardiografia e nível de glicose no sangue.

“É pra já!”, respondeu o maluco, voando pra cima do lifepak, habilmente abrindo bolsos e puxando instrumentos como se tivesse 18 mãos.

Virei pro paciente. Com quarenta e tantos (todos?) anos, o J estava trajando uma calça jeans, uma camisa branca bem velha e rasgada, e uma jaqueta jeans. Na boca, alguns dentes faltando — uma coisa comum praquela galera da roça, eu notei em meu tempo lá. J tinha cabelo na altura da orelha, despenteado e aparentemente mal cuidado, também algo comum entre a galera que mora lá interior.

Mas ele não parecia um cara, sujo, ou carente de alguma coisa. Ele tava mais pro estilo “fazendeiro acostumado a uma vida pragmática de mãos calejadas e muito trabalho pesado, que não liga pra bobagens” do que “mendigo mal-nutrido da Paulista”, entende? A propósito, esse look era bem comum entre os habitantes de Mayerthorpe — incluindo o Médico Maluco, um dos mais peculiares personagens que conheci durante meu estágio. Falarei sobre ele na semana que vem.

“E aí, o que aconteceu aqui?” eu perguntei.

Entre uma trago e outro do cigarro, J explicou que estava descendo a trilha com o amigo, quando se sentiu um pouco tonto/distraído/cansado (não lembra exatamente o que era, porque a coisa foi rápida), e acha que acertou uma raíz exposta com a roda esquerda do quadriciclo. Nessa hora o bicho deu uma súbita guinada pro lado, o enviando pelo ares. Como o local era íngreme, o quadriciclo e seu piloto foram capotando alegremente trilha abaixo, até finalmente parar mais ou menos na metade da descida — não sem antes ter a perna esmagada pelo veículo.

A tal perna direita que ele segurava.

Perguntei se ele estava sentindo alguma dor na cabeça, no pescoço, dificuldade de enxergar ou ouvir. Ele respondeu “não” a todas as perguntas. Perguntei se alguma outra parte do corpo doía, ele falou que “só a perna”.

Apalpei cuidadosamente o crânio do cara, procurando alguma deformação. Nada. Desci pro pescoço, repetindo os movimentos cuidadosos com as pontas dos dedos. Nenhuma dor, nenhuma protuberância, nada fora do lugar.

Perguntei se ele estava respirando de boa, qual o histórico médico dele, qual a dor na perna numa escala de 0 a 10, e se ele lembra como exatamente estava se sentindo logo antes da queda.

Durante o curso, no cenário didático, existe todo um script pra fazer essas perguntas. Quando perguntar X, e quando então perguntar Y, depois então perguntar Z. Tem uma ordem lógica pras coisas. No mundo real, essa ordem é frequentemente esquecida — pelos profissionais, porque eles sabem focar exatamente no que é mais pertinente, e pelos estudantes,  porque a adrenalina tem o efeito colateral de pegar as anotações mentais que você tem do material e jogar tudo pra cima, fazendo barulho de peido com a boca.

Reorganizei os pensamentos. O trabalho de emergência é, em muitas ocasiões, um trabalho de detetive. Você precisa, muitas vezes num cenário de emergência que não permite tantos erros, descobrir o que há de errado com o paciente, e o que causou o sujeito a encontrar-se nessa situação. Ou seja, eu tinha algumas dúvidas a sanar.

Minha dúvida inicial era: foi apenas uma queda por descuido quadriciclista, ou o cara se sentiu mal e POR CAUSA DISSO caiu? Se a queda foi apenas por vacilo, a questão é puramente traumática/mecânica — um osso deslocado, possivelmente quebrado. Se ele caiu porque sofreu algum piripaque, além da possível fratura no quadril, poderia haver uma “underlying medical condition”, o termo chique pra “esse cara tá com algum outro baguio aí também”.

Continuei apalpando o peito, sempre pedindo que ele me indicasse se sentisse dor com o toque — um pedido desnecessário, porque nem que o cara fosse o Rambo seria possível disfarçar a dor de ter um osso quebrado sendo pressionado. Nenhuma dor. A cada passo do processo o J repetia “é só a perna que dói mesmo!”, algo que somos ensinados a ignorar porque muitas vezes, a adrenalina disfarça outros ferimentos que o paciente só percebe quando apalpamos.

Um dos meus instrutores me passou os sinais vitais do sujeito. Tudo normal, exceto a pressão um pouco alta — não preocupantemente alta; dor pode desencadear um aumento na pressão, e considerando o estilo de vida do cara (cigarros, roupas rasgadas, quadriciclos, sei lá, isso é tudo que eu sabia dele até o momento), de repente essa pressão é normal pra ele.

E aí cheguei no quadril.

Não acreditei no que vi.

(Continua semana que vem)

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comments

19 comments

  1. ahhh porra izzy, nao faz isso com a gente, escreve logo essa historia. a curiosidade ta me moendo por dentro. ta mais lento que o Martin pra escrever os ultimos livros das cronicas de gelo e fogo porra

  2. “E aí cheguei no quadril.
    Não acreditei no que vi.
    (Continua semana que vem)”.

    ¬L¬
    Lá se vai mais alguns meses. Mas eu estou realmente curioso pra saber o que tinha lá.

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