[ Diário de um (quase) paramédico ] Resgate na floresta!

No capítulo anterior, falei sobre minha chegada na base de emergência de Mayerthorpe. Hoje, a aventura foi resgatar um maluco que captou num daqueles quadricículos motorizados e se arregaçou no meio de uma floresta!

izzy ambulancia

Eu não sei qual é o limite do tempo de resposta do ser humano a um estímulo. Quando tocamos uma superfície quente, o braço retrai quase que imediatamente. Corredores olímpicos partem em disparada centésimos de segundos após ouvir o disparo daquela pistolinha lá que eu acho que nem serve pra matar ninguém. E após aquela fisgada inconfundível da caganeira, a que deixa claro que a cagada nas calças é iminente e incontestável, o senso de auto-preservação só não propele o infeliz em direção ao banheiro mais próximo na velocidade da luz porque a relatividade geral não permite.

Mas nenhum desses reflexos se compara à velocidade que um paramédico sai correndo em direção à amulância após ouvir os “tons”.

Deve existir um termo técnico mais oficial pra eles, mas a galera aqui chama de “tons”.

É o seguinte. O rádio do nosso chefe é hiperativo — ele recebe os alertas que todas as unidades aqui da região, pra que a gente fique atento no que está acontecendo ao nosso redor. Esses não são pra nossa localidade e por isso tocam apenas no rádio dele e de ninguém mais.

Já os tais tons, que indicam que alguém se fodeu dentro do nosso raio de atividade e que estamos sendo invocados para a situação, fazem TODOS os rádios e telefones da estação tocarem. Ao mesmo tempo. É uma barulheira do demônio.

No começo eu não conseguia distinguir a diferença; o rádio do supervisor tocava com um alerta pra uma cidade fora da nossa cobertura e os broders continuavam jogando Settlers of Catan ou assistindo Netflix enquanto eu saia correndo subindo as calças desengonçadamente, com o estetoscópio na boca e abotoando a camisa toda errada. “Porra, mas que paramédicos mais preguiçosos“, eu pensava; “nem levantaram da cadeira!

Demorou um tempo pra entender que meu sentido de resposta deveria ser guardado para aqueles momentos em que todos os alarmes da base soam simultaneamente. Os tais “tons”.

E rapaz, os caras EVAPORAM quando isso acontece. Sabe aquelas cenas de desenho animado em que o cara levanta da cadeira tão rápido que ela fica girando por alguns instantes? Então, isso acontece DE VERDADE. Os manos explodem das cadeiras/poltronas/privadas, correm para os quartos, e emergem SEGUNDOS depois totalmente vestidos , com cabelo arrumadinho e tudo, e pronto pra CHUTAR BUNDAS (ou, mais realisticamente, tratar de bundas que foram chutadas). 

O fato de que todos eles tem 1.80m e plena forma física os faz parecer ainda mais super-heróicos. Cês tão ligados que até CINTO DE UTILIDADES a gente tem, né.

cinto de utilidades

Andamos por aí uniformizados de preto dentro de um veículo especial cheio de gadgets e esse cinto aí — o que estou tentando dizer é que somos o Batman.

Pois bem. Num desses dias estávamos aqui na base de papo pro ar — uns 50% do tempo no ramo da emergência é esperar que alguém se foda — quando os tais tons soaram. Um dos broders aqui, chamemos-no de T, desceu VOANDO às escadas da estação em direção do MDT, ou Mobile Data Terminal.

O MDT é um daqueles laptops Toughbook, que aguentam até sua mãe pisar em cima, conectado à nossa central.

toughbook

No MDT, informações em tempo real sobre a emergência vão pintando na tela — localização da emergência, detalhes sobre o paciente, sobre a região, alertas caso haja histórico de violência naquela residência (para que solicitemos presença da polícia)… na minha analogia com o Batman, a central é como se fosse a Oráculo ou o Alfred usando o Bat-computador, dependendo de quem está escrevendo o quadrinho.

O T volta voando. A essa altura já está todo mundo pronto pra ação, calçando as botas e fechando os cintos ao redor da cintura.

Capotamento de quadricículo. No meio da floresta. Só um” ele fala, resumidamente. “Só um” é comumente abreviação de “só um paciente”.

Uma hesitação de dois segundos enquanto aguardamos o comando do líder. “Você, você e você”, ele diz, apontando para nós, indicando quem vai responder ao chamado. Aquele último “você” era eu. Descemos correndo para a ambulância.

Mais ou menos uns 20 minutos de estradinha rural depois, chegamos na beirada de uma floresta espessa. O resto do caminho é “off road”; alguns trechos iniciais da região talvez seriam acessíveis por um veículo 4×4, mas totalmente sem condição de transitar com a ambulância. C olha pro MDT e confirma meu medo — o paciente está a mais ou menos 4 quilômetros de distância dentro da floresta.

Teremos que ir até lá a pé.

E carregando um monte de tralha.

E correndo.

Num terreno completamente impropício pra correr.

Imagina sair correndo no meio disso — sem conseguir ver direito buracos, galhos caídos, declínios no chão, trechos enlameados — e carregando equipamentos médicos ainda por cima.

“Ok, Stewie” o T fala pra mim da assento do motorista, desligando o motor da ambulância e apontando pro porta-luvas (seu meio de dizer ao C, o outro instrutor, pra pegar a caixa com as luvas cirúrgicas) “Como vai ser o esquema?”

No exercício de resgatar pessoas com um estudante, o protocolo é deixar o estudante tomar as decisões em relação à ação. Os instrutores dão bastante autonomia ao aprendiz; se ele tomar uma decisão que seja um pequeno deslize que não cause grande impacto no tratamento do paciente, tal qual documentaristas do Discovery Channel os instrutores deixam a natureza tomar seu curso normal (e depois te passam esporro pelas decisões erradas).

Assim, o estudante aprende com o próprio erro. Obviamente, se eu sugiro algo muito flagrantemente errado, ou mostro muita hesitação numa situação crítica, os instrutores tomam as rédeas do resgate e eu fico no banco de reserva observando a atuação deles (e tomo esporro depois também).

O instrutor esperava minha decisão. Senti a adrenalina invadindo minhas artérias. Revisei meu conhecimento rapidamente.

“Ok” eu comecei, colocando as luvas. As que tínhamos na nossa ambulância eram azuis; desde que vim um paramédico de empresa competidora usando luvas pretas, passei a desgostar das nossas azuis.

“Lifepak, kit de trauma, sager splint caso esse maluco tenha explodido o fêmur, scoop stretcher. Sinais vitais a cada 15 minutos. Blood sugar logo de cara pra garantir que ele não teve um piripaque diabético ou algo assim que tenha causado a queda, ECG pra garantir que não foi nada cardíaco. Eu sei que provavelmente não é o caso baseado no que ouvimos da central em relação à ligação do cara quando ele ligou pro 911, mas não custa nada averigurar.” Até aqui, minha voz saiu mais confiante do que eu esperava, sem “hmm” ou “ahhh”.

O T continuou olhando pra mim com uma cara que inconfundivelmente dizia “…e?”. Ele estendeu na minha direção a caixa de luvas, ao que eu rejeitei tirando as minhas próprias do bolso. Peguei o hábito de sempre enfiar um monte de luvas nos bolso das calças, pra estar pronto a qualquer momento.

Continuei.

“Quero uma intravenosa iniciada assim que cheguemos lá, calibre 18, e…” pensa, pensa pensa… puta que pariu, eu SEI que estou esquecendo de alguma coisa. Puta merda, gaguejar numa hora dessas é a pior coisa. Me ajude, Nossa Senhora!

Veio o estalo.

“…vamos precisar de apoio aéreo pra tirar esse maluco daqui…?” saiu em tom de pergunta. C (este era o outro instrutor) levantou um dedo polegar. Reafirmei com mais confiança, balançando a cabeça positivamente “vamos precisar de apoio aéreo pra tirar esse maluco daqui. T, acione o STARS. C, cheque o volume do entonox. E… É isso”. Percebi que estava praticamente prendendo o fôlego esse tempo inteiro. Respirei fundo, mas tentando não deixar claro que estava precisando respirar fundo. Já tentou fazer isso? É desesperador.

Os instrutores se entreolharam. Se eu errei alguma coisa, não pareceu. T e C ambos trocaram leves meneios positivos com a cabeça. “É isso aí mesmo”, confirmou o C. “Let’s go save this son of a bitch“, T falou sorrindo e ajustando sua luva na mão igual a Janine Lindemulder na capa do Enema of the State.

Uma coisa que você perde RÁPIDO trabalhando com healthcare é qualquer tipo de fetiche por enfermeira, aliás. Preciso escrever um post sobre isso.

Salvamos da ambulância, eu carregando o imenso Lifepak, e os meus instrutores trazendo as outras tralhas.

A propósito, o Lifepak é uma maquina multi-uso capaz de tirar pressão sanguínea, eletrocardiografia, nível de oxigenação, pode defibrilar o paciente, mede pressão parcial de CO2, faz café, o caralho todo. A versão que usávamos na nossa ambulância era o Lifepak 15, que eu só posso supor que recebeu esse nome porque pesa 15 toneladas.

Essa imagem não faz juz à parada. Parece que foi feito de CHUMBO.

Lembra quando falei que os outros malucos lá tudo medem 1,80m, têm bíceps do tamanho da minha cabeça e participam de maratonas só pela sacanagem da coisa? Então. T e C dispararam na trilha que levava à floresta, enquanto eu corria desengonçadamente com a porra do Lifepak balançando pra todo lado, pisando em lama, subindo trechos íngremes na trilha e o caralho.

Em questão de segundos os caras já estavam a uns 400 metros de distância de mim, e eu pensando em discretamente pôr os defibriladores do Lifepak em mim mesmo caso meu coração desistisse daquela porra toda.

Depois de uns 10 minutos correndo pela floresta, ouvi um barulho de motor atrás de mim. Era uma picape da RCMP — A Polícia Montada Canadense, nosso equivalente do FBI/Polícia Federal. O que diabos eles estavam fazendo aqui?

…É o que você vai descobrir na segunda parte desse post, que chega na semana que vem.

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comments

17 comments

    1. Tu tá esquecendo que o Izzy é gordo, sedentário e já tá meio velho. Qualquer esforço além de levantar um mouse ou passar o dedinho roliço na tela do IPHONE já destrói o cara uhaeuheeh

  1. O cara tava traficando cocaína né??? Metanfetamina???

    ps: E aí Izzy, quando vai começar a participar de maratona só pela zoeira?? Depois da fase magra e da gorda, tá na hora de ficar bombado kkk

  2. Em agosto de 2013 um brother meu capotou num quadriciclo no interior do Alaska na minha frente. Saiu totalmente inteiro, por muita sorte -- senão seria que nem essa história que esta sendo relatada aqui.

    O fim de mundo onde ele se acidentou foi aqui: 62.3483733,-150.1230969.

  3. xeu chutar o que aconteceu: os outros paramédicos chegaram lá bem antes de vc, socorreram o cara e voltaram pra ambulância. esperaram uns 30 minutos, vc não apareceu então eles chamaram a policia pra fazer uma busca pelos seus prováveis restos mortais.

  4. Cadê a segunda parte? =/
    Aliás acho chato você dividir uma história no meio, poxa, eu estou lendo me divertindo e pá, espere mais um mês pro próximo episódio. [Favor ler a próxima frase com o botão de sarcasmo ligado] Daqui a pouco ta fazendo como cavaleiros do zodíaco e começa a reprisar [Não é uma reclamação ~oficial~ é mais uma sugestão + piadinha]

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