AMBU

No último capítulo desta saga Dragonballzística, eu havia chegado ao paciente acidentado no meio da roça, e durante minha examinação do sujeito percebi que havia algo de errado com o quadril dele.

Pois bem. Lembra que o nome do paciente era J? Aposto que tu esqueceu, porque eu demorei 50 anos pra concluir a porra dessa história. Mas aí está, o nome do cara era J.

Fui apalpando o corpo do J, não por prazer sexual e sim porque faz parte do processo de examinação. Somos treinados a reconhecer, através do toque cuidadoso, três circunstâncias que podem indicar traumatismo — Tenderness, Instability, e Crepitus. Durante o treinamento, nos referimos a esses três como “TIC”

Do que se trata o TIC? É assim:

  • TENDERNESS: o paciente protesta quando você pega naquela parte, sentindo dor. Forte indicador de que houve uma fratura ou deslocamento.
  • INSTABILITY: uma parte do corpo que deveria ser firme como uma garra de adamantium se move de forma não-natural, como se estivesse “solta” no corpo.
  • CREPITUS: quando as texturas porosas e irregulares de ossos quebrados sendo apalpados raspam uma contra a outra, provocando uma leve vibração que dedos bem treinados podem detectar. Não deve ser extremamente boa a sensação, mas por outro lado, se você não queria seu fêmur quebrado sendo esmirilhado dessa forma, você não deveria ter se acidentado.

Então. Notei que a perna direita do J estava meio encurtada, e levemente rotacionada pra fora. Assim:

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Isso é um indicador visual importante: uma perna encurtada e rotacionada externamente pode significar fratura do quadril. O motivo pelo qual isso acontece é que seus músculos estão exercendo tração constante contra seus ossos; se eles quebram, os músculos “puxam” os dois pedaços de osso um contra o outro.

Aliás, eu sempre achei, burro que sou, que QUADRIL e CINTURA eram sinônimos. E não quero culpar inteiramente a Shakira pela minha confusão mas ela não contribuiu de forma positiva.

Aliás, revendo esse clipe eu percebo que ela era infinitamente mais gostosa do que eu a dava crédito. Mas prosseguindo…

Suspeitando que o problema maior estava de fato ali no quadril, dei a apalpada de leve pra medir o limiar de dor que aquele ponto estava causando no cara. O J protestou imediatamente, violentamente, tal qual um cara que descobre que os Correios entraram em greve no dia seguinte após a compra de um videogame na internet.

E deu pra sentir uma protuberância, também. Mesmo sem visão de raio X, pude concluir com um certo grau de segurança que o quadril do sujeito havia sido fraturado ou deslocado.

Me volto pros meus dois parceiros. Ofereci a conclusão de que o paciente estava relativamente estável, com um nível de dor “gerenciável” (ou seja, que podíamos da conta com o que tínhamos no equipamento), contanto que a perna dele fosse imobilizada completamente.

Ordenei que os dois começassem o processo de SMR, ou “spinal motion restriction”. O instrutor, que ainda estava segurando a cabeça do paciente, deu aquela pigarreada que significa “não tá esquecendo de nada, não, seu filho da puta?“. Meneio positivamente com a cabeça e peço que um dos policiais troque de lugar com meu instrutor, pra que ele então comece o SMR.

Tirando o berro que o J deu quando apalpei seu quadril, ele estava bastante calmo — talvez, calmo demais pra alguém que está no meio do mato com uma possível fratura. A tranquilidade exibida pelo acidentado rivalizava aquela do sujeito que descobriu que a menstruação da namorada finalmente desceu após 5 dias de pleno terror. E aí as engrenagens começaram a girar na cachola — estaria o J sob efeito de algum psicotrópico…? Teria sido ISSO a causa do acidente?

Embora pareça que não, essas zonas rurais enfrentam um problema grave com drogas. Não sei exatamente QUAL a causa disso (e suspeito que não haja uma única causa), mas certamente o fato de que nessas cidadezinhas não tem NADA pra se fazer não contribui de forma positiva com a situação.

Existem basicamente dois tipo de drogas que são comumente (ab)usadas naquela região: narcóticos como oxycontin ou vicodin, ou benzodiazepinos como os da família “pam” — lorazepam, clonazepam, diazepam. O motivo pra isso é que, ao contrário de metanfetamina (que requer um certo nível de know-how químico pra produzir, Heisenberg que o diga) ou cocaína (que é importada, logo, escassa e cara), benzos e narcóticos existem em forma farmacêutica. Maconha é bem mais fácil de produzir, mas é “leve” demais pra galera que busca aquilo que na indústria médica nós especialistas chamamos de “uma lombra muito loka”

Então, como há um acesso farmacêutico (relativamente fácil) aos benzodiazepinos, isso reduz o nível de envolvimento de elementos mal encarados te vendendo a droga num estacionamento escuro às 2 da manhã com uma pistola na cintura e um semblante de tensa paranóia (ou talvez sob os efeitos da própria mercadoria). Basta conhecer um amigo com dor crônica e/ou problema de ansiedade pra descolar um monte dessas pílulas.

E eu estava começando a suspeitar que este meu novo amigo, o Sr J, meteu umas pírula no goela antes de sair por aí de quadriciclo. Como parte do meu “interrogatório” — e não uso a palavra de forma hiperbólica; às vezes tu tem que interrogar o cara mesmo, porque detalhes cruciais (como envolvimento com drogas) são frequentemente omitidos por receio de consequências legais.

O J poderia mentir o quanto quisesse. Sabe quem nunca mentirá? O Superman. Ele não mente nunca. Mas além dele, os efeitos fisiológicos causados por certas drogas também não mentem.

Um dos efeitos que esse tipo de droga causa é a constrição das pupilas. Entender por que isso acontece é mais simples quando você entende primeiro o que as drogas “inversas” fazem com o seu corpo.

Basicamente, existem dois tipos de drogas — as que aceleram seu corpo, que chamamos de simpaticomiméticas, as  que… bem… percebo agora que não existe um termo em português equivalente ao verbo “slow”, então cunho aqui o neologismo DEVAGARIZAR™.

Como eu ia dizendo, as drogas que devagarizam seu sistema nervoso são chamadas “simpaticolíticas”.

As simpaticomiméticas — como cocaína, anfetamina e em menor efeito, a cafeína — fazem tudo no seu corpo disparar, mudando os settings do seu organismo pro tal “lutar ou fugir”. Coração bate mais rápido, pra suprir o aumento antecipado na demanda de oxigênio; brônquios se dilatam para acomodar o volume aumentado de ar nos pulmões, o sangue que estava trabalhando nas tripas é redirecionado para os músculos, para que você possa dar poderosos socos e voadoras com os dois pés.

E as simpaticolíticas são o inverso disso: em vez de preparar seu corpo pra um quebra-pau, elas retornam seu organismo à condição natural. Pessoas com problemas de ansiedade crônica, por exemplo, tem dificuldade de reestabelecer esse equilíbrio; o corpo delas está FREQUENTEMENTE nesse estado de quebra pau, achando erroneamente que há algo terrível na esquina e que você precisa se preparar urgentemente.

E é aí que entra os benditos simpaticolíticos.

Eu adoraria poder dizer que manjo disso aí tudo porque sou um estudante muito dedicado mas na real eu tive que sofrer bem mais pra aprender essas porras.

O resumo disso é o seguinte: se essa calma toda do indivíduo acidentado (e, de fato, a causa do acidente) estivesse relacionada ao uso de simpaticolíticos, há uma forma bem simples de confirmar isso parcialmente — as pupilas.

Simpaticomiméticos, seguindo aquele script de “vamo preparar esse cidadão pra cair na porrada!”, dilatam as pupilas — porque isso permite que mais luz entre no olho, tornando a imagem mais clara e te permitindo enxergar melhor em condições de baixa luminosidade. Afinal de contas, como você acertará aquela voadora com os dois pés se não conseguir enxergar a cabeça do adversário?

Aliás, vamos aqui concordar que o sistema operacional do corpo humano é foda pra caralho. Os do meu PC, do meu celular e até o do videogame requerem chatíssimos updates frequentes que volta e outra quebram funcionalidades, enquanto o da minha cabeça tá aí desde 1984 funcionando super de bo…

…ah, é.

E as simpaticolíticas, tal qual um pai preocupado com a conta de luz seguindo os filhos pela casa apagando as luzes que estes acenderam, vai “desativando” esses efeitos. Ou seja, pega a pupila que estava dilatada, e a leva de volta ao normal.

E se a pupila do sujeito já estava normal (ou seja, se ele tomou um rivotril só pra curtir), ela então se contrai.

Puxei a minha lanterninha do cinto e liguei na cara do paciente, dizendo “dá uma olhadinha aqui rapidinho” estilo Men In Black. Nada. As pupilas estavam perfeitinhas, 4 milímetros.

A “investigação” estava basicamente terminada. O sujeito bateu numa pedra, capotou, tem aparentemente um quadril direito fraturado. Autolocomoção impossível. Nada de errado com as pupilas, nem com o nível de glicose no sangue, nenhuma dor no pescoço (mas não podíamos vacilar com isso, então vai com colar cervical por via das dúvidas). Nenhuma outra fratura, pelo menos de acordo com o que podemos verificar sem acesso a um raio X. Nada muito significativo além do quadril possivelmente fraturado.

Pedi que meus instrutores trouxessem o scoop stretcher, que até então eu NUNCA tinha usado numa pessoa de carne e osso. Isso aqui:

Normalmente, a gente usa uma prancha que parece com isso:

spine

Na maioria das situações, a gente coloca isso do lado do paciente, o “rola” pra um lado, empurra a prancha embaixo do cara, e o deita novamente. Aqui há um bom exemplo do movimento (que, como todos os outros vídeos instrucionais, tem o benefício de estar acontecendo num ambiente controlado, perfeitamente plano, com um “paciente” que não tem múltiplas fraturas e que não sofre de sangramento arterial volumoso)

Acontece que esse movimento de rolagem não é indicado quando o paciente fraturou ambas pernas, OU quando há suspeita de fratura no quadril. Virei pra um instrutor e pedi o kit de intravenosa (havia acabado de perceber que o paciente ia certamente precisar de medicamento intravenoso ao chegar no hospital); virei pro outro e pedi que medisse o scoop stretcher (que é ajustável) pra coincidir com a altura do paciente

Os anos furando pacientes no hospital me tornaram um exíminio iniciador de IVs, o que foi durante todo o meu estágio uma pequena fonte de orgulho. Eu errava diagnósticos, tomava decisões questionáveis, ficava sem fôlego correndo com o Lifepak na mão, me atrapalhava com a maca, escrevia relatórios incompletos, até lavar mal a ambulância eu consegui. Diz-se que estagiário é o único ser que pode cometer erros com impunidade porque esse é justamente o momento de fazer cagada; eu abusei mais dessa “imunidade diplomática” mais do que aquele vilão de Máquina Mortífera 2

final

Com a diferença de que eu fui impune MESMO, ao contrário dele. Aliás, spoiler de Máquina Mortífera 2 no parágrafo anterior, não leia.

Então, como estudante estagiário burro sem experiência eu cometi todos os erros do mundo, PORÉM na hora de meter uma intravenosa num paciente eu era mais habilidoso que os correios me dando desculpas pra explicar por que minhas muambas chinesas ainda não chegaram. O que era um curioso contraste, porque meus instrutores (embora extremamente capazes em todos os outros aspectos) eram quase hilariamente ruins em iniciar intravenosas.

Meti uma IV no maluco e começamos o “translado”. Pra colocar a scoop stretcher no sujeito (que continuava muito plácido pra alguém com uma possível fratura), tínhamos que primeiro “amarrar” sua pelvis com um cobertor, pra limitar ao máximo o movimento da fratura, e afixar esse cobertor em vários pontos com hemostats. Descobri no twitter que o nome delas em português é “grampo hemostático”, e percebendo que pro público leigo o nome em inglês e o em português provavelmente significam a mesma coisa (nada), eis uma figurinha:

hemo

Nessa hora, como é preciso apertar o quadril do coitado com bastante força, o J começou a berrar de novo. Estalei os dedos pedindo o cilindro de entonox.

Me senti extremamente cool. Imaginem-me voltando a cabeça pro parceiro atrás de mim e dizendo “I NEED ENTONOX, STAT”, o que provavelmente teria sido uma cena mais legal se eu não fosse gordo e estivesse suando pra caralho com a correria até esse ponto, a camisa saltando pra fora da calça devido à pressão exercida pela pança e tal. Agora que paro pra pensar não teve nada de cool nessa cena, esqueça ela.

O J tomou uns tragos do entonox e ficou mais tranquilo. Amarramos a pélvis do maluco, transferimos-no pra scoop stretcher, e aí veio a indecisão:

Como exatamente vamos carregar uma maca nesse terreno íngreme e enlamaçado por uns quatro quilômetros…? A parada demoraria absurdamente, o que atrasaria demais o resgate do pobre coitado. A mata ali era muito espessa; o mais próximo que o helicoptero do STARS poderia pousar era bem do lado de onde paramos a ambulância. Não apenas isso, mas alguns pontos da passagem eram tão íngremes e escorregadios que não era mais nem uma questão de “vai demorar muito”, era mais “a chance de nós obtermos um paciente a mais nessa travessia são altas”.

A idéia veio do próprio acidentado — e se usássemos o quadriciclo dele pra fazer o transporte? Colocariamos o stretcher em que ele estava preso em cima do quad, e alguém montava no bicho e ia guiando devagarinho. Os outros membros da equipe, aos lados do veículo, iam segurando a prancha firmemente.

Era uma solução extremamente não-ortodoxa, já que o quad não oferece nenhum suporte especial para o scoop stretcher. Mas a situação era essa: ou bolávamos uma forma de converter o quadriciclo numa carroça improvisada, ou o transporte do cara tinha chance considerável de dar merda.

Olhamos pro G, que era o líder do time. O líder “de verdade”, digo; enquanto a situação era boring e relativamente sob controle, eu era o líder “de mentirinha”, tomando decisões, dando ordens (ou “ordens”, na real). Quando surgia um pepino mais sério, rolava um implícito “ok moleque senta aí, deixa os adultos resolverem isso aqui”.

O G coçou a cabeça suada (estávamos todos bem suados, a bem da verdade), pesou os pros e cons da solução MacGyverística e, tendo em mente que apelar pra essas soluções mais “fora da caixa” carregam consequências sérias caso algo dê errado, ele concluiu que aquela era a única forma de executar o resgate com segurança.

E isso me deixou muito pensativo. Como estudante, eu pelo menos tinha o benefício de estar protegido sob um monte de legislações/protocolos que isentam o aprendiz de culpa quando algo dá errado, especialmente quando a decisão que rendeu o infortúnio não foi tomada por ele (na verdade, mesmo que seja — porque como os instrutores presumivelmente aprovam todas as decisões que você tomam, uma parcela de culpa de qualquer coisa é deles).

Mas no final das contas, a REAL responsabilidade de tudo ali era do G, e ele tinha que fazer uma decisão quando tanto a opção A quanto a opção B eram uma merda. Foi a primeira vez que eu entendi DE FATO que entrar nesse ramo é uma responsabilidade tremenda.

Vi-o soltar um “aaah, fuuuuck” baixinho, resignado, claramente impaciente, e disse:

“Vamos lá, coloquem ele no quadriciclo.”

Usando aquelas cordas elásticas de motoqueiros (que o próprio paciente tinha no seu quad), amarramos o stretcher como pudemos. Eu e um dos paramédicos de um lado, os dois policiais do outro, todos segurando a prancha com firmeza, e o G pilotando o bicho a 3 quilômetros por hora, com toda a cautela de um cego raspando o saco após ouvir um alerta de terremoto.

E assim, conseguimos resgatar o cara. Tendo tomado conhecimento das dificuldades que enfrentamos, tinha outro time esperando a gente no topo da colina, caso a porca chiasse. O gato fosse pro brejo? Esqueci qual era a metonímia. Aliás, o nome disso não é metonímia. Esqueça essa frase inteira.

E um dos outros paramédicos achou a situação tão cômica (um bando de socorristas subindo uma colina com um paciente amarrado a um quad) que tirou essa foto:

rindo

Por motivos óbvios eu tive que remover da foto qualquer coisa que identificasse qualquer pessoa na situação exceto eu mesmo, então aí está a pior foto que já postei neste site.

Eu espero que o J seja mais cuidadoso dali em diante.

Nunca determinamos exatamente o que o tornava tão calminho, apesar da situação grave em que ele se encontrava. É possível que ele fosse de fato meio maluco das idéias, tal qual O Médico Maluquinho que eu iria conhecer dali alguns dias.

Mas isso é uma história pra outra ocasião. Aguarde o próximo capítulo da saga Diário de Um (Quase) Paramédico!

No capítulo anterior, nossa pequena caravana de resgate — eu, dois policiais, dois EMTs, e o amigo do sujeito acidentado — finalmente chegamos no local onde a vítima se encontrava.

Emergimos do mato para a trilha onde o paciente havia caído. À nossa esquerda, o quadriciclo capotado e arregaçado, meio coberto de lama, com algumas partes da carroceria claramente quebradas. À direita, subindo um pouco a trilha íngreme, o nosso paciente, deitado meio de lado no chão — e casualmente fumando um cigaro, enquanto segurava a perda direita com a mão livre. Chamarei-o de J.

Os policiais rapidamente se mostraram semi-inúteis na situação em questão, ambos puxando o celular do bolso e perdendo completo interesse na parada. “Se eles precisarem de ajuda, nos chamarão”, deveria ser a idéia deles.

Meus dois parceiros abriram alas e fizeram aquele movimento de mão clássico de alguém que dá passagem a outrem. Dava pra ver claramente que o paciente não estava em muuuuita dor, e não parecia estar sangrando nem nada. Quando a condição do paciente não é imediatamente crítica (sangramento excessivo, paciente inconsciente, amputação de um olho, etc), eles dão ao aprendiz liberdade total de conduzir a chamada.

Segurando o lifepak, subi a trilha seguido dos meus instrutores. Ao alcançar o paciente, coloquei o lifepak no chão e comecei a dar instruções aos meus parceiros. A um, pedi que segurasse a coluna cervical do paciente — a primeira precaução que se deve tomar num acidente em que o “mechanism of injury“, ou seja, a maneira em que o cara se fodeu, pode implicar em fraturas na coluna. Capotar num quadriciclo definitivamente se encaixa nesse critério.

Logo de cara, notei que a perna direita do cara, aquela que ele tentava futilmente segurar com a mão, estava levemente rotacionada e “encolhida” — um sinal clássico de quadril deslocado, ou possivelmente quebrado.

Eita porra.

Meu instrutor foi pra cabeça do maluco, alertando-o pra continuar com a cabeça imóvel. Ele se colocou de joelhos próximo à cabeça do J, plantou os cotovelos no chão, e segurou a cabeça do indivíduo. Assim:

wikihow

Virei ao outro e pedi que iniciasse uma rodada completa de sinais vitais, incluindo eletrocardiografia e nível de glicose no sangue.

“É pra já!”, respondeu o maluco, voando pra cima do lifepak, habilmente abrindo bolsos e puxando instrumentos como se tivesse 18 mãos.

Virei pro paciente. Com quarenta e tantos (todos?) anos, o J estava trajando uma calça jeans, uma camisa branca bem velha e rasgada, e uma jaqueta jeans. Na boca, alguns dentes faltando — uma coisa comum praquela galera da roça, eu notei em meu tempo lá. J tinha cabelo na altura da orelha, despenteado e aparentemente mal cuidado, também algo comum entre a galera que mora lá interior.

Mas ele não parecia um cara, sujo, ou carente de alguma coisa. Ele tava mais pro estilo “fazendeiro acostumado a uma vida pragmática de mãos calejadas e muito trabalho pesado, que não liga pra bobagens” do que “mendigo mal-nutrido da Paulista”, entende? A propósito, esse look era bem comum entre os habitantes de Mayerthorpe — incluindo o Médico Maluco, um dos mais peculiares personagens que conheci durante meu estágio. Falarei sobre ele na semana que vem.

“E aí, o que aconteceu aqui?” eu perguntei.

Entre uma trago e outro do cigarro, J explicou que estava descendo a trilha com o amigo, quando se sentiu um pouco tonto/distraído/cansado (não lembra exatamente o que era, porque a coisa foi rápida), e acha que acertou uma raíz exposta com a roda esquerda do quadriciclo. Nessa hora o bicho deu uma súbita guinada pro lado, o enviando pelo ares. Como o local era íngreme, o quadriciclo e seu piloto foram capotando alegremente trilha abaixo, até finalmente parar mais ou menos na metade da descida — não sem antes ter a perna esmagada pelo veículo.

A tal perna direita que ele segurava.

Perguntei se ele estava sentindo alguma dor na cabeça, no pescoço, dificuldade de enxergar ou ouvir. Ele respondeu “não” a todas as perguntas. Perguntei se alguma outra parte do corpo doía, ele falou que “só a perna”.

Apalpei cuidadosamente o crânio do cara, procurando alguma deformação. Nada. Desci pro pescoço, repetindo os movimentos cuidadosos com as pontas dos dedos. Nenhuma dor, nenhuma protuberância, nada fora do lugar.

Perguntei se ele estava respirando de boa, qual o histórico médico dele, qual a dor na perna numa escala de 0 a 10, e se ele lembra como exatamente estava se sentindo logo antes da queda.

Durante o curso, no cenário didático, existe todo um script pra fazer essas perguntas. Quando perguntar X, e quando então perguntar Y, depois então perguntar Z. Tem uma ordem lógica pras coisas. No mundo real, essa ordem é frequentemente esquecida — pelos profissionais, porque eles sabem focar exatamente no que é mais pertinente, e pelos estudantes,  porque a adrenalina tem o efeito colateral de pegar as anotações mentais que você tem do material e jogar tudo pra cima, fazendo barulho de peido com a boca.

Reorganizei os pensamentos. O trabalho de emergência é, em muitas ocasiões, um trabalho de detetive. Você precisa, muitas vezes num cenário de emergência que não permite tantos erros, descobrir o que há de errado com o paciente, e o que causou o sujeito a encontrar-se nessa situação. Ou seja, eu tinha algumas dúvidas a sanar.

Minha dúvida inicial era: foi apenas uma queda por descuido quadriciclista, ou o cara se sentiu mal e POR CAUSA DISSO caiu? Se a queda foi apenas por vacilo, a questão é puramente traumática/mecânica — um osso deslocado, possivelmente quebrado. Se ele caiu porque sofreu algum piripaque, além da possível fratura no quadril, poderia haver uma “underlying medical condition”, o termo chique pra “esse cara tá com algum outro baguio aí também”.

Continuei apalpando o peito, sempre pedindo que ele me indicasse se sentisse dor com o toque — um pedido desnecessário, porque nem que o cara fosse o Rambo seria possível disfarçar a dor de ter um osso quebrado sendo pressionado. Nenhuma dor. A cada passo do processo o J repetia “é só a perna que dói mesmo!”, algo que somos ensinados a ignorar porque muitas vezes, a adrenalina disfarça outros ferimentos que o paciente só percebe quando apalpamos.

Um dos meus instrutores me passou os sinais vitais do sujeito. Tudo normal, exceto a pressão um pouco alta — não preocupantemente alta; dor pode desencadear um aumento na pressão, e considerando o estilo de vida do cara (cigarros, roupas rasgadas, quadriciclos, sei lá, isso é tudo que eu sabia dele até o momento), de repente essa pressão é normal pra ele.

E aí cheguei no quadril.

Não acreditei no que vi.

(Continua semana que vem)

E aí cambada. No último episódio desta novela digital, eu estava correndo ofegante no meio de uma floresta no interior canadense quando uma picape da RCMP (o equivalente canadense da polícia federal, ou seja — é como o FBI canadense) veio subindo a trilha atrás de mim.

Continuemos então.

AMBU

Então. A picape da RCMP parou do meu lado. Olhei pros meus instrutores, que a essa altura já estavam longe na trilha. Não sabia como lidar exatamente com a polícia.

“Aê, tu é o stewie?” perguntou um dos polícia, me olhando de alto a baixo.

“Sim, eu sou” pensei em dizer mais alguma coisa, talvez dar alguma informação sobre o paciente, mas nenhuma palavra me veio. Eu não sabia qual era o protocolo exatamente.

O policial cortou o silêncio.

“São o C e o T ali na frente?” ele perguntou, meneando naquela direção com a cabeça, e depois olhando naquela direção e espremendo os olhos tentando identificar as silhuetas correndo lá na frente. O parceiro dele, digitando algo no celular, parecia completamente desinteressado na situação.

“Sim, são eles” pigarreei, procurando as palavras “a gente estava ind…”

“E esses filhos da puta te deixaram aqui atrás?” ele interrompeu, rindo e dando uma cotovelada no parceiro, que sequer tirou os olhos do celular.

“Poisé…” respondi com vergonha. O policial pelo jeito conhecia os caras, e deveria ter algum tipo de rivalidade amigável com ele — polícia, corpo de bombeiros e paramédicos tem essa relação meio fraternal um com o outro –, então eu sei que ele estava apenas usando isso como oportunidade pra dar uma zuadinha nos colegas. Só que não consegui não me sentir envergonhado, afinal, o que estava implícito no ar (mesmo que não tenha sido a intenção do cara) é que eu não consegui acompanhar os malucos na corrida.

“Haha, vamos dar um susto neles. Entra aí” — dito isso, ele acionou algum dispositivo no painel que destrancou a porta do passageiro da picape.

Foi minha primeira, e espero que última, vez no banco de trás de um veículo policial. Uma divisória de polímero transparente reforçado com barras de metal dividiam o compartimento traseiro do dianteiro, com uma pequena abertura pra permitir comunicação entre os dois ambientes. O interior das portas não era de estofado como num carro comum, mas sim de metal liso de alto a baixo, sem qualquer protuberância, e definitivamente sem a alavanca que abre a porta. Barras de metal protegiam as janelas do assento traseiro.

Era basicamente uma cadeia móvel. Me senti subitamente BEM desconfortável.

Do outro lado do banco, uma caixa comprida de plástico, trancada com dois cadeados grossos. É a caixa do Colt Canada C7, uma variante do AR-15 que é usado por forças policiais no Canadá. Me pareceu bizarra a idéia de que os rifles da polícia são mantidos no mesmo local onde eles prendem os vagabundos, mas se um sujeito com as mãos algemadas atrás das costas conseguir abrir a caixa E tirar os cadeados da arma, talvez ele MEREÇA um C7 novo.

“Me dê o fouroneone aqui” o policial perguntou, voltando a cabeça pro lado enquanto navegava os buracos no meio da trilha com a picape. O barulho da picape, junto com o fato de que o policial falou muito rápido, e de que o pedido veio até mim passando por um buraquinho de 5 por 10 centímetros, fez com que a pergunta fosse inicialmente mal compreendida. Eu não tinha nem total certeza de que ele estava falando comigo na hora. Depois de uns 3 ou 4 segundos de silêncio constrangedor é que caiu a ficha de que ele havia perguntado sobre o “411”, uma gíria que significa basicamente “informação”, ou “detalhes”.

“Ahhh… um capotou num quadriciclo e parece que se arregaçou todo na queda.”

“Eita nóis!” falou o policial em um equivalente qualquer em inglês. “Esses caras que andam nesses negócios são loucos, vivem se fodendo”. O motorista tinha uns 30 e tantos anos, a minha idade, mas era também alto, com bíceps delineando a manga da camisa do uniforme de policial federal. Como se o distintivo no peito e a Glock 18 na cintura já não fossem intimidante o bastante.

“Poisé” foi tudo o que eu consegui falar. Meu conhecimento a respeito de caras que andam nesses negócios é limitado; eu estava a caminho de conhecer meu primeiro, não achei que eu pudesse ficar os julgando de forma generalizada. Nem gosto de atribuir comportamentos a um grupo de pessoas de forma genérica dessa forma, como se eu fosse um corintiano.

“O primo da minha esposa, aquele que mora lá em British Columbia, lembra dele?” o motorista da picape perguntou ao seu parceiro, que continuava totalmente indiferente. “Ele queria que eu fosse andar de quadriciclo com ele no verão passado”.

“Humrum”, grunhiu o parceiro.

“E eu falei que nunca! Prefiro levar um tiro, haha!” disse o policial exageradamente. “Pelo menos um tiro entra e sai, não dá nada! Lembra do Fulano, lá da 16a DP (estou adaptando para a terminologia brasileira, obviamente)? Ele levou um tiro de um vagabundo em 2010 e ele falou que nem dói tanto assim! Foi o que ele falou pra todo mundo. Lembra?” o cara era realmente tagarela.

“Eu lembro”, disse o parceiro dele, pela primeira vez usando palavras de verdade.

“E tu, Stewie, já levou um tiro?” antes que eu pudesse responder, ele continua “QUER LEVAR UM? Hahaha, tô brincando cara, relaxa, a gente precisa de estudantes aqui. Por que de repente agora estão ensinando vocês direitinho, porque esses teus amigos aí são uns açougueiro do caralho! Se duvidar eles vão quebrar mais o coitado lá, hahaha!”

Dito isso, passamos pelos meus instrutores na trilha. Eles AINDA estavam correndo.

Poucos instantes depois, chegamos a um ponto da trilha em que a vegetação era espessa, com uma mini-trilha onde dificilmente passaria alguém de moto. Na beirada dela, estava um cara segurando um capacete, com um macacão jeans todo sujo, cabelo comprido e mal-cuidado semi-escondido embaixo de um boné do Black Sabbath. Era o amigo do acidentado, presumi, nos esperando na beira da trilha pra nos levar ao amigo fodido. Isso é, a menos que estivesse rolando um encontro de fãs do Black Sabbath no meio de uma floresta random no interior do Canadá.

“Chegamos no teu ponto aí, Stewie” disse o motorista, destravando a porta. Saltei pra fora, e alguns instantes depois os instrutores nos alcançaram.

Tomando a iniciativa, me aproximei do metaleiro sujo e perguntei onde estava seu amigo.

“Tá ali embaixo, descendo essa ribanceira” ele apontou pra dentro da trilha com o capacete. “Uns dois quilômetros, acho. É só vocês vindo mesmo?” ele perguntou, apontando pra nós e os dois policiais que acabavam de saltar da caminhonete.

“Por enquanto, sim” meus parceiros já estavam do meu lado, mas tipicamente silenciosos pra me permitir tomar controle da situação. “Vamo lá ver ele.”

Começamos a caminha em fila única, igual aquela turma lá no Senhor dos Anéis, porque a trilha era muito estreita. Dessa vez todos andávamos mais cautelosamente, sem correr, porque o terreno era íngreme e cheio de raizes brotando no chão em ângulos estranhos. A trilha subia, descia, fazia curvas fechadas, e por um tempo achei que o nosso “guia” tinha se perdido e não queria admitir.

Uns 15 minutos depois, a trilha (que eu descobri depois ser um atalho que o broder do acidentado usou pra encontrar com a gente mais rápido) se abriu num “corredor” mais largo, bem íngreme também, com marcas profundas na lama indicando passagem de quadriciclos. Ali devia ser o point da galera quadriciclista.

Ainda se fala isso? “Point da galera”? Virei meu pai, usando expressões arcaicas que revelam minha idade?

Perto do ponto de onde emergimos da folhagem da trilha estreita, estava um quadriciclo de cabeça pra baixo, todo sujo, com partes da carroceria quebradas. E mais acima na ladeira, estava nosso paciente.

E você não vai acreditar no que aconteceu em seguida.

(Continua semana que vem)

No capítulo anterior, falei sobre minha chegada na base de emergência de Mayerthorpe. Hoje, a aventura foi resgatar um maluco que captou num daqueles quadricículos motorizados e se arregaçou no meio de uma floresta!

izzy ambulancia

Eu não sei qual é o limite do tempo de resposta do ser humano a um estímulo. Quando tocamos uma superfície quente, o braço retrai quase que imediatamente. Corredores olímpicos partem em disparada centésimos de segundos após ouvir o disparo daquela pistolinha lá que eu acho que nem serve pra matar ninguém. E após aquela fisgada inconfundível da caganeira, a que deixa claro que a cagada nas calças é iminente e incontestável, o senso de auto-preservação só não propele o infeliz em direção ao banheiro mais próximo na velocidade da luz porque a relatividade geral não permite.

Mas nenhum desses reflexos se compara à velocidade que um paramédico sai correndo em direção à amulância após ouvir os “tons”.

Deve existir um termo técnico mais oficial pra eles, mas a galera aqui chama de “tons”.

É o seguinte. O rádio do nosso chefe é hiperativo — ele recebe os alertas que todas as unidades aqui da região, pra que a gente fique atento no que está acontecendo ao nosso redor. Esses não são pra nossa localidade e por isso tocam apenas no rádio dele e de ninguém mais.

Já os tais tons, que indicam que alguém se fodeu dentro do nosso raio de atividade e que estamos sendo invocados para a situação, fazem TODOS os rádios e telefones da estação tocarem. Ao mesmo tempo. É uma barulheira do demônio.

No começo eu não conseguia distinguir a diferença; o rádio do supervisor tocava com um alerta pra uma cidade fora da nossa cobertura e os broders continuavam jogando Settlers of Catan ou assistindo Netflix enquanto eu saia correndo subindo as calças desengonçadamente, com o estetoscópio na boca e abotoando a camisa toda errada. “Porra, mas que paramédicos mais preguiçosos“, eu pensava; “nem levantaram da cadeira!

Demorou um tempo pra entender que meu sentido de resposta deveria ser guardado para aqueles momentos em que todos os alarmes da base soam simultaneamente. Os tais “tons”.

E rapaz, os caras EVAPORAM quando isso acontece. Sabe aquelas cenas de desenho animado em que o cara levanta da cadeira tão rápido que ela fica girando por alguns instantes? Então, isso acontece DE VERDADE. Os manos explodem das cadeiras/poltronas/privadas, correm para os quartos, e emergem SEGUNDOS depois totalmente vestidos , com cabelo arrumadinho e tudo, e pronto pra CHUTAR BUNDAS (ou, mais realisticamente, tratar de bundas que foram chutadas). 

O fato de que todos eles tem 1.80m e plena forma física os faz parecer ainda mais super-heróicos. Cês tão ligados que até CINTO DE UTILIDADES a gente tem, né.

cinto de utilidades

Andamos por aí uniformizados de preto dentro de um veículo especial cheio de gadgets e esse cinto aí — o que estou tentando dizer é que somos o Batman.

Pois bem. Num desses dias estávamos aqui na base de papo pro ar — uns 50% do tempo no ramo da emergência é esperar que alguém se foda — quando os tais tons soaram. Um dos broders aqui, chamemos-no de T, desceu VOANDO às escadas da estação em direção do MDT, ou Mobile Data Terminal.

O MDT é um daqueles laptops Toughbook, que aguentam até sua mãe pisar em cima, conectado à nossa central.

toughbook

No MDT, informações em tempo real sobre a emergência vão pintando na tela — localização da emergência, detalhes sobre o paciente, sobre a região, alertas caso haja histórico de violência naquela residência (para que solicitemos presença da polícia)… na minha analogia com o Batman, a central é como se fosse a Oráculo ou o Alfred usando o Bat-computador, dependendo de quem está escrevendo o quadrinho.

O T volta voando. A essa altura já está todo mundo pronto pra ação, calçando as botas e fechando os cintos ao redor da cintura.

Capotamento de quadricículo. No meio da floresta. Só um” ele fala, resumidamente. “Só um” é comumente abreviação de “só um paciente”.

Uma hesitação de dois segundos enquanto aguardamos o comando do líder. “Você, você e você”, ele diz, apontando para nós, indicando quem vai responder ao chamado. Aquele último “você” era eu. Descemos correndo para a ambulância.

Mais ou menos uns 20 minutos de estradinha rural depois, chegamos na beirada de uma floresta espessa. O resto do caminho é “off road”; alguns trechos iniciais da região talvez seriam acessíveis por um veículo 4×4, mas totalmente sem condição de transitar com a ambulância. C olha pro MDT e confirma meu medo — o paciente está a mais ou menos 4 quilômetros de distância dentro da floresta.

Teremos que ir até lá a pé.

E carregando um monte de tralha.

E correndo.

Num terreno completamente impropício pra correr.

Imagina sair correndo no meio disso — sem conseguir ver direito buracos, galhos caídos, declínios no chão, trechos enlameados — e carregando equipamentos médicos ainda por cima.

“Ok, Stewie” o T fala pra mim da assento do motorista, desligando o motor da ambulância e apontando pro porta-luvas (seu meio de dizer ao C, o outro instrutor, pra pegar a caixa com as luvas cirúrgicas) “Como vai ser o esquema?”

No exercício de resgatar pessoas com um estudante, o protocolo é deixar o estudante tomar as decisões em relação à ação. Os instrutores dão bastante autonomia ao aprendiz; se ele tomar uma decisão que seja um pequeno deslize que não cause grande impacto no tratamento do paciente, tal qual documentaristas do Discovery Channel os instrutores deixam a natureza tomar seu curso normal (e depois te passam esporro pelas decisões erradas).

Assim, o estudante aprende com o próprio erro. Obviamente, se eu sugiro algo muito flagrantemente errado, ou mostro muita hesitação numa situação crítica, os instrutores tomam as rédeas do resgate e eu fico no banco de reserva observando a atuação deles (e tomo esporro depois também).

O instrutor esperava minha decisão. Senti a adrenalina invadindo minhas artérias. Revisei meu conhecimento rapidamente.

“Ok” eu comecei, colocando as luvas. As que tínhamos na nossa ambulância eram azuis; desde que vim um paramédico de empresa competidora usando luvas pretas, passei a desgostar das nossas azuis.

“Lifepak, kit de trauma, sager splint caso esse maluco tenha explodido o fêmur, scoop stretcher. Sinais vitais a cada 15 minutos. Blood sugar logo de cara pra garantir que ele não teve um piripaque diabético ou algo assim que tenha causado a queda, ECG pra garantir que não foi nada cardíaco. Eu sei que provavelmente não é o caso baseado no que ouvimos da central em relação à ligação do cara quando ele ligou pro 911, mas não custa nada averigurar.” Até aqui, minha voz saiu mais confiante do que eu esperava, sem “hmm” ou “ahhh”.

O T continuou olhando pra mim com uma cara que inconfundivelmente dizia “…e?”. Ele estendeu na minha direção a caixa de luvas, ao que eu rejeitei tirando as minhas próprias do bolso. Peguei o hábito de sempre enfiar um monte de luvas nos bolso das calças, pra estar pronto a qualquer momento.

Continuei.

“Quero uma intravenosa iniciada assim que cheguemos lá, calibre 18, e…” pensa, pensa pensa… puta que pariu, eu SEI que estou esquecendo de alguma coisa. Puta merda, gaguejar numa hora dessas é a pior coisa. Me ajude, Nossa Senhora!

Veio o estalo.

“…vamos precisar de apoio aéreo pra tirar esse maluco daqui…?” saiu em tom de pergunta. C (este era o outro instrutor) levantou um dedo polegar. Reafirmei com mais confiança, balançando a cabeça positivamente “vamos precisar de apoio aéreo pra tirar esse maluco daqui. T, acione o STARS. C, cheque o volume do entonox. E… É isso”. Percebi que estava praticamente prendendo o fôlego esse tempo inteiro. Respirei fundo, mas tentando não deixar claro que estava precisando respirar fundo. Já tentou fazer isso? É desesperador.

Os instrutores se entreolharam. Se eu errei alguma coisa, não pareceu. T e C ambos trocaram leves meneios positivos com a cabeça. “É isso aí mesmo”, confirmou o C. “Let’s go save this son of a bitch“, T falou sorrindo e ajustando sua luva na mão igual a Janine Lindemulder na capa do Enema of the State.

Uma coisa que você perde RÁPIDO trabalhando com healthcare é qualquer tipo de fetiche por enfermeira, aliás. Preciso escrever um post sobre isso.

Salvamos da ambulância, eu carregando o imenso Lifepak, e os meus instrutores trazendo as outras tralhas.

A propósito, o Lifepak é uma maquina multi-uso capaz de tirar pressão sanguínea, eletrocardiografia, nível de oxigenação, pode defibrilar o paciente, mede pressão parcial de CO2, faz café, o caralho todo. A versão que usávamos na nossa ambulância era o Lifepak 15, que eu só posso supor que recebeu esse nome porque pesa 15 toneladas.

Essa imagem não faz juz à parada. Parece que foi feito de CHUMBO.

Lembra quando falei que os outros malucos lá tudo medem 1,80m, têm bíceps do tamanho da minha cabeça e participam de maratonas só pela sacanagem da coisa? Então. T e C dispararam na trilha que levava à floresta, enquanto eu corria desengonçadamente com a porra do Lifepak balançando pra todo lado, pisando em lama, subindo trechos íngremes na trilha e o caralho.

Em questão de segundos os caras já estavam a uns 400 metros de distância de mim, e eu pensando em discretamente pôr os defibriladores do Lifepak em mim mesmo caso meu coração desistisse daquela porra toda.

Depois de uns 10 minutos correndo pela floresta, ouvi um barulho de motor atrás de mim. Era uma picape da RCMP — A Polícia Montada Canadense, nosso equivalente do FBI/Polícia Federal. O que diabos eles estavam fazendo aqui?

…É o que você vai descobrir na segunda parte desse post, que chega na semana que vem.

bulancia

Como expliquei num texto passado, estou finalizando meu curso de paramedicina com um estágio não-remunerado numa cidadezinha no interior da província canadense onde moro. No artigo anterior dessa série, apresentei a vocês a pacata cidade de Mayerthorpe — e ao mesmo tempo esqueci de explicar um detalhe crucial. Na base onde estou, não atendemos apenas à cidade de Mayerthorpe. Nossas ambulâncias respondem a emergências num raio de até 150 quilômetros daqui. Então, a nossa atividade não é tão pacata assim.

Como falei no texto anterior, de quatro em quatro dias eu jogo minhas tralhas mais essenciais numa imensa mochila (iPhone, Macbook, iPad, leitor digital, algumas HQs do Quarteto Fantástico e se sobrar espaço, comida e desodorante) e viajo 430 quilômetros em direção ao interior.

Meu turno começa às 6 da tarde e termina às 6 da tarde do dia seguinte. Isso se repete por 4 dias, ou seja, na prática eu estou de plantão por 96 horas. Felizmente, não temos que responder chamados durante 24 horas seguidos, mas em dias de azar rola de você sair da base de manhãzinha, antes do sol raiar, e acaba voltando na madrugada do dia seguinte por causa de pessoas desastradas decidindo se acidentar sincronizadamente naquele dia específico.

No meu primeiro dia aqui em Mayerthorpe, cheguei bastante cedo na base, e descobri subitamente que não sabia ainda o código pra abrir a porta. Me vi contemplando o dilema videogamístico clássico — você sabe, o “se tenho uma bazuca, por que precisaria do cartão de acesso azul pra abrir a porta na fase 4?” Da mesma forma, se tenho um veículo automotor e espaço o bastante pra atingir pelo menos uns 70km/h, por que fui barrado pela mera ignorância de um código de 4 dígitos? “Videogames não são tão irreais assim como julgávamos”, fui obrigado a concluir  meneios positivos com a cabeça e aquela expressão universal de quem diz “é mermo”

PODE CRER

Sem ter o que fazer, rodeei a base futilmente. Mandei um email pro coordenador do estágio, sabendo que baseado em seu histórico de prontidão de resposta de email posso concluir que eu já terei meu diploma em mãos quando ele resolver dar sinal de vida. Após uns 10 minutos decidindo o que fazer, a porta se abre subitamente. Um dos paramédicos, um cara baixinho e musculoso com corte de cabelo distintamente militar e cara de ser o rapaz da turma que sempre conta boas piadas, estava indo buscar algo no carro. Ele me olha de alto a baixo e pergunta:

“Você é o Stewie novo?”

Não entendi a pergunta, e meu rosto deixou isso claro. Odeio esses momentos, porque geralmente eu pergunto “o que?”, a pessoa repete exatamente a mesma coisa, eu continuo sem entender, e sou forçado a mais um “ahn, o que?”. O sujeito então repete mais uma vez, e pra evitar esse combo de “O QUE?”, eu então finjo que entendi — o que tem potencial para uma situação de mal entendido de nível Seinfeldiano.

Mal comecei a dizer meu nome, na esperança de que talvez o cara me explique pra onde eu devo ir, e…

“O Stewie do G. É você?”, ele elabora. G é o nome do meu preceptor, ou seja, o paramédico que está diretamente responsável por mim durante o estágio.

“Sim, estou procurando o G”, confirmei, me perguntando como teriam confundido IZZY com STEWIE no email que o coordenador enviou pra base. “Ele já está aqui?”

O rapaz olha pro relógio, franzindo os olhos sob o sol da tarde canadense pra ver o mostrador.

“Não, tá cedo ainda. Ele só deve chegar daqui uns quarenta minutos. Mas você já pode ir subindo e esperar por ele lá em cima com os caras.”

Peguei as minhas tralhas e subi pros alojamentos. Chegando lá em cima, fui recepcionado pelos outros paramédicos, e percebi um padrão — o ar meio militar que senti quando conheci o primeiro maluco lá embaixo parecia uma constante ali. Botas alinhadas e perfeitamente engraxadas na entrada do salão, beliches impecavelmente arrumados, e um perfil físico de macho alfa pegador das baladas.

Todos os caras ali, com exceção minha, poderiam estar em capas da Menshealth. O mais baixo entre eles tem 1,76m (e fica parecendo um anão cercado dos outros marmanjos de 1,90m), todos em boa forma física, e são o tipo de caras que vão pra academia da base quando estão entediados enquanto eu na mesma situação assistiria uma maratona de BobSponja no Netflix comendo manteiga ou algo assim. Terei que me adaptar de alguma forma.

E os caras continuaram me chamando de Stewie, mesmo depois que eu me apresentei como Izzy. Resolvi perguntar que porra era aquela. O que acontece é que “STEWIE” não era confusão de nomes, e sim o nome que eles dão a estudantes. A palavra em inglês é STUDENT, que eles abreviam pra STU. E STU acabou recebendo um diminutivo e se transformando em STEWIE, como se fosse uma espécie de apelido carinhoso. Trocando em miúdos, é como ser chamado de “bicho” pelos veteranos na faculdade — há um misto de carinho e de zoação do recém-chegado.

E todos em plena forma física, com cortes de cabelo nitidamente militares. O ambiente militarizado não deveria ter me surpreendido tanto, afinal, a medicina emergencial nasceu bem recentemente nos campos de batalha modernos, sob tutela e desenvolvimento das Forças Armadas. Por isso, existe ainda hoje uma mentalidade bem militar no exercício da profissão. Imagino que o corpo de bombeiros funcione de forma semelhante.

Pra você ter uma noção da casca-durice dos caras. Um dia desses eu estava lendo alguma bobagem e um dos rapazes berrou “ô Stewie, estou com sede”. Passei por um breve momento de indecisão, até cair a ficha de “ah é, sou o ‘calouro’ aqui, essas filha da putice com calouro fazem parte”. Levanto pra pegar uma garrafa de água mineral da geladeira e o cara fala rindo:

“A geladeira tá muito longe. Me traz lá uma intravenosa, nível 18. Vamo ver se tu é bom, Stewie!”

Ou seja, a “brincadeira” é que ele está com sede mas quer que eu injete soro fisiológico nele em vez de oferecer uma garrafa d’água.

Agora, um negócio: eu não tenho frescura com agulha. Após levar TANTA agulhada no curso, você realmente nem sente mais. É apenas um leve desconforto e só. Este sou em em uma das aulas de intravenosa:

Eu não me incomodo nem quando a furada não sai tão bem.

sangue

Só que nem eu sou maluco a ponto de PEDIR pra levar uma agulhada de um cara que ainda é estudante da coisa. E esses caras não tão nem aí.

Vou na ambulância, pego os materiais, e a propósito? Isso aí não é um pino de encher bola de futebol. É uma agulha 18:

agulha imensa

O cara voluntariamente pediu pra eu fura-lo com isso só pra analisar meu skill na parada.

E é com esses malucos que eu convivo de quatro em quatro dias.

No próximo capítulo, te contarei sobre uma das primeiras emergências REAIS a que tive que responder — um maluco de 40 e tantos anos que tava passeando num daqueles quadriciclos motorizados e capotou (e teve seu pélvis EXPLODIDO no processo) no meio de uma trilha íngreme numa floresta a quatro quilômetros do acesso mais próximo de veículos.

Até lá!

Olá. Caso você seja recém chegado aqui em meu site, te dou um resumido PREVIOUSLY ON HOJE É UM BOM DIA: eu moro no Canadá, e estou na etapa final de um curso onde me formarei como Emergency Medical Technician, ou EMT, ou “paramédico” em bom português. EMTs são os caras que te tiram de dentro do carro que você estourou no poste, ou que fazem reanimação cardiopulmonar no seu avô pra garantir que o véio viverá até a próxima ceia de Natal (depois dela, não me responsabilizo mais).

A última porção do curso se chama “practicum”, que me dizem ser equivalente a um internato ou uma residência no contexto educacional brasileiro. Se isso parece falsa falta de familiaridade com conceitos brasileiro pra pagar de expatriado cosmopolita, nem é o caso — estou aqui há mais de dez anos e até quando morava no Brasil eu era bem burro pra essas coisas, imagine então agora.

Então. A cada quatro dias, eu coloco minhas tralhas dentro do meu carro e dirijo 4 longas horas em direção ao norte da minha província, até a pitoresca cidade de Mayerthorpe. Uma cidadezinha de mais ou menos mil habitantes que tem todo aquele charme de cidadezinha de interior (viajei muito pelo interior do meu Ceará, e Mayerthorpe estranhamente me lembra muito daquelas viagens).

O único problema é que essencialmente nada acontece aqui, o que torna minha estadia aqui um pouco entediante às vezes. Afinal, eu dependo de pessoas se acidentando pra poder completar meu treinamento.

Quando digo que NADA acontece aqui não é hipérbole, meu caro leitor internáutico que está aqui possivelmente procrastinando seu trabalho. De acordo com o site da cidade, este é um evento que rolará nessa semana:

Screen Shot 2015-04-19 at 10.08.50 PM

“Pintura de um pássaro em acrílico”. Repare também que entre agosto e abril NÃO HÁ EVENTO MUNICIPAL ALGUM.

Tendo algum tempo livre, decidi documentar minhas aventuras aqui, porque afinal de contas, POR QUE NÃO. Entre um octagenário cair no chão e não conseguir se levantar, ou uma criança bater o dedo na porta de um carro, achei que vocês gostariam de ler as desventuras de um aprendiz de paramédico brasileiro num fim de mundo canadense.

Então. Hoje eu cheguei aqui em Mayerthorpe e fui saudado com a placa meio artesanal que a comunidade ergueu na entrada da cidade para servir de aviso aos incautos que continuem dirigindo porque ainda não chegaram na civilização. Nesse momento eu lembrei que, em minhas pesquisas sobre a cidade antes do começo do practicum, eu reparei que TODAS as fotos dessa placa eram em péssima resolução. Decidi desbravar um novo caminho na história tanto da cidade quanto da própria internet, uploadeando a possivelmente melhor foto da placa de Mayerthorpe em toda a rede mundial de computadores.

Olhaí

Após completar esse serviço cívico em divulgar a Mayerthorpe para o mundo, resolvi tirar uma foto que melhor registrasse que eu de fato passei por aqui. Eu faço isso porque acredito, de fato, que sou o primeiro brasileiro a passar por esta cidade.

IMG_5395

Cheguei quase duas horas mais cedo do que precisava pro meu expediente, então resolvi perambular por Mayerthorpe documentando esta pequenina cidade.

IMG_5327

Esta é a principal avenida da cidade, que conecta pontos turísticos como “o posto de gasolina” ao “placa da clínica veterinária que fechou em 2006 mas ainda não removeram”.

Adiante do Izzymóvel, o Bottle Depot — que além de servir como centro de reciclagem de garrafas, é um dos primores arquitetônicos de Mayerthorpe.

Esta placa de Pare foi eleita a terceira melhor placa de Pare da cidade, por 2 anos consecutivos. As categorias são perpendicularidade, tonalidade do vermelho, acurácia da grafia, e efetividade. Eu parei quando a vi, então entendo ter ganho nessa categoria.

Um dos maiores patrimônios de Mayerthorpe, a Pilha de Pneus de Trator ornamenta a avenida da cidade (repare que não preciso dar um nome à avenida, por questão de ser a única) há várias gerações. Metade instalação artística e metade uma pilha de pneus de trator, a Pilha de Pneus de Trator é um monumento à sustentabilidade e expressão artística rural pós moderna.

Um espécime do raríssimo gatus ruralis mayerthorpeensis, visto aqui olhando para meu carro e se perguntando por que diabos eu parei no meio da rua para tirar uma foto dele.

É perfeitamente possível que eu seja o primeiro cearense a tirar uma foto dele, e igualmente possível que serei o último.

Uma residência de Mayerthorpe, com aquela típica aparência “de filme”.

Outra casa, divulgando orgulhosamente a campanha política de George Vanderburg, que está se canditadando a… digamos, Conde, eu acho? A campanha de George Vanderburg promove responsabilidade fiscal, liberalismo econômico e maior presença de placas ganhadoras de prêmios.

Eu acho que o George vai ganhar essa eleição. Só vi propaganda política dele. De repente Mayerthorpe é um Estado comunista estilo a Coréia do Norte, liderada há gerações pela família Vanderburg em eleições de mentirinha onde o patriarca da família é o único candidato nas eleições.

Uma das caixas de madeira de Mayerthorpe, usada sabe-se lá para que. Na cidade grande seria uma possível morada para mendigos; aqui? Uma entrada pra Nárnia é meu chute.

Não vi fumaça saindo desse trailer mas após Breaking Bad é impossível ver um RV sem fazer a conexão mental com o submundo das drogas.

Algumas casas mais tarde, outro possível laboratório móvel de metanfetamina. Parece piadinha e tal, mas pouco tempo após tirar essa foto apareceu perto daquela casa ao fundo uma mulher com cara de poucos amigos, desconfiadíssima do forasteiro aqui. Calma minha senhora, não vou denunciar pra polícia nem nada, quero apenas documentar minha passagem pela sua cidade.

Avistei esse banco à distância. Um banquinho solitário no meio do nada na planície canadense. Nesse exato momento eu pensei em como eu nasci muito tarde para a exploração marítima, e muito cedo para a exploração espacial. Nasci numa época inerte, previsível, sem aventuras, onde todo o mundo já foi cartografado, explorado, e descrito num artigo da wikipédia.

Mas em algum lugar, perdido no vácuo rural canadense, existe um banquinho que jamais foi sentado antes por um emissário da nação brasileira. Eu tive uma certeza tão plena que nenhum brasileiro jamais sentou nesse banco, que se você fizesse um exame de sangue em mim era capaz disso aparecer no laudo.

Então eu parei o meu carro, desci, fiz o que dois grandes representantes da humanidade fizeram naquele dia 20 de julho de 1969.

Foi uma pequena sentada para um homem (epa), mas uma grande selfie para a humanidade. É possível que essa também seja a primeira selfie tirada em Mayerthorpe.

Em um momento eu pensei ter visto um fóssil do passado, uma relíquia de tempos longínquos: uma locadora de filmes. “Que incrível túnel do tempo é esta cidade”, pensei animado. Tenho aqui a chance de explorar um artefato de outra era — caminhar entre as prateleiras de filmes para aluguel tal qual eu fazia em 1996.

Mas minha empolgação morreu prematuramente quando percebi que nem mesmo o interior de Mayerthorpe permaneceu intocado pelo fenômeno dos torrents e Netflix. O prédio estava vazio, e disponível para aluguel.

E essa foi minha pequena tour por Mayerthorpe. Apesar de sempre ter sido um “garoto de cidade grande” minha vida inteira, sempre morando em capitais de estados e tal, eu nutro uma grande admiração por essas cidadezinhas do interior. Me lembram muito, como falei, o interior do Ceará de onde meus avós vieram — uma vida simples, um pouco mais devagar e tranquila.

Só espero que não seja tranquila DEMAIS, senão nunca terminarei meu internato!

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