A internet é um terreno fértil para maluquices, e este é um dos motivos pelos quais eu a amo — ela me faz sentir perfeitamente normal em comparação com os seres humanos irreversivelmente desajustados que perambulam soltos por aí, agindo como membros semi-produtivos da sociedade.

Por exemplo, o Time Cube. Você já ouviu falar do Time Cube? Trata-se de um site completamente maluco criado em 1997 que tenta explicar uma alternativa à realidade/leis da física como as conhecemos. É absolutamente incompreensível e indica que o sujeito responsável pelo site provavelmente passa boa parte de seu tempo berrando para as paredes de sua casa e comendo cascas de árvores.

Do outro lado temos o Alex Chiu, um chinês absolutamente maluco que acredita ter inventado, entre outras coisas, artefatos que garantem imortalidade ao usuário, além de pílulas que mudam a aparência física de quem as toma (e eu trabalhava com um cara que tinha comprado essas porras. Fiquei estupefato ao descobrir que alguém mais sequer conhecia o Chiu).

Tem também o Vincent Ocasla, responsável por construir (ao longo de QUATRO ANOS) a Magnasanti, uma cidade “perfeita” em SimCity. Ele basicamente zerou um jogo que não é programado pra ser zerado; se houvesse alguma dúvida de que ele usou encantamentos satânicos para atingir esse objetivo, o vídeo da cidade a remove:

E além disso, tem seja lá quem for este indivíduo (que pela minha própria segurança eu espero que more o mais longe possível de Calgary)

Cruz credo.

Então. Mesmo neste mar inacabável de internautas malucos, nosso amigo Ulillillia consegue se destacar.

Vamos compreender o mundo de Ulillillia. A vida do cidadão (e sua mente, aliás) é como uma gaveta completamente bagunçada – eu não sei nem por onde começar a compreender a desordem.

Ulillillia HBD

Esse aí é ele. Acho que uma lista será a forma mais eficiente de catalogar as infindáveis excentricidades do rapaz.

O seu username já dá o primeiro insight de suas incontáveis maluquices — o cara criou esse nick juntando a palavra repetindo a palavra “ill” (que significa “doente”) e jogando mais algumas letras aleatórias ao redor.

Ou seja, ele já propagandeia seus problemas mentais no próprio nickname de internet.

Não sei como exatamente o Uli (a versão carinhosa de seu apelido) foi descoberto pela internet. Entrei em contato com a “obra” do do rapaz pela primeira vez no fórum Something Awful mil anos atrás.

 Antes de mais nada, Uli é um autor. Seu livro, “The Legend of the 10 Elemental Masters“, é quase completamente ilegível. Nele, o rapaz conta a história de Knuckles, uma espécie de mago de poderes literalmente ilimitados que percorre a trama do livro em God Mode, pondo fim em qualquer conflito imediatamente sem qualquer esforço.

Veja a capa dessa bagaça:

lolwut mano

Com uma estranha obsessão por quantificação, o Uli descreve todas as mais minuciosas e triviais ações do livro com qualquer unidade de medida que seja levemente relevante (“Fulano de tal colocou a mão no bolso com uma força de 0,94 Newtons”), e descreve cores através de sua representação hexadecimal. Os personagens tem hit point e fichas de personagens, e há um glossário e tabela de referência o final do livro pra ajudar a entender a bagaça.

Em suma: é um livro que ninguém, além de seu próprio autor, se interessaria em ler. De acordo com o próprio Uli em sua página no FB, o livro vende aproximadamente 8 cópias por mês pra internautas dispostos a pagar 20 dólares para participar da “história” do Ulillillia. Essa é a única fonte de renda do rapaz.

O Uli tem inúmeros medos irracionais. Você talvez ache que ter medo de aranhas é um medo irracional, mas saca essa: este filho da puta tem medo de ESPELHOS. Numa página entitulada “Major Fears“, o Uli descreve (com a precisão e detalhismo que lhe é familiar) os inúmeros medos que o afligem — medo de CADEIRAS mano…! –, e as maneiras completamente enlouquecedoras que ele contorna esses medos.

Por exemplo, ele tem medo das palavras PEOPLE e PERSON, e portanto ele sequer as escreve. Agora deu até vontade de comprar o livro maluco dele pra ver quantos sinônimos diferentes pra essas duas palavras ele usou.

Voltando à insana quantificação/RPGzação com a qual o rapaz se martiriza, ele inventou um sistema de “compatibilidades e motivação“, que assinala valores a ações de acordo com o quão atraente essas ações são pro Uli. Compatibilidade é o nível de afinidade que ele nutre por uma uma determinação ação. Motivo são as razões pelas quais ele teria que realizar alguma ação. Se uma ação tem compatibilidade alta e motivação alta, ele QUER fazer e PRECISA fazer. Se tem Compabilidade baixa e motivação alta, ele NÃO QUER fazer, mas PRECISA fazer. E por aí vai.

E aí entramos no fato de que…

O Uli toma entre 3 e 6 banhos POR MÊS. Como ele explica na sessão “Showers are rare” da  página “Major issues” (o maior documento já escrito na história humana pra justificar evitar um chuveiro), banhos tem compatibilidade -12 e motivação -12. Somado a outros motivos (ele racionaliza que um banho rouba 3 horas da vida dele), banhos são raros.

Leve em consideração que quando ele escreveu isso o moleque não estudava nem trabalhava; ele tem literalmente o dia inteiro livre.

Na mesma página, vemos que…

O Uli se submete a um ciclo de dormir e acordar completamente insano. Ele passa alguns dias acordando de manhã e indo dormir às noite, e depois inverte — e além disso, ele dorme muito pouco. Somado a todos os seus outros problemas, isso garante que o maluco é virtualmente incapaz de ser um membro produtivo da sociedade, perenemente dependente de seus pais e, mais recentemente, da irmã.

Caralho, já escrevi isso tudo e ainda estamos vendo a ponta do iceberg.

E a saúde desse maluco, que ao que seus relatos indica foi quase que completamente negligenciado pelos pais (apesar de ter sido diagnosticado com problemas mentais quando criança)?

Bem…

 O Uli só come basicamente duas coisas: pizza de queijo, e Hamburger Helper, que é um tipo de gororoba que americanos usam pra colocar em hamburgeres caseiros. Ele come isso SEM o hamburger, que não é muito diferente de comer só o pozinho que vem on Nissin Miojo e jogar o macarrão fora.

Aparentemente ciente de que essa dieta o fará morrer antes dos 40 anos, o Uli pelo menos TENTA aliviar a situação — usando um processo que ele apelida de “desgorduramento”, ou seja: ele pressiona guardanapos contra a pizza pra ir absorvendo a gordura da parada. Ele acredita que a massa e o queijo são perfeitamente saudáveis sem a gordura, e por isso come pizza congelada em praticamente TODAS as refeições.

Quando EU, Izzy Nobre, um gordo safado, critico a dieta de alguém… é porque a coisa tá muito feia.

Ele acredita ter poderes especiais.

 Ele está, há mais de 6 anos, desenvolvendo um jogo chamado Platform Masters. Tendo aprendido a programar em C sozinho (a única coisa digna de nota que Uli fez na vida inteira), ele tem sonhos de um dia lançar o jogo para a legião de fãs/observadores da sua vida peculiar.

Acredita-se que o jogo é programado na base de gambiarra tão intensa que ele jamais rodaria num PC que não fosse o do Uli. E provando essa teoria, o jogo parou de funcionar quando ele migrou pra Windows 7.

Apesar de uma lista imensa de features, até hoje o jogo só tem o mais básico gameplay. Uli passa MESES retocando detalhes do background, ou escrevendo 500 linhas de código pra implementar uma função que um programador mais eficiente resolveria com 3.

 Uli passa a maior parte do seu tempo livre levelando em RPGs clássicos, como Final Fantasy 6, ou jogando games conhecidos por nada além do fato de que são insuportavelmente horríveis, como Bubsy 3D. O seu canal no youtube, antes de ser deletado, mostrava alguns de seus feitos videogâmicos.

– O único tipo de música que o Uli ouve é (olha que surpresa…) música de jogos. E ele ouve a mesma música, em repeat, por vários dias sem parar. Ele também tem o hábito de acelerar o diminuir o ritmo da música através de softwares especiais, sabe-se lá com que finalidade.

A maluquice do Uli é infindável, mas esse post tem que terminar em algum momento (mesmo me sentindo que só abordei uns 30% do que eu poderia falar sobre essa alma sebosa), então termino-o agora. Pra se deleitar mais nas maluquices do jovem, dê um pulo no site ou no arquivo de vídeos dele. O canal dele foi deletado, sabe-se lá por que.

[ Update ] Ah, no site dele ele explica por que — se emputeceu com os problemas do YouTube. Os vídeos agora estão no Daily Motion.

Eu duvido que exista alguém na internet mais maluco que esse rapaz.

[ Update ] Ah! Estavam fazendo um documentário sobre a vida do cara, mas como os cineastas são tão competentes em cinematografia quanto o Uli é competente em qualquer coisa, o filme nunca foi lançado. A última atualização no site do documentário é de tipo 4 anos atrás.

Pelos últimos 10 anos, o mundo ocidental esteve zoando impiedosamente a Coréia do Norte e seus líderes peculiarmente megalomaníacos. Cada notícia bizarra oriunda da Melhor Coréia nos traz um meio-sorriso; há uma estranha satisfação em reconfirmar a existência daquele bom e velho país maluco.

Chega a ser até estranhamente confortante. Uma noticia que veicula “a propósito, a Coréia do Norte ainda existe e essa semana eles aprontaram isso” nos informa que o mundo ainda está nos trilhos. O que é meio mórbido, porque as condições do povo norte-coreano deviam nos causar mais horror do que diversão.

Ah, e clica nisto aqui ->1

Entretanto, o que aconteceu recentemente com o vizinho de baixo talvez nos force a pedir desculpas, porque a Coréia mais maluca talvez não seja a dos Kims. A história que eu vou explicar aqui é TÃO bizarra, tão semelhante a trama de anime sem sentido, que se no meio do texto eu falar “…e o objetivo final era construir um robô gigante, que seria então possuído pelo espírito de um antigo guerreiro para finalmente destruir a Coréia do Norte“, você não vai achar que eu inventei essa parte.

Essa aí acima é Park Geun-hye, a primeira presidente mulher da Coréia do Sul. Eu tenho a tentação de escrever “presidenta” (que é uma palavra que sempre existiu mas que uma cambada de ignorante pensa que foi inventada pelo PT como coroa linguística para a Dilma), mas estou sem paciência pra trolar incautos hoje. O assunto aqui requer foco.

Atualmente, ela tem um nível de popularidade que oscila entre “aquele moleque que sempre tentava ‘complementar’ as explicações do professor na escola” e “primo que pulou de pirâmide em pirâmide e agora tenta te arrastar pra reuniões da Hinode”. Apenas 14% dos sul-coreanos aprovam a permanência da mulher no poder, e olha que esses caras toleram todo tipo de insanidade. Foi lá que nasceu o e-sport e o k-pop, afinal.

A putaria em que a presidente se meteu é tão sinistra que há algumas semanas tá rolando todo tipo de protesto contra a Park lá na Coréia do Sul — e que a mídia internacional não parece estar dando a devida atenção. O que, considerando a maluquice da situação, é difícil de compreender.

Falta um pato amarelo inflável gigante mas ok

O motivo desse levante popular contra Park não é muito diferente do que vimos no nosso próprio Brasil — uma perene nuvem de corrupção, ou ao menos alegações disso, paira sobre a presidenta (não consigo resistir. Mesmo com o disclaimer eu sei que ler “presidenta” provoca reação Pavloviana de revolta em alguns). O pivô da coisa toda é o seu relacionamento com Choi Soon-sil, uma amiga pessoal da presidente que teve um nível de acesso bem questionável aos bastidores do governo da presidente Park.

Choi Soon-sil, vista aqui sendo interrompida enquanto fechava um estágio no Candy Crush

Nessa hora você perde interesse na história, porque já está imaginando que não aconteceu nada muito diferente do que vemos no Brasil há 500 anos — uma intimidade indevida entre poder público e interesses privados, venda de influência/favores políticos e mal-uso do dinheiro público.

Boring. Boa sorte com o seu #ForaPark, coreanos! Pra gente isso aí é reprise, e pior, reprise recente.

O que acontece é que você não tem criatividade. Você tá tão acostumado com a corrupção standard 1.0 do Brasil que não faz a menor ideia dos níveis absurdos que o crime político pode alçar. Estamos falando aqui de corrupção que envolve líderes místicos com super-poderes espirituais e fantasmas.

Pra entender a putaria, precisamos voltar à década de 70. Na época, a Coréia do Sul era comandada pelo ditador Park Chung-hee, pai da atual presidentx Park Geun-hye. Naqueles anos, o ditador conheceu Choi Tae-min — pai da Choi Soon-sil –, que era…

Peraí, tá tudo muito complicado. Esses nomes com os quais não temos muita familiaridade tornam impossível fixar a palavra à pessoa. Pra piorar, a sintaxe dos sobrenomes na Coréia (como você já deve ter concluído, o nome da família aparece na frente do nome) me faz pensar que estou falando de um monte de xarás.

Vamos simplificar com a seguinte tabelinha:

Park Geun-hye = Presidenta (por enquanto)

Park Chung-hee = Ditador, pai da Presidenta

Choi Tae-min = Mestre dos Magos

Choi Soon-sil = Pilantrista, filha do Mestre dos Magos

Com essa tabela eu acabo me adiantando na história. Já já “Mestre dos Magos” fará mais sentido.

Então, o Mestre dos Magos era broder do Ditador e sua família. Em 1974, um simpatizante do governo norte-coreano tentou passar fogo no Ditador, mas a mira foi ruim e o cara acertou (e matou) a esposa do maluco.

Cabe aqui um imenso parêntese. De agora em diante, imensos parênteses receberão suas próprias caixinhas, assim:2

A Esmerdalhança do Assassinato de Yuk Young-soo

Essa tentativa de assassinato foi uma presepada digna de sketch dos Trapalhões, aliás. Mun Se-gwang, o atirador, foi com um três-oitão na cintura ao teatro onde o Ditador estava dando um pronunciamento no Dia da Independência coreana, intencionando mata-lo. Igual quando eu fui jogar Commandos pela primeira vez sem entender a mecânica do jogo, Mun atirou sem querer, alertando a segurança do teatro (e se ferindo ao mesmo tempo). Pensando “ah, foda-se então”, Mun saiu correndo em direção ao palanque pra meter bala no Ditador.

O cara conseguiu efetuar vários outros disparos, cada um mais na doida do que o anterior porque o momento pra sutileza e cautela já era. O Ditador escapou de todos, mas sua esposa não tinha o mesmo APM3 que o marido e tomou um balaço na cabeça.

Um dos seguranças abriu fogo contra o meliante, e o cara errou tão catastroficamente que a bala ricocheteou na parede e acertou um estudante qualquer que assistia o evento. O moleque aproveitou a deixa e morreu também.

Ou seja, o maluco foi lá matar um, acertou a si mesmo, morreram dois outros, foi preso, e a vítima em potencial ainda sobreviveu. Isso é o pior aproveitamento num atentado terrorista que eu já vi. Ele conseguiu atirar em si mesmo mais do que no alvo do atentado.

Cinco anos mais tarde, uma outra tentativa de assassinato contra o Ditador finalmente logrou êxito — provando mais uma vez a importância da perseverança.

Voltamos ao motivo pelo qual o Choi Tae-min se chama aqui nessa história de “Mestre dos Magos”. Após a morte da Primeira Dama, o Mestre dos Magos (que era líder de uma seita “cristã” chamada Yongsaeng-gyo, ou “Igreja da Vida Eterna”), começou a enviar cartas pra atual Presidenta, que na época tinha míseros 23 aninhos. Nas cartas, o cara alegava que a finada estava se comunicando com ele, e que esta queria que ele repassasse mensagens pra Presidenta.4

A Presidenta, como tantos outros trouxas em situação semelhante, engoliu a história do Mestre dos Magos e passou a ve-lo como um mentor spiritual. Ao longo dos anos, o Mestre dos Magos consolidou sua posição de arroz de festa no alto cenário politico coreano, orbitando o círculo social da filha do presidente e passando recadinhos do além pra mulher.

A parada era meio rasputinesca mesmo — e tal como na corte dos Tsares, a galera do Ditador não curtiu muito esse negócio de um curandeiro do caralho se entrosando nos círculos presidenciais, mas fazer o que?

Enquanto isso o Mestre dos Magos, que não era bobo nem nada, se aproveitou do contato com a filha do Ditador pra estabelecer várias instituições de “caridade” — lideradas, no papel, pela Presidenta. A relação com a filha do presidente dava um verniz de legitimidade à porra toda, e o Mestre dos Magos começou a usar sua influência para gentilmente “sugerir” que empresas contribuissem com suas instituições or else. O curandeiro começou a se tornar rico e influente nos altos círculos sul-cureanos, pro desconforto do gabinete.

O Ditador eventualmente se viu obrigado a chamar o Mestre dos Magos pra perguntar que porra era aquela, ao passo de que ele foi defendido ferozmente pela Presidenta. O relacionamento entre os dois era uma imensa fonte de vergonha pro gabinete presidencial, mas pelo menos o Ditador conseguia controlar um pouco a influência do curandeiro sobre sua filha. E, afinal de contas, seitas malucas são até meio comuns na Coréia do Sul.

Uma vez que o Ditador bateu as botas5, não tinha mais ninguém pra segurar o Mestre dos Magos.

Exceto o gélido abraço da Morte. O Mestre dos Magos passou dessa pra melhor em 1994, e em sua ausência, sua filha (a Pilantrista, que finalmente entra na história!) continuou o controle sobre a Presidenta. A filha do místico herdou, além da influência sobre a Presidenta, suas organizações de “caridade” — a essa altura com cofres fartos de dinheiro adquirido ilicitamente. Em 2012, quando a Presidenta finalmente tornou-se presidenta, é que a Pilantrista deitou e rolou.

A louca passou a influenciar ainda mais a líder coreana, exigindo acesso a informação sigilosa sobre a presidência pra dar seus pitacos. Pior que isso, ela pegava essa informação e repassava pro seu pequeno círculo (um círculo que incluía o namoradinho de aluguel da véia, e um popular diretor de clipes de k-pop). Aliás, hora de mais um parêntese:

O imenso telefone sem fio que é a internet

Pesquisando pra história eu vi muitos (especialmente no Twitter) se referirem a esse grupo como as “Oito Deusas”. A expressão virou um meme nas redes brasileiras, a despeito do fato de que não há simplesmente nenhuma notícia oficial reportando esse nome — a ponto de que fico em dúvida de onde o termo teria originado. Encontrei discussões no /r/conspiracy, um subreddit de usuários de chapéus de papel alumínio, onde o nome era repassado, mas não parece ter surgido lá. Os únicos locais onde vejo “Oito Deusas” sendo mencionadas são sites de conspiração mesmo.

O usuário @Omykronbr, o principal responsável por divulgar a situação coreana pra internautas brasileiros, foi um dos que aderiu/legitimizou a expressão. Ele também divulgou a idéia que as “Oito Deusas” estariam por trás do naufrágio do MV Sewol, que seria na real um sacrifício humano em honra das Deusas/pra ressuscitar o Mestre dos Magos. Não faço a menor idéia de onde ele tirou isso6, embora eu suspeite que ele tenha confundido a história de Yoo Byung-eun, o dono da empresa que operava a barca.

Em 1987, os seguidores de uma sub-seita cristã chamada Gidokgyo Bokeum Chimnyehoe7 cometeram suicídio coletivo. O timing era estranho (a líder da seita estava sendo investigada por fraude), e no final das contas descobriu-se que essa sub-seita estava repassando uma grana pro Yoo. O cara passou 4 anos no xilindró por causa disso.

Até onde posso averiguar, parece que o Omykronbr parou de ler quando viu que o Yoo tinha envolvimendo com seitas, concluiu que era a mesma da Pilantrista e seu pai, e saiu tuitando.

Então, a Presidenta começou a repassar diversos documentos governamentais pra Pilantrista. Até medidas de orçamento eram debatidas com a operadora da fantoche em formato de presidente; a Pilantrista então sussurrava no ouvido da Presidenta que seus amiguinhos deveriam receber financiamento estatal pros seus projetos malucos. Alguns de seus amigos acabaram indo pro gabinete da Presidenta, e é razoável concluir que boa parte das políticas nacionais coreanas estavam sob controle dessa turminha do barulho.

Até uns negócios meio ritualísticos/xamanísticos a Presidenta incorporou no governo. De quem terá sido a ideia…?

Lembrando que essa porra toda começou com alguém dizendo “opa, tenho um recado da sua mãe morta pra você!”.

É meio assustador quando você considera que a Coréia do Sul tem um vizinho maluco com bombas nucleares, e que as políticas de como lidar com essa porra podem ter sido modeladas com base nos achismos de uma mulher que acha que fala com espíritos.

A Pilantrista usou sua influência até mesmo pra facilitar a entrada da filha numa prestigiosa faculdade coreana, o que me faz admirar a disciplina e importância que os asiáticos dão a educação. A mulher manipula a presidente do país inteiro como o Frank Oz controlando o Yoda8, mas ainda quer que a filha tenha um canudo…

Enfim, o resultado dessa porra toda é a inevitável conclusão de que a influência da família Choi paira sobre a liderança da Coréia do Sul por décadas a essa altura. E enquanto isso foi visto por anos como apenas uma peculiaridade religiosa, pouco a pouco o país começou a se emputecer com essa relação entre a Presidenta e a Pilantrista. Matérias investigativas começaram a futucar o passado das duas, e o nível de participação que essa mulher (que não foi eleita a coisa alguma) tem na capital coreana. Com a pressão, a Pilantrista e filha sairam fora pra Alemanha.

Vale adicionar neste momento que a filha da Pilantrista é competidora de “dressage”, que é essencialmente uma dança com cavalos que por algum motivo é considerado esporte olímpico — enquanto meu Magiczinho nunca me renderá medalhas de ouro.

Óia a mina “dançando” com o Alazão aí. Mãe e filha tem uma chácara na Alemanha, onde esta última treina suas danças. Porque o que estava faltando mesmo nessa história era um estúdio alemão de dança pra cavalos.

Falei que o um megazord possuído por um antigo samurai seria MENOS estranho, não falei?

Na pressa, a véia deixou pra trás um tablet com cópias de discursos, documentos financeiros, agenda presidencial, inúmeros documentos governamentais que ela não tem autorização legal pra acessar, e o pior: a constatação de que ela é o tipo de tia velha que tira selfies com um tablet.

Aí a putaria explodiu de vez. A véia ainda tentou mandar um “rapaz, nunca vi esse tablet na vida!”, mas a galeria repleta de selfies a desmentiu imediatamente. A galera lá naquelas bandas já não ia muito com a cara da Presidenta, e agora tendo achado esse tablet confirmou-se a suspeita de que a líder da nação era senão uma marionete nas mãos de uma líder “espiritual” e de seu questionável grupinho secreto de Illuminati coreanos.

Tentando apaziguar os ânimos da galera, a Presidenta botou pra fora inúmeros membros do seu gabinete que teriam sido instalados lá por influência da Pilantrista, mas agora é tarde. Demorei tanto pra escrever esse post, aliás, que quando publica-lo é possível que a Presidenta já tenha virado Detenta.

Você imagina agora o sorriso do Kim Jong Un nesse momento. Com os sul-coreanos tendo recebido apoio americano no final do conflito entre as duas Coréias nos anos 50, a narrativa estatal é que a do Sul é um fantoche de interesses oligárquios ianques; que os coreanos “do bem mesmo” são os do Norte. A tal conspiração não envolve os EUA — até onde se sabe, ao menos –, mas já dá pro gasto.

O Brasil é uma putaria sem fim, mas ao menos não temos esse histórico de líderes se envolvendo…

…com líderes religi…

…osos sincretistas que alegam poder se comunicar com espir…

Talvez não somos tão diferentes assim.9 10

Esse tipo de texto dá um TRABALHÃO, e como não tenho nenhum tipo de publicidade aqui no HBD, o único retorno que tenho é o feedback de vocês. Tire dois segundos do seu dia pra participar: comente e/ou compartilhe o texto:D

(O texto estava ficando tão grande que, pra facilitar a leitura e oferecer uma resposta aos que insinuam que estou me “acovardando” após o posto de “esclarecimentos” da Bel, decidi dividir este artigo em vários, onde tentarei cobrir cada faceta da réplica da empreendedora.)

(Ah, e pode haver uns erros ortográficos aí. Corrigirei a medida em que vocês esfregarem-nos na minha cara, insinuando que sou um analfabeto)

cinco diplomas

Vou ser honesto aqui: eu não sei exatamente o que é um “soneto”, e espero que você também não saiba pra que eu não pareça tão burro. Claro, a raiz da palavra sugere uma conexão etimológica com “som” (?), então naturalmente eu suponho que seja algo relativo a cantoria, esses negócios de ópera, algo assim. O que provavelmente não é, mas eu já estou comprometido com essa analogia então não vou googlear agora. Se o jornalismo brasileiro pode passar anos sem googlear um personagem a quem eles deram palanque, eu posso me omitir de uma pesquisa pelo bom andamento dessa introdução.

Então, eu não sei o que é. Se você me mostrasse um soneto na TV, supondo que essa teoria de que é alguma coisa relativa a música esteja correta, eu não ia aprumar os óculos na cara e falar com voz empostada de connoisseur musical babaca “ora, mas é claro que isso é um belo soneto, até mesmo um palerma sem instrução facilmente vê!”. Sei lá que porra é essa.

E sei menos ainda o que seria uma “emenda” aí nesse contexto supostamente musical. Alguém que chega correndo pra consertar uma desafinada da cantora “titular”…? Pra uma emenda sair pior que o soneto, então, eu imagino a emendadora subindo no palco bêbada, com a maquiagem toda zoneada, e então tropeça no vestido e cai de cara no fosso da orquestra, quebrando a clavícula numa tuba. Seria isso?

Bom, esqueçam essa metáfora e vamos trazer pra algo mais simples, mais visual. Lembram do Mr Bean? Em seu filme, ele dá um perfeito exemplo do que eu creio ser uma expressão melhor pra “emenda pior que soneto”.

Na sequência acima, o Mr Bean espirra numa famosa pintura. Na tentativa de limpar a parada, o cara a mancha com tinta, arranca a tela da moldura, pisa em cima, e acaba finalmente usando tiner — assim, literalmente destruindo a pintura. Essa cena foi uma das primeiras em minha vida toda que me fez literalmente chorar de rir, o que até então eu pensava ser exagero linguístico.

A situação vai piorando vertiginosamente a cada tentativa do Bean de desfazer a cagada; as reações do personagem quando descobre que o próximo passo saiu pela culatra miseravelmente, tudo isso quando o espectador está cima de um alicerce contextual de que a pintura era muitíssimo valiosa e que cada burrice dele a deixa irreversivelmente mais longe disso. Inclusive, no ramo artístico dos caras que entendem de pintuas e arte clássica isso tem o nome técnico de “esmerdalhança total e irremediável

No final, resta ao Mr Bean desenhar um facsímile fajuto por cima do estrago; um que ninguém poderia argumentar que é uma reprodução fiel do que estava pendurado na parede antes (de fato, apenas um cego poderia ser enganado por ela) mas que o autor de toda a cagada apresenta na tentativa de mostrar aos que confiaram nele que tudo está ok.

Foi exatamente isso que a autora de “A Menina do Vale” fez. O quadro é sua carreira e imagem. O espirro, a descoberta das, digamos, pra ser gentil, “inverdades”.

E ao tentar limpar a coisa, ela tá jogando tiner e ateando fogo na pintura. Feito o estrago, ela completou com um desenho em cima que DEFINITIVAMENTE não é a mesma figura que estava lá antes, por mais que ela tente fingir que sempre foi assim.

Se você não tiver tempo de ler a resposta da Bel no Medium, esse vídeo aí é o equivalente cinematográfico dele. Diria até que assistindo esse vídeo você tem um “minor” em “Desculpas Esfarrapadas da Bel”, se é que podemos chamar aquilo de “desculpa” porque desculpa presume admissão de erro, e não é isso que o texto dela faz em momento algum.

Todo mundo assistiu Mr Bean, mas você já viu um soneto? Provavelmente não. Então, aí está uma metáfora melhor: “o conserto que ficou pior que o espirro”.

É isso. Vamos lá.

A respost…

Pera.

Antes de falarmos da réplica da empreendedora, preciso reportar a vocês o que se desencadeou depois da postagem daquele artigo.

The Aftermath

Rapaz, que confusão esse negócio rendeu! Meu site foi tirado do ar pelo HostGator, porque o servidor compartilhado que eu usava não aguentava o tranco do número de acessos (em alguns momentos, rendeu picos de milhares de leitores simultâneos, algo inédito aqui). Consigo imaginar o @pedrovanzella, que nunca perdeu uma oportunidade de me criticar por não usar um serviço melhor de hospedagem, me criticando silenciosamente de longe.

Foi por isso que pus o artigo naquele horroroso Medium, que é de longe o pior serviço de blogging que eu usei na vida. Alguns dias depois, sob tutela e auxílio cuidadoso do Pedro, consegui repôr o site no ar. Aliás, na real, ele que pôs essa merda toda de volta na internet, eu só loguei aqui e ali e apertei os botões que ele me mandou apertar na hora certa.

Sabe os macacos que a NASA treinou pra realizar operações simples em aeronaves no começo do programa espacial? Então, foi mais ou menos daquele jeito, com a diferença que eu tinha uma probabilidade maior de explodir a porra toda.

O meu artigo foi citado no Estadão, no Huffington Post, na VejaSPduas vezes no Pânico, na Época, e provavelmente em vários outros que agora estou com preguiça de procurar. O artigo correu as redes sociais no mesmo galope com o qual, predizem alguns, vem uma carta rogatória de São Paulo com direção à minha casa.

Fui bastante parabenizado pela pesquisa e pela redação do texto em si — embora, curiosamente, tenha recebido também muitas críticas de que o artigo era “demasiadamente agressivo” e “sem tom ou seriedade jornalística”. Nessa hora caiu a ficha que meu texto não estava mais sendo analisado pelo meu público usual, que entende meu temperamento e meu senso de humor. Eu não havia calculado inicialmente que o texto seria julgado por quem não me conhece.

Eu imagino que o que acontecia é que o sujeito via o burburinho relativo ao caso, via que parecia um assunto grave, e quanto se interessava o bastante pra clicar, já estava condicionado a esperar algum tipo de matéria mais séria. Sem saber que este é o mesmo site famoso por uma história onde eu cago no tapete do meu banheiro ou acidentalmente mijo no meu gato.

O que eu quero dizer é: eu sou, a priori, um humorista. Aliás, não, deixa eu corrigir isso: por mais que humorista não seja nem um título de prestígio, eu não sou nem bom o suficiente pra ser humorista. Tenho um blog e conto umas piadinhas que frequentemente nem engraçadas são.

O que torna inexplicável a exigência daquela matéria do Estadão, que diz que “falhei com a ética jornalística por não ouvir o outro lado da história” ou coisa assim. Essa acusação é hilária em várias camadas diferentes:

  1. Eu não sou jornalista. Não faz qualquer nexo cobrar de um não-jornalista a ética jornalista (como se nossos jornalistas sequer a tivessem mas isso é um ponto paralelo);
  2. O outro lado já foi ouvido, por anos, em um palco com maior alcance que o meu. A MINHA impressão dos fatos é que é o outro lado, o contraditório;
  3. Não devo “direito de resposta” a ninguém, tampouco alguém que com uma postagem no Facebook alcança mais de meio milhão de pessoas e eu, uma fração disso. Não que eu esconderia a resposta dela, afinal, linko-a aqui com prazer (curioso que ela sequer me menciona na sua postagem, o que talvez seja até recomendação jurídica). Só me incomoda e rejeito fundamentalmente essa exigência de que é dever meu dar “espaço de resposta” a alguém que aparece em veículos de alcance nacional rotineiramente.
  4. O autor da matéria não me procurou pra pedir de mim o MEU direito de resposta à sua crítica de mim, o que torna sua recomendação nada mais do que uma postura moralmente falida.

Uma parte não tão interessante assim (aliás, francamente assustadora e repugnante) foi a alteração histórica executada por meios de comunicação que outrora promoveram a moça. Em pelo menos duas ocasiões, de matérias que antes romantizavam os feitos de Bel Pesce foram removidos trechos de adulação e feitos duvidosos que soavam, pra ser plenamente honesto, como diretamente extraídos de um kit de mídia da moça.

O UOL Economia, por exemplo. Antes:

Hoje:

Em outras palavras, sempre estivemos em guerra com a Lestásia. Sem qualquer tipo de errata ou esclarecimento, o UOL literalmente mudou o que havia veiculado anteriormente. Sem qualquer exagero ou brincadeira — isso é Orwellianamente inaceitável, e se estão dispostos a fazer isso por uma bobagem como essa, é preocupante imaginar o que mais se arriscariam a “corrigir” quando fosse realmente de seu interesse.

Não foi só esse artigo. Tem este aqui também, que até pouco tempo era assim:

Agora, por que será, está assim:

Felizmente graças a inúmeros prints e ao Web Archive, na internet não existe buraco de memória onde fatos que contradigam a narrativa vigente possam ser extirpados completamente do registro histórico.

A ironia é que essa correção, que presumo tinha o objetivo de melhorar a imagem do UOL como um veículo de notícias, a piorou. Não foi só a Bel que estragou a pintura e desenhou uma tosquice por cima como forma de “conserto”.

Infelizmente pra Bel, o que ela falou em vídeo não é tão simples de editar. Então, entremos na resposta dela.

A resposta de Bel

Você conhece o conceito de “misdirection“? Oriundo do mundo da mágica, o “misdirection” é o OPA OLHE PRA LÁ, NÃO OLHE PRA CÁ NÃO, OLHE PRA LÁ POR UM SEGUNDINHO SÓ OK AGORA PODE OLHAR AQUI DE NOVO. Provavelmente não é coincidência que a Bel apelasse pra essa tática, visto que ela já atua num ramo que (assim como na mágica) basea-se em mostrar coisas num ângulo certinho, cuidadosamente, pra que o fantasioso pareça real.

Boa parte da resposta da Bel foca nas dúvidas levantadas sobre seu passado acadêmico. Como falei no meu texto, o que me despertou a curiosidade é a forma como na biografia em português, ela dizia explicitamente que tinha cinco diplomas…

O site dela permanece inalterado.

…enquanto em inglês ela é menos direta e fala só dos majors e minors:

Eu achei essas duas descrições totalmente conflitantes, que foi o red flag primordial dessa coisa toda. Primeiro, porque dois majors não significam necessariamente dois diplomas, como explica a Wikipédia:

“Apesar de declarar dois majors, a maioria das faculdades confere apenas UM DIPLOMA. “School”, a propósito, é usado nos EUA e Canadá como sinônimo de qualquer tipo de instituição de ensino.

Não há espaço pra chorumelas: quando ter dois majors não é nem necessariamente o mesmo que ter dois diplomas, de onde vem essa conta de CINCO diplomas, então…? Como ela acha apropriado mencionar MINORS (que no MIT requerem apenas entre 5 e 7 disciplinas) de DIPLOMA, quando por sua duração e escopo mal poderiam ser considerados cursos técnicos?

(Pior que isso, ter um major não é sequer sinônimo de ter se formado, como vemos aqui.)

Pronto, o palco está montado. Entra a ilusionista Bel Pesce com seus assistentes de palco, a mídia ingênua que acredita e replica o que ela alega.

Note: eu falei claramente “BEL PESCE DIZ TER CINCO DIPLOMAS EM PORTUGUÊS, MAS EM INGLÊS ELA É MEIO VAGA A RESPEITO DE TER SE FORMADO OU NÃO, E TERIA NA MELHOR DAS HIPÓTESES DOIS DIPLOMAS”, e mostrei os mecanismos lógicos através dos quais eu cheguei a isso.

Em resposta, o que ela faz? Ela mostra que não tem nada em uma manga, nada na outra, faz um gesto arcano com as mãos, e assim redireciona a atenção do público a algo que eu nunca falei: “BEL PESCE NÃO É FORMADA, PONTO FINAL“.

Tendo este espantalho nas mãos, ela enche então o post de fotos da formatura, dos exatos dois diplomas que eu previ, que até então aparentemente o mundo inteiro pensava ser cinco porque ela mesma falava explicitamente que eram cinco, e assim boa parte do meu artigo está “refutado”.

Mas o pior não é essa COMPLETA omissão de um pedido sincero de desculpas por ter acrescentado três diplomas aos seus dois reais. O pior trecho é este outro meta-misdirection, um truque de mãos paralelo enquanto já se está fazendo outro:

Se em algum momento, posicionar que tenho cursos em Engenharia Elétrica, Ciência da Computação, Administração, Economia e Matemática pode ter feito alguém se sentir ofendido, desculpe. Sempre que possível eu clarifiquei, mas de alguns milhares de vezes que eu tenha falado sobre o assunto, imagino que certas vezes realmente não tenha ficado claro(…)

That’s the pivot“, diriam os gringos.

Nos últimos dias, tal qual alguém que faz maratona de Breaking Bad, eu ficava me perguntando COMO essa protagonista iria escapar dessa vez. Enquanto eu já esperava que todo o resto seria remanejado com floreios semânticos facilmente palatáveis pros fãs cegos, estamos aqui falando de um fato objetivamente inegável:

5 ≠ 2

Não é POSSÍVEL que ela vai passar pano nisso. É?

E aí ela manda esse trecho que colei acima. Tive que levantar da cadeira e bater palmas. Ou melhor, teria, se essa transparente ginástica semântica tivesse colado entre seus seguidores, e não é bem o caso se os comentários do Medium e de sua postagem no Facebook são indicação de qualquer coisa.

Veja bem o que ela falou: “Se em algum momento, posicionar que tenho cursos em…“.

O que ela está dizendo nas entrelinhas, na esperança de que você aceite por osmose, quase na base da mensagem subliminar, aí é que tudo que ela sempre falou é que ela tem CURSOS (em Belspeak, “cursou disciplinas”) de Engenharia Elétrica, Ciências da Computação, Administração, Economia e Matemática. Afinal, ela realmente tem “cursos” de tudo isso que ela enumerava como diploma. Ela cursou algunas disciplinas dessas graduações, que é o que a dá os dois minors.

Perceba — o que ela fez nesse trecho é implicitamente negar que algum dia tenha falado “EU TENHO CINCO DIPLOMAS NAS DISCIPLINAS (…)”, o que ela teria dito é “tenho cursos nas disciplinas (…)”, o que é tecnicamente verdade. Afinal, um CURSO pode ser uma miríade de coisas (curso profissionalizante? Curso de reforço escolar? Curso como sinônimo de matéria de faculdade?), o que a dá bastante latitude pra dizer “você simplesmente me entendeu errado”.

Abracadabra. 

curso

“Gente eu só falei que tinha CURSOS, de onde vocês tiraram que eu falei “DIPLOMAS”?

Entendeu? Tecnicamente ela pode dizer que as matérias que completou são CURSOS daquelas graduações, e você que entendeu errado.

Tecnicamente eu posso chamar disso” é literalmente o MO dela. É através desse mesmo mecanismo de claríssima má fé que ela se chamava de “fundadora” de uma empresa que já existia, com donos bem definidos, a qual ela claramente se uniu pra ser funcionária subordinada de um chefe. Não é isso que compreendemos como FUNDADORA, não era isso que ela dava a entender quando se gabava de ter vendido tal empresa por 50 milhões de dólares (o que também não aconteceu):

https://www.youtube.com/watch?v=5Im_ETGs8A0&feature=youtu.be&ab_channel=FredAlves

“Uma das MINHAS empresas EU vendi por 50 milhoes de dólares”. O que se compreende ao ouvir isso? Que ela assinou um contrato pra entrar numa empresa já existente de outro cara, ou que ELA FUNDOU A PARADA E ERA LITERALMENTE A DONA?

…maaaaaaaaas, “tecnicamente eu posso me chamar de (co)fundadora sim, olha esse trechinho minúsculo de um contrato aqui que nem menciona o nome da Lemon ou sequer prova que o acordo foi concretizado!”. Cê tá percebendo o padrão?

Mas essa questão aí da Lemon e adjacentes é assunto pro próximo post. Não quero me estender tanto.

Voltando aos diplomas, ela também não tenta se desculpar por sempre se referir ao seu bacharelado em Electrical Engineering and Computer Science como se fossem duas formações distintas, o que simplesmente não é.

Em seguida ela cara-de-paumente manda que “sempre que possível eu clarifiquei”, como se não houvessem entrevistas com ela em vídeo em que ela diz, verbatim, “tenho cinco diplomas”.

Como se o próprio site dela não dissesse “…onde se formou em Engenharia Elétrica, Ciências da Computação, Administração, Economia e Matemática”. Ela está tentando passar essa bola de que a mídia que “entendeu errado” porque ela não “clarificou”.

Na realidade, como o vídeo acima deixa absolutamente explícito, a única “clarificação” que Bel dava sobre seus cinco diplomas parece ser uma admissão flagrantemente envergonhada de que seus cinco majors/diplomas seriam “teóricos” assim que alguém fazia rapidamente a aritmética básica de que ter isso tudo de diploma não faz nenhum sentido. Eu tenho a impressão que esse entrevistador já estudou fora, e talvez por isso ela nem tentou empurrar a balela tradicional de “cinco diplomas” e já fez o downgrade pra “cinco majors” pra soar um pouco mais verossímil.

E ainda assim não deu, porque o cara IMEDIATAMENTE viu que a conta não fechava.

Bel, manda um mea culpa mais honesto em relação a esses seus cinco diplomas. Tá plenamente escancarado que você mentiu. Você deu a entender que tinha uma qualificação maior do que realmente tem, e vendo como você tem um benefício direto através disso (sua imagem e seu currículo é o que fazem comprarem seus livros, cursos e palestras), é plenamente desonesto.

E o pior: não sou só eu, o “hater” como você descreveu no Facebook, te cobrando. Inúmeros reais admiradores seus esperavam uma posição mais franca.

A pior parte disso tudo é o seguinte: você tem mérito por ter entrado E SE FORMADO no MIT, com dois majors ainda por cima. Eu, particularmente (qualquer nerd na real), acho o MIT uma instituição foda pra caralho. Quando moleque, lendo a revista Superinteressante, parecia que todas as mais incríveis pesquisas e projetos de computação, robótica, exploração espacial, computadores wearable e inteligência artificial saiam de lá.

Sabe aquele mundo paralelo do horrível Tomorrowland?

Na minha cabeça, o MIT era aquilo. Você já tinha DUAS formações que impressionavam.

(Já tô vendo os fanboys alucinando por achar que acertaram suas previsões de que tudo não passa de ~inveja~, o argumento com a firmeza moral e intelectual de uma criança de 12 anos)

Era reeeeeeealmente necessário multiplica-las, se colocando nessa posição extremamente desconfortável de fazer pretzels de palavras tentando se explicar (e nitidamente falhando)? Você parece não ter aprendido a lição principal desse caso inteiro:

Você não precisava ter inventado esses outros três diplomas, e poderia muito bem ter pedido desculpas mais honestas admitindo que mentiu. Parafraseando o célebre ditado e usando a suposta pronúncia correta do seu nome pro trocadilho infame: Pesce morre pela boca.

Essa sua súbita mudança de TENHO DIPLOMAS pra TENHO CURSOS é meio envergonhante, porque ela deixa subententido que você não respeita a inteligência dos seus seguidores. Alguns vão cair nessa, claro, afinal, por admiração cega já vi pessoas fazendo muito pior.

Mas eu pude constatar que a maioria do seu público é inteligente, por mais que você pense que não. Eles ESTÃO vendo o que está perfeitamente transparente. Talvez por ter sido adulada como menina genial por tantos anos, você achou imediatamente que essa estratégia de passar um verniz na mentira era obviamente acima da capacidade dedutiva de nós, meros mortais. Afinal, é mais um empreendimento da Bel Pesce.

A propósito: “empreendimento” não significa “entrar na empresa dos outros”, e nenhuma quantia de screenshot de contrato convencerá as pessoas que te ouviram falar explicitamente “minha empresa”.

“Vendi MINHA empresa”.

“EU VENDI MINHA EMPRESA POR 50 MILHÕES DE DÓLARES.”

Se tinha o nome de outra pessoa no final do contrato aprovando sua entrada nela, ela não era sua empresa, Bel. O “Ah, mas tecnicamente…” funcionaria se não fosse sua resposta pra tudo. “Tecnicamente trabalhei no Google sim, tecnicamente eu era co-fundadora da Lemon sim, tecnicamente eu tenho 5 “cursos” sim”…

Aliás, uma coisa que eu só fiquei sabendo no frigir de ovos durante essa confusão toda, que é uma expressão particularmente curiosa pra mim já que nem de ovo eu gosto — meu próprio pai trabalhava numa empresa onde, um dia, a divisão onde ele atuava fragmentou-se em uma empresa independente. Os empregados que já tinham anos de casa e migraram pra “nova” empresa foram “grandfathered in” como co-fundadores da nova empresa, que é um título total e completamente ornamental, por mais que alguns deles ganhem de bônus algumas ações na empresa e tal pra servir de incentivo. Meu pai continua, como sempre foi, apenas um funcionário que TECNICAMENTE estava na empresa desde o primeiro dia de sua existência.

Meu pai jamais, em hipótese alguma, se apresentaria por aí dizendo que “fundou” a empresa por causa disso. Seria, pra usar língua sem rodeios, uma franca loucura. Caso a empresa seja vendida eventualmente, ele da mesma forma não vai delirar dando carteirada por aí em tom de soberba dizendo que “vendeu sua empresa por X milhões de dólares”, porque essa representação é completamente fantasiosa.

Nos próximos textos abordarei a questão da Lemon, e os inúmeros vídeos e tweets em que você se referia dela com claríssimo tom de posse que hoje você evidentemente não usaria mais. Suspeito que hoje você não falaria algo assim:

Até a próxima.

Ah, e falando novamente sobre a imprensa: eu queria saber fazer amizade com eles como você. Primeiro te promoveram, e agora se referem ao seu post como uma “refutação” do que eu descobri quando você na real confirma TUDO QUE EU FALEI — os 2 diplomas, os estágios que você dava a entender em inúmeras ocasiões que eram posições de liderança, o fato de que você não fundou a Lemon como todos compreendiam de acordo com sua narrativa, e que tinha um tal de Wences Casares cuja existência e papel em te aceitar na empresa dele eu diria que uma parcela grande dos seus fãs desconheciam…

[ ATENÇÃO NAVEGANTES ]

A popularidade desse artigo destruiu meu site anteonem, e por causa disso eu tive que migrar pro DigitalOcean com ajuda do meu broder @pedrovanzella. Com o site inacessível, pus o texto todo no Medium, e só pude atualiza-lo lá com as novas informações que iam surgindo. Assim sendo, a versão abaixo está desatualizada. Pra ler a versão mais UP TO DATE, clica forte aqui.

Mas pode comentar aqui no HBD mesmo, porque eu só lerei comentários aqui. O sistema de comentários do Medium é a coisa mais próxima da AIDS digital que deve existir.

1bel

Quando fiz meu vídeo sobre o hilariante fiasco da campanha de crowdfunding da “hamburgueria” Zebeleo (sim, ainda tenho um implicância quase irracional com esse termo desnecessariamente gourmetizado), fui duramente criticado por reduzir a tal Bel Pesce a “um desses playboys aí” com o que muitos julgaram ser um ar de desmerecimento.

O vídeo da presepada dos três foi tirado ao ar, mas a internet jamais nos priva dessas coisas. Aqui está o reupload:

Eu jamais tinha ouvido falar na moça, pra surpresa de muitos, e minha suposição é que ela era apenas mais um rosto entre essa turminha de hipsters millenials descoladinhos e cosmopolitas que orbitam o mundo marketeiro brasileiro enquanto repetem jargões da propaganda. Você sabe, aquela galera que está sempre inovando o mindset 2.0 do paradigma com sinergias do brand pra agregar ao engajamento do upcycling de um job e coisa assim.

Ledo engano. Fui informado que, em vez disso, a garota é uma wunderkind brasileira sem paralelos. Formada pelo célebre MIT, a menina passou por pelas mais consagradas instituições do mundo da tecnologia — Microsoft e Google –, e até meteu o dedo no sistema bancário. Não parando por aí, ela também fundou várias empresas (uma delas que, seguindo a cartilha de sucesso no Vale do Silício, foi posteriormente vendida por milhões).

E após todo esse sucesso que não deixa a desejar perante as biografias dos grandes luminários da tecnologia como Bill Gates, Steve Jobs ou Elon Musk, Bel Pesce voltou ao Brasil pra injetar uma necessária dose de empreendedorismo na nossa combalida economia.

Em outras palavras: eu sou um perdedor imbecil invejoso e a garota é um prodígio promissor que trouxe reconhecimento e o espírito empreendedor ao Brasil.

Da mesma forma que minha falta de respeito com os respeitáveis louros da garota provocou incômodo em muitos, houve um outro tipo de chateação no vetor oposto — alguns inscritos se revoltaram com a oportunidade que eu perdi de expor a moça que, de acordo com eles, é uma charlatã do emergente (e lucrativo) mundo do chamado “empreendedorismo de palco”. A mulher é uma fraude, insistiam alguns, e quando ouviram seu nome saindo de minha boca, eles esperavam que o foco do meu vídeo seria desmantelar a fachada de sucesso que a garota montou à base de palestras de auto-ajuda vazia salpicada com clichês requentados do tipo “acredite no seu sonho” e “cada derrota é uma lição aprendida”.

Esses detratores fizeram a moça soar como um Robert Kiyosaki de saias, isso é: um suposto empreendedor que é referenciado e reverenciado exclusivamente por gente iludida com promessas de riqueza e glória através de esquemas furados. Da mesma forma como o Kiyosaki é um profeta da galera das pirâmides financeiras, a Pesce seria da turminha com gana de “empreender”.

Incerto de qual dessas versões de Bel Pesce seria mais fiel à realidade (e já antecipando que a verdade estaria mais ou menos na intersecção das duas, o que é geralmente o caso), fiz o que fui ensinado a fazer dois mil anos atrás nas minhas aulas de Metodologia Científica na UFMA — observei sistematicamente, verifiquei a veracidade dos fatos propostos, e elaborei uma hipótese passiva da revisão por pares.

E a hipótese em que cheguei, lastreada nos fatos que discutirei nesse texto, é a terceira etapa do processo. Sejam meus pares e digam-me aí vocês o que pensam.

valley

Então. Pra entender melhor a biografia da moça, fiz o mesmo que faço quando a solução de um puzzle num videogame me escapa: recorri ao Google.

Fui levado ao seu site em inglês, onde é declarado que:

She studied at the Massachusetts Institute of Technology (MIT), where she got Majors in Electrical Engineering & Computer Science and Management Science, and got Minors in Economics and Mathematics. 

Eu franzi a testa. É uma forma particularmente curiosa falar qual a sua formação acadêmica dizendo que tem “majors em X” e “minors em Y”, e pra entender porque, preciso explicar como funciona a educação superior gringa.

Nos EUA/Canadá, o processo de formação acadêmica  permite que as disciplinas eletivas (ou seja, aquelas que não são diretamente fundamentais para o seu diploma) se agreguem de forma que você pode ser dito um mini-especialista num determinado assunto que foge da sua área principal, mas é também do seu interesse. Por exemplo: tenho um amigo que é formado em Biologia (ou seja, esse é o seu “major”; ele é biólogo, essa é a área de enfoque da sua carreira acadêmica e seu título), com um “minor” em Psicologia. Ele não é um psicólogo e nem pode se meter a diagosticar ninguém; ele tem apenas conhecimento superficial dos fundamentos da psicologia.

Que fique claro: o objetivo do minor é puramente saciar um interesse leve duma disciplina. Academicamente falando, é pouca coisa acima de ler artigos na Wikipédia sobre um assunto. Não é vantagem que se conte.

Além disso, dentro da cultura norte-americana, a linguagem do “tenho um major em X” é típica de alguém que cursou algo, não completou, mas quer ainda usar este fato para imbuir-se de autoridade acadêmica num determinado assunto, levando o interlocutor a concluir que está falando com um especialista formado naquela area.

Seria como eu querer usar o fato de que “cursei Física!” pra soar erudito e detentor da razão num assunto científico, omitindo o fato de que não me formei e que foi há tanto tempo atrás que não lembro mais de quase nada do curso.

Isso talvez se deva, naturalmente, a uma certa de falta de familiaridade da garota com a cultura e a língua (ou não, já que ela morou lá por sete anos), mas me deixou com várias pulgas atrás da orelha. A sintaxe mais comum seria dizer algo como “I have a degree in X”; informar major e minor é desnecessário.

…exceto, é claro, caso você queira pintar-se como um super-especialista que domina inúmeros campos diferentes.  Ao longo da minha “investigação”, descobri que parece recorrente o hábito da empreendedora de exagerar seus feitos usando palavreado vago.

A impressão que acabei tendo da Bel Pesce é, talvez mais do que os “Electrical Engineering & Computer Science and Management Science, Economics and Mathematics” que seu site enumera, a área em que ela é realmente expert é aumentar seu capital social aparente inflando seus feitos através de uma linguagem cirurgicamente específica que, embora evite entrar descaradamente na mentira, tem um claro design de induzir o interlocutor ao engano em relação às suas realizações.

Sabe o cara que descreve seu trabalho de caixa no McDonalds como “analista responsável pelo fluxo de capital operacional de uma grande empresa multinacional”? É nesse território em que estamos, e eu acho que posso provar isso de forma inegável.

Foi por isso que a moça parecia ter diplomas de Schrodinger — o número de canudos dela sempre variava entre 4 e 6 dependendo de quem estava escrevendo a matéria em português, um sintoma perceptível da dificuldade brasileira em compreender o que diabo seriam os “majors” e “minors”. “Bota aí que ela tem seis ‘diplomas’ mesmo, porra”, consigo ouvir mentalmente o redator preguiçoso ordenando alguém a simplificar a coisa.

E se a Bel Pesce se incomodava em publicarem erroneamente que ela era uma multi-profissional especialista em tudo e um pouco mais, ela não fez grandes esforços pra esclarecer isso.

Esse detalhe de “major/minors” (ao mesmo tempo que parce deliberadamente evitar se identificar como formada) foi justamente o proverbial “onde tem fumaça, tem fogo” que desencadeou meu interesse em verificar as supostas conquistas da moça. Se a moça tivesse dito desde o começo “sou formada em X e Y, ponto”, eu não precisaria ter que escrever 10 parágrafos explicando isso, porque ninguém estaria pensando que a mulher tem um número surreal de formações e usando isso como argumento de que ela não pode estar errada. Como falei, fazer acreditarem que ela é uma profissional com múltiplas áreas de expertise não foi acidente — foi por desígnio.

Olha até a porra da UNICAMP falando que a mulher “se formou simultaneamente em cinco faculdades: engenharia elétrica, ciência da Computação, administração, matemática e economia“.

Em seu site em português, ela diz com todas as letras que se formou em cinco disciplinas. Ela também omite, mas é óbvio, que “Electrical Engineering and Computer Science” é um curso só no MIT,e não dois como ela obviamente tenta fazer parecer.

Diga-se de passagem, através do link aí do OpenCourseWare você pode literalmente assistir todas as aulas, acompanhar todos os exercícios do curso, fazer as provas e tudo. Espantoso!

Voltando às lorotas da Bel. Essa forma estranhamente inflada de descrever sua formação, somado a sites gringos dizendo explicitamente que ela “dropped out of MIT” (ou seja, “largou o MIT”), me faz pensar que nem formada ela é. Não estou dizendo que ela não é — estou dizendo que ela usa linguagem típica de quem não é, e que isso é… estranho. Uma formanda do MIT não deveria precisar desse tipo de palavreado pra inflar seu currículo.

O que ela está tentando esconder…?

Em seguida, voltei minha atenção à Lemon, uma (finada) empresa de planejamento financeiro que a mídia brasileira reportou que Pesce teria fundado. A página de Economia do UOL diz explicitamente que a brasileira fundou a Lemon, adicionando o floreio poético de que a empresa “nasceu das idéias dela”. A IstoÉ confirma que a autoria da Lemon é de Pesce, dizendo que a moça “montou sua própria empresa”. Nesta outra matéria, o UOL dá crédito de fundadora da empresa à Pesce (além de martelar novamente as supostas 5 formações da garota, num exemplo prático da máxima da “mentira contada mil vezes que se torna verdade”).

A fonte disso, evidentemente, são afirmações da própria Pesce — visto que nada no registro histórico da empresa confirma isso. De acordo com a Wikipédia, o fundador da compania é um empresário chamado Wences Casares.

A propósito, Casares deu em 2012 ao The Next Web esta entevista falando sobre a adição de Bel Pesce ao time. Por que um outro maluco estaria apresentando a suposta fundadora da parada como “uma adição ao time”, eu não sei. Ela não é citada como co-criadora ou nada assim.

Literalmente todas as matérias escritas sobre a Lemon que falam sobre um fundador (que não sejam brasileiras, e portanto usando como fonte a própria Bel) identificam Casares como tal. Aí estão algumas:

http://www.bizjournals.com/phoenix/blog/techflash/2015/08/lifelock-lemon-founder-locked-in-dueling-lawsuits.html

http://www.coindesk.com/lemon-wallet-acquired-lifelock-42-6m/

http://mashable.com/2013/12/12/lifelock-acquires-lemon/#YLeyy1Qj4mqf

http://www.recode.net/2014/3/13/11624538/lemon-digital-wallet-founder-wences-casares-gets-20-million-in

https://aerolab.co/lemon

http://latino.foxnews.com/latino/money/2013/12/20/son-sheep-ranchers-lemon-wallet-co-founder-wences-casares-is-serial/

http://www.forbes.com/sites/brucerogers/2012/08/23/will-wences-casaress-lemon-com-replace-your-wallet/#697a181d43cc

É claro e inegável — A única pessoa alegando que Bel Pesce fundou a Lemon é Bel Pesce. Curiosamente, ela jamais corrigiu os repórteres que atribuiram a empresa a ela (de onde você acha que veio a versão em que ela é a criadora da parada, afinal de contas…?).

Ela trabalhou na empresa, sim, mas exagerou os detalhes de sua atuação, o que é bem similar ao exagero dos quatro ou cinco ou seis diplomas.

Veremos que isso é um padrão no currículo da “empreendedora”.

Antes da Lemon, a Bel já era conhecida como uma história de sucesso por “ter trabalhado no Google, Microsoft, e Deutsche Bank”.

Exceto que ela não “trabalhou no Google, Microsoft e Deutsche Bank” da forma que vem em mente quando lê esse currículo, e essa ilusão é mais uma vez intencional.  No seu LinkedIn, ela é atipicamente franca — na verdade, ela fez apenas curtos estágios facilitados por um programa do MIT que envia estudantes pra trabalhar em grandes empresas. A realidade é que não há nada de muito glamuroso nesses estágios — os estudantes geralmente executam afazeres triviais ao redor do escritório e participam em modo “read only” (ou seja, só observando, sem muito input ou autonomia) de alguns projetos paralelos das empresas. Basicamente, pra ver como é que é trabalhar no Vale do Silício.

Diga-se de passagem, o MIT manda aluno a rodo pra ser escraviário em empresa de tecnologia. Não é algo particularmente excepcional ou prestigioso. Vários destes estágios sequer são remunerados.

Somando todo o tempo que ela passou nessas três empresas, dá pouco mais de um ano — 4 meses no Google, 4 no Deutsche Bank, e outros 8 na Microsoft (embora neste vídeo ela diga que só passou 3 meses lá…?). E, novamente, o registro histórico não confirma suas alegações de que ela participou de projetos das empresas.

Por exemplo. No LinkedIn, Pesce diz sobre sua atuação na Microsoft:

[Bel Pesce] was part of a project to develop software that uses a webcam to track users’ actions. The main goal was to create a Multi-Touch interface that would let people interact with computers by only using a webcam and colored objects. The project also included a Software Developer Kit (SDK) that would allow other users to create their own Multi-Touch applications. Bel was part of the day-to-day of the project, documented the SDK, produced a demo to show the power of the SDK, recorded walkthrough videos to teach how to use the SDK.

Só tem um probleminha. Aqui está a lista de coordenadores e desenvolvedores do projeto. Aqui há uma página onde o grupo responsável pelo Touchless presta agradecimentos a membros da comunidade que também os ajudaram. Repare a distinta ausência do nome da Menina do Vale nas duas.

E este é o vídeo da apresentação do SDK do Touchless:

A empreendedora brasileira também não se faz presente nessa apresentação. O que é muitíssimo provável é que em sua curta curta passagem na Microsoft, ela fez nada além de auxiliar o grupo em tarefas triviais de escritório — ou seja: coisa de estagiário mesmo.

Isso não a impediu de, aos 24 minutos deste vídeo, se caraterizar como líder/organizadora do projeto. Michael Wasserman, o real idealizador do Touchless, talvez não gostaria de saber que uma autora brasileira de livro de auto-ajuda está tomando crédito por sua invenção.

Quando fala de seus dois meses no Google, Bel diz que…

Developed a tool that help find bottlenecks in the machine translation code. The tool puts together CPU, RAM and disk usage information, along with periodic code profiles.

Mas que “tool” foi essa? Cadê o nome da ferramenta? Por que omiti-lo…? E a documentação? Referência em algum lugar qualquer? Confirmação externa de seu envolvimento com tal ferramenta?

Não existe.

Em sua outra passagem pela Microsoft, ela atribui a si mesma…

Development of software for Smartphones
Fully experienced Program Manager, Developer and Tester roles during the project:
Program Manager: organize the project as a whole – write specifications, negotiate features, drive meetings, research technologies, design project website
Developer: Write clean and efficient code, making use of the newest technologies to improve coding solutions
Tester: Create smart test cases and debug the software

Que software ela desenvolveu pra smartphones? Estagiária program manager? Como assim? Aliás, é curioso que esta prolífica programadora e “fully experienced program manager” não tem uma página no github, ou uma linha de código sequer atribuída a ela. Como alguém frequentou uma das maiores faculdades de tecnologia e se formou em Ciência da Computação sem ter literalmente UMA LINHA DE CÓDIGO PUBLICADA chega a ser fantástico.

Já na Ooyala, uma plataforma de vídeo online que ninguém nunca ouviu falar na vida, ela teria “liderado três times de engenheiros”. Aliás a citação é perniciosamente recorrente:

Eu te desafio aqui e agora a achar QUALQUER menção da moça trabalhando na Ooyala, qualquer documentação, e liderando os tais “três times de engenheiros” que não seja um texto citando isso como seus atributos de palestrante. Vai lá.

Ela só diz que fez e aconteceu, e a mídia acreditou sem pestanejar. Além de aumentar sua contribuição em projetos, essa é a outra marca registrada de Bel Pesce — a estranha ingenuidade que a mídia brasileira tem perante suas alegações facilmente refutáveis.

Além dessas conhecidas empresas em que Bel Pesce teve uma brilhante participação [citation needed], a inovadora também iniciou inúmeras empresas próprias. Quando eu digo “inúmeras” é literalmente porque não consigo enumera-las; quando mais eu pesquisava, mais empresas supostamente criadas pela Bel Pesce apareciam. A garota é uma boneca russa de empreendimento, você abre uma e tem outra empresa dentro.

Por exemplo. Neste artigo, aparentemente escrito por algum tipo de fanboy da garota, aparece a menção do Talenj, uma empresa co-fundada e comandada pela Bel. O site descreve o Talenj como “a company that makes and designs websites”. No Twitter, ela diz que a proposta da Talenj era “conectar consumidores a marcas por meio de competições“. A UNICAMP descreveu o Talenj como uma empresa que “promove aprendizagem por meio de desafios on lines“.

É quase como se ninguém soubesse que porra afinal é o tal Talenj, né?

Hoje eu farei algo que ninguém da mídia fez: vou te mostrar o que é realmente o Talenj.

É disso aí que a garota é CEO. Ou nem isso, já que de acordo com a política de privacidade da “empresa”, o responsável pelo site é um tal de “Alex”.

Voltando ao LinkedIn da moça, vemos que ela foi responsável pelo “business development” de um tal de Krowder.com. A página é defunta, e até o Wayback Machine tem dificuldade de catar seus elementos. Por que ela estaria clamando atuação com título glamuroso numa “empresa” morta, que ninguém jamais ouviu falar, supostamente num estado onde a Bel Pesce nunca morou?

Acho que podemos imaginar.

Ela é também a CEO e fundadora do WhatIf, um site com design que eu esperaria de um adolescente em 1999 e não de uma graduada em ciência da computação pelo MIT. Novamente — página quebrada, defunta, sem qualquer referência a ela como fundadora, e que muito evidentemente não rendeu um centavo qualquer.

Entre 2007 e 2008, Bel também diz ser a CEO e co-fundadora do “WaterAfrica”, engajada no “Development of a solar-powered piping system that enables better water distribution in Africa“.

Achei duas WaterAfrica na internet inteira. Uma foi fundada em 2006 por alguém chamado Bill Savage, e a outra existe desde 2001. Lembre-se disso da próxima vez que um fanboy da empreendedora disser que a menina “gastou tanto de seu tempo com ONGs beneficentes”, como foi o caso nos comentários do meu vídeo. Talvez ele ache que ela DE FATO fundou tais empresas, quando a realidade é que eram devaneios esparsos de uma garota imaginativa.

Eu paro pra pensar que esse texto seria bem menor e mais fácil de escrever se a Bel não tivesse inventado TANTA história.

Eis a minha hipótese. O mérito real da Bel resume-se a ser aceita e formar-se (?) no MIT. Lá ela tentou entrar na indústria da tecnologia, e aparentemente não obteve muito êxito, porque tudo que ela conseguiu fazer foi estágios curtos e sites mal-acabados sem muito propósito ou sequer usuários. A empresa que ela supostamente fundou foi vendida por US$ 42 milhões e a menina não recebeu um centavo sequer, aparentemente não manteve equidade na empresa, nadica de nada.

Com o visto de estudante expirando e nenhum prospecto trabalhístico concreto que a permitisse estender sua estadia na gringa (em um vídeo que agora não encontro, ela deixa esse detalhe escapar, chegando a brincar que cogitou casar com um americano pra permanecer nos EUA), o jeito foi voltar ao Brasil. Foi aí que ela decidiu reinventar a “Bel Pesce que se formou numa das mais prestigiosas instituições de ensino tecnológico do mundo e que não conseguiu transformar esse diploma em NADA rentável e sequer permanecer nos EUA” pra “Bel Pesce prodígio com cinco formações, quarenta startups de sucesso, posições prestitiosas no Google e na Microsoft, autora de inúmeros produtos e serviços”.

Não importa quão absurda seja a sua lorota — alguém vai cair nela. Tem gente que acredita no Inri Cristo, afinal de contas. Eu não esperava é que a porra do nosso jornalismo nacional (mesmo tão sedento por histórias de brasileiros vencedores) deixasse a peteca cair tão lamentavelmente, repetindo feito papagaio o suposto sucesso da mulher, inquestionavelmente dando respaldo a “empresas” como a Talenj, sem excercer o mínimo de ceticismo responsável, e assim sendo cúmplice em seu processo de finalmente abrir uma empresa de verdade:

Uma empresa que ensina os outros a fundarem as próprias empresas — com cursos ministrados por alguém que nunca fundou uma própria empresa.

Uma ouroboros do empreendimento. Um loop recursivo de “inovação”. E como não falta trouxa nesse mundo, um moto-perpétuo de dinheiro.

Se a história parece inacreditável, se a despeito de todas as provas que você mesmo pode verificar você ainda acha que a mulher DEVE ser tudo que alega ser “porque apareceu na TV, saiu na IstoÉ…”, eu tenho que te informar que você é muito novinho, ou tem memória curta. Não é a primeira vez que um suposto intelectual com mais títulos universitário do que a maioria das pessoas tem bonés foi à TV relatar seus feitos fabulosos, salpicando suas abobrinhas travestidas de sabedoria. Lembram do Omar Khayyám?

Diga-se de passagem, esse negócio de empreendedorismo de palco lembra muito o esoterismo de rituais religiosos. O culto de personalidade em volta dos”líderes” dos quais não se pode falar mal, lendas passadas de boca a boca sobre seus feitos magnânimos, essa histeria de SIGA SEU SONHO REALIZE SEU POTENCIAL… agora tem até videoclipe chifrim semi-gospel declamando as virtudes do estilo de vida empreendedor:

https://www.youtube.com/watch?v=mtu5jiGOAzA&ab_channel=Gera%C3%A7%C3%A3odeValor

Que negócio brega do caralho. Troque uma ou duas palavras e você pode passar esse vídeo numa reunião de Herbalife ou em culto evangélico.

Esquecemos do Luiz Almeida Marins Filho, outra estrela do circuito de palestras motivacionais, com passagens por liderança de empresas gringas e inúmeras formações (até DOUTOR ele era!) — até o dia em que alguém olhou a fundo e descobriu que boa parte do currículo era aumentado. Já esquecemos do Bernard Madoff, um dos maiores charlatões que o mundo já viu, que abusou de sua influência no mundo finnaceiro pra fraudar investidores por mais de 18 BILHÕES de dólares?

Há uns cinco anos atrás, certamente alguém que tentasse alertar um amigo admirador do Madoff ouviria um “afff mano, ele é bilionário, tá lá em Wall Street e o caralho, apareceu em mil matérias sobre empreendimento, você acha que sabe mais que ele?” Hoje Madoff, que atende por “Prisioneiro #61727-054”, anseia pela data de sua liberação do chilindró: 14 de novembro de 2139 (sério, ele pegou 150 anos de cadeia. Os gringos não passam a mão na cabeça dos 171).

Algumas pessoas obtém reconhecimento (merecido ou não) e usam isso pra vender o ilusório. Parece exatamente ser o caso da Bel Pesce — foi aos EUA, frequentou uma instituição prestigiosa, passou (rapidamente) por várias empresas, apareceu em algumas matérias na gringa, o que a conferiu o verniz da legitimidade, e pronto: mesmo sem jamais ter empreendido na vida, faz pose e fala como especialista.

E pior, vende como especialista. Ela não fala muito sobre isso porque talvez ainda esteja explorando a validade do modelo de negócios, mas aparentemente a Bel planeja em breve iniciar franquias da FazINOVA, sua escolinha de empreendimento/auto-ajuda, prevendo tiers de investimento superior a cem mil reais.

Bel Pesce não tem literalmente conteúdo algum. Esta é a verdade inconveniente. Ela é basicamente um equivalente feminino do Tai “Here in my garage in Beverly Hills” Lopez: tem dinheiro, é supostamente um famoso empreendedor, já falou no TED também… mas todo mundo sabe que o cara é um charlatão do caralho, e ele é zoado abertamente por isso.

Ela tentou enturmar-se no Vale do Silício, mas nem a formação no MIT ajudou. Sem sucesso, voltou ao Brasil enaltecendo os próprios feitos na Meca Tecnológica tipo o Alfaiate Valente que anuncia “matei sete!”, omitindo que foram na verdade sete moscas — e como o protagonista da fábula, uma vez que a patuléia acreditou no homicídio séptuplo, manter a fama foi só uma questão de malandragem.

Seus livros são repletos de anedotas que, a julgar pelo sua característica de falta de compromisso com a verdade, tem o valor histórico das estorinhas do Sítio do Picapau Amarelo. Os conselhos de “empreendimento” não chegam nem a ser rebuscados como os dos outros autores de auto-ajuda venerados por piramideiros e outras amebas intelectuais. Eu te digo pra “acreditar nos seus sonhos” e “continuar perseverando” de graça.

As “empresas” atuais de Pesce citadas em suas biografias são a tal FazINOVA, que como mencionei é um cursinho de auto-ajuda que ela tem aspirações de transformar em franquia; a Enkla, uma editora que só publica livros dela, A “Figurinhas”, uma agência de publicidade que nem site tem, e o BeDream, com um site tão vago e piramidesco que eu te DESAFIO a me explicar do que se trata.

A moça não fez nem metade do que é atribuído a ela, e seus “empreendimentos” são transparentemente um veículo pra reafirmar sua habilidade de empreendedora. Empreendedorismo vindo do nada e servindo pra alimentar o próprio empreendedorismo: há algo quase termodinamicamente errado com essa equação.

E nem precisei ir pro MIT pra perceber isso.

crying

Por ter uma audiência na internet, existem algumas experiências com as quais eu me acostumei ao longo dos anos. Algumas delas são legais; outras, nem tanto.

Comecemos com as legais, pra isso aqui não ficar com cara de choramingo de “celebridade” que não aguenta mais ser famosa, ai meu deus que suplício!!!!111. Já é difícil levar a sério gente REALMENTE FAMOSA falando isso (Brad Pitt, tá achando ruim ser rico e famoso? Paga minhas conta e faz meus plantões por mim então, filho da puta), imagina então um vlogueiro de merda igual eu.

O carinho que eu recebo da galera é muito bacana. Por questões geográficas (sempre fui ruim de geografia na escola e por isso hoje não sou pago um salário que me permita viajar) tive poucas oportunidades de interagir pessoalmente com a galera que gosta do que eu faço. Mas em todas eu me senti rodeado não de admiradores ou fãs, mas de amigos que se importam comigo.

Tem a questão financeira, óbvio — não é possível transformar um hobby em uma fonte de renda sem que pessoas gostem do que você produz, e por extensão, gostem de você. Eu não mencionei isso até hoje, mas a minha esposa largou um trampo horrível pra voltar a estudar e isso só foi possível por causa do apoio monetário que o site/vlog/podcast geram.

(Eu colocaria uma foto dela dando joinha mas ela não está aqui em casa pra posar pra mim.)

Mas tal qual aquele lanche delicioso do podrão da esquina da faculdade, há um lado sombrio da fama de internet também — você vira um para-raios de gente raivosa.

Acontece por vários motivos. Tem o clichezaço “É TUDO INVEJA!!!!“, que eu particularmente jamais uso como argumento porque soa deveras arrogante. O sentimento não é fictício, evidentemente; existem pessoas que pegam antipatia por alguém literalmente DO NADA, simplesmente por ver a pessoa em posição de destaque, mas eu acho que apontar alguém como “invejoso” é de uma falta de auto-crítica gritante.

Tem a questão de que comunicadores como eu são pitaqueiros profissionais; está em nosso sangue e na nossa descrição de trabalho dar opiniões sobre isso e aquilo. É impossível dar opiniões públicas com frequência sem esbarrar com a rejeição do argumento. O problema é que quando alguém com um grande público fala algo “errado”, e você tem certeza plena de que o SEU ponto de vista é mais ponderado, com mais experiência no assunto e com melhor contexto, mas você SABE que a voz “errada” será mais ouvida, é impossível não sentir um ressentimento imediato.

E tem os momentos em que eu sou abertamente escroto com alguém, acidentalmente ou de propósito. Que é, eu diria, o motivo mais honesto pra alguém não gostar de mim. Tem algumas pessoas na internet que me odeiam que eu não sou capaz de dar nenhuma outra explicação além de “nope, aquele lá tem razão. Eu fui escroto mesmo“.

Enfim. A questão é que muito frequentemente eu estou na situação de ouvir impropérios nas minhas mentions do Twitter — aliás, é curioso como o imediatismo do Twitter facilita o hate mail. O que faz sentido, o Twitter é meio que uma “stream of consciousness“. Comentário raivoso no HBD? Poucos. Email revoltado? Há anos não recebo um. Já tweets revoltados… é todo dia.

Eu recebo o desacordo e a discussão de braços abertos, porque eu sempre fui chegado a um judô verbal. Acontece que às vezes dá pra notar que o sujeito está afim de algo mais agressivo.

O debate é produtivo, às vezes — quer eu consiga mudar a opinião de alguém ou ele muda a minha, de alguma forma algo transformativo, produtivo, aconteceu. Quando a pessoa vem com sangue nos olhos querendo CONFRONTAR em vez de debater, nada de útil sai. Geralmente é fácil notar a diferença em tons;  o Tom 1 é “bom, tem isso, mas você já considerou X e Y? Como você concilia sua opinião com estes fatos?“, enquanto o Tom 2 é mais pro lado do “COMO VOCÊ OUSA TER ESSA OPINIÃO BEM AQUI NA MINHA FRENTE?“.

Meu tempo é limitadíssimo, então não posso me dar ao luxo da conversa não-produtiva. Quando noto que o terreno é infértil pro intercâmbio de idéias, eu tasco um mute no cidadão, deixando-o falando sozinho, e parto pra próxima. O mute é mais interessante porque o mutado não tem idéia do que aconteceu; ele pensa que é tão insignificante que você nem se dá ao trabalho de reconhecer sua existência. Isso se tornou necessário porque existe nas redes sociais um hábito curioso de empunhar bloqueios como medalha de honra ao mérito.

De todas as “realizações” internéticas que se usam como instrumento de gabolice (por pessoas que só posso imaginar que tem pouquíssimas realizações tangíveis no mundo real), o block é talvez a mais patética.

Patético.

Já já abordo isso novamente.

Hoje o fenômeno aconteceu de novo. Alguém me confrontou por ter feito/dito algo. Eu falei, de forma meio desinteressada (por notar aquela altivez característica do Tom 2), que a pessoa tem sempre a alternativa me dar unfollow, e é isso aí mesmo, grande abraço.

O sujeito continou mandando mensagens furiosas, escalando a animosidade. Eventualmente decidi que era um caminho sem volta; bloqueei o sujeito. Enquanto eu prefiro atualmente dar o tal mute, o Tweetdeck me fode a vida deixando ambas opções próximas no cardápio de “leve este sujeito pra longe de mim”, e eu cliquei em um quando deveria ter clicado no outro.

um babaca qualquer que jamais fará algo de valor na vida

Vamo ajeitar isso aí, Tweetdeck

Como manda a cartilha, o sujeito começou a berrar histrionicamente sobre o block. E eu mais uma vez confirmei que ninguém é bloqueado e fica quieto. Ninguém reage a um block com a indiferença que a pessoa frequentemente berra sentir sobre o ocorrido. Em vez disso, a pessoa (aparentemente se sentindo injustiçada?) tenta reestruturar o ocorrido numa verdadeira ginástica olímpica de dissonância cognitiva.

Primeiro, a pessoa se pinta como vencedor que triunfou numa batalha retórica — “sou tão bom no debate, mas TÃO BOM, que este desgraçado me bloqueou!” A entrelinha aqui é “EU VENCI!“, talvez uma forma de compensar fracassos na vida real. Nesta caixinha hermeticamente fechada em que ele monta um pequeno diorama do que aconteceu, ele é o protagonista e herói.

Após implorar pro seu pequenino círculo social (novamente, gente com esse tipo de alma venenosa raramente tem um grande grupo ao seu redor. Curiosa coincidência…) que validem sua versão dos fatos, quase clamando pelo reconhecimento de sua superioridade argumentativa, começa a sessão de “troca de figurinha”.

A pessoa inevitavelmente tem vários outros amiguinhos também traumatizados por um block do mesmo autor e estes começam a acalentar o companheiro, com uma linguagem que em muito lembra (tanto em formato quanto conteúdo) aquela clássica figura da mãe acalmando o filhinho que chora após um desentendimento na escola.

“Não liga não, eles não merecem você! Você é muito bacana, ELES é que são escrotos, óbvio!”, pontuado aqui e ali por suas próprias histórias de como foram bloqueados (mas que não se importam NADA, NADINHA, absolutamente nada!)

Por que diabos o sujeito manteria a lembrança e amargura de uma situação que insiste que não dá a mínima é no mínimo peculiar.

Hoje eu tive um insight sobre esse fenômeno, e isso me faz ver toda a situação de outra forma.

A reação exagerada perante rejeição — e não se engane; um block é uma rejeição — faz muito sentido quando você examina o contexto maior da relação que alguém como eu tem com alguém que gosta do meu conteúdo.

Por via de regra, é um relacionamento desigual. Você sabe quem eu sou, talvez admira a mim, ou o que eu produzo. Por algum motivo ou outro, você se interessa por mim.

Por questões meramente matemáticas, eu não posso retribuir o mesmo sentimento a TODO MUNDO que me acompanha. Eu tento conversar com todo mundo (meu Twitter é a prova disso; respondo tantos quanto posso), mas é literalmente impossível conhecer tanto dos seguidores quanto eles conhecem de mim, nem que eu fizesse disso meu trabalho em tempo integral.

A pessoa me segue, mas eu não a sigo. Ela acompanha minha vida, meu dia a dia, meus relacionamentos, e eu frequentemente não sei sequer o nome da pessoa. É um típico relacionamento unilateral — um termo que, embora seja mais frequentemente usado pra descrever relações românticas, também se aplica ao relacionamento entre amigos.

A maior parte das pessoas aceita isso como a natureza fundamental do relacionamento de produto de conteúdo/admirador do conteúdo, e segue sua vida sem jamais pensar na coisa. Alguns, por qualquer motivo (carência, talvez…?), nutrem no adubo dessa desigualdade um crescente ressentimento. E esse ressentimento vem à tona quando o sujeito pensa (às vezes, sem perceber) “ah, foda-se, agora vou falar mesmo!!!!”.

Quando isso é respondido com um block, que é essencialmente descartar a pessoa, parece que aquele nervo exposto do “eu me importo mais com ele do que ele se importa comigo” é atingido com a força de 1000 Carretas Furacões. Esse gesto deve ser interpretado pelo bloqueado como “eu já cagava pra sua existência antes, agora eu não quero sequer ter contato com você”, e talvez daí venha aquele ímpeto de recontar a história.

Sabe aquela típica piada sitcomzística do cara que, enquanto conta a história de como a namorada o largou, inverte os papéis e conclui que ELE é que deu um pé na bunda dela? É mais ou menos isso, mas acontecendo quase simultaneamente; o cara convence-se a si mesmo (e a quem mais puder, por que lembre-se: o bloqueado NUNCA leva seu block em silêncio. N U N C A) de que ele é o gente boa da situação, e que a pessoa que o descartou é que é um bobão.

É um mecanismo de defesa, basicamente.

Da próxima vez que você ver alguém celebrando um block de alguém que ela costumava seguir, entenda que na verdade o sujeito está tentando apenas se defender. E repare também que o bloqueado FREQUENTEMENTE se refere novamente ao bloqueadosr, repetidamente, com uma palpável mágoa.

Há algum tempo, quando eu empregava o block com mais frequencia, era corriqueiro ir ao Search do twitter e buscar as mensagens que a pessoa havia mandando pra mim. É batata — mentions diários apareciam, quase todos deixados no vácuo, o acúmulo dos mesmos fertilizando o ressentimento do relacionamento desigual que um dia explode num QUER SABER? VÁ SE FODER raivoso.

Eu já presenciei isso no meu próprio trabalho. O relacionamento desigual, no caso, é o paciente todo lascado de câncer, virtualmente preso ao hospital, dependente (física e emocionalmente) dos parentes sadios que os vem visitar aqui e ali, a quem eles inevitavelmente veem em posição mais afortunada, “superior”. O fulano ainda tem sua saúde, sua força, seus cabelos, sua liberdade, ainda vai ver os filhos crescerem, ele tem tudo que eu queria ter e tudo que eu ganho em troca desse relacionamento são migalhas de sua atenção de vez em quando.

O ressentimento de ver-se naquela situação de dependência enquanto nutre a impressão de que os parentes não se importam tanto assim com ele explode na aparentemente contraditória situação do paciente expulsar os parentes do quarto aos gritos por causa de uma mínima “ofensa”.

A primeira vez que vi isso eu achei estranhíssimo. Hoje, já é totalmente compreensível.

Isso explica o fenômeno de “se gabar de block”. A pessoa não está realmente se gabando no senso comum da palavra; ela está buscando validação. O que ela busca é ouvir o relato de outro amargurado, pra que confirme sua narrativa de “tá vendo?!??!!?!? Eu estava certo — aquele cara é um escroto mesmo!!!!!

É triste, mas fascinante. Igualmente curioso é o fato de que esse comportamento raramente vem de alguém profissionalmente/emocionalmente realizado. Você não vai ver, digamos, um Elon Musk, ou Jovem Nerd, ou um George RR Martin lamentando-se público e ruidosamente porque aquela pessoa que eles curtiam na internet se sentiram importunadas com sua presença e se livraram dela permanentemente.

Isso é porque gente realizada tá ocupada demais criando coisas pra dar alguma importância a isso.

Vocês sabem quem são os Juggalos? Hoje eu queria conversar sobre isso com meus seguidores do Twitter mas notei que esse é um daqueles fenômenos tão intrinsicamente norte americanos que não parece ter sido importado — e duvido que jamais seja. Então, cabe a a mim explicar o que essa parada significa.

juggalo

Juggalos são como se chamam os fãs do grupo de rap americano Insane Clown Posse. O grupo usa e abusa da iconografia circense, pintando-se de palhaços e tudo — um gesto emulado pelos fãs. O próprio termo “Juggalo” veio da horrível “The Juggla“, que é uma corruptela de “juggler”, ou “malabarista”. Um dos rappers começou a chamar o público de “jugglas” durante uma performance da música; o termo eventualmente virou “juggalos”, e pegou.

Particular ao subgrupo é sua devoção ao Faygo, um refrigerante vagabundo de Detroit, a mesma cidade do grupo. Imagine um refrigerante competidor do guaraná Dolly; é mais ou menos isso.

Uma das coisas mais difíceis de achar no fandom do Insane Clown Posse é um fã negro. Isso acontece porque o grupo é a parada mais quintessencialmente “white trash” que existe; eles fazem sucesso entre adolescentes brancos de classes mais baixas, geralmente com pouca educação/poder aquisitivo.

Por essas e outras, ser abertamente fã do grupo é visto como coisa de gente sem sofisticação. Tanto musicalmente quanto culturalmente, é muito parecido com o fenômeno do funk no Brasil.

Dá pra ter uma noção do nível da fanbase quando você vê vídeos que os caras gravam com o público. Como por exemplo, este aqui:

Não que hajam apenas aspectos negativos do fanclub dos rappers — existe um senso de coesão entre os entusiastas; a maioria se considera ostracizado pelo mainstream (sabe nos filmes americanos, os caras “losers”, pobres, e tal? Então), mas entre si eles se entendem. Tanto é que o grupo foca repetidamente, em suas letras, no aspecto de “família” que os fãs compartilham entre si.

A banda promove um evento anual chamado “Gathering of the Juggalos”. É um misto de Spring Break com Woodstock, se você substituísse a música por um ruído insuportável e os hippies sujos por fãs de rap (porém igualmente sujos).

Só de ver os vídeos do negócio eu já sinto como se tivesse pego tétano e/ou clamídia. Observe:

Tem este documentário sobre o Gathering, especificamente sobre a competição de Miss Juggalette (e a tentativa de “consertar” o rumo que a competição ia levando nos últimos anos, de acordo com alguns):

Além do aspecto circense, com essas pinturas de palhaço na cara e letras que fazem referências a picadeiro, mágicos e o caralho, há uma veia meio… agressiva nas músicas também. São constantes as referências a assassinatos (particularmente com machadinhos — é uma especie de signature move deles). Isso fez com que a revelação de que o ICP era na verdade um grupo cristão ainda mais surpreendente.

Yep. Em 2002, o grupo gravou “Thy Unveiling”, onde finalmente explicaram que a parada toda era uma metáfora cristã. Olhaí:

A propósito, acredito que a maior exposição do grupo pros internautas brasileiros foi graças à (horrível) Miracles. Parte apreciação dos fenômenos naturais ao nosso redor, parte retorno à alegoria cristã que ninguém sabe ao certo se é sincera ou trollagem, o vídeo foi amplamente detonado pela cultura popular gringa e até zoado no Saturday Night Live.

Uma parada que eu esqueci de mencionar é que o Gathering of the Juggalos tem como “tradição” zonear apresentações da galera mais “mainstream” que aparece no evento. O mais icônico foi o caso do Andrew WK. Rever esse vídeo hoje foi o que me inspirou a escrever esse post, aliás:

Curiosamente, o Andrew WK é tão carismático e bonachão que parece ter convencido a platéia a dar o braço a torcer.

Três anos mais tarde, quando o Charlie Sheen tentou transformar aquele seu meltdown público numa turnê de stand up ou seja lá o que era aquele “My Violent Torpedo of Truth/Defeat is Not An Option”, a galera não teve a mesma boa vontade:

Outra vítima notória dos Juggalos (ué, cadê o tal clima de camaradagem, família, paz e amor e tal?) foi a proto-cantora e clinicamente desesperada por atenção Tila Tequila. Nem os peitinhos da asiática foram suficientes pra satisfazer a turba, que protestou contra a performance jogando várias garrafas de Faygo cheias de mijo.

A última vez que vi alguém se apresentando rodeado de tanto segurança, era um líder de estado — e isso nem foi o bastante, porque alguns Juggalos tinham mira melhor que os outros e acertam pedras na fuça dela.

E… é basicamente isso. A lição de moral aqui, acredito, é que antes de torcer o nariz pra nossa “cultura do povão”, achando que países de primeiro mundo não tem equivalentes… pense novamente.

Olhaí

Lembra desse texto? E que eu havia prometido uma continuação que trataria dos malucos que atribuem aos cometas significados esotéricos e tal? Então, aqui está.

Como eu havia mencionado, tem o tal cometa Hale Bopp, né. Em 1997, o cometa fez uma passagem pelo nosso planeta. Ele só passará de novo no ano 4385, e eu não acho que estaremos vivos pra presenciar, então se tu não era nascido naquela época ou era apenas um bebê você e fodeu.

Existia um grupo de malucos/religiosos na época chamado “Heaven’s Gate”, ou “Portão Celeste”numa tradução livre. Quando eu digo que eram malucos/religiosos, não faço isso por causa de algum preconceito contra pessoas de fé nem nada. É que o Heaven’s Gate era de fato 90% malucos, 10% religiosos. Vamos conhecer os caras.

Vamos concordar logo de cara que um logotipo em WordArt não inspira muita confiança.

O Heaven’s Gate era um grupo esotérico “milenarista”, que é o termo usado pra descrever a galera meio “Age of Aquarius” que acredita que estamos na beirada de alguma imensa revolução da consciência humana ou algum papo hippie assim.

E o Heaven’s Gate achava que nós, humanos, somos guiados espiritualmente por alienígenas ou coisa similar. Talvez fomos criados por eles. Talvez somos reencarnações deles. Se parece meio indeciso, é porque a doutrina dos caras realmente mudava constantemente.
Quem era o sujeito por trás do movimento? Era um camarada chamado Marshall Applewhite, que nos anos 80 era o portador de uma das maiores “caras de maluco” nos Estados Unidos:

Se você já achava que o logotipo da religiao não inspirava confiança…

Nos anos 70, o Marshall conheceu uma enfermeira chamada Bonnie Nettles. A mina era chegada numas viagens esotéricas, que era justamente a praia dele também, e rapidamente viraram grandes broders. Eles discutiam frequentemente suas teorias em relação ao universo e a alma humana, e aí decidiram (por que não?) que eram uma espécie de profetas do retorno dos alienígenas. Misturando teologia bíblica, ficção científica e provavelmente uma erva da boa, os dois bolaram o rascunho da sua religião e resolveram ir pregar as boas novas.

Não surpreendentemente, as igrejas evangélicas em que os dois foram pregar receberam suas teorias heréticas extremamente mal. A dupla de malucos não se desmotivou; em vez disso decidiram que estavem abordando o público-alvo errado. Eles começaram a publicar anúncios fora do círculos cristãos, procurando outros malucos mais receptivos às suas idéias de deuses alienígenas.

Mais ou menos nessa época eles lançaram outro patch na sua fé — os dois começaram a alegar que eles eram representantes terrestres dos tais alienígenas, e que estavam em busca de humanos para experimentos. Os que concordassem em participar fariam um level up para um nível evolucionário superior. Sabe os joguinhos freemium que te bonificam com algumas moedinhas virtuais se tu assiste uma propaganda ou manda invite pros amigos? Era mais ou menos isso, mas no nível espiritual.

A propósito, manja o naipe dos vídeos que ele gravava pros iniciantes na seita:

Repare que lá por volta dos 4 minutos ele começa a basicamente se declarar uma reencarnação de Jesus — mas sem falar isso diretamente; a impressão que dá, por causa da aparente confusão dele em explicar a “teoria”, é que ele havia acabado de bolar aquilo naquele exato momento, e surpreendeu a si mesmo com a “epifania”. Maluquice fode.

Então. Esse rapaz conseguiu convencer uns outros CINQUENTA malucos a adotar sua crença, o que é interessante porque eu não consigo convencer três amigos pra me ajudar na mudança ou uma amiga pra um menagezinho. Parte do dogma do sujeito é que o corpo humano era apenas um “veículo” para o espírito; todas as coisas materiais eram desimportantes. Não é exatamente original, mas o sistema de crença do Heaven’s Gate era uma colcha de retalhos mesmo. Ninguém espera que malucos inventem coisas coerentes, né?

Eventualmente o papo de “olha o planeta vai ser resetado, e os aliens estão vindo aí um dia pra salvar os Escolhidos!” se tornou mais emergencial. O grupo passou a empurrar mais a mensagem de “se arrependam todos, o fim está próximo!” e se mudou pra uma mansão alugada, onde passaram a viver como uma comunidade hippie — mas sem o tal “amor livre” que é característico tanto dos hippies quanto dessas seitas esotéricas.

Aliás, não tinha amor NENHUM no Heaven’s Gate. Como uma parte da doutrina era sacrificar todas as posses e prazeres terrenos, todos os membros masculinos da seita foram ao México para serem cirurgicamente castrados.

Por livre e espontânea vontade. Até o próprio Applewhite deu adeus ao seu bilal, ou seja — cê vê que chama-lo de maluco não era exagero meu.

PELO AMOR DE DEUS O QUE DIABO ESSE MALUCO DESPIROCADO AÍ (literalmente) TEM A VER COM COMETAS PORRA?!

Então. Os caras realmente achavam que o planeta seria formatado e reiniciado com uma cópia novinha do Windows, e que a única forma de se salvar era pegar uma carona com uma espaçonave que estaria escondida atrás do cometa Hale-Bopp. Então o pessoal começou a se preparar pro ritual de “partida”.

O grupo vestiu calças pretas de moletons e camisetas pretas, com uma insígnia no braço que dizia “Heaven’s Gate Away Team”. Era essa a insígnia:

heavens

“Away Team”, como quem manja de Star Trek deve lembrar, é o time que sai da nave pra fazer alguma missão de exploração. Como eles consideravam os próprios corpos “veículos”, ao se desencarnar, os membros do Heaven’s Gate se tornavam um Away Team.

E foi o seguinte. Ao longo de alguns dias, a galera se dividiu em 3 grupos. Os caras tomavam uma mistura de fenobarbital, suco de maçã e vodca; o grupo restante colocava sacos plásticos nas cabeças deles, pra finalizar a asfixia. Uma vez mortos, o pessoal restante colocava um pano roxo cobrindo o corpo dos defuntos.

Manja como era grotesca a parada:

heavens gate

Quando o primeiro grupo já tinha falecido, era a vez do próximo. O ritual se repetia, até que sobraram só duas mulheres. Essas foram as únicas que ficaram sem os sacos plásticos na cabeça.

Se você tiver estômago pra isso, aqui há um vídeo em que os membros da seita dando seus “Exit Statements”, ou seja, suas declarações finais antes do suicídio. Este outro é mais curtinho. Neste outro, o líder da parada dá suas considerações finais, e filma vários dos membros do negócio, usando os tais uniformes de “Away Team” nos quais eles foram encontrados sem vida.

Nesse último aí, há um certo tom de “você que está assistindo esse vídeo anos depois certamente já conhece esses caras, já que seremos os famosos salvadores da humanidade, mas vamos apresentar eles pra você assim mesmo”. E percebe-se também a curiosa nomenclatura pros membros da seita — todos abdicaram de seus nomes e adotaram alcunhas como “JMMODY” ou “PRESSODY” ou “DVVODY”. “Ody”, a propósito, era um honorífico lá deles; aos 1:07:20 ele explica a semântica por trás do tal sufixo ODY.

Em um momento o Applewhite fala “eles terão uma chance de mostrar que não são mudos nem coisa do tipo, eles conseguem controlar o veículo deles plenamente e tal”. Traduzido do Heaven’s Gatês, isso deveria significa algo como “quero deixar claro que estão todos aqui por plena e livre vontade”.

A parte particularmente tensa é o momento em 31:30, em que o Applewhite filma um dos membros e diz “que bom ter o fulano de volta em nosso meio, ele esteve longe de nós por um tempo mas o resgatamos”. Nas entrelinhas, é perceptível que o que deve ter rolado é que o sujeito teve uma crise de fé, mas foi convencido a retornar para o grupo. Ou seja — por pouco, poderia ter sobrevivido ao pacto de suicídio.

E é muito bizarro ouvi-los falando “não, de boa, a gente sabe o que está fazendo, e malucos são vocês por não aceitarem a Verdade”. Os caras estavam completamente convencidos de que o que estavam fazendo era perfeitamente lógico.

Acho esse tipo de seita morbidamente fascinante; é muito intrigante pra mim a mentalidade de estar tão firmemente convencido em uma certa filosofia ou ideologia que você está disposto a morrer por ela. Assim como é bizarro que o cara não está falando NADA COM NADA — sem exagero, a maioria das mensagens dele não faz o menor sentido –, mas que aquilo é recebido pelo grupo como uma mensagem coerente e importante.

O mais interessante sobre o Heaven’s Gate é que, ao contrário de muitos outras seitas suicidas, eles documentaram muitos das suas práticas e doutrinas, que nos permite compreender um pouco melhor a maluquice. Não que compreendamos muito — eu nunca conseguirei entender como que o sujeito vai pro México se castrar voluntariamente –, mas pelo menos serve como um fascinante registro histórico.

Ah, e não, não tinha nave espacial atrás do cometa e eles se foderam à toa. Tem isso também.

Ahhh, quase esqueço: o site dos caras ainda está no ar.

angry nerd

“SEU BURRO! SEU IMBECIL! VOCÊ ESTÁ ERRADO!”, digitou furiosamente um RPGista no Facebook

Dizer que sou alheio a confusões na internet seria uma tremenda inverdade. If anything, o meu nome é meio que um sinônimo de confusão e desacordo na internet. É uma alcunha que eu carregarei pro resto da vida por ter fundado os icônicos Semeadores da Discórdia.

Me aquietei bastante desde aquela época de caçar treta no orkut como modalidade esportiva, mas como qualquer pessoa que ganha a vida jogando opiniões no éter da interent (éternet?), inevitavelmente eu falo isto ou aquilo que toca no nervo de alguém — mais frequentemente, de um grupo, o que é mais grave — e lá estou eu envolvido em uma briga virtual nas redes sociais.

Só que tem um negócio: geralmente, quando uma opinião minha resulta num troca-tapas internético, existe — ainda que bem sutil, beeeem de levinho — uma pitadinha de mens rea; ou seja, frequentemente há de fato a pequenininha intenção de extrair uma reação furiosa de alguém. Quando eu critico veganos ou ateus com timbre meio jocoso, embora haja uma substância por trás da crítica, admito que junto com o pacote eu incluo alguns gramas de “é isso aí mesmo que eu falei, vai encarar?”. Acho que é parte da minha natureza.

Nesses casos eu entendo a reação explosiva dos criticados. O que eu não entendo, por outro lado, é quando algo completamente idôneo causa reações de fúria.

Essa semana eu postei um vídeo que pergunta a meus inscritos a quantas anda a cena de RPG, um hobby pelo qual já nutri um profundo vício mas do qual atualmente me encontro afastado. Eis o vídeo:

A pergunta é sincera — eu sou rodeado por todos os lados de amigos geeks, e não ouço mais nenhuma menção sequer sobre RPG, que era algo que dominava completamente o diálogo nerd uns 15 anos atrás. Me pergunto (e pergunto aos meus inscritos) se o hobby continua, e compartilho algumas de minhas experiências no mundo do role playing game. Tive que cortar quase 10 minutos de histórias — sério! — porque tinha TANTA coisa pra falar sobre RPG que não tinha como caber no formato de vídeo que eu faço.

Qualquer pessoa com maturidade emocional em dia e uma saudável capacidade de compreensão de texto e tom — ou seja, um ser humano adulto comum — entendeu o vídeo pelo que ele é: uma pergunta sincera de um grande fã da parada que, por causa das vicissitudes da vida, está há muito tempo distante do hobby. Pessoas como o Marcelo Cassaro, que é ninguém senão o criador do 3D&T (portanto um grandíssimo ídolo da minha adolescência) entenderam perfeitamente o que eu falei no vídeo — ele até me agradeceu por ele.

Não teve nesse vídeo absolutamente nenhuma palavra negativa sobre o hobby ou seus praticantes. Nem de brincadeirinha.

Evidentemente, não foi isso que muitos fãs do hobby entenderam. Alguns míopes não viram o ponto de interrogação no título do vídeo, e decidiram então nem assistir o vídeo que seria um suposto ataque ao hobby. Ficou a impressão superficial de que eu estava falando mal e pronto, não quero saber, quem esse nerd pensa que é?!

Eu comecei a sentir um backlash da comunidade RPGista através de algumas menções desconexas no Twitter, falando coisas como “VOCÊ NÃO SABE O QUE FALA O RPG ESTÁ MUITO VIVO SIM!“, ao que eu respondi apenas que estou plenamente ciente da minha falta de conhecimento em relação a cena, já que eu mesmo mencionei isso no vídeo.

Talvez ele suspeitou que eu estou por fora da cena de RPG por causa do momento em que eu literalmente admito que estou por fora da cena de RPG.

Pareceu-me inicialmente estranho que você responda a alguém falando “eu não sei muito sobre como anda a cena atualmente” com “SEU BURRO VOCÊ NÃO SABE COMO ANDA A CENA ATUALMENTE!!!” — por que você precisaria “refutar” uma admissão de ignorância…? — mas enfim. Algumas pessoas precisam extravasar suas frustrações e insuficiências através internet, quem sou eu para nega-los esta catarse? É mais barato que o terapeuta de quem elas urgentemente precisam, e eles merecem esse alívio.

Inicialmente achei que fossem só alguns perdidos que não entenderam realmente o tom do vídeo, sempre rola isso. Foi quando comecei a receber mensagens de donos de editoras de RPG (sério) me sugerindo que eu fizesse um vídeo de “retratação”, pra voltar atrás no que eu falei e esclarecer que o hobby está ainda muito vivo sim senhor, que eu comecei a coçar a barba com curiosidade.

Por que seria necessário um vídeo em que eu desminta algo… que eu não afirmei? Será que precisarei colocar cinco ou seis pontos de interrogação no título dos vlogs no futuro, pra quem consigam discernir uma pergunta de uma declaração…? Espero que não, ia ficar feio pra caralho!

Mas se for necessário pra que alguns entendam, estou aberto a mudanças.

O caldo entornou de vez quando começaram a repassar no Twitter (em tom de “É ISSO AÍ CARA, DETONA ESSE NERD BURRÃO IDIOTA”) uma postagem que podemos definir como pertencente à categoria de “textão de Facebook”. O status inicial do post é curtinho, sim, mas se você somar todos os adendos que o autor adicionou em seguida (junto com o tom geral de ranço que pingava da página), vale como um textão.

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E em seguida, quando alguém sugere que talvez, TALVEZ, o vídeo não era merecedor de tamanha reação já que eu admito que sou um velho fã do hobby que está há alguns anos distante:

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Sobrou até pra vocês!

Repare o indício de que a fúria era tamanha que não há tempo de concatenar essas três frases num post só. O processo foi mais ou  menos “GRRRR” aperta o enter “GRRRR” aperta o enter “GRRRR GRRRR” aperta o enter, tudo dentro de alguns segundos.

Quando alguns mais ponderados reiteraram que “caaaaaaaalma cara, é só um maluco comentando nostalgicamente suas lembranças dos jogos“, ele bate na mesma tecla novamente:

De certa forma é um elogio

De certa forma é um elogio!

Ainda lutando contra a (pequena) maré de bom senso que refutava seu chilique, o rapaz prossegue:

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Repare no trecho “O cara diz isso e fulano leva como verdade absoluta”. Diz isso O QUE, exatamente…? Que eu tenho saudade de RPG, olha aqui minhas fichas, olha como eu me divertia pra caramba com isso, olha como seria legal jogar de novo?

Vindo de um jogador de RPG, que deveria melhor que ninguém saber INTERPRETAR um texto, é particularmente lamentável. O alarmismo é tão profundo que frequentemente usaram o termo “PERIGO” pra se referir às possíveis consequências do meu vídeo. Pus o seu hobby em risco ao fazer um vídeo dizendo que sinto falta dele.

ESTE VLOGGER SIGNIFICA PRE RI GO

ESTE VLOGGER SIGNIFICA PRE RI GO

O rapaz pixelizado não estava sozinho em sua quixótica campanha contra o perigosíssimo moinho canadense que ameaça destruir o RPG. Surgiu uma amiga, infelizmente igualmente analfabeta funcional, que acrescentou…

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Se eu fosse republicar aqui TODOS os comentários semelhantes a esse seria mais fácil postar logo os screenshots da parada, e eu prefiro não fazer isso porque remover os nomes e fotos de todos os envolvidos daria trabalho demais. Não que eu precise fazer isso, mas gosto de exibir maior boa vontade para com meus inimigos do que eles exibem pra mim. Isso ajuda a mostrar quem é que está do lado certo de uma situação como essas.

Nisso chega o Ninja de Beverly Hills e joga gasolina na fogueira. Este cara merece um comentário à parte, aliás, e já já chego nessa parte. Eis a contribuição dele no debate:

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O rapaz se espevitou todo com a idéia de PODRES meus. Lembre-se: isso tudo porque eu fiz um vídeo falando que tenho saudade de jogar RPG.

Ele até inventou uma hashtag só pra mim, que ele vem usando há ANOS (haja persistência! Enquanto isso nem zerar a porra do Pokemon eu consigo) em redes sociais para verter seu ódio incessante de forma semi-velada.

O Ninja de Beverly Hills foi e acrescentou em relação aos meus “podres”:

"Ele não é um cara gente boa, como nós"

“Ele não é um cara gente boa, como nós, que partimos pra pra ataques pessoais sem motivo”

Devo explicar a origem do apelido: o tal rapaz aí tem no seu perfil do Facebook uma foto que muito lembra o poster do clássico filme do Chris Farley:

Se você adicionar uma espada, uma neckbeard particularmente asqueirosa que berra “eu não sei me assear ou cuidar da minha própria aparência” e um senso gritante de auto-importância, você chega bem próximo na foto do cara no Facebook

Informantes explicaram que a foto no Facebook é porque o rapaz é instrutor de alguma arte marcial aí. Não sei quem paga o rapaz por aulas, mas eu não conseguiria levar a sério um mestre marcial cujo IMC é maior que o meu.

O sujeito não se conteve a expressar seu ódio pelo Facebook. Correu também para o Twitter, com todo o recalque que conseguiu carregar nos bolsos, e cobrou satisfação de um amigo que curte meu canal porque esse tipo de ódio profundo e tão puramente destilado não é o tipo de coisa que você consegue controlar ou limitar à própria cabeça — é preciso exteriorizar. ALGUÉM TEM QUE RESPONDER POR ISSO.

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“Você está se referindo àquele vídeo em que ele mostra material antigo de RPG e fala nostalgicamente que queria voltar a jogar?”

Quando viram o ataque de pelancas do Ninja de Beverly Hills, informações fluiram em minhas caixas de entrada com detalhes que pintaram um belo quadro de quem é o rapaz. Agora, melhor do que nunca, eu consigo entender porque alguém é tão amargurado com a vida, com tamanho ímpeto de falar mal de alguém sem qualquer provocação, com uma ânsia literalmente patológica de se declarar moralmente superior a todas as pessoas ao seu redor. Espero, genuinamente, que esta alma conturbada consiga encontrar a paz de espírito que precisa.

Foi um bom lembrete pra realmente relevar esse tipo de ataque. Eles vem de uma posição de dor, de angústia, de insatisfação profunda com algo maior. O problema do cara não sou eu; em sua falta de direção, ele está me usando como saco de pancadas na falta da habilidade de fazer algo para de fato dar um jeito na própria vida.

Como falei: espero que ele encontre a luz.

E toda essa confusão porque eu mostrei umas fichas de Vampiro e falei que queria tentar jogar novamente, agora que falo inglês suficiente pra jogar com meus amigos gringos.

Olha, esses caras tão precisando gastar mais alguns pontos em Constituição, porque pra rasgar o cu de tanta raiva por tão pouca provocação (nenhuma?!), essa ficha de atributos tá toda errada.

Prometi agradecimentos aos broders que tiraram screenshot da thread (os revoltosos começaram lentamente a perceber o vacilo e, numa medida de controle de dano, deletaram o tópico inteiro às pressas, embora tarde demais), mas agora não estou achando os tweets. Postem aí nos comentários para que eu dê os devidos agradecimentos, vocês foram importantíssimos no registro dessa completamente sem sentido confusão internética.

Recentemente o Itamaraty barrou a entrada de um “PUA” que pretendia dar aulas de como pegar mulher no nosso país. Você provavelmente está se perguntando “o que diabos é um PUA”? Bem, eu explico.

Pra algumas tarefas, existe uma necessidade fundamental de ler um manual de instruções. Montar móveis comprados na TokStok, por exemplo. Ou usar uma furadora elétrica. Ou operar um ser humano (o manual de instruções no caso seriam os anos estudando medicina). Não há nenhuma vergonha em admitir, nestes casos, que você precisa de um tutorial explicando cada passo do processo.

Pra algumas outras coisas, no entanto, depender de um manual é levemente deprimente e um pouco retardado até. E o melhor exemplo disso é pegar mulher — algo para o qual eu não estava ciente de que existia um tutorial.

Caso os queridos colegas não saibam, existe algo chamado “the seduction community”; a comunidade da sedução. A premissa de tal comunidade é compartilhar os segredos da arte de pegar mulher.

E não, eles não usam o termo “arte” da forma solta como vocês gostam de usar no tuíter (quantas vezes vocês já viram alguém falando sobre a suposta “arte de –insira qualquer coisa trivial aqui que não é nenhuma forma de arte–?). Este sujeitos se acham de fato os Leonardo Da Vinci da fodelança, tanto que se definem pela insígnia de “pickup artists“.

Isso significa literalmente “os artistas da pegação”. Na internet você os verá frequentemente abreviando o termo pra “PUA”.

Pelo que investiguei, a idéia central da comunidade da sedução é basicamente o seguinte:

1) Seja levemente (ou não tão levemente) babaca com as meninas, elas gostam disso;

2) Vista-se da forma mais espalhafatosa possível, afinal toda atenção é positiva.

Mas se você acha que isso é tudo, você se engana — há um extenso glossário explicando os termos acadêmicos e as técnicas da pegação. E é aí que a coisa fica realmente patética.

Por exemplo, lembra que eu falei que uma das doutrinas do método de sedução é ser meio escroto com as garotas? Os PUAs chamam isso de “neg“. Eles essencialmente pegaram aquela máxima de que mulher gosta dos bad boys e transformaram-na numa equação. Olha isso:

Eles estão falando de pegar mulheres ou tão dando dicas pra um RPG?

O neg é essencialmente dar um elogio que é na verdade uma leve ofensa (“Gostei desse vestido, você tem coragem de usa-lo na rua assim” ou “Adorei seu sorriso, geralmente gente com dente torto não tem um sorriso bonito assim”) que supostamente reduz a auto-confiança do alvo (sim, eles literalmente chamam mulheres de “alvo”) e isso seria um truque Jedi para convence-la a dar pra você.

Eles realmente acreditam que o mundo funciona desta maneira.

Como você pode ver, aquele site lá explicando o linguajar PUA tem mais hiperlinks que um artigo da wikipédia. Isso acontece porque essa galera quantificou praticamente todas as etapas de uma interação humana. O que talvez pareça interessante de um ponto de vista nerd se assemelha mais com uma apostila que alienígenas escreveram em relação a como seres humanos interagem.

Por exemplo — enquanto você conversa com alguém, talvez aconteça de vocês trocarem um breve toque no cabelo ou na mão.

Um subproduto natural da interação humana? Não. Isso é um kino. E existem as derivações disso, como o Kino Anchored Motion Inducement — em outras palavras, puxar alguém pela mão.

Repare, novamente, no uso da palavra “ALVO” — que junto com essa metódica e literalmente doentia quantificação e detalhes, sem contar que o objetivo da parada é “isolar” a menina do seu grupo, passa uns vibes fodidos de serial killer.

Me diz se isso não é assustadoramente patético. “Kino Anchored Motion Inducement” parece algo inventado pelo MIT ou pelo Jet Propulsion Lab pra aterrissar sondas em asteróides — no entanto, é simplesmente conduzir alguém puxando o braço da pessoa. Aliás, olha como fica a expressão sendo usada numa frase:

Manual de pegar mulher, ou de configurar servidor…?

Sair com os amigos pra pegar mulher? Isso tem nome também — “sarge“. E os PUAs frequentemente vão a fóruns pra relatar suas experiências na forma de “field reports“.

A única coisa mais patética do que essa sistemática análise de gestos triviais são as inúmeras siglas que eles usam pra qualquer bobagem. Mulher é “HB” (seguido de um número que indica quão gostosa ela é); Indicação de interesse — ou seja, se ela sorri pra você ou algo assim — é IOI. Beijar uma mulher = “kclose“. Veja o uso sugerido do termo:

I kclosed 2 HB10s last night!

Traduzindo pra não-retardadês, isso significa “beijei duas garotas bonitas ontem a noite”. Por que seria necessário criar uma expressão críptica para um gesto tão mundano e comum, temo que jamais compreenderei — sem contar que “KCLOSED” literalmente gasta mais caracteres e sílabas do que um simples “KISSED”.

Cartilha de um dos métodos PUA. Coloca “Empatia com Animais” e “Armas Brancas” e vira cartilha de Vampiro A Máscara.

Ah, e a propósito? Eu e você, os não-Jedis do conhecimento pegadorísticos, somos aparentemente “AFCs” — Average Frustrated Chump. Ou “o babaca frustrado padrão”. Você sabe, os perdedores que não pegam NINGUÉM. Apenas os PUA, que são detentores destes segredos místicos da sedução, são capazes de copular com mulheres. Isso explica por que existem tão poucas pessoas no planeta.

Mas isso não é tudo. Tem também o vestuário dos caras, que é particularmente retardado. E você sabe que a coisa tá feia quando os caras criam uma sigla quase militar pra explicar coisas tão simples e triviais e isso nem é a coisa mais imbecil que eles fazem.

Este homem sai na rua vestido desta forma e se vê na posição de 1) criticar a aparência de mulheres e 2) te ensinar a ser pegador. Há algo errado aqui.

Conheça Mystery, o papa da comunidade da sedução. Este sujeito convenceu milhares ao conceito do “peacocking“, ou seja, usar alguma peça de vestuário que seja completamente ridícula apenas para chamar atenção. De acordo com esses don juans modernos, além de chamar atenção feminina e servir como um ponto de início de uma conversa, esses trajes zoados também provam que você é um cara com bastante auto-confiança e sabe lidar com pressão.

Você sabe, exatamente igual ao tipo de pessoa que precisa de aulas sobre como falar com mulheres.

Ah é, mencionei “aulas” porque este sujeito faz justamente isso — ele dá aulas pra pobres coitados.

O fato de que esse vídeo tem legendas em português me preocupa.

Meu jesus cristo. O homem é um Lair Ribeiro da (suposta) pegação. Esse é o ângulo dele; é por isso que ele tá nessa. Ele tá convencendo nerds desajustados de que eles podem se tornar garanhões; basta pagar algumas centenas de dólares por este fenomenal curso de misoginia programada que deixaria o mais meticuloso serial killer com inveja.

Essa comunidade de sedução reúne o que há de mais patético na auto-ajuda com o que há de mais autista na atração nerd por regrinhas e quantificação de coisas triviais.

E o pior é que deve ter gente aí lendo o HBD que assiste esses vídeos e realmente tenta essas técnicas.

Antes de mais nada: vocês me REENERGIZARAM a escrever após o apoio em massa que recebi ontem. MUITO obrigado a todos por ter tirado um momentinho do seu dia pra me ajudar naquele dilema, e pretendo tirar um dia pra responder TODOS os comentários. Mas vamos ao assunto de hoje!

Dan Bilzerian

Este cidadão barbudo chama-se Dan Bilzerian.  O físico imponente não é por nada — o sujeito treinou pra se tornar um Navy SEAL, e foi chutado da parada. Que tipo de maluquice ele fez pra ser expulso do programa de treinamento não é um dado conhecido pela internet; entretanto, as estripulias do sujeito (bem documentadas em seu Instagram) te darão uma idéia.

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Pra ganhar a vida, o cara joga poker. Ele já começou, rico, claro — seu pai é um desses figurões do mundo capitalista a la O Lobo de Wall Street. O poker deixou o cara ainda mais rico, a ponto de poder se dar ao luxo de disputar corridas valendo aposta de quase US$ 400.000 com outros amigos ricos.

E quando ele inevitavelmente ganhou (eu duvido que um sujeito dessa envergadura social e financeira tenha a capacidade de perder alguma coisa), foi assim que ele celebrou ao sair do carro:

Repare o tapinha no final

Eu mencionei envergadura social, né? Então, se você já passou lá no instagram dele, você verá fotos como estas:

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Um programa comum do sr Bilzerian é beber e jogar poker com seus amigos em sua mansão, sendo servido birita por modelos que você conhece apenas em formato .jpg.

Quando Dan tirou essa foto, você estava jogando League of Legends de cueca no seu computador com a tampa lateral removida.

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Quando estou entediado, jogo um pouco de GTA5 ou leio quadrinhos do Homem Aranha e do Batman (frequentemente colocando uma do lado da outra pra fingir que eles estão interagindo no mesmo universo). Dan Bilzerian, na mesma situação, pega quatro gostosas e leva-as pra um passeio em seu iate.

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Lembra naquele feriadão que você foi pra Praia Grande de ônibus, sentado do lado de gente que desconhece a invenção do desodorante, não comeu ninguém e ainda foi assaltado?

Neste mesmo feriado o Dan dirigiu seu 300c (é um Bentley na verdade, ou seja, ainda mais boss) até o aeroporto onde pegou um jatinho pra ir fazer snowboard nas montanhas.

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Enquanto você passa dias procurando as melhores fotos (tiradas sob as melhores condições de temperatura, pressão, atrito, iluminação e ângulo) e atirando pra todo lado no Tinder na esperança de talvez descolar uma saída no fim de semana com uma garota que vai te achar feio logo de cara e inventar uma desculpa pra ir pra casa mais cedo, o Dan pega seu telefone, seleciona as últimas sete meninas que o mandaram mensagens naquele dia em particular, e as leva pro seu já mencionado iate.

Acho que é desnecessário mencionar aqui que o músculo que este sujeito mais exercita é a piroca.

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Eu descobri um arranhão na tela do meu celular (que já tem 2 anos de idade) e passei a tarde inteira lamentando minha sorte e minha pobritude, que me obrigará a continuar usando essa porra até o próximo iPhone ser lançado sabe-se lá quando.

Dan Bilzerian arregaçou uma Ferrari e achou isso engraçado. Seu único comentário sobre a parada é que a garota que estava com ele no momento do acidente não curtiu a coisa.

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O Dan Bilzerian malha de uma forma completamente diferente da nossa. A nossa é uma rotina semi-ocasional de ir na academia um dia sim, dois meses não, onde levantamos os pesinhos mais leves por 14 minutos e passamos 5 dias nos recuperando da surra. E na volta de ônibus pra casa você é assaltado de novo.

Já o Dan, bem. Olha a foto mano. Para que essa foto existisse, ou seja, só no dia em que ela foi tirada, o Dan já comeu mais mulher do que você talvez comeu na VIDA.

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Olhe a última foto que você postou no Facebook. Olhe as últimas 10 fotos. Olhe todas as fotos do seu Facebook, e foda-se se o seu chefe não gostar da forma como você está gastando o expediente. Pode dizer pra ele que eu mandei.

Agora olha essa foto do Dan Bilzerian. Nela, ele comenta casualmente que está levando as 4 garotas pra um rolé no México.

Eu poderia falar mais aqui, mas acho que já provei meu ponto. O sujeito é MILIONÁRIO, bonito, forte, comedor, coleciona carros, armas, conquistas sexuais, e viaja pelo mundo com a mesma casualidade que você vai à geladeira ver se tem algo pra comer. Tudo bem que ele vai morrer cedo pra caralho (pelo menos é o meu diagnóstico de um cara que teve DOIS ataques cardíacos aos 30), e que dinheiro não compra coisas essenciais à condição humana, como caráter, amor, um bom relacionamento com a família e etc, mas mano. Dê uma bela olhada ao seu redor neste EXATO momento, reveja as fotos que eu postei aqui, e me diga na minha cara que você não trocaria seu testículo esquerdo pra viver um mês como este indivíduo.

Sabe o tipo de vida que a gente imagina que teria se fosse podremente rico? O Dan Bilzerian vive essa vida.

Ao contrário de ficar de butthurt com a óbvia ostentação que o cara toca em seu instagram, eu fico é motivado a estudar mais ainda e malhar.

Aí eu lembro que ninguém fica rico estudando e que eu muito provavelmente morrerei gordo mesmo.

Que merda de vida.

Ah, e eu postei aqui as fotos mais “família” que o maluco divulga. Sério, passe no Instagram dele. Se você é um homem heterossexual, é matematicamente impossível não ter inveja do cara.

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