Ok, estou de volta!

Não se acostumem.

Quem me conhece sabe que não sou exatamente fã do movimento feminista contemporâneo. Espero que isso não soe como uma rejeição das exigências femininas de igualdade — acredito que qualquer ser humano com um cérebro concorda que mulheres devem ter todos os mesmos direitos (legais e sociais) que qualquer outro ser humano. Minha ressalva é com as táticas estridentes, um crescente viés puritânico (“mimimi mulher tem que estar coberta nas revistinhas em quadrinhos senão me ofendo”) e um constante modus operandi de atribuir má vontade a literalmente tudo: o famoso “problematizar”.

Entretanto, eu preciso dar o braço a torcer em relação a algo que feministas alegam há bastante tempo e que é desgraçadamente impossível de negar — gamers são uma das comunidades mais tóxicas da internet.

Eu odeio ter que admitir isso. Embora não tenha aderido ao tal movimento GamerGate (por motivos de: tenho aluguel e carro pra pagar, e por isso “jornalismo de games” não é algo que acho digno de dedicar espaço entre minhas outras preocupações existenciais), eu concordo com alguns de seus pontos gerais, como por exemplo a inegável percepção de que há um esforço coordenado da mídia gamer de detonar seu próprio público.

Este aí é um de muitos artigos escritos por meados de 2014 que visavam “difamar” gamers. Como eu sou um homem com barba na cara que, como já acabei de mencionar, precisa pagar boletos e preencher formulários de restituição de imposto de renda, eu simplesmente não tenho a energia de me preocupar com “oh meu deus estão ofendendo os GAMERSSSSS!!!!!“.

Mesmo assim, é impossível não perceber que houve de fato um esforço coordenado de pintar pessoas fissuradas por videogames como o pior subgrupo de toda a internet.

O que é objetivamente uma mentira

Só que eu tenho que pouco a pouco admitir que sim, existem algumas facções dentro da comunidade gamer que realmente justificam as críticas.

Rolou ontem no Twitter uma treta por causa deste review do excelentíssimo Cuphead. De forma resumida, é o seguinte — a jornalista que resenhou o jogo criticou LEVEMENTE no que diz respeito ao modo multiplayer. De acordo com ela, o jogo tem um ritmo tão caótico que a presença de outro jogador na área (somado ao fato de que o jogo aumenta a dificuldade pra compensar a presença de um aliado) torna o gameplay uma zona visual.

Em outras palavras: uma análise perfeitamente honesta. Acontece que o jogo que ela criticou é exclusivo nos consoles pro Xbox One, e fanboys da Microsoft (tendo pouquíssimos bons jogos exclusivos pelos quais pedir pra mamãe comprar) são extremamente sensíveis a qualquer crítica, por mais leve que seja.

Então essa turminha, liderada por um tal de “Xbox Mil Grau” — o que já deixa plenamente claro o tipo de coisa que se pode esperar do indivíduo –, começou uma campanha pra desqualificar a moça. Incapazes de apontar um erro factual sequer na crítica, essa pivetada (que se continuarem se comportando dessa forma jamais conhecerão o sabor e textura de uma vagina humana) passou a apelar pro ad hominem de cobrar da garota que ela revele seus perfis em suas redes online dos consoles.

A propósito, o veredito que a garota deu ao jogo foi esse.

Sim. Essa treta toda é porque o jogo recebeu 9, e não 10.

Aparentemente ignorantes a respeito de como funciona a redação de análises em grandes sites1, a pirralhada imaginava que a pessoa responsável pela resenha leva o videogame da empresa pra casa e joga no seu tempo livre.

O que acontece na realidade é que grandes veículos como o IGN geralmente tem consoles na redação, com contas especiais para produzir as análises — contas que, por motivos operacionais, não faz sentido divulgar publicamente. A conta não é da moça, é da IGN, e não compete a ela ficar divulgando algo da empresa dessa forma. É que essa turminha que leva a indústria na maior seriedade não entende a indústria, e o faz por puro tribalismo.

Até porque não interessa, é irrelevante ao conteúdo da análise. Quando estou curioso sobre um filme, eu leio a porra da crítica, eu não cobro do crítico que me mostre uma foto com os ingressos de outros filmes que ele já assistiu.

Só apela pra esse pau-no-cuzismo infantil quem está se rasgando de raivinha porque alguém apontou um defeito no seu filme favorito.

Enquanto a pivetada fanboy berrava agressivamente nas mentions da menina com a típica estridência preadolescente que só um fanboy de videogame consegue atingir (tudo porque ela teve a TAMANHA OUSADIA de dar um 9/10 ao jogo em vez de 15/10, não esqueça), um dentre o exército dos virjões foi além e cunhou o vexame que entrou nos Trending Topics do Brasil:

CURRÍCULO GAMER.

Sabe quando o Boça fala com orgulho da Carteirinha de Sócio-Fundador do Clube dos Minigueimeiros?

Poisé. O tal “Xbox Mil Grau” (sério, a vergonha alheia é incomensurável) comprou a briga e passou a agir como ponta da lança da perseguição da garota pela IMPERDOÁVEL EMPÁFIA de resenhar seu amado joguinho exclusivo e não dar-lhe a nota máxima.

A parte mais curiosa é que ele sequer leu a resenha; bastou saber que a autora teve uma crítica em relação ao jogo e pronto, tinha sangue na água, e a honra do Xbox precisava ser defendida urgentemente. Ou seja, tal qual a criança revoltada sem causa, ele nem realmente sabe porque está dando chilique. O rapaz repetiu uma ladainha sobre “credibilidade”, porque se tem alguém que pode cobrar credibilidade das pessoas é alguém que atende por “XBOX MIL GRAU”. Um bastião de imparcialidade!

Ao perceber que toda a internet brasileira estava rindo de sua imbecilidade — o que eu sinceramente acho até crueldade, porque ser idiota a esse nível pode ser indicativo de problemas psicológicos e zoar os retardados entristece o Papai do Céu –, Xbox Mil Grau fez então (por cinco horas) uma live de damage control em que ele ria nervosamente tentando explicar seu ponto indefensável usando aquele típico parco vocabulário que só um manchild sustentado pelos pais e obcecado por conquistas virtuais insignificantes pode nos prover.

Como a live de 5 horas não foi o bastante, ele fez mais QUATRO vídeos se justificando

Nesse momento tive inveja de seu tempo livre, porque eu queria também poder passar cinco horas chorumizando em horário comercial, mas não tenho mais papai pra pagar meu aluguel.

View post on imgur.com

Um sujeito com barba na cara passou quase 7 horas initerruptas dando chilique porque uma menina deu “apenas” 9 pro seu precioso joguinho exclusivo.

Que negócio completamente lamentável.

Ah, e antes que essa pirralhada insista que não estão chilicando por que a autora da resenha é mulher:

Na IGN gringa, Cuphead recebeu nota mais baixa que a dada pela Bruna. O autor se chama Joe. Não vi chilique pra cima do cara.

No GameSpot, Cuphead recebeu nota mais baixa que a dada pela Bruna. O autor se chama Peter. Não vi chilique pra cima do cara.

Na PCGamer, Cuphead recebeu nota mais baixa que a dada pela Bruna. O autor se chama Chris. Não vi chilique pra cima do cara.

Na GameInformer, Cuphead recebeu nota mais baixa que a dada pela Bruna. O autor se chama Jeff. Não vi chilique pra cima do cara.

Na SixthAxis, Cuphead recebeu nota mais baixa que a dada pela Bruna. O autor se chama Dave. Não vi chilique pra cima do cara.

Aconteceu de novo. Alguém ameaçou a pessoa com quem namorava de expôr vídeos de momentos íntimos obtidos sem consentimento.

Curiosamente, dessa vez vi feminista* em favor de quem faz a ameaça, e culpando a vítima — quem ela nem reconhecem como vítima, aliás, porque “fez por merecer”. Cheguei a ouvir um “se você parar pra pensar, pornô de vingança nem é crime…”

Por que será? Vejamos.

Vez ou outra eu emito opiniões contrárias a alguns movimentos, e por isso já vi quem me chamasse de “crítico social”, ou “formador de opinião”. Posso me entitular um “formador de opinião”? Soa melhor que “blogueiro que escreve umas merdas aí”, que é algo que eu não colocaria no meu currículo. Já “formador de opinião”, porra! Soa como aquele tipo de título que, embora não exija qualquer educação formal, permite ainda assim o sujeito a galgar os estratos sociais que nos dividem. Consigo facilmente imaginar um “formador de opinião” de cartola, monóculo, comendo caviar e dando sua requisitada opinião sobre isto ou aquilo.

Pois bem. Não é de hoje que eu emito críticas sobre alguns argumentos recorrentes do feminismo internético radical (insiro eu mesmo o modificador “radical” pra que não corram aos comentários pra explicar que “nem toda feminista é assim”; eu sei que não são).

Concordo com inúmeros argumentos por justiça social, mas há este ou aquele modo de pensar que aos quais eu me oponho, e atitudes que francamente desprezo, e por causa disso fujo de empunhar distintivos de identificação desse tipo de grupo.

(Não é de espantar se você considerar que eu sou o mesmo cara que apesar de SER tecnicamente ateu, diz não ser “ateu” no YouTube.)

Não compro rótulos (especialmente se pessoas usando os mesmos rótulos fazem merda por aí, de certa forma se associando a mim) e não aceito cartilhas, o que por um lado me torna relativamente imparcial e imprevisível. Eu acho isso preferível a emitir opiniões totalmente previsíveis; seguir ideologia é como responder uma pergunta antes dela ser feita. Não costumo ler editoriais opinativos da Veja pelo mesmo motivo que não leio os da Carta Capital: eu já sei que ponto ambos defenderão.

Por OUTRO lado, essa total desassociação de doutrinas me faz levar chumbo DOS DOIS LADOS. Por textos como este sou chamado de coxinha; já neste, sou acusado de estar na folha de pagamento do PT. Por este texto, ou este, sou chamado de “capacho de feministas”, já por causa dos textos que citei lá em cima, sou considerado em outros círculos como um pernicioso misógino.

E em alguns casos raros, o mesmo texto angaria aplausos dos dois lados, como foi o caso do meu artigo sobre a tal da “friendzone”. A turminha misógina (que frequentemente entoa um lema de “precisamos não precisar mais das mulheres, elas são a fonte de todo o mal!”) gostou da mensagem de auto-melhoramento e de saber quando abrir mão; já as feministas curtiram o fato de que eu rejeitei a idéia de que uma mulher deve recompensar alguém com sexo/afeição por “ser um cara legal”.

Enfim. Eu frequentemente (cansativamente até, eu diria) dou esse disclaimer no começo de textos relacionados a ideologia ou política porque o atual histerismo brasileiro (“PETRALHA LADRÃO!!! COXINHA REACIONÁRIO!!! MACHISTA ESTUPRADOR!!!! FEMINISTA MAL-COMIDA!!!!!”) atingiu níveis tão McCarthyístas que fica realmente difícil ter qualquer diálogo que não descambe a uma caça às bruxas.

OK QUE PORRA DE PREFÁCIO CHATO. Eu odeio vocês por me obrigarem a ter que fazer isso toda vez. Mas a questão é a seguinte.

Esbarrei com este vídeo no YouTube. E em poucos instantes eu percebi que havia encontrado algo que faria esse tipo de ativista furioso ter um Blue Screen Of Death mental, incerto de que ponto EXATAMENTE defender. Vamos ao VT:

https://www.youtube.com/watch?v=_cRZrI0La0w

Começa o vídeo com o repórter falando que a garota trans “teria sido acusada de extorsão”. Acusação por si só não significa nada, inocente até ser provada culpada, etc. O problema maior é que antes disso o jornalista enfatiza que “ESTE RAPAZ, ou A TRAVESTI, como eles gostam ser chamados…” e eu tive que girar ozóio em reprovação da flagrante transfobia.

O réporter então pergunta qual teria sido a situação, ao que Mayara explica que teve um relacionamento com um sujeito casado, e que ao descobrir sobre o matrimônio do homem, ameaçou divulgar imagens (que ela obteve sem autorização) dos momentos íntimos dos dois.

Ela adiciona que não cobrava o valor do programa ANTES da descoberta, mas que passou a cobrar ao descobrir que o sujeito era casado. Neste ponto eu fiquei legitimamente confuso — isso quis dizer que ela passou a só transar com o cara mediante a pagamento prévio (uma vez descobrindo que não era mais o único romance do cara), ou que ela ficou tão chateada com a descoberta que decidiu cobrar cachê das transas retroativamente…?

Estou inclinado a pensar que a segunda opção é mais provavel, já que bastaria então o cara encerrar o relacionamento e cada um ia pro seu canto para que a situação de extorsão não tivesse acontecido. Ou seja, se minha suposição estiver correta, e sinceramente é o que ela basicamente admitiu na entrevista, ela exigiu pagamento retroativo de todas as transas consensuais de outrora (que agora ela está recaracterizando como serviço prestado sem ressarcimento), sob pena de ter momentos íntimos divulgados nas redes sociais.

Que o maluco é um filho da puta por iludir a trans por 10 meses, não há qualquer dúvida. Acontece que temos aqui um caso claríssimo de revenge porn com premetidação (caracterizado pela gravação sem consentimento), agravado pela questão da extorsão.

Nessa hora eu percebi que não poderia ficar do lado da trans. Por mais que seja de fato uma classe de pessoas extremamente marginalizadas (eu diria, talvez, a MAIS marginalizada — mais que gays, mais que lésbicas, mais que negros), por mais que ela tivesse sido enganada pelo malandro, isso não justifica de forma alguma a prática de revenge porn. Estaríamos abrindo um precedente moral perigosíssimo se começassemos a achar que infidelidade relativiza pornô de revanche.

Só que eu sabia perfeitamente que esse tipo de vídeo ia deixar algumas ativistas confusas pra caralho. Por um lado, temos um gesto inegavelmente criminoso e moralmente deplorável; por outro, temos um membro de uma minoria. E incrivelmente, para algumas pessoas, ser membro de uma minoria é o suficiente para mudar de idéia sobre idéias que eles defendem ferozmente sobre coisas como exposição de intimidade alheia como método de vingança.

Eu vou evitar expor a menina porque sei que às vezes o que planejo (criticar uma atitude) é interpretado por fãs mais fervorosos como um chamado de guerra virtual contra a pessoa. Então, vou evitar por os tweets aqui porque eu sei que simplesmente pixelizar o nome da garota não seria suficiente.

Mas então, teve uma garota que veio confirmar exatamente o que eu havia dito. Imediatamente, a menina contra-argumentou que o sujeito ameaçado também é um filho da puta, algo que 1) não estava sendo contestado e 2) remove o foco do que está sendo debatido, que é a condenação inequívoca de qualquer forma de pornô de vingança, independente das circunstâncias ou motivo.

(Se qualquer pessoa argumentasse que uma garota mereceu ser exposta “porque chifrou o namorado”, seria condenado — e com plena razão. Entretanto, se é HOMEM infiel, é fair game; a repugnância do pornô de vingança deixou de ser absoluta e passou a ser condicional)

Em seguida, a garota entrou numa tangente completamente desnecessária insistindo que “mas pornô de vingança não é crime”. Presumir o contrário foi um erro que cometi no início do debate; um erro factual que não insisti por momento nenhum (o que torna os trinta tweets da menina batendo na tecla da atual legalidade do pornô de vingança ainda mais complicados de compreender) .

Novamente, nem eu, nem nenhuma pessoa sã, relativizaria a asquerosidade do revenge porn insistindo que “mas não é ilegal, tecnicamente falando…”. Mas se a vítima é homem? Novamente, tá valendo: os princípios são flexíveis.

A parada chegou ao extremo quando a garota literalmente falou que o cara “não é uma vítima”. Foi mais ou menos aí que eu desisti de discutir. Logo em seguida ela mandou um tweet sarcástico insinuando que eu a teria chamado de feminazi louca (o que é um flagrante absurdo, visto que eu jamais uso tal termo), e em seguida falou que há “(…)zilhão de minas com a vida destruída por namorado babaca e o cara se dói por um cara que tem vergonha de assumir um relacionamento com uma travesti“.

Sim, ela literalmente tentou me caracterizar como um cara que acha revenge porn algo “trivial”, que só me manifesto sobre quando isso afeta o pobre e indefeso homem.

A propósito, 3 dias atrás repudiei publicamente no Facebook um grupo sertanejo que escreveu uma música fazendo apologia à prática do pornô de revanche.

E, quando a banda começou a deletar o vídeo de todas as redes sociais, salvei o arquivo pra abordar o assunto num vídeo.

Ainda não o fiz meramente por falta de tempo

Este é um ponto que eu abordo muito aqui. A ideologia orienta, ensina, abre o olho da pessoa a situações sobre as quais ela era completamente ignorante. Há, de certa forma, valor numa ideologia.

Só que eu questiono esse valor quando a pessoa passa a aderir à ideologia a qualquer custo, mesmo que isso a force a falar patentes absurdos que ela condenaria em outras circunstâncias — culpar uma vítima, por exemplo.

E eu acho que vídeos como estes expõe essa dissonância cognitiva muito transparentemente. Revenge porn? MAS QUE FILHO DUMA PUTopa, pera, é uma garota trans que ameaçou? E a vítima era um HOMEM? Ah, que vítima o que, ele mereceu. Nem crime é. Tá choramingando a toa! Ele estava sendo INFIEL, cara! Infidelidade conjugal valida expôr publicamente momentos íntimos filmados sem consentimento!

Tá vendo a merda da ideologia? Uma ideologia pode abrir seus olhos, mas cegar ao mesmo tempo. Sou um homem defendendo a vítima neste caso (decididamente mais raro) revenge porn masculino?

Sou um reacionário. Sou misógino. Sou machista. Sou um “omi”. Ando por aí preocupado com “uzomi”.

Não seja assim.

A propósito, eu SEI que são textos justamente como esses que me fazem ser odiado pelos DOIS lados. Meus amigos mais ativistas pensam “porra Izzy você falou uns negócios legais mas no final criticou uma feminista, não pode isso, mano”.

Já meus chegados mais de direita lêem e pensam “é isso mesmo, tem que cagar na cabeça desses esquerdistas, mas que papo é esse de ‘transfobia’, de ‘travesti oprimido’, rapaz? Você tá comprando a ladainha marxista cara, FORA DILMA FORA JEAN WYLLYS”.

Por ficar bem no meio, não sou bom nenhum pra um grupo, nem pro outro. Não me identifico com ninguém e não coloco nenhum distintivo ideológico no peito.

Mas talvez, levar chumbo dos dois lados seja o melhor indicador político/ideológico pessoal que alguém pode ter no Brasil no momento.

*Sim, eu sei que não são todas. Pus “certas” ali justamente por isso. Só que eu não vou ignorar completamente a orientação ideológica de alguém fazendo merda porque isso é “inconveniente” pro movimento, desculpa.

raiva

Você imaginaria que passar pelo treinamento pra me tornar um paramédico me faria mais confiante nos meus conhecimentos em relação a anatomia e fisiologia, mas eu tenho reparado um efeito contrário — quanto mais eu estudo, mais eu receio que o corpo humano está além da minha compreensão, talvez porque minha cabeça já tá muito lotada de conhecimento inútil e talvez eu não devia ter passado tanto tempo lendo trivias do IMDb e o TVTropes.

Eu tento compreender os mecanismos biológicos que regem nossa existência, mas essa porra é COMPLICADA e eu jamais me senti TÃO burro quanto quando tento entender a química de neurotransmissores e seus efeitos no corpo humano. Se tudo mais falhar eu largo tudo e vou vender CDs na praia em Fortaleza.

cd

Eu espero que falar inglês me coloque numa boa posição na indústria de vendas de CDs piratas na praia

Talvez por esse reconhecimento de minha própria ignorância, eu respeito absurdamente os profissionais de saúde que já chegaram mais longe que eu academicamente. Se o cara conseguiu convencer uma universidade E o órgão regulador local que de fato manja dos paranauês da medicina, não sou eu quem duvidará de seu conhecimento.

Entretanto, existem alguns mais leigos que acham que de fato manjam mais que médicos. E foi o caso de uma amiga minha hoje no Facebook.

Em seu textão, a garota mandava uma hipotética carta aberta para todo o sistema público de saúde da região. Sua principal reclamação era a pergunta “há chance de que você esteja grávida?” que seu médico teria feito durante um exame para descobrir a origem de uma dor nas costas. De acordo com minha amiga, isso é desrepeitoso e machista, porque “o médico está fazendo perguntas completamente irrelevantes que me reduzem ao meu sexo!”

Ok, posso estar com uma dificuldade sobrecomum pra dominar a farmacodinâmica das drogas que damos aos nossos pacientes, mas se tem uma coisa que eu já tou manjando são os protocolos de diagnósticos. Tentei explicar pra minha amiga que existe um “script” de perguntas que fazemos pra pacientes, especialmente no caso dela (dor nas costas).

Pra eliminar algumas possibilidades, fazemos uma série de perguntas padronizadas — se o paciente tem alergia a alguma coisa, se toma algum remédio no momento, se já foi hospitalizado por algum momento, se notou alguma diferença recente nas fezes ou na frequência de evacuação… e uma dessas perguntas, feitas a qualquer paciente mulher entre 14 e 45 anos, é se existe a possibilidade de que ela esteja grávida.

Gravidez frequentemente é capaz de causar certos sintomas antes mesmo que a paciente descubra que está grávida — e de fato, muitas descobrem justamente ao ir num médico examinar tais sintomas. O médico não estava sendo machista nem coisa do tipo, ele estava usando uma série de perguntas pra eliminar possíveis causas da dor, e com isso bolar um tratamento. Por motivos óbvios, possível gravidez precisa ser confirmada, e o tratamento para uma gestante de 25 anos é diferente daquele recomendado a um homem de 50 anos, por exemplo. A gente precisa saber desses detalhes.

A garota continuou irredutível, dizendo que o médico estava “insinuando que ela seria promíscua” (sério, a menina realmente falou isso), que não tem nada a ver perguntar se ela estaria grávida “porque nem namorando eu estou”, e “se eu estivesse grávida, você não acha que eu já saberia e já teria mencionado? Não sou uma idiota”.

Eu continuei, pacientemente, tentando explicar pra garota que o seu médico não tentou insinuar nada sobre sua vida sexual ou coisa do tipo. Expliquei que ao contrário do que ela alegava, sim, às vezes o paciente pode sentir dor em um local além daquele que está realmente gerando a dor. Ela ignorou isso completamente e continuou usando como “prova” da má vontade/ignorância do médico o fato de que não faria sentido perguntar sobre gravidez se a dor nas costas “nada tem a ver com meus genitais”.

igno

Fig1: Ignorância plena

Em um determinado momento eu cansei de tentar explicar o motivo pra pergunta (ela focou na teoria de que o médico estava insinuando que ela era uma “vagabunda qualquer”) e eu sugeri que ela expressasse seu incomodo ao próprio médico, e ela veria que a explicação dele seria a mesma que a minha.

Minhas explicações à garota começaram a acumular likes, o que ela deve ter percebido com um certo incômodo/vergonha. Nesse ponto a história mudou — o médico não perguntou se ela estaria possivelmente grávida, ele teria perguntado com desdém “tem certeza que não é só uma TPMzinha? rs” e se recusado a dar qualquer tratamento.

Nesse ponto eu vi que a garota não estava disposta a considerar que xingou seu médico publicamente na internet a troco de nada, por ignorância, e desativei as notificações do tópico. Esse textão dela combinou duas coisas que me incomodam muito — esse berro de “MACHISMO!!!” com tons de caça às bruxas/Medo Vermelho McCarthyísta (ou seja, uma acusação frequentemente vazia, movida por motivações dúbias, e da qual é muito difícil de se defender sem ser atacado por uma turba sanguinolenta), e gente ignorante que acha que sabe mais que profissionais de saúde.

Eu pelo menos admito abertamente minha burrice.

scroogled

“Don’t get Scroogled”

Na época da guerra dos consoles de 16 bits, zoar abertamente a competidora era uma estratégia marketeira lugar comum até — e que resultava num sentimento fanboy acirradíssimo em defesa da sua marca predileta. Ou seja: era uma doutrinação que dava muito certo se você parar pra pensar.

A Sega apostou suas fichas no bordão “Genesis Does What Nintendon’t“, um trocadilho meio infame mas se você considerar que o público alvo era uma molecada de 10 anos, tava bom até demais. Hoje podemos revisitar as farpas da Sega em inúmeros comerciais em que ela esculacha diretamente os consoles da competição:

E neste outro, eles satirizam o display monocromático do Game Boy:

Então. A indústria dos games amadureceu e com exceção daqueles comerciais vergonhosos do PSP em que a Sony tentava zoar quem jogar em celular, esse tipo de estratégia de marketing foi mais ou menos abandonada.

Aí a Microsoft me aparece com essa:

O comercial é uma reinterpretação de programas americanos de reality TV como o Pawn Stars — e de fato, os dois malucos do vídeo são os caras do próprio programa. Pra quem não sabe, essas pawn shops são essencialmente lojas de penhores, e nesse programa os caras avaliam as tralhas que levam pra eles. Parece bem desinteressante porque na real, é uma premissa bem desinteressante mesmo.

Na propaganda, uma garota leva um Chromebook pra oferecer aos caras, na esperança de vende-lo pela quantia suficiente pra viajar pra Hollywood. Os caras então descontroem o Chromebook, apontando os problemas inerentes num computador cuja premissa é “você só pode fazer algo de útil nele quando está online” (um argumento que pode ser razoavelmente estendido pra qualquer computador na minha opinião, mas enfim), e que “não é um computador de verdade” porque não tem Windows e Office.

Servindo como um bom exemplo da máxima “não é O QUE você diz, é COMO você diz“, o comercial não fala nenhuma inverdade sobre o Chromebook, pra ser sincero — porém, o tom é condescendente do começo ao fim, e naturalmente a reação da internet foi imensamente negativa. Olha quantos dislikes essa propaganda recebeu.

Sem contar a ironia de usar um serviço DO GOOGLE pra reclamar dos serviços DO GOOGLE, né.

Ê Microsoft…

brasilia sitiada

Usei dois termos em inglês no título porque sou babaca mesmo. E também porque não consigo pensar em termos equivalentes na nossa língua brasileira.

Então, né. Vocês que estão aí perto da coisa estão acompanhando muito melhor que eu. O povo saiu às ruas de uma forma generalizada que eu não lembro de ter visto em memória recente. Falta uma direção clara nos protestos (essa é de fato minha única insatisfação com o movimento), e nessa ausência de liderança clara e de objetivo tangível os protestos começam a ser cooptado por certos partidos políticos — ao claro contragosto da maioria dos manifestantes.

E a galera do contra começa a “sair do woodwork”, também. Woodwork nada mais é que um elemento da construção civil que não existe no Brasil por sermos abençoados por um clima decente, ao contrário da galera aqui de cima. As casas aqui são sanduíches de madeira, gesso (dry wall é o termo exato) e espuma, que ajuda a isolar a casa termicamente.

E o tal “woodwork”, ou seja, as estruturas de madeira que dão suporte às paredes, ficam escondidas. Dizer que algo está “saindo do woodwork” (“coming out of the woodwork”) significa que algo está aparecendo do nada, surgindo de surpresa. Entenderam?

Então. A galera reacionária começou desde cedo a opinar sobre a situação, e evidentemente chamam a atenção à “trivialidade” dos 20 centavos de aumento da passagem de ônibus, que foi o catalizador da insatisfação.

Um dos textos que li sobre o assunto foi um post no Facebook do ilustre Flavio Morgenstern. Conheço pouco sobre o cara, mas os textos que já li dele mostram que no mínimo o cara manja pra caralho da comunicação escrita. Eis o texto que ele escreveu sobre o que está acontecendo — e nele, penso que ele sintetizou o que boa parte da galera que é contra as manifestações pensa, a julgar pelo número de compartilhamentos e joinhas no post.

Foi a gota d’água na garganta do brasileiro! Agora que o foco é qualquer coisa, “o gigante acordou”!
A verdade é que eu nem pisco pra 50 mil homicídios por ano, quando a caracterização de guerra civil é em 10 mil. Eu tolero R$ 1,5 trilhão em impostos também por ano ano, o que nos deixa mais ou menos com 30 fodendo MILHÕES de reais para evitar CADA homicídio nesse país.
Eu tolero mensalão, PEC 37, transformar o STF em escritório de advocacia do PT (Toffoli, Lewandowski, Rosa Weber e Barroso lá nem fazem diferença, mesmo). Eu tolero o salariozinho de merda até de deputado que não é corrupto.
Eu agüento no rabo impávido e colosso que tudo o que custa US$ 10 na América aqui saia pela bagatela de 80 mangos, mas é tudo para proteger os pobres e fazer distribuição de renda com impostos, porque certamente estamos diminuindo muito a desigualdade social fazendo com que só rico possa ter carro importado, enquanto o pobre tem de usar ônibus cartelizado pelas únicas empresas cupinchas da prefeitura (ou seja, do prefeito), financiando ainda mais os bolsos do Estado.
Aliás, também tô cagando e andando um torosso federal pro preço da gasolina, mais cara da América Latrina e uma das mais caras do planeta. Isso tudo porque eu amo a Petrobras e engulo ao invés de cuspir a litania de que ela é “do povo”, ainda mais pra dar uma rouanetada e projetar a “cultura”, porque gente é o que inspira a gente (mas só quem se favorece é grande “artista” – o petróleo não é nosso, é do Tico Santa Cruz e da Maria Bethânia), mesmo que, quando eu vá no posto, dizer que o petróleo é meu só faz o frentista me mandar alargar meu anel rugoso.
E meu hímen complacente também agüenta fundo que esfarelem qualquer proteção que o indivíduo tenha contra o governo, que aceitem cortes internacionais aumentando o poder com uns vizinhos maravilhosamente democráticos como os nossos, porque sei que o comunismo já era, e assim que caiu o Muro, 100% dos que acreditam em Marx no mundo se convenceram de que aumentar o poder do Estado não vale a pena da noite para o dia.
Sobretudo, eu suporto no cangote sem chiar que nossa cultura não mereça senão as duas primeiras letras, que sejamos o único país no planeta em que a literatura não espelhe em nada a realidade atual, que tudo o que se diga seja sobre a ditadura militar, que os estadunidenses malvados estão nos manipulando e tudo se resolverá com mais educação, mesmo que eu não saiba o que cazzo se ensina numa faculdade de pedagogia.
E eu não movo uma palha contra gente concentrando o poder e me obrigando a trabalhar até maio todo ano para financiar suas mordomias e têm passagens semanais pagas porque ninguém agüenta viver na soviética Brasília, enquanto uma viagem de avião custa o preço de um rim em aeroportos que só não causam mais acidentes por milagres, e mesmo quando matam centenas de pessoas de uma vez enquanto jornais governistas dizem para mim no dia seguinte que a pista estava em ótimas condições, eu só vejo nisso um motivo para falar “chupa, Jornal Nacional!”
E o que são 60 mil mortes no trânsito por ano, senão acidentes de percurso? O que é a inflação, senão um fato da vida, que um governante nunca, sob nenhuma hipótese, iria causar para financiar seus gastos luxuosos sem precisar aumentar impostos, e depois pedir voto dizendo que a inflação tá difícil de controlar, mas vamos vencer esse mal terrível fazendo o dinheiro do pobre valer menos que papel higiênico usado? Eu nem sei que o preço do tomate aumentou 150% em um mês, porque minha consciência política é de poder popular de Vila Madalena, e nunca fiz feira uma única vez na vida.
E estou me lixando para termos uma maioridade penal cabível talvez no Paraíso muçulmano enquanto assassinam 3 pessoas incendiadas porque elas não tinham dinheiro o suficiente e ainda compro uma verborréia mela-cueca de que a culpa dos assaltos é dos assaltados, invertendo sempre sujeito e objeto e culpando a classe média e outras generalidades da qual eu mesmo faço parte. Isso dá para suportar numa boa, afinal, querer mudar isso é coisa de fascista extremista.
Mas aí aumentam o preço da passagem de ônibus em R$ 0,20 e o PSTU organiza um protesto, toma um spray da PM depois de explodir uma bomba no metrô e vandalizar a cidade inteira e agora está todo mundo contra tudo isso que está aí.
Aí não deu para agüentar. Foi a gota d’água. O gigante agora acordou e vou protestar exatamente quando o PSTU me mandar, porque minha consciência política vai mudar o mundo e os governantes vão finalmente me temer.
Agora é muito mais do que R$ 0,20 centavos e serei completamente apartidário, porque sei colocar a importância das coisas em perspectiva. Foi a gota d’água.

Eu achei que a essa altura todos estariam perfeitamente educados sobre o movimento pra não mandar mais a falácia do “mas tudo isso por 20 centavos, mimimi, que bobagem!”, e aparentemente estou errado porque esse post do Flávio foi de ontem.

A questão realmente não é nem essa; o problema que eu tenho com esse texto é que o argumento central é “se vocês não fizeram nada por causa das injustiças X, Y e Z, não podem fazer mais nada de agora em diante”. Soa como birra, como capricho de criança — ahhh vocês não aderiram às causas que EU acho mais importantes? Não importa que essa revolta também reinvindique por muito daquilo que eu espero do governo. Agora eu não quero mais. Ou tinha que ser quando eu queria, ou então nada. Me dá a bola e eu voltarei pra casa.

É uma pena que o catalizador da revolta tenha sido o tal aumento de passagem porque evidentemente alguns (muitos?) vão desmerecer toda a mobilização só por causa disso.

Como se o aumento de 20 centavos por passagem, multiplicado por 2 (a ida e a volta), vezes 5 dias por semana, vezes o número de familiares cujo transporte o pai trabalhador precisa custear fosse mixaria. Queria saber se as pessoas que julgam esse aumento trivial estariam dispostos a doar, todo ano, mais ou menos trezentos reais para uma família aleatória (com hipotéticas 3 pessoas que dependem do transporte público) cuja renda foi afetada com o aumento. Enquanto não há melhoria alguma no tal transporte.

Meu problema real com a manifestação é mesmo a falta de liderança, de reinvindicações claras. Há muito ruído e pouca mensagem. Querem o que, “acabar com corrupção”? Isso todos queremos (embora seja literalmente impossível). Sem um objetivo claro, como poderá haver mudanças…? Sem contar que a falta de foco permite que organizações se apossem do movimento.

Já tenho visto por exemplo montagens da bandeira nacional com versículos bíblicos, batendo na tecla do envolvimento de religião com política que historicamente só dá merda.

Mais importante que o impeachment da Dilma, que vi muitos pedindo — o Brasil ficou uma beleza quando chutamos o Collor? Acho que não, viu –, é estabelecer no Brasil a cultura de que não deixaremos esculhambações passarem em branco. Isso sim é uma mensagem um pouco mais poderosa e direta. Por exemplo: imagine se víssemos manifestações iguais ou em maior escala sempre que um político corrupto é absolvido pelos amiguinhos de rabo preso. Ou quando estes mesmos tentam aumentar o próprio salário.

Talvez, com alguma sorte, estabeleceria-se a impressão política de que é melhor não fazer essas coisas porque o povo vai tocar o puteiro. De repente eles pensariam duas vezes antes de fazer certas coisas.

E no final das contas, isso talvez seja o melhor resultado dessa confusão toda. Por mais que a turma reacionária se oponha e bata o pé, diga que é apenas por causa de 2 moedinhas de 10 centavos, se isso servir pra acabar com a nossa histórica apatia política foram vinte centavos riquíssimos.

Há muitos anos eu estava lendo a revista SuperInteressante (uma influência importantíssima na minha criação nerd) e vi uma matéria que falava sobre o real “formato” do corpo humano, se fosse proporcional às terminações nervosas que nos dão a capacidade tátil que torna possível você se masturbar aí solitariamente neste Dia dos Namorados:

corpo humano

Aliás, não, não tem nada a ver com terminações nervosas e sim com quanto “processamento” o cérebro dedica para a interpretação sensorial dessas partes do corpo. O nome dessa imagem é “homúnculo sensorial”, aliás.

Repare o tamanho das mãos e dos lábios. Em relação às outras partes do nosso corpo, eles são super-sensíveis, e o cérebro dedica muita energia pra interpretar os estímulos que eles recebem (E não, eu não sei porque a piroca ocupa um espaço tão relativamente pequeno).

Esse conceito me lembra também um bicho esquisito chamado “star-nose mole”, ou “topeira com nariz de estrela” numa tradução livre. Olha a foto dessa desgraça:

star nose

Essas 22 mini-piroquinhas que esse bicho tem na fuça servem pra dar à topeira, que é virtualmente cega, uma capacidade sensorial invejável. Esses tentáculos aí tem mais de 25 mil terminações nervosas, que é (de acordo com algumas fontes) 5 mil terminações nervosas a mais que as encontradas no pênis humano. A diferença é que o pênis humano convencional tem o tamanho dessa topeira aí, ou seja — nela, essas 20 mil terminações nervosas estão concentradíssimas num espaço minúsculo. Imagina o quão sensível esse membro da topeira é.

Por que estou mostrando isso pra você? Porque ultimamente estive pensando num fenômeno interessante que acontece na internet: a hiper-sensibilidade internética.

Você já notou que é muito fácil ofender pessoas na internet, né? Aliás, é fácil nós mesmos nos ofendermos na internet. Eu, por estar numa certa posição de visibilidade e ser consideravelmente filho da puta, me sinto ofendido diariamente quando alguém resolve me xingar na internet.

Eu acho a Internet, por promover tantos relacionamentos intangíveis (tenho inúmeros excelentes amigos que nem conheço pessoalmente, por exemplo — e inimigos, também), nos faz exagerar no lado emocionado da coisa. Um broder disse recentemente que tudo que você acha que sente na internet deveria ser dividido por 1000 — “se alguém diz que te AMA, no máximo te daria uma carona caso sua casa estivesse no caminho”, ele teorizou

E alguém que se comporta como te odiasse, os tais “haters” (alguns que chegam até mesmo a falar isso e/ou prometer ameaça física se um dia te visse por aí) no máximo sentem uma leve insatisfação com você, e nada mais.

É que no mundo real, regido por regras e interações mais tangíveis, esse tipo de coisa fica abaixo da superfície. Somos obrigados a agir como indivíduos adultos e razoáveis. Se alguém te incomodou um pouco você faz um comentário e segue com a vida. Seria estranho passar dias insistindo na sua insatisfação com alguém que mal sabe que você existe, né? Perpetuamente falando mal da pessoa, indo atrás de saber o que ela está fazendo, esse tipo de coisa seria vista no mundo real como obsessão quase criminosa.

Já na internet, a intangibilidade promove a hiper-sensibilidade. Uma desavença trivial e sem consequências faz com que alguns dediquem tempo e energia stalkeando um desafeto com quem ele simplesmente discordou numa rede social uma vez.

E você aí achando aquela topeira um bicho estranho. Estranhos somos nós.

Um negócio que tem me chateado há algum tempo é o fato de que eu me distanciei pra caralho dos meus amigos daqui de Calgary.

Quando cheguei aqui em 2007, arrumei um empreguinho qualquer num Wendy’s. Este aqui, aliás:

Um fenômeno curioso aconteceu: apesar do fato que o emprego era uma bela bosta, eu só consigo lembrar daqueles tempos com nostalgia. Eu fiz muitos amigos lá, e as constantes presepadas com os amigos no trabalho faziam as horas virando hamburgers passarem mais rapidamente e com menos danos à minha psique e auto-estima. Tinha um broder meu lá, por exemplo, que encenava um stand up INTEIRO do Dave Chappelle (fazendo a voz do comediante e tudo), era muito excelente.

Olha o tipo de palhaçada que a gente fazia lá:

YouTube Preview Image

(Sim, eu filmei esse vídeo. E o cara que dá o tapa nas batatas fritas é meu irmão)

E tem esse aqui também, inspirado na série “Speed Cooking” que você pode encontrar no seu youtube mais próximo:

YouTube Preview Image

Meu irmão (que encena novamente esta produção; é ele que aparece deslizando de barriga num dos carrinhos usado pra transportar materiais) veio a se tornar o gerente da porra do restaurante. Calcule.

Enfim, minha euforia por ter encontrado um grupo de amigos tão bacana me levou inclusive a fazer esse videozinho aqui:

YouTube Preview Image

Só que uma coisa curiosa aconteceu nos 4 anos após a produção desse vídeo: praticamente TODOS os broders se distanciaram. Todos arrumaram outros empregos, foram pra faculdade, desenvolveram outros círculos sociais e, em situações mais tristes, alguns passaram a se odiar abertamente. Tem uns 2 ou 3 nesses vídeos acima que não vão com a minha cara de jeito nenhum — e a recíproca é verdadeira aliás.

Reassistir esse vídeo sabendo disso me dá uma tristeza desgraçada, aliás, porque no final das contas esse tom meio melancólico do vídeo se torna praticamente profético.

E isso é foda porque a partir de uma certa idade é bastante difícil fazer novos amigos. Mas a internet, como sempre, veio ao meu resgate.

Pra quem não conhece, o Reddit é um dos maiores sites colaborativos do mundo. É a fonte de TUDO que você vê no 9gag e, por extensão, do que você vê nos blogs brasileiros de humor.

Fiquei sabendo recentemente que o Reddit tem áreas (chamadas de “subreddits”) dedicadas a cidades. Encontrei o subreddit de Calgary e comecei a bater papo com o pessoal lá. Essa turma se encontra de vez em quando, então resolvi ir lá encontrar com eles.

E foi uma das melhores decisões que fiz. Imagina conhecer uma cambada de nerds que tem mais ou menos os mesmos interesses, o mesmo senso de humor, o mesmo vício pela internet e pela cultura paralela internética (rage faces, etc)?

Essa turma tem encontros praticamente TODO DIA (hoje mesmo tem um, ao qual infelizmente não posso comparecer porque trabalho hoje, e amanhã tem outro também). Olhaí as fotos da última festa que fui deles:

Esses são os nerds mais gente boa que já conheci. Eu e a patroa, que somos totais novatos, fomos recepcionados de braços abertos. Mal cheguei e já perguntaram meu nome, me deram aquelas etiquetinhas de identificação pra colar na camiseta, me ofereceram comida e birita e foram me apresentando aos outros broders.

Numa sala rolava um campeonato de Mario Kart 64, em outro jogavam um drinking game baseado em pokemon, no porão tinha um maluco fazendo as vezes de DJ e fazendo as paredes da casa vibrar com ajuda de Skrillex e DeadMau5. Na cozinha tinha uma galera se desafiando a bolar as combinações mais esdrúxulas de bebidas alcólicas.

Neste fim de semana é o Saint Patrick’s Day, e vão fazer um kegger (que é um evento que o Urban Dictionary descreve como “A party at which an immense amount of beer is available”.) Essencialmente um maluco compra vários BARRIS de cerveja e a parada fica disponível a todos os convivas no estilo self-service. Nem JESUS CRISTO ofereceu tanto álcool numa festa e olha que ele podia transformar qualquer copo dágua numa birita!

Como sempre, aguardem fotos.

Se você está na internet, você já deve ter visto algum conhecido choramingando nas redes sociais sobre os comentários de Carlos Nascimento, um jornalista que até onde eu lembro trabalhava na Globo. Vou facilitar pra você, clicaí:

YouTube Preview Image

Meio revoltado com a atenção absurda que o recente Estuprogate do Big Brother e da história do “menos Luíza, que está no Canadá” receberam pelo país de modo geral, Carlos satiriza a frase-bordão e em seguida editorializa que o Brasil “já foi mais inteligente”.

Evidentemente, o brasileiro (you know, aquele povo bem humorado que leva tudo na esportiva) se ofendeu sobremaneira.

E sabe duma coisa? Eu discordo do repórter.

O Brasil é um país que elege o Tiririca e o Collor (este último DUAS VEZES), que permite um sujeito como MC Créu a ter uma carreira de “artista”, que catapultou uma garota como a Geisy Arruda à fama nacional por hostilizar sua escolha de vestuário tal qual uma turba insandecida durante a Idade Média, que preenche “ensino médio completo” num formulário que pergunta onde se formaram, que reclama das artimanhas de Brasília mas não pensa duas vezes antes de tirar vantagem de alguém, que põe o Sarney na Academia Brasileira de Letras. Eu poderia continuar, mas você entendeu meu ponto.

O erro do Carlos Nascimento foi nos dar crédito demais ao achar que a Luizamania foi o ponto mais baixo do nosso quoeficiente intelectual coletivo.

Vocês deviam é agradecer o sujeito, porque na real ele nos elogiou.

A PROPÓSITO: o Carlos Nascimento está surpreso e decepcionado porque vê milhões de brasileiros repetindo papagaiamente um bordão sem graça? Imagino que ele não deve ter morado no Brasil na época do “não é brinquedo não!” ou “Ó COITADO!” ou “Isso é haram” ou qualquer outro meme babaca produzido por programa de TV/novela.

Como falei no começo: se ele julga como sinal de inteligência prévia o fato de que papagaiar bordões jamais aconteceu antes, calcula-se então que nunca houve tal inteligência prévia.

Estava eu um dia desses qualquer espalhando alegria pelo tuíter quando um jovem rapaz juvenil me manda a seguinte missiva:

Não é a primeira vez que vejo no tuíter um garoto que deveria estar treinando pokemons lamentando-se do fato de que embuchou a namoradinha. Cocei a barba, pensativo, porque esse é um dos grandes motivos pra se manter uma barba. Nunca desperdiço uma oportunidade de ponderar alguma questão enquanto acaricio a barba.

Óbvio que no meu tempo também havia gravidez indesejada de adolescentes vacilões, mas não no volume que parece acontecer hoje. A MTV até bolou um programa que glorifica essa merda, o 16 and Pregnant.

Eu estava confabulando sobre o fenômeno com colegas da minha faixa etária e creio que descobrimos o motivo pelo qual as gravidez adolescentes estão em alta: de acordo com meus comparsas, não existe mais “aula” de educação sexual nos colégios.

Digo “aula” com as famosas aspas sarcásticas porque na real aquilo não era aula. A moçada mais velha deve lembrar da atividade.

A coordenadora reunia toda a galera do ensino médio (ou seja, os mais prováveis fornicadores) no auditório e nos informava que daria início a uma sessão de educação sexual. Quando a turma parava de rir, começava um verdadeiro show de horrores em formato de slides.

Isso aqui é cancro mole“, dizia a coordenadora enquanto exibia um slide de uma piroca toda arrebentada. A molecada gemia em uníssono, sem dúvida imaginando aquela estrovenga moribunda como a sua própria. “Já pensou, cara? Puta que pariu!”

A mulher então esperava que o horror daquela imagem se queimasse permanentemente nas nossas retinas e continuava, “e este aqui é a gonorréia”. O dedo clicava no controle remoto e o projetor exibia outra imagem de um piru completamente estourado. A molecada até berrava de terror nesse momento.

Sentindo-se satisfeita, a mulher clicava o projetor mais uma vez. Uma traumatizante vagina escancarada e cheia de pus e perebas na tela. “Isso é o resultado de herpes. Tem que tomar cuidado, sexo é perigoso!”. Certeza que muitos voltaram pra casa naquele dia decididos à dedicar a vida ao celibato punhetístico.

E isso pra não mencionar a pior DST de todas: gravidez.

No meu caso, eu fui criado em lar evangélico. Sexo era visto como tabu total pela comunidade cristã (só se podia fazer amor com intuito explícito de procriação, e completamente vestidos, no escuro, utilizando um lençol com um buraco no meio, e sem olhar um pro outro), então desde moleque eu já tinha um certo medo da coisa. Eu achava que Lúcifer em pessoa viria a este plano de existência roubar minha alma se eu sequer pensasse em coabitar premaritalmente.

Lembro quando uma das primeiras namoradinhas começou a planejar nossa ida a um motel para finalmente consumar o ato físico do amor (ou seja, fodelância pecaminosa), eu estava com um pé atrás. Ou seja, quando moleque eu já fui programado para temer interações sexuais por medo de perder minha alma; imagina então quando me dizem na escola que minha piroca pode explodir como resultado de uma inocente trepadinha.

É, amigos. Por causa dessas terríveis fobias só fui perder a virgindade muitos anos após as primeiras oportunidades aparecerem. Por um lado me arrependo de ter recusado tanta menininha atiçada; por outro, me sinto aliviado de não ter pego perebas e/ou colocado meninos nesse mundo maldito.

Um grande amigo meu encontra-se naquele terror clássico da menstruação atrasada da periguete que ele andava amassando. Sim, “amassando”. Tenho muita classe.

Esse meu broder chega no MSN desesperado, relatando que a menstruação da garota atrasou quase um mês já. Obviamente o rapaz me contava a história esperando que eu dissesse algo como “calma cara, pode não ser nada ainda, vai que ela nem está grávida…”. Queria que o amigo contasse pra ele exatamente o que ele queria ouvir.

E evidentemente não fiz esse favor. Acredito na honestidade brutal. Quando o cara me perguntou o que eu achava da situação, falei apenas:

Obviamente meu colega se chateou do meu prognóstico da situação, mas fazer o que? Ele deveria ter prestado atenção naqueles slides lá.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...