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Como eu me perdi numa cidade do interior maranhense (de cueca e sem dinheiro): uma aventura carnavalesca

Postado em 11 February 2018 Escrito por Izzy Nobre 6 Comentários

(Durante o Carnaval, acessos à internet despencam mais do que bebum na sarjeta durante a passagem do bloco. Mas eu não queria deixar o HBD completamente desatualizado durante o fim de semana inteiro, então resolvi plagiar a mim mesmo, repostando aqui um dos maiores clássicos do site — e que é extremamente relevante ao feriado.

Como o HBD está num momento de revival, e atraindo inúmeros leitores que nem sabiam que eu tinha site, faz sentido apresenta-los ao acervo histórico aqui do site. Divirtam-se!)

Ao passear no tuíter, percebo que estou rodeado de nerds misantropos paga-paus da América do Norte que alegam “odiar o carnaval”. Eu até compreendo esta mentalidade; quando eu tinha lá meus 16 ou 17 anos e me identificava como “metaleiro”, andava por aí com camisetas pretas e cara fechada, e carteira atada à calça via corrente, eu também tinha essa opinião.

Entretanto, bastou uma viagem de carnaval para mudar totalmente minha opinião sobre este excelente feriado nacional. Apesar de eu me foder inacreditavelmente nessa história, a lembrança dos bons momentos carnavalescos sobrepujaram a negatividade. Como você pode ver pelo título deste post, eu tenho TODOS OS MOTIVOS pra odiar carnaval, e no entanto tenho muita saudade desse fenômeno cultural.

E contarei esta história para você hoje.

Voltamos ao longíquo ano de 2002. Caralho, já faz mais de uma DÉCADA que essa porra aconteceu. Me sinto velhíssimo.

Na época eu namorava uma garota chamada Priscila; Priscila e suas amigas/primas tinham o hábito de passar o Carnaval em cidades do interior do Maranhão. Eu, como ex-crente e “atual”  metaleiro, passei a vida inteira sem o menor apreço por tradições carnavalescas. Jamais havia participado de nada do tipo, e realmente não fazia questão. Se existisse tuiter naquela época, lá eu estaria falando mal do Carnaval.

Entretanto, a promessa de uma viagem libidinosa como aquela, sem nenhum “adulto” por perto, dormindo no mesmo quarto que a namorada, convenceu-me.

Dois grandes amigos meus, a Renata e o Panda (atualmente casados, e com uma linda filhinha que creio ter sido concebida justamente naquele carnaval, veja só você!), juntaram-se à caravana. Fizemos uma vaquinha para alugar a casa do vizinho do primo do cunhado do ex-colega de faculdade do pai da minha namorada, ou algo assim.

Evidentemente, o pai da menina não sabia que as garotas estavam trazendo dois marmanjos com elas. Era algo a se manter em segredo, evidentemente.

No dia marcado, a galera se encontra na rodoviária de São Luís, com destino à pacata cidade de Itapecuru Mirim. Olhaí:

Percebo agora que é uma pena que não existiam celulares com câmera naquela época; o registro fotográfico muito enriqueceria este relato. Aliás, creio que ninguém da nossa turma sequer tinha câmeras convencionais!

Então. A galera se reuniu na rodoviária e rumamos em direção à cidadezinha de Itapecuru. Esta viagem reforçou em mim meu amor por cidadezinhas pequenas do interior nordestino, onde passei boa parte da minha infância em viagens com a família. Jamais moraria em um (gosto da agitação da cidade grande), mas gosto muito do ambiente bucólico dessas pequenas cidades.

Chegamos na casa, desempacotamos nossas tralhas, nos revezamos para tomar banho num daqueles banheiros que só uma casinha pequena de cidade interiorana dedicada a aluguel sazonal proporciona (do tipo em que o chuveiro nada mais é que um cano de PVC brotando da parede), e todo mundo se espalhou pra explorar a cidade. As primas/irmãs foram ver amigas locais, Panda e Renata foram fazer sei lá o que — passear na pracinha? –, e a namorada me levou pra comer num restaurante bacana da cidade. De forma quase maternal, ela falou algo que ouvi muito em minha infância quando meus pais precisavam me convencer a ir num restaurante novo:

Você vai gostar, eles têm batata frita!

Devo dizer aliás com uma certa melancolia que aqueles dias passados inteiramente do lado da namorada, um pequeno vislumbre da vida de casal que vivo atualmente com minha esposa, foram muito legais. A tal Priscila me odeia atualmente, vá entender, já que ELA que me chifrou. Uma pena, pois eu gostaria de poder manter um relacionamento cordial com ela, como matenho com outras ex. Pra alguém que gosta de preservar o passado, como eu, o contato com pessoas que viveram o outro lado da história é bacana.

Mas, continuando a história! Fomos ao restaurante, e lá comi as prometidas batatinhas. À noite, festejamos junto ao trio elétrico. Não bebi uma gota sequer de álcool (nunca fui de beber muito; mesmo atualmente, eu bebo muito pouco, só em situações sociais mesmo), e nem gostava daquele estilo musical, mas me diverti pra caralho. Não há como não se divertir numa viagem com namorada e amigos, a menos que você já esteja naquele ponto do relacionamento em que a convivência com a pessoa é um fardo.

Voltamos pra casa mais ou menos às 3 da manhã. Tive apenas a preocupação em tirar as roupas suadas, e caí na cama ao lado da mulher de cueca. Não restaram forças nem para completar a pecaminosa celebração da festa mundana que é o Carnaval com fornicação pré-marital.

Poucas horas mais tarde, mais ou menos às 8 da manhã, acordo com a mulher batendo na minha cara vigorosamente. “ACORDA! ACORDA!”, ela sussurava em desespero.

Finalmente vim à tona. Confuso, perguntei o que diabos acontecia. Ouvi à distância batidas na porta da frente da casa. Uma voz abafada chamava minha mulher lá da rua. Mesmo sob a névoa da confusão de quem acaba de acordar, eu comecei a entender o que estava acontecendo. A namorada falou as mais temidas cinco palavras da língua português para um jovem rapaz de 18 anos, depois de “minha menstruação atrasou, e agora?”:

“MEU PAI TÁ LÁ FORA”

Ao nosso lado, Renata já havia acordado Panda, que estava na mesma confusão e desepero que eu. As batidas na porta continuavam, e Priscila percebeu que precisava responder o chamado.

Tou indo, preciso só me vestir!” ela berrou na direção da porta. Não era inteiramente uma mentira, eu pensei, embora não nos rendesse muito tempo para formular um plano de fuga.

Tentei vestir-me apressadamente, ainda sem saber o que faria. Percebi no meio do caminho que havia vestido o shortinho que minha namorada havia usado na noite anterior; despi-me apressadamente. A menina já tinha enrolado o pai por muito tempo e decidiu que era hora de abrir a porta. “Se escondam!” ela falou, creio que sem muita fé na nossa habilidade de se esconder num casebre de 60 metros quadrados.

Ainda de cuecas e sem saber o que fazer, eu e Panda corremos para os fundos da casa, pensando em nos esconder lá enquanto o pai da mulher visitava a casa. Era um plano de merda, mas o que você faria?

Priscila abre a porta, e pelos sons entendo que o pai da menina não estava sozinho: ele havia trazido seu irmão (ou seja, pai das outras meninas na casa), seu filho, e a mãe. E pelo tom da conversa, não era uma visita breve: ele planejara passar o dia lá.

Fodeu, maluco“, eu disse pro Panda. “A gente vai ter que ficar aqui no quintal o dia inteiro!

Mas a situação estava prestes a piorar. Enquanto esperávamos em total silêncio num cantinho do quintal, ao lado do tanque de lavar roupa, o pai da menina diz que tá com fome, dando indicação que iria à cozinha em breve investigar o conteúdo da geladeira. O problema é que nosso fenomenal esconderijo era perfeitamente visível da cozinha.

Panda olha pra mim, com total terror em seu rosto, esperando que eu desse um jeito na situação. Ele era mais “convidado” na casa que eu (afinal, eu tinha uma conexão maior com os anfitriões da viagem), então talvez na cabeça dele eu devia ser o encarregado de resolver a merda.

Se o velho resolvesse ir à cozinha, não haveria como se esconder. Precisávamos sair de lá com urgência, mas passar pela casa era totalmente fora de cogitação. Estando eu de posse de 0 perucas, a idéia cartunesca de se disfarçar de amigas da namorada era também impraticável.

Sobrava apenas o muro do quintal; seus tijolos semi-quebrados e reboco esfarelando só de olhar nos tentando com a possibilidade de fuga.

Não tinha outra solução. Pensei sem meus botões (afinal estava praticamente pelado) “puta que pariu, eu não acredito que estou fazendo isso” e disse pro Panda que o jeito era pular o muro mesmo. Ele olhou pra mim, olhou pro muro, e nem pensou duas vezes: saltou-o, deixando-me para trás. Panda sempre foi um cara mais preparado para mudanças que eu.

Corri esbaforido atrás do meu companheiro de viagem e pulei o muro também.

O chão do outro lado era mais baixo que o chão do quintal da casa das meninas, então eu me fodi todo ao cair em cima de um caixote de madeira que explodiu ruidosamente embaixo de mim. Creio que Panda, com mais habilidade atlética, havia usado-o para descer cuidadosamente do muro. Eu, que ainda nem era gordo na época, desci seguindo a lei universal de que gordo só faz gordice.

Encontramos-nos no quintal da casa aos fundos, totalmente tomado por um matagal espesso, sem ter a menor noção de pra onde ir dali em diante. Enquanto tentávamos orquestrar um plano, uma velha bastante coroca surgiu na porta dos funtos da casa que acabávamos de invadir. Ela percebeu a movimentação nos fundos do seu quintal, e apertou os olhos na nossa direção, tentando entender o que diabos era aquilo.

Comecei uma prece silenciosa.

Senhor Jesus Nazareno do Cristo, sei que há muito tempo não nos falamos. Sou eu, o Israel, filho da Flor e do Felipe, beleza? Eles são seus broders então me sinto na liberdade de pedir um favor. Essa mulher já tá nas últimas mesmo, então se você tava planejando dar-lhe cataratas, olha, eu não quero me impor nem nada, mas eu acho que agora seria uma hora boa“.

A mulher cerrou mais ainda os olhinhos octagenários, e eles encontraram os meus. Ela me viu.

Valeu ein maluco“, eu disse ao filho de deus, decepcionado.

O qui cês  tão fazeno aí, minino?” inquiriu a anciã interiorana, com o natural tom de desconfiança que você exibiria ao encontrar dois marmanjos de cueca se escondendo em seu quintal.

Eu TRAVEI. Não tinha a menor idéia do que dizer, então meio que fingi que não havia ouvido, enquanto tentava me esconder (sem sucesso) no matagal. Era bastante óbvio que ela conseguia me ver, então era um exercício retardado. Panda tomou as rédeas.

Me desculpe, senhora” ele falou, limpando a garganta “viemos aqui para a cidade numa excursão e nos perdemos na selva” ele disse, enquanto apontou dramaticamente para a vegetação selvagem que cobria o quintal da mulher. Lembrando que o quintal estava totalmente cercado pelos muros das casas ao redor.

Eu não conseguia acreditar que o maluco tinha realmente falado que “se perdeu na selva”, e o rosto dele indicava que ele também compartilhava deste sentimento. Com um cabo de vassoura na mão e ainda mais desconfiada, ela falou:

Pois ocês dois parem de fazer o que tão fazeno, se vistam, e saiam já daqui que isso não é coisa de Deus!” ela pontuou o comando se benzendo com o sinal da cruz e deixando claro o que ela achava que estávamos fazendo.

Eu e Panda nos entreolhamos. Saímos do nosso “esconderijo”, eu talvez com mais vergonha do que se tivesse realmente sido flagrado dando a bunda pra um amigo. Atravessamos a casa da mulher — dois marmanjos de cueca!!!! — enquanto ela vinha no nosso encalço, ainda segurando a vassoura. Na sala da casa da véia, dois homens igualmente velhos assistindo TV, e uma menininha de uns 5 anos comendo papinha.

Não sabia se era falta de educação passar pela sala da família seminu sem dizer uma palavra sequer, então mandei um “opa… bom dia…”, cabisbaixo.

Chegamos à rua. Lá estava eu, descalço, de cueca, sem um centavo no “bolso” — ou seja, um resultado relativamente congruente com uma noite de folia carnavalesca como outra qualquer. Se o dia fosse, sei lá, 5 de outubro, seria uma visão um pouco mais incomum. Mas na semana de carnaval, passava. Então não estávamos tãããão na merda assim, ao menos.

Eu e Panda passamos na frente da nossa casa, e constatamos o carro do pai da minha namorada. Atravessamos a rua pra passar na calçada oposta.

E agora, maluco?” perguntou Panda.

Sei lá, mano. Tem algum dinheiro aí?” retorqui, sem muita esperança.

Nada. E tu?

Bati nas coxas, onde bolsos geralmente se encontram quando você está usando roupas, enquanto fazia aquela cara universal de “tô sem nada, mano”.

Vagamos a cidade sem rumo, e já estava começando a ficar com fome. Volta e meia passávamos em frente à rua da nossa casa, e dávamos meia-volta ao ver que o carro do pai da minha namorada continuava estacionado lá.

A cidade jazia completamente inativa, o que é natural para uma manhã pós-Carnaval (e ainda era o primeiro dia). Pouco a pouco, vendedores ambulantes começaram a montar bancas na avenida principal da cidade, para atrair os turistas com o aroma de coxinhas e suco de maracujá. A fome apertou mais ainda.

Panda eventualmente lembrou-se que um de seus amigos da capital estava em Itapecuru para as festividades, mas não sabia qual era a casa do cara, só a área onde a casa ficava. Passamos algumas horas perambulando a região, na esperança que Panda lembrasse onde o maluco estava hospedado. Quando finalmente encontramos, tudo que o rapaz teve para nos dar foi dois reais bem amassados que ele tinha no bolso no momento.

Eu e Panda havíamos passado em frente a uma locadora inúmeras vezes em nossa peregrinação sem rumo pela pequena cidade de Itapecuru. Não restou dúvidas de como gastar o dinheiro — entramos na locadora e jogamos Donkey Kong Country 2 por umas três horas. E lembrando: de cueca, e descalços, como se não houvesse nada de errado com essa cena.

Ao final dessas três horas (sem sequer zerar a porra do jogo, o Panda era ruim demais), voltamos à rua. Eu já tava morrendo de fome, cansado, e queimado de sol. E pior, já não sabia mais nem onde diabos eu estava na cidade.

Já estava começando a me acostumar à minha condição de andarilho pelado e fodido. Se arrumasse um pedaço de papelão e um carvão, poderia escrever uma placa suplicando por algum tipo de alimento. Nem precisaria voltar à UFMA na semana que vem, o que é um bom bônus da minha nova vida de mendigo a qual eu já começava a me acostumar e fazer planos inclusive. “Amanhã vou sentar naquela calçada ali, talvez na quarta feira eu tente comer algo revirando o lixo atrás da igrejinha”.

Foi aí que vi a namorada correndo em minha direção, com uma marmita e uma troca de roupa. O pai e sua comitiva já havia indo embora, a barra estava limpa há horas. Ela estava me procurando pela cidade inteira, e obviamente não me achou porque eu tava no fundão da locadora jogando SNES. Coloquei a camiseta que ela me deu com cuidado, tentando inutilmente evitar muito contato do tecido com minha pele totalmente esturricada de sol.

E na marmita que ela trouxe, um almoço do mesmo restaurante lá das batatinhas fritas. Já estavam frias a essa altura, mas um mendigo profissional como eu já me via a essa altura não há de recusar batatas fritas, independente de seu estado.

Poisé. Não sei por que vocês odeiam carnaval.

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Categorias: Eu só me fodo

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 32 anos, também sou conhecido como "Kid", e moro no Canadá há 13 anos. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas, e sobre notícias bizarras n'O MELHOR PODCAST DO BRASIL. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

6 Comentários \o/

  1. ra says:

    caraca que situação kkkk

  2. Vinicius says:

    Sabia nunca que o nome da mãe do Izzy era Flor.

    P.S.: Dona Flor = melhor pessoa, sdds dela no MPB kkkkkk

  3. Douglas Araujo says:

    “um pequeno vislumbre da vida de casal que vivo atualmente com minha esposa”, opa.

    Acho que o texto começou a ser escrito faz um tempo já, hahaha.

  4. Bier says:

    Ri alto aqui.
    O pessoal do meu trampo tá achando que eu to passando mal!

  5. Humberto says:

    É esse tipo de texto que eu sinto saudades. Passava horas lendo suas histórias uns 4 anos atrás.