Eu sou o melhor fotógrafo de desconhecidos

camera

Eu não sou bom em praticamente nada nessa vida. Comecei a tocar violão quando era adolescente, e fiz o upgrade pra guitarra assim que pude arcar com o preço do instrumento, mas continuo quase tão medíocre quanto era quando comecei (ou pior; quando moleque meu principal passatempo era tocar,* enquanto hoje a internet roubou totalmente minha atenção pra música).

A mesma coisa acontece com meus vídeos. Eu desconheço completamente a parte teórica da produção visual, misturo uns negócios no Vegas até que saia algo aproveitável, mas eu estou completamente ciente das minhas limitações e quando sai algo bom eu estou plenamente convencido de que é por sorte.

Mas tem uma coisa na qual eu me aplico. Tem UMA TAREFA que quando passa pela minha mão, eu sei que executo a melhor performance possível — tirar fotos pra desconhecidos.

Durante a colação da minha esposa há algumas semanas, fui abordado diversas vezes por famílias orgulhosas que queriam tirar uma foto com seus formados. Eu supus que essa predileção se deva ao fato de que eu estava com a minha 70D no pescoço, tirando fotos e filmando tudo; certamente quem estava por perto via aquela câmera imensa com um microfone gigante acoplado em cima e pensava “esse cara deve saber o que está fazendo”.

Por mais que você não saiba o que está fazendo, uma câmera imensa com um microfone gigante em cima comunica imediatamente a ideia

Por mais que você não saiba o que está fazendo, uma câmera imensa com um microfone gigante em cima comunica imediatamente a ideia “eu sou um profissional”.

Quando um desconhecido me dá sua câmera pra tirar uma foto, eu sinto uma responsabilidade imensa. Primeiro, o cara está me dando nas mãos um aparelho que custou uma fração considerável do seu salário (imagina aí então, que segurar a DSLR alheia representa ter em mãos um negócio que o cara possivelmente nem terminou de pagar ainda); além disso, estou manuseando não apenas uma posse valiosa da pessoa, mas está nas minhas mãos também a memória de um dia importante.

Como um perfeccionista no que diz respeito a áudio-visual, NADA, literalmente NADA me dá mais ódio e ranger de dentes do que ter que trabalhar com imagens capturadas por amadores. Quer dizer, eu sou um amador também; refiro-me na real a imagens capturadas por ineptos totais. Gente que tira foto desfocada, mal enquadrada, com péssima composição, sem configurar a exposição direito, é uma agonia absurda. Uma foto que deveria sair assim:

…fica assim:

Dizem que uma imagem vale mil palavras mas quando vejo foto tirada por um completo energúmeno só consigo pensar em três. PUTA QUE PARIU.

A revolta é elevada ao infinito quando trata-se de um vídeo. Em vez de apenas UMA imagem revoltantemente mal capturada, são trinta por segundo. Não sei se já contei isso aqui, ou em um dos meus podcasts, mas certa feita minha esposa foi ver um novo apê. Eu não podia ir junto, e ela atendeu meu pedido de filmar o tour para que eu pudesse analisar o espaço… mas filmou verticalmente.

Em quase 4 anos de casados eu nunca contemplei um divórcio tão seriamente quanto naquele dia. O desgosto era tamanho que eu literalmente não consegui ver o vídeo. Acabamos tendo que ir ver o apartamento novamente.

Ter que editar vídeo filmado pelos outros então? Puta que pariu. Eu prefiro deitar com a cabeça no trilho do metrô, com alguém mijando na minha cara segundos antes do trem me libertar dessa existência amaldiçoada e a morte me receber com um gélico abraço.

Eu não quero que alguém passe por essa miséria, muito menos por culpa minha. Quando pego a câmera de alguém, eu dou o melhor de mim. Enquadro pra valorizar o contexto, filmo com mãos mais cirurgicamente estáveis do que daqueles médicos super-especialistas que separam gêmeos siameses, tiro sempre 3 ou 4 imagens com variações mínimas, mas perceptíveis, de ângulo, exposição, enquadramento e o caralho.

E no final das contas provavelmente os caras vão jogar essas fotos num aplicativo chinfrim qualquer, lotar de efeitinhos bregas e filtros canalhas sem qualquer atenção pro contexto visual, e comprimir feito bagaço de laranja ao passa-los pelos algoritmos do Facebook.

Puta merda.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

7 comments

  1. Com o advento dos smartphones, em detrimento ao PC tradicional, hoje já se aceita filmagens na vertical.

    Não o faço, não curto e tenho microinfartes (infartos?) quando vejo vídeos verticais. Mas muitos já toleram e aceitam tal prática.

    Dizem que o próximo passo é legalizar o canibalismo…

  2. Primeiro eu achei que tu tirava foto de pessoas aleatórias na rua e conseguia mostrar um sentimento ali naquele momento, um negócio artístico, saca? Depois que entendi o propósito do texto achei que ia dar umas dicas, mesmo que básicas ou mesmo justificar o título com umas imagens.

  3. Mancho, um relato:
    >Disney Orlando, 2013
    >Família toda em frente ao castelo, digamos 20 pessoas
    >”excuse me, sir, would you mind taking a picture for us, please?”
    >”Of course, no problem”
    >Pega a câmera
    >”Smileee”
    > ~insira o som de uma câmera fotográfica~
    >Vamos olhar a foto
    >Das 20 pessoas, digamos q 10 estavam presentes na imagem
    >Cerca de 1/3 da Foto era chão e
    > O BROTHER SIMPLESMENTE CORTOU TODO O FUCKING CASTELO DA IMAGEM, tipo mesmo, não tinha nem resquícios.

  4. Bah, pensei que ia falar daquelas fotos artísticas/conceituais que nego tira de pessoas aleatórias na rua com um puta enquadramento e tudo mais. Tipo o que eu faço quando tenho oportunidade hauhehae Mas nunca tinha pensado nisso, Izzy haha geralmente não me pedem pra tirar fotos alheias :p

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *