Foodfight!, possivelmente o pior filme animado da história

No longínquo ano de 2002, a produtora Threshold Entertainment teve uma visão: um filme de animação levemente baseado em Toy Story onde veríamos o que acontece num supermercado uma vez que as luzes se apagam. A oportunidade ímpar pra product placement agressivo de marcas reais de produtos alimentícios — os produtos não seriam apenas mostrados; os mascotes das marcas seriam os protagonistas da porra do filme — era praticamente o motivo por trás de todo o negócio.

O filme se chamaria “Foodfight!“, e estava programado pra sair no Natal de 2003.

Considerando que “threshold” significa “limite”, não seria de todo errôneo imaginar que toda a história era uma experiência Andy-Kaufmanística pra descobrir os limites do que se considera “entretenimento”.

Mas calma. A história piora.

Entre 2002 e 2003, o diretor do filme revelou que os HDs da produtora foram roubados num ato de “espionagem industrial”. Anunciaram que o filme seria adiado até 2005; o filme foi adiado novamente pra 2007. O filme acabou saindo em 2012. Eis a capa do DVD.

Se você acha que a arte dessa capa está horrivelmente incompatível com um filme de animação lançado no mesmo ano que Wreck-It Ralph e Brave, você está certo.

Se você tenta dar uma de advogado do diabo dizendo que “bem, o filme era pra ter sido lançado 10 anos atrás, né…”, lembre-se que em 2003 saiu Finding Nemo e Animatrix. Não deixe que a passagem da última década embace suas memórias; em 2001 a indústria do entretenimento já era capaz de animação computadorizada como target=”_blank”>aquele filme lá do Final Fantasy que eu vi no cinema e não lembro de porra nenhuma.

Você deve estar curioso pra ver a porcaria que é esse filme. Pois bem, aqui está. Deleite-se:

Olha, você pode criticar esta porcaria da forma mais superficial se quiser e apenas rir dos gráficos repugnantes que parecem uma CG de jogo de lançamento do PS2. Entretanto, Foodfight! tem uma camada ainda mais perniciosa. Para entende-la, você precisa entender a cultura dos “ target=”_blank”>generic brand“, ou “no-name brandna cultura canadense.

Os links da wikipédia tão lá, mas eu explico: generic brand/no-name brand é exatamente o que o cognato indica: são marcas genéricas.

no-name

Não sei se a prática é difundida no Brasil; aqui é bem comum. Essas comidas genéricas são produzidas pelos próprios supermercados; não tem propaganda, não tem embalagem bonitinha, vende por um preço bem mais baixo e é geralmente mais voltado pras famílias de baixa renda. Algumas dessas comidas genéricas tem sabor indistinguível de marcas mais caras; outros são imprestáveis (cereal matinal genérico é uma bosta). Enfim.

A trama do filme é basicamente o seguinte: uma marca genérica (Brand X) aparece no supermercado onde os protagonistas moram, e querem tomar o lugar deles. E cabe a aos mascotes dessas marcas lutar contra os invasores — que são essencialmente nazistas no universo do filme. Sério.

Lembre que essa porra é um filme infantil. A idéia, podemos deduzir, é converter a criançada a reconhecer e idolatrar as marcas caras, e ver a comida genérica como vilões hitlerísticos dignos de antipatia.

O que é uma mensagem HORRÍVEL. Imagina o pai de família tendo que sustentar uma família de 5 com um salário de fast food, vai no supermercado com as crianças e vê os pirralhos tirando as paradas genéricas do seu carrinho e berrando pro pai que esses são “os do mal” e ele tem que comprar as marcas famosas?

Tudo por causa duma porra dum filme maldito que os moleques assistiram na casa dalgum amiguinho? E você achando que o pior do filme era a animação desgraçada.

Historicamente, a maioria do conteúdo que a criançada consome é feito com interesses consumistas descarados. Transformers foi feito exclusivamente como veículo pra vender bonequinho, por exemplo. He-Man? Mesma história).

Cars, então? O filme lucrou “apenas” 461 milhões de dólares, mundialmente, durante o período de exibição.  Já os brinquedinhos da marca venderam 8 bilhões de dólares até agora.

E nós sabemos disso. Até hoje tenho certeza que a cena da corrida de pods em Ameaça Fantasma, por exemplo, foi basicamente uma desculpa pra que a Lucasarts pudesse desenvolver um jogo de corrida baseado em Star Wars, um gênero gamer até então não tinha o selo da franquia.

Ou seja, a gente sabe que esse mundo de entretenimento infantil é uma doutrinação consumista do caralho mesmo. Mas mesmo considerando o contexto em que está inserido, Foodfight! é vergonhoso em seu descaramento.

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comments

43 comments

  1. Porra, eu não consigo acreditar q pessoas foram pagas pra fazer esse filme.

    Agora vem cá, foi impressão minha ou no trailer eles falam q CHARLIE SHEEN dubla o cachorro?

      1. Charlie Sheen estava desesperado por Crack quando dublou isso ai né?

        Não tem outro motivo para ele ter aceitado tal coisa =P

        1. a dublagem é feita antes da animação, então os atores normalmente nem manjam de toda a história… pegam o cachê e já era…

  2. Acho que peguei pneumonia vendo o trailer. Mas isso me lembra um filme igualmente ruim cuja premissa é justo o contrário, Branded, no qual um cara passa a perceber mensagens que controlam a mente das pessoas em anuncios, e os executivos na verdade são fantoches de uma entidade além da compreensão, véi, uma viagem.

  3. CREDO parecia que eu tava assistindo um trailer do primeiro The Sims, tal o NÍVEL das animações dos personagens 🙁
    E essas “marcas genéricas” existem aqui também, e os produtos tem o nome do próprio supermercado e tal.

  4. Não é só Charlie Sheen. Essa birosca tem um elenco relativamente de peso. Vai ver por isso a animação é uma merda. Gastaram todo o orçamento nos atores.

  5. cara aqui não tem essas marcas genéricas da forma do Canadá, mas muitas redes de supermercado tem produtos próprios, com marca e tudo (se não falha a memória a rede pão-de-açúcar é dona da marca taeq), e nem sempre é o item mais barato do supermercado, o preço é quase equivalente.

  6. Aqui no Brasil existem varias marcas genéricas, o carrefour por exemplo tem de tudo genérico papel higiênico, refrigerante, frauda, brinquedo, sistema operacional (não isso não), ar-condicionado etc.

    1. Isso! Aqui no Brasil praticamente todas as redes de supermercados possuem produtos próprios, até as mais fuleiras.

      Porém os preços são praticamente equivalentes. Digo mais: Existem marcas mais obscuras que possuem preços mais baratos (claro que isso decorre de uma qualidade porca).

      PS: Filmes ruins dariam um bom tema pro Rapaduracast, hein sr. Izzy? Quem sabe quando você for efetivado.

  7. O que mais me surpreende é que esse tolete de fezes fermentado tem o orçamento estimado de $65,000,000! Segundo o IMDb, o filme rendeu £20,440 e RUB 53,266 (dinheirinho da Mãe Rússia), que deve dar uns 3600 reais. LOL

  8. Cara, isso me lembra os filmes de carrinho genérico do Cars® que meu filho ganha de presente de (não tão) amigos meus…

    Animação tosquíssima, enredo enfadonho, que filminho hein…

  9. Mas como assim, que filme horrível cara, como tiveram coragem de lançar uma merda dessa em pleno 2012?
    Indignado

  10. pra mim isso é um jogo de N64, sem céu, sem texturas boas e monte de personagem que parecem foram feito pelo msm caras que fazem ”os bonecos de neve brasileiros”.

  11. QUEREM VER UM FILME HORRÍVEL ??? PROCUREM POR PINK FLAMINGOS, ASSISTAM E DEPOIS TIREM SUAS CONCLUSÕES…O PIOR DE TODOS FILMES QUE UE JÁ VI…

  12. Izzy, resolvi ir assistir esse toletão descomunal e mermão, o filme fica umas 20 vezes pior. É um absurdo que ele tenha faturado 75 mil dólares.

  13. Izzy, tá ligado que essa No Name que você colocou o link aí é de uma tal de Loblaw Companies? Será que o dono é o Bob Loblaw? O.o

  14. Izzo, cê já ouviu falar de uma animação nacional chamada “CARRINHOS”? Eles foram na onda na época do lançamento de Carros (óbvio) e lucraram BASTANTE, pois os filmes ficavam em DESTAQUE em lojas como Americanas e Casas Bahia. Procura só!

  15. Por um segundo achei que vc estava sendo injusto ao comparar um filme B com a Pixar. Ainda hoje produtoras menores criam curtas com uma qualidade bem modesta.

    Bom, tudo muda quando percebo que o elenco escalado é todo de astros de hollywood. Esses caras devem ter dinheiro.

    A ultima vez que senti tamanha vergonha foi ao ver um filme generico de cachorro estrelado por Tim Allen e Downey Jr.

  16. Realmente… Assistindo ao filme vc pensa: é uma animação dos anos 80!!! Por que a gente tem que esquecer todos os clássicos da Disney nos anos 90 e o brilhantismo de seus desenhistas (com menos computador), pra engolir isso. Aí pensamos: bom, se o roteiro for legal, dá pra passar… Ou seja, esse filme é uma porcaria genérica mesmo!!! E, sim… Temos marcas genéricas no Brasil. Elas levam os nomes das redes de supermercados as quais pertencem, e suas embalagens são caprichadinhas sim… Aqui no Brasil elas acabam entrando em qse todo carrinho de compras, misturadas com as marcas consagradas. Umas coisas de qualidade se compra do genérico… Aquilo que é muito ruim, nem a família pobre compra… O brasileiro é mais descolado com essa coisa de economia doméstica.

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