Como já mencionei aqui algums vezes, eu cursei Bacharelado de Física na Universidade Federal do Maranhão — em boa parte inspirado pela minha tia, aliás, que é uma cientista foda da área. Naquela época, eu sobrevivi graças à inventividade e empreendedorismo de jovens da região que uniram a habilidade de algum conhecido (talvez eles mesmos?) de preparar quitutes, com a mobilidade de baixo custo de uma bicicleta parcelada em 76 vezes nas Casas Bahia: o fantástico bike lanche.

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Por causa dos anos anos em que estudei na UFMA, a visão de um bike lanchista (bike lancheiro?) era um disparador psicológico de emoções intensas de alívio e felicidade. Tal qual o cachorro de Pavlov, que salivava ao ouvir uma campainha, se eu vejo hoje um sujeito levando uma caixa na garupa de uma bicicleta eu fico instantaneamente com água na boca.

De acordo com o Google Imagens, existiam bem mais metodologias diferentes para o bike lanche do que eu conhecia. A estrutura que eu frequentemente via lá na UFMA era sempre uma combinação de “vitrine” com salgadinhos na frente (uma versão miniaturizada das que vemos em padarias e coisas do tipo).

Os bike lanchers da região ficavam ali orbitando o Centro Tecnológico da faculdade, a espreita dos estudantes com pouco dinheiro mas muita fome. O rapaz parava a bicicleta/lanchonete ali na frente do CT e esperava os alunos esfomeados cercar sua bicicleta. Era realmente outra época — com 50 centavos você comprava um pastel E um copo de suco de maracujá. Mesmo pros padrões low budget da confecção daqueles salgadinhos caseiros, é de espantar que custasse tão pouco. Os early 2000’s eram realmente outro mundo.

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Havia um sujeito que praticava o bike lanche também lá na frente da Aço Maranhão, uma empresa de distribuição de aço onde trabalhei no Brasil — só que não era a mesma coisa. Acho que a diferença crucial é que na época, como eu já trabalhava, tinha acesso a mais dinheiro. Eu podia comer onde quisesse, quando quisesse, sem precisar depender da opção de baixo orçamento. Se o bike lanche atrasasse lá no serviço, eu ia na padaria no outro quarteirão. E às vezes ia mesmo que ele não atrasasse.

Mas na UFMA? Tendo no bolso 70 centavos e talvez um vale-transporte (que eles também aceitável, diga-se de passagem — na periferia da capital maranhense, como imagino que em muitas outras do nosso país, vale-transporte eram um papel-moeda paralelo), o bike lanche fazia a diferença entre uma existência relativamente confortável e a agonia de só comer quando chegasse em casa 6 ou 7 horas mais tarde.

A inventividade do bike lanche não chegou aqui nas terras do norte. Talvez porque o clima não é propício a bicicletas por quase metade do ano, talvez porque gringos não são exatamente super chegados em soluções low budget de comida. Pros norte americanos, comida low budget é um McDonalds da vida; já os pé-sujo onde eu comia no Brasil (por exemplo, lanchonete de terminal de ônibus onde moscas voavam sem cerimônia dentro da própria “vitrine” das coxinhas e pasteis”) chocariam minha esposa.

Um dos nomes a que se convencionou chamar esse tipo de estabelecimento no Brasil é “podrão”; a RAFAEL LANCHES ali do terminal da Lagoa (onde este texto aconteceu, aliás) fazia jus a esse nome.

Que saudade do bike lanche.

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Em todos os sites/podcasts de frugalidade, repete-se o conselho unânime da necessidade de catalogar seus gastos — o que logo de cara me fazia torcer o nariz. Eu não tenho a paciência pra sair anotando TODOS os gastos que tenho, o que por si só já deixa implícito que eu ando gastando mais do que devia, e que não estou tão comprometido com a frugalidade quanto eu deveria ser.

Entretanto, há um motivo pelo qual todos os blogs que abordam frugalidade pregam a necessidade desse hábito. O catálogo cuidadoso das despesas é o skill primordial do estilo de vida frugal. Só mesmo vendo a grana saindo que bate o ímpeto de economizar a qualquer custo.

Mas como fazer esse catálogo? Pra algumas coisas eu sou bem antiquado — tentei fazer esse controle inicialmente usando papel e caneta. Um caderninho no bolso e ir anotando todos os meus gastos. O caderninho me lembrava minhas escrituras infantis, aliás: sempre adorei escrever, e qualquer caderninho que passava pela minha mão virava um bloco de notas de idéias pros livrinhos que eu escrevia quando criança.

O problema é que eu esquecia essa porra de caderno em casa mais do que trazia comigo. E canetas são infamemente o objeto mais fácil de perder do mundo. O caderninho foi abandonado após poucos dias.

Tentei a versão digital do caderninho: o aplicativo Notes no celular. Como vivo colado com meu iPhone, seria impossível deixa-lo em casa. O problema é que a tarefa se sair anotando todas as suas despesas, e somar tudo no final pra deixar catalogado seu custo de vida diário, continua uma tarefa sacal. Imprescindível, sim, mas chato pra caralho.

Foi aí que voltei minha atenção pro Mint.com, um serviço online de controle de finanças. Ouvi falar do serviço há MUITOS anos (desde quando ele nem estava disponível no Canadá, aliás) mas como a parada requer que você logue nas suas contas bancárias dentro do site/app deles, meu espírito de total paranóia recusou a solução com a intensidade de mil sóis.

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De lá pra cá, o serviço se tornou um padrão da indústria (sendo até mesmo recomendado pela Apple na seção “Essentials” da AppStore) e é considerado bastante seguro pelos especialistas da indústria. Há alguns caveats, claro — você sempre sacrifica um pouquinho de segurança por conveniência, e ao entregar as “chaves” pra terceiros, tecnicamente as chances de dar merda aumentam um pouco.

Como tudo que o Mint permite é CATALOGAR as finanças, e que os caras levam segurança tão a sério que a sede do banco de dados não tem placa nenhuma identificando a função do prédio, pra entrar no servidor o cara tem que escanear a mão inteira igual nos filmes de espiões, e que além pra chegar na porta que dá acesso ao servidor, tem que passar por um longo corredor que pode ser trancado por fora caso eles suspeitem que você é o Tom Cruise com aquelas máscaras super realistas tentando roubar dados. Em suma, o Mint oferece um risco mínimo que aceito.

Uma vez instalado no meu celular, o Mint pede acesso às minhas contas — cartão de crédito, conta bancária, de investimentos, tudo. Ele consolida tudo de forma simples: Você tem X mas deve Y; está recebendo Z de pagamento, W de investimentos, e andou gastando A, B e C com besteiras ein! Prestenção aí fela da puta!

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Clica pra ver grandão. A interface é antiga mas não achei um screenshot do iOS8, vai esse mesmo!

O app é incrível; mal comecei a usar e já lamento não ter adotado-o como solução financeira antes. O app é tipo um contador particular que fica monitorando o que entra e o que sai, catalogando cada despesa de acordo com categorias pré-determinadas e customizáveis (meus amigos que frequentam puteiros vão gostar de bolar nomes engraçados pras casas de meretrício dentro do app, aposto). O app vai te mostrando gráficos que mostram EXATAMENTE quanto você tá gastando com roupas, com gasolina, com comida, quanto os juros dos cartões de crédito estão te fodendo, tudo.

Tu pode até definir que quer gastar apenas X dólares por mês comendo fora, por exemplo. Se estiver chegando perto desse limite — o que certamente aconteceria sem você nem perceber –, o app manda uma notificação tipo “aê corno maldito, cê tá ligado que já comeu no McDonalds cinco vezes esse mês né? Vamo parar com essa porra aí por favor?”, que é justamente o que eu preciso pra que esses gastos frequentes com comida se tornem mais perceptíveis.

Esses limites funcionam pra todas as categorias, o que é excelente.

Infelizmente, o app não funciona pra bancos brasileiros. Me informaram que existe um serviço similar chamado GuiaBolso, mas pelo que vi amigos que manjam de segurança de informação discutindo, ele não tem a mesma credibilidade do Mint. Uma pena, realmente, porque eu acho que serviços como esse são uma mão na roda inacreditável pro sujeito que está querendo prestar mais atenção em relação o vai e vem da sua grana.

(Suspeito até, sendo um pouco teórico da conspiração, de que há bons motivos pros bancos brasileiros não facilitarem a vida de serviços como esses…)

Seja Mint, ou caderninho no bolso de trás da calça, ou GuiaBolso, uma coisa é garantida: você NÃO vai conseguir tomr controle das suas finanças sem monitoramento cuidadoso e detalhado. Não pense que você vai. Você não vai. A única solução é pôr tudo na ponta do lápis.

A propósito, certamente devem haver apps offline pra esse tipo de monitoração. São menos convenientes, claro — o grande mote do Mint é ser todo automático; só loguei minhas contas e cartões de crédito em segundos ele me deu uma análise FODA de tudo que eu gastei no mês passado, quantos juros eu paguei, etc — mas bem mais seguros.

Vocês recomendam algum?

Pink Piggy Bank On Top Of A Pile Of One Dollar Bills

No último post dessa série, eu comentei que o meu principal obstáculo na vida frugal é comer fora. Aliás, é curioso que muitos pensem que eu sou esbanjador porque compro gadgets, mas a matemática do último post é inegável.

Conforme calculei aqui, eu gastei 3932.88 dólares canadenses comendo fora em 2013. Ao mesmo tempo, eu gastei apenas um quarto disso com gadgets no mesmo ano — apenas o iPad mini e o PS3. E esse ano foi atípico, porque geralmente eu compro apenas UM gadget por ano. Neste ano inteiro, comprei um novo celular, e só.

Definitivamente, comer fora é o hábito que eu mais preciso podar. Especialmente, comer no hospital (onde uma refeição custa aproximadamente CAD$ 10/dia).

A solução principal é preparar comida pra levar pro trabalho, mas essa saída se torna complicada por causa dos horários dos meus plantões. Frequentemente tenho plantões começando às 5:30 da manhã, o que significa que eu preciso acordar às 4 pra cozinhar alguma coisa. Pra essa alternativa se tornar viável, eu teria que ir dormir MUITO mais cedo do que eu frequentemente vou — lá pras 9 da noite. Um pouco complicado.

Então, a solução alternativa é preparar comida na noite anterior. Uma solução infinitamente melhor, que poupa bastante tempo, e bastante mais saudável, embora resulte numa refeição não tão fresquinha.

Mas é a melhor solução, all things considered. Então, eu preciso focar e me disciplinar a sempre cozinhar na noite anterior, não importa como esteja minha agenda. Em todas as ocasiões que deixei pra cozinhar na manhã seguinte, antes de sair pro trabalho, aqueles dez dólares que eu economizaria me valiam menos que continuar dormindo por outra meia hora. “Foda-se”, eu pensava, virando pro outro lado debaixo das cobertas. “Vou dormir mais um pouco, vale os 10 contos”.

O problema é quando eu levo comida pro trabalho, como, e na segunda folga (tenho duas por expediente, de 40 minutos cada), bate uma fominha de novo. Frequentemente não levei comida suficiente, e acabo passando no refeitório pra comer alguma porcaria.

Neste caso é preciso definir bem o tal “fominha”. Uma coisa que eu percebi é que nós gordos temos o (péssimo) hábito de comer quando estamos entediados. Uma boa estratégia que eu adotei pra curvar esse ímpeto de comer por simples inércia — mano, não é a toa que eu fiquei gordo — é levar uma fruta pro trabalho. Se eu estiver DE FATO com fome, aquela banana na minha mochila será a coisa mais suculenta em minha posse. Comerei sem hesitar.

Agora, se eu olho pra banana e penso “hmmm um hamburger lá no refeitório seria melhor, ein… já essa banana sem graça, blergh“, isso é um importante alerta que me informa que eu não estou de fato com fome. É comodismo, gula e tédio; aprender a identificar essa pseudo-fome pelo que ela realmente é talvez será um passo importantíssimo não apenas em economizar dinheiro, mas também em reduzir refeições desnecessárias e… qual o antônimo de saudável? Bom, são as refeições que eu como por preguiça.

Pra todo objetivo que você queira alcançar, é importante colocar em ação um plano tangível. Dizer simplesmente “ok eu quero economizar mais dinheiro” sem um framework bem definido de como alcançar isso é apenas devaneio que jamais se concretizará. No meu caso, o framework específico é “cozinhe SEMPRE na noite anterior ao plantão, e adicionalmente leve uma fruta como lanche pra usar como teste de fome”.

Vou tentar me ater a essa estratégia simples pelo próximo mês. É até simples: cozinhe na noite anterior do plantão, além de levar uma fruta ou alguma coisa similar (uma barrinha de cereal, talvez?) pra servir de lanche “backup”. Se na hora da “fome”  eu torcer o nariz pro lanchinho, então já sei que não é fome de verdade e segurarei meus dez dólares.

Estabelecer essa estratégia fará toda a diferença se eu realmente usa-lo como molde nas minhas decisões daqui em diante. Em vezes de perder tempo com qualquer outra bobagem, uma hora antes de dormir, preparar o almoço do dia seguinte será prioridade. Preciso lembrar todo dia que essa estratégia é, no momento, minha ferramenta número um pra viver um estilo mais frugal.

Então, esse é o primeiro passo. Se seu principal problema de gastar dinheiro é semelhante ao meu — comer fora por conveniência –, estabeleça uma estratégia que combata isso diretamente e tente transformar em rotina.

Lembre-se que não é um exercício vazio de auto-renúncia: você não está apenas abrindo mão de comer fora, você está se treinando a diferenciar gastos que valem a pena, dos gastos desnecessários por conveniência.

Afinal de conta esses são, na maior parte do tempo, os principais gastos que podemos cortar sem grandes consequências. Vamos pôr isso em prática.

…comer fora.

Capaz de ser o seu também.

porquim

Comer fora é, sem QUALQUER SOMBRA DE DÚVIDAS, o maior obstáculo na minha vida financeira, e eu preciso desenvolver disciplina pra dominar.

Não é apenas um vilão do meu bolso, aliás — comer fora (ainda mais com a frequência que eu como) também desgraça minha saúde e aparência de forma geral, mas vamos resolver um problema de cada vez, porra.

A causa por trás desse problema é dupla: uma crônica falta de tempo, e a escravidão da conveniência. Não bastasse o fato de que a minha agenda é enlouquecedora (sabe aqueles filmes em que o cara workaholic negligencia a própria família pra no final aprender uma importante lição? Tou nesse nível), eu sou também muito preguiçoso.

“Escravo da conveniência” é um termo mais chique, mas preciso ser honesto com vocês: a verdade mesmo é que sou preguiçoso. Eu morro de preguiça de preparar almoço pra levar pro plantão, por exemplo.

Se eu acordo, me arrumo pra sair pro hospital, e ao preparar uma marmitinha na cozinha eu percebo que preciso, por exemplo, fazer arroz, eu jogo as mãos pro alto e falo “foda-se, vou almoçar no restaurante do hospital hoje“. O agravante é que fazer arroz é a tarefa mais fácil do mundo; talvez sequer condiz chamar isso de uma “tarefa”.

Tenho uma daquelas panelas elétricas que é só jogar o arroz, a água, alguns temperos, apertar o botão e pronto. O simples fato de que eu não posso tirar arroz já pronto da geladeira e montar um pratinho pra levar pro plantão muitas vezes me condena a comer fora. É totalmente injustificável.

O problema é que comer fora aqui e ali, especialmente quando você paga com cartão (seja débito ou crédito) parece aquela despesa intangível. Não sei você, mas eu basicamente não paro pra realmente avaliar o gasto quando estou usando cartão. Isso não sou eu falando, não — é a American Psychological Association. Nesse estudo de setembro de 2008, foi notado que de fato pessoas gastam mais quando não usam dinheiro vivo.

Fig1: O demônio

Fig1: O demônio

O que acontece é que você não vê efetivamente o dinheiro indo embora como quando paga com espécie, por exemplo. Cartões ainda são relativamente recente na história humana e a evolução psico-social ainda não nos deu a habilidade de associar pagar com cartão a realmente estar gastando dinheiro.

Quando tu abre a carteira e tira uma nota de 10 reais, depois mais uma, e depois uma terceira pra então pagar uma conta de 30 reais, há uma sensação gritante de “MEU DINHEIRO ESTÁ INDO EMBORA SOCORRO ME AJUDEM” que não é exatamente a mesma quando se paga com plástico.

Ou seja: plástico é seu inimigo. Com cartão de débito, pelo menos você gasta o que tem. Gastar no crédito (e com isso, acumular juros) é ainda pior; quanto mais rápido você se livrar do seu cartão de crédito, melhor pra sua vida.

Isso deveria ser sua prioridade, aliás, caso não seja.

E pensando nos meus gastos com comida eu resolvi fazer uma experiência aqui. Um dos principais passos na caminhada da frugalidade é tirar, na ponta do lápis, QUANTO exatamente você anda gastando com supérfluos como comer fora, que no meu caso é o principal culpado.

E o resultado foi estarrecedor. No ano de 2013 (demorou um bocado pra calcular isso tudo manualmente, puta que pariu!) eu gastei exatamente CAD$ 3932.88 comendo fora, ou seja, o equivalente a R$ 8488.69. Eu estou em choque com isso. Com essa grana eu poderia ter TRANQUILAMENTE feito as tais viagens que eu tanto quero!

Nem tudo isso é comendo no trabalho, evidentemente. Saídas com a esposa, uma ida ao shopping que se estende em um lanche não antecipado na praça de alimentação, esse tipo de coisa entrou na conta.

Mesmo assim, é de causar um arrependimento no fundo da alma. Não apenas eu meio que joguei fora 4 mil dólares no ano de 2013 (puta merda, mano…), esse hábito desgraçado ainda se manifesta em calças que não fecham mais e em camisetas que eu preciso doar porque não comportam mais meu bucho.

Este é o primeiro e mais importante passo na minha jornada pessoal da frugalidade: abrir mão da conveniência de comer fora.

Mas COMO exatamente fazer isso? Bem, experimentando bastante aqui eu achei umas soluções BEM interessantes. Mas isso é assunto pro próximo post!

Hoje aqui no HBD Social Media & Restaurante Self Service vamos falar sobre um assunto sobre o qual leio bastante ultimamente.

porquinho

Eu já sei até o que você está pensando e nem é por causa dos meus genes mutantes que meu médico se recusa a admitir que eu tenho.

Izzy Nobre falando sobre frugalidade IZZY NOBRE FALANDO SOBRE FRUGALIDADE RSRSRSRS FAZ ME RIR É COMO O MALAFAIA FALANDO SOBRE DIREITOS HUMANOS OU O MALAFAIA FALANDO SOBRE QUALQUER COISA NA REAL

Sim, de fato eu construí ao longos dos anos internéticos uma imagem de um esbanjador megaconsumista que joga dinheiro fora à toa na fútil e incessante busca dos gadgets do momento. Acho que este seria um excelente momento pra corrigir essa imagem.

De fato, eu adoro tecnologia. Acompanho e participo ativamente do culto ao chip. Tenho iPhone, iPad, Macbook, ereader, câmeras digitais, múltiplos consoles portáteis, etc.

Por algum motivo, no entanto, pessoas vêem isso e pensam que o sujeito comprou tudo no mesmo dia, de tanto que odeia o próprio dinheiro. Ou que esses gastos com tecnologia são a ponta do iceberg de um estilo de vida esbanjador. Que o sujeito não faz a menor idéia do que é um estilo de vida frugal, porque certamente endividou-se até a alma pra brincar com passatempos eletrônicos.

Certamente muita gente se encaixa nesse perfil — ainda mais no Brasil, que por políticas protecionistas sem qualquer sentido tarifam produtos importados com valores absurdos –, mas eu queria iniciar essa série sobre finanças e frugalidade explicando que não é meu caso.

O motivo pelo qual eu posso ter essas coisinhas são dois, na verdade. Primeiro…

Esses eletrônicos é que são extremamente acessíveis aqui no Canadá

Pra te dar uma noção, eu paguei na época míseros 300 dólares canadenses pra upgradear meu iPhone 4 pro iPhone 5, que saiu dois anos depois.

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Alguns achariam que upgradear de 2 em 2 anos é um exagero financeiramente irresponsável, mesmo assim.

Pra obter esse preço tive que renovar meu contrato com a minha operadora, sim, mas entenda que isso não tem o estigma que tem aí no Brasil. TODO MUNDO aqui compra celulares subsidiados por um contrato com a operadora, ao contrário do nosso país onde fugimos de obrigações contratuais com prestadoras de serviço como o diabo foge da cruz feita de cruzinhas menores que por sua vez foram ungidas com o sangue do Papa.

Pra você compreender melhor o que 300 dólares significa pra vida financeira do canadense médio: trabalhos de fast food aqui costumam pagar entre 11 e 14 dólares por hora, numa semana de trabalho de 40 horas. Vamos com a média então, CAD$ 12.50 por hora.

Assim, um trabalhador de fast food tira exatamente 2 mil dólares por mes, antes dos impostos. Acaba saindo uns 1700 dólares líquidos, mais ou menos.

Ou seja: com o salário líquido de UM MÊS DE TRABALHO, um funcionário de fast food poderia comprar, se quisesse, CINCO iPhones.

Mas sei que vocês realmente gostam de celulares desbloqueados, então usemos isso como exemplo. Com o salário de um mês, um balconista do McDonalds pode comprar o iPhone 6 Plus de 128gb, o modelo mais caro oferecido pela Apple.

E sobraria dinheiro.

(Lembrando que este hipotético sujeito com literalmente um dos salários mais baixos do país tem acesso — além de pequenos luxos consumistas como o gadget do momento — a boa saúde, segurança, infraestrutura pública, e outras coisas. Algumas das vantagens de morar num país entre os 10 com maiores índices de desenvolvimento humano. Mas isso é assunto pra outro post, não quero deixar você ainda MAIS revoltado com o Brasil no momento)

Como se pode ver, esses pequenos luxos eletrônicos são infinitamente mais acessíveis aqui. Além disso, tem outro fator.

Eu sou INCRIVELMENTE frugal em todas as outras esferas, que é justamente o que me permite gastar dinheiro com tecnologia.

Eu não bebo, não uso drogas, não faço nada no fim de semana, ou em qualquer outro dia pra ser sincero. Há MESES não compro roupas novas, e geralmente compro sapatos baratos que faço durar por ANOS. Não faço basicamente NADA da vida a não ser trabalhar no hospital, e então voltar pra casa e trabalhar aqui no site e no meu canal.

O único luxo a que me dou direito é comer no restaurante do hospital quando não tive tempo de preparar comida, e fazer esses upgrades tecnológicos uma vez a cada dois anos.

Por isso, embora você às pense que eu sou um consumista super esbanjador, nem é o caso — é uma questão de como priorizo os meus gastos. Meu irmão, que caga e anda pra tecnologia, prefere gastar dinheiro com roupas de marca, por exemplo.

É possível, sim, ser frugal e ainda assim fã de tecnologia — especialmente quando você fatora o QUANTO você usará o aparelho em questão.

Darei um exemplo prático. Em 2008, enjoyei meu primeiro auge financeiro: um emprego que pagava 18 dólares por hora (até então meu salário mais alto na vida inteira), além de dividir apê com outras 2 pessoas e não ter carro.

Eu estava torrando dinheiro de uma forma inacreditável, e o fato de que eu não comecei uma poupança NESSA época me causa raiva até hoje. Em uma ocasião, eu comprei o volante da Microsoft pro Xbox 360 porque haveria uma festinha lá em casa e eu achei que seria bacana comprar pra galera jogar Burnout.

Ninguém jogou; o Rock Band ao lado dominou a atenção do núcleo videogamico da confraternização

volante

Era esse volante. Na época, se me lembro bem, paguei uns 200 dólares por ele. Eu sequer curto jogo de corrida. Foi um gasto absurdamente desnecessário, se compararmos com um aparelho como um smartphone — que uso pra me comunicar com família, amigos e leitores, gerenciar meu site e meu canal — que são fontes de renda, afinal de conta, em vez de um simples hobby –, entre inúmeras outras coisas.

Hoje eu JAMAIS gastaria dinheiro com algo tão supérfluo, que eu SEI que usarei pouquíssimo. É por isso que passei ANOS sem consoles de mesa — quando eu e meu irmão prosseguimos cada um em direção à sua própria casa, na “partilha de bens” ele fez questão de ficar com os consoles, e eu não fiz questão de comprar substitutos pra eles.

Eu sabia que eu não ia extrair deles um valor equivalente ao preço da etiqueta. Preferi ficar sem.

Outra atitude minha em relação a gadgets, e que eu compreendo que é um pouco mais difícil no Brasil, é que eu sigo o seguinte algoritmo pra comprar um novo eletrônico (ou qualquer outra coisa na real):

test

Simples assim. Os nossos bons amigos Visa e Master Card condicionaram gerações a avaliar a hipotética compra de um objeto em termos de “tem limite no cartão? Tem? Então foda-se“. Pra muita gente, essa é a única variável que importa.

Esse algoritmo está fatalmente errado, e leva muitos a dívidas inescapáveis.

Convido-os a adotar um novo sistema. Como falei, sei que no Brasil é um POUCO mais difícil, mas não é impossível. Se você não pode comprar à vista, se compromete o seu orçamento mensal, e se você no fundo sabe que nem vai de fato usar a parada pra algo útil ou constante… refreie o impulso de abrir a carteira. Deixe passar a vontade.

Não sou nenhum especialista no assunto, mas quero ter uma conversa frequente com vocês aqui no HBD sobre hábitos de frugalidade, repensar consumismo, e priorizar experiências em vez de posses. Vamos de mãos dadas dominar o mundo financeiro!

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