Fui pai por um dia. Eis como foi a experiência

Como os senhores certamente sabem, eu tenho dois meio-irmãos do segundo casamento do meu pai. Estes são o Kevin e o David:

O Kevin, que há alguns anos eu apelidei de “Kevo” sem nenhum grande motivo lógico, tem 9 anos. O David, que o Kevin apelidou de “Davotron” (que mostra que ele manja mais de apelidos do que eu), acabou de completar um aninho.

Eu sempre gostei muito de brincar com os moleques, que me lembram muito meu contato com o Matheus — meu priminho de Fortaleza que foi o primeiro membro da família que eu vi crescer, com exceção da minha irmã. Sempre que vou na casa do meu pai, o Kevin corre pra me mostrar os joguinhos no iPad dele, pergunta que jogos eu tenho jogado, se eu vi aquele ou este outro filme.

E eu sempre cumpro meu papel de irmão mais velho — dou uns cascudos às vezes, brinco de lutinha, esse tipo de coisa. Pra ilustrar bem as nossas brincadeiras, veja este vídeo:

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😀

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Ou este, que filmamos momentos depois porque eu não queira desperdiçar esse excelente cospobre de Subzero que eu o ensinei a fazer:

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Subzero me pegou! View on Instagram

Então. Eu tinha prometido pro Kevin que “qualquer dia desses” — aquela data mítica que nunca chega, é excelente pra marcar coisas que você não quer ou pretende de fato fazer — ia levar ele pra sair. E esse dia chegou ontem.

Como tanto eu quanto ele assistimos o Lego Movie recentemente, achei que o melhor lugar pra leva-lo seria na loja de Lego que tem aqui em Calgary. Não tínhamos nem chegado no shopping ainda e já rolava cantoria da música tema do filme no carro:

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Everything is awesome

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Chegando na loja de Lego, a primeira experiência paterna: a porra do pivete estava CONVENCIDO que eu compraria metade da loja pra ele.

Não, sério: ele tinha uma listinha mental de uns 5 kits diferentes que, na cabeça dele, já era GARANTIDO de eu dar de presente pra ele.

Foi realmente um pequeno vislumbre da paternidade. Até ontem, minha experiência com o Kevin era limitada a chegar lá na casa do meu pai, jogar o moleque pra cima (sempre sob olhar preocupado da mãe dele, que teme que eu vou arrebentar o teto com a cabeça do menino), gravar uns vídeos engraçados e então ir pra casa.

Enquanto ontem eu tive que jogar um balde de água fria na empolgação do pirralho, dizendo que “não tinha dinheiro pra comprar brinquedo”, uma frase que ouvi muito crescendo.

“Você pode usar seu cartão de crédito!” ele retorquiu. Fiquei atônito com a sagacidade do pirralho (e com seu não compreendimento de quão baixa é, na minha lista de prioridade, comprar brinquedo pra criança ou pior ainda, usar meu cartão de crédito pra isso).

Neguei novamente apressei-o pra fora da loja, porque eu estava morrendo de fome.

“Kevin, você quer comer onde?”

“Não sei…”

“Bom, decide aí. Onde tu quer comer?”

“Hmm… não sei.”

Essa conversa, com poucas variações, continuou por uns 3 minutos. Foram os 3 minutos mais longos da minha vida e suspeito que por pelo menos metade deles, o moleque estava me sacaneando com sua resposta indecisa. O moleque decidiu então que não estava com fome o bastante, então não queria nada.

“Você tem CERTEZA?”, questionei com ênfase clara no “certeza”.

“Tenho”, ele garantiu.

Ok então. Comprei um lanche e, mal havia sentado na praça de alimentação, Kevin havia decidido então que o meu lanche era comunitário. Ele passou a redistribuir minhas batatas fritas pra si mesmo.

“Porr… caramba Kevin!” (tento não falar palavrão na frente dele, e sempre falho) “te perguntei MIL VEZES se você queria alguma coisa e você disse que não!”

“Agora eu quero” ele falou, com um sorriso pilantríssimo no rosto. Aquele sorriso do moleque que já sacou que fazer piadinhas com tudo é a melhor forma de se sair de enrascadas. É como se eu estivesse vendo o Izzy Nobre de 1995.

Pior que eu meio que parecia com ele, também

Além de comer minhas batatas fritas, o Kevin passou literalmente o tempo inteiro fazendo isso:

Fico tonto só de ver o GIF

O moleque deve ser alimentado por uma bateria nuclear daquelas que a NASA instala em sondas exploratórias, porque puta que pariu mano. Vai ter energia assim na cara do caraio.

Depois, fomos para a YMCA. Decidi que ia ensinar o pirralho a nadar. Na pior das hipóteses, sou certificado como Emergency Medical Responder, então morrer ele provavelmente não morreria. Arrumei as coisas, pus numa mochila, e dei pro moleque e falei que ele estava encarregado da missão de guardar nossas coisas. Convencer a pirralhada a fazer qualquer coisa só funciona se tu transforma numa brincadeira.

Ele pôs a mochila nas costas com um olhar compenetrado e falou “vamos lá!”

Pra chegar na YMCA, temos que atravessar uma ilha que fica aqui pertinho. O moleque nunca tinha visitado essa área da cidade (acho que ele nunca tinha visto o centro, aliás); ele ficou maravilhado.

Chegamos na YMCA. Experimentamos a piscina de pirralhos primeiro; o moleque ficou mais audacioso e falou “ok, vamos para a piscina dos adultos, Izzy!”

Ensinei-o a dar braçadas pra se manter a tona. Ele fez mais ou menos; demos algumas voltas na piscina, e ele desistiu de se tornar aquaticamente independente e resolveu voltar pra piscina de pivetes.

Na saída da YMCA, o moleque tava com fome de novo. Fomos no Subway, onde ele pediu um sanduiche tipicamente nove anos de idade, ouj seja: pão branco, queijo, presunto, e nenhum tipo de molho ou verduras. Eu riria, exceto que como sou FRESQUÍSSIMO pra comer, meus sanduíches geralmente são assim também.

Na saída da parada, um trailer de sorvete. Não deu outra, o moleque literalmente saiu correndo na minha frente em direção aos sorvetes.

Eu acabei cedendo. Momentos mais tarde o Kevin saltivava pela trilha que passava pela ilha, se lambuzando com sorvete, em direção ao meu apartamento.

No retorno, gravei esse videozinho enquanto cruzávamos a Peace Bridge, 

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Peace Bridge #yyc

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Vale um parêntese aqui. O prefeito de Calgary, Naheed Nenshi, é conhecido por suas trolladas no tuiter. Quando essa ponte foi inaugurada, a oposição espevitou a população contra seu líder, criticando o preço alto que os contribuintes pagaram pela construção. Numa dessas, o prefeito mandou essa resposta pra um crítico:

“Pra que essa ponte tão cara?”, “Acho que é pra atravessar o rio”

Sim, essa é a conta oficial dele e tudo.

Mais tarde, já de noite, era hora de deixar o menino em casa. Eu já estava cansadíssimo, e o pirralho ainda saltitando pelo meu apartamento, me fazendo perguntas aleatórias sobre meu trabalho (?), implorando pra que eu o deixasse jogar GTA 5 — o diálogo “mas todos os meus amigos jogam!”, “não importa, você não é seus amigos” novamente me imbuindo com uma aura paterna.

Quando ele percebeu que eu estava muito cansado pra continuar acompanhando suas estripulias, ele puxou o iPad e ficou jogando Minecraft até eu o deixar em casa.

E esse foi meu dia de pai.

É hilário ouvir da boquinha do pirralho o tipo de abobrinha que eu falava pro meu pai quando tinha sua idade (“mas se você não tem dinheiro pra comprar brinquedo, como é que tá pagando pelo lanche?!?!”), e moleques energéticos assim nunca entendem que você não tem mais a gana pra acompanhar suas estripulias e que já tá na hora de parar, o que me deu todo um insight de por que meu pai se irritava tanto comigo quando eu era criança.

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comments

24 comments

    1. nem é um argumento válido,é uma falácia ad populum
      (se você não sabe o que é isso,procura no google e depois dá um mortal de costas)

  1. Pô, legal o texto Izzy.

    Isso me fez perceber como vai ser SURREAL ler o blog quando vc tiver um filho. Provavelmente vão rolar várias comparações sobre como vc era quando moleque.

    E é bizarro acompanhar a vida de um “estranho” através de um blog por tantos anos e em tempo real.

    A gente já te viu quando vc se mudou pro Canadá, quando teu irmão morava ctg ainda, quando vc casou com a Bebba, as várias mudanças de emprego/apartamento… Vai ser legal quando chegar o “capítulo” do seu filho 😉

    1. caralho velho tu acabou de me fazer perceber que o izzy é basicamente a minha versão de The Truman Show! hahahah literalmente acompanho a vida desse maluco há ANOS

  2. Izzy,

    Dentro em breve você será pai de verdade e perceberá que esse “dia de pai” foi mamão com açúcar…

    Mas já te adianto: Vale cada segundo!

  3. Hahahah, ri mto lendo esse texto! Acho fofinho você passar tempo assim com o Kevin, tá criando boas lembranças pras duas partes 🙂 e te dá um gostinho de como é ser um adulto cuidando de uma criança, lidar com toda essa energia não é fácil, mas eu pessoalmente acho lindo de ver! Você ainda tem muito tempo pra aproveitar essa fase do Kevin, e ainda tem o David daqui uns anos, se você tiver pique hahah!

  4. izzy, teu pai eh louco! Ele é mais de 50 anos mais velho que seu irmão mais novo. Imagina quando ele fizer 15 anos. O pai dele terá quase 70.

  5. É, brother, estamos ficando velhos. Eu tenho um afilhado agora, que ainda nem completou um ano, mas passar apenas uma tarde com ele nos braços me deixou completamente exausto.

    Eu também tenho um meio irmão de 3 anos, o Arthur, mas infelizmente ainda não o conheço. Sou tretado com meu velho e minhas tias dizem que eu tenho muito azar: sempre que eu chego na casa da minha avó o guri já havia saído há uns 10 minutos.

    O mais foda desse seu texto é perceber que nós VAMOS repetir todas as paradas que nossos pais nos diziam e que deixavam aquele gosto de “não me dá porque não quer”. Nada como se tornar um adulto para perceber que nossos progenitores eram os corretos.

  6. Izzy, off topic, primeiro, não tou fazendo propaganda política… mas.. você viu o vídeo 16 bits do Aécio? Lembrei de você… totalmente espirado no Mário, muito bem feito.

    Não é propaganda política… é algo que não se vê normalmente por ai em política. Eles foram diretamente ao novos adultos, apostando na nostalgia… curti.

    Vale uma olhada Izzy 🙂

  7. No proximo “dia de pai”, vá no lugar do pai dele na escola durante o “dia do encontro com os pais” ou algo assim.

    Vc irá avançar mais alguns niveis como pai.

  8. Legal, mas isso não é ser pai…isso é ser um irmão mais velho ou um tio bacana. Paternidade é muito mais, começa com o bebê no ventre da mãe.

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