Você já leu a bíblia alguma vez na vida? Provavelmente não, você é um pecador sem chance. Recomendo que você a leia.

Seja de papel ou narrada pelo Cid Moreira em oitocentas fitas cassete, a Escritura Sagrada é o documento central da fé cristã; ela estabelece os preceitos de moralidade e instrui seus fiéis a vários gestos de altruísmo e camaradagem, como o perdão, a caridade, e a boa vontade para com os irmãos — com algumas passagens que se usam como justificativa pra negar direitos e dignidade básica aos gays mas vamos ignorar isso no momento. Teve uma época em que mulher não podia nem falar na igreja mas já deram uma aliviada interpretativa nesse versículo, então há esperança!

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O dicionário (que eu consultei) define “doutrinar” como o ato de “educar, ensinar ou treinar”. Notavelmente ausente está a definição de que “doutrinar” implica, de certa forma, um nível de lavagem cerebral. O doutrinado acaba considerando seu dogma como a verdade completa, absoluta, imutável e inquestionável. Esse tipo de “certeza” bloqueia qualquer discussão racional sobre um assunto, e você se torna completamente invulnerável a lógica que debata sua fé.

Sei disso porque eu fui um desses caras. Por boa parte da minha vida, vivi no meio evangélico. Meu pai era o pastor da igreja, minha mãe tocava guitarra nos cultos, todas as escolas que frequentei durante a minha infância eram religiosas e incluiam em seus currículos ensino dogmático. Eu ia à igreja 3 vezes por semana (culto de oração nas quartas, culto de doutrina nas sextas, culto tradicional nos domingos), fazia competições bíblicas com os amigos, jejuava, esse tipo de total imersão na fé.

Lá pelos 15 anos comecei a notar algumas falhas nas explicações que me eram dadas. Aos 16 ou 17 veio a plena realização de que “caralho mano, esta bíblia é exatamente a mesma coisa que qualquer outro tratado religioso que existe no mundo: registros de um povo primitivo atribuindo vontades, favores e castigos divinos a eventos aleatórias que eles presenciavam”.

E eu acho que nada deixa isso mais evidente que o próprio plano de salvação que Deus bolou pros homens.

Vê só comigo. Deus criou um paraído idílico, pôs lá um  homem e uma mulher, e falou: TÁ VENDO AQUELA ÁRVORE ALI? NÃO COMAM O FRUTO DELA. BELEZA? Abraço!”.

A árvore não tinha propósito algum de existir, a não ser “testar” o homem. O problema é que, uma vez que você aceita a idéia de que Deus é onisciente, a idéia de “testar” algo (ou seja, elaborar um experimento para examinar os resultados e, a partir destes, tirar conclusões sobre a natureza daquilo que foi testado) é completamente incoerente. De acordo com a bíblia, Deus não precisaria desse teatrinho pra saber que o homem é falho.

(Abrimos aí uma outra discussão; por que a maior criação de Deus, o homem, é tão falho afinal de contas…? Mas vamos deixar esta pra outro dia.)

O resto da história você já sabe: uma cobra falante apareceu, convenceu os dois a comer o fruto — cujo efeito era simplesmente conhecer a diferença entre o bem e o mal e, presumivelmente, poder fazer a escolha entre um e outro. Toda vez que você ouvir um crente justificando X ou Y com “é porque Deus deu livre arbítrio ao homem” (que é o curinga absoluto deles), corrija-o explicando que quem fez isso na real foi o Diabo; a instrução divina foi afastar o homem do poder de escolha entre o certo e o errado.

A propósito, eis um detalhe curioso: Deus mentiu sobre o efeito do fruto proibido (que não era uma maçã, aliás. Essa representação é uma afetação artística medieval):

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Genesis 2:16-17

Deus essencialmente falou que o fruto era venenoso. Mais que isso: Deus falou que simplesmente TOCAR o fruto era o suficiente pra causar óbito imediato:

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais.” Genesis 3:3

Veio a cobra (lembre-se: a cobra aqui é o avatar do Diabo, o suposto vilão da história) e falou a verdade pros dois: “mané, esse fruto aí fará você diferenciar o certo do errado, que é uma habilidade que no momento só Deus tem”.

“Ah é?” perguntou Eva, incrédula.

“Aham. Vai tranquila que eu garanto: você não vai morrer se comer isso aí”.

E eles de fato não morreram. Alguns versículos mais tarde, Genesis confirma que a cobra não havia mentido:

“Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” Genesis 3:22

Ué? Cadê o papo de morrer se tocar a parada…?! Deus foi falar com seus broders e revela o plot twist de que a cobra estava falando a verdade o tempo todo, e que ELE é que mentiu sobre os efeitos do fruto.

Alguns doutrinados, incapazes de questionar o ensinamento que lhes foi dado, dirão que “bom, ter comido o fruto resultou em sua expulsão do jardim do Eden e por isso eles não podiam mais comer o fruto da árvore da vida que rendia imortalidade ao homem, então de certa forma Deus não mentiu”.

Só que isso também não faz sentido. A “morte” do homem (que, lembre-se, não ocorreu imediatamente ao tocar o fruto como Deus falou) foi uma decisão vingativa de Deus após ser desobedecido. É como se eu dissesse “NÃO COMA O PUDIM QUE EU DEIXEI NA GELADEIRA SENÃO TU VAI MORRER”, insinuando que ele é intrinsicamente nocivo. Aí eu chego em casa, vejo que você o comeu, e eu confirmo a “profecia” dando um  tiro em você.

Mas tudo bem. Vamos supor que tudo isso faz perfeito sentido. O homem desobedeceu a Deus e acabou de condenar sua alma aos suplícios eternos do fogo infernal. Cabe aqui o questionamento de por que o Diabo puniria alguém que fez exatamente o que ele sugeriu, ou por que o Diabo (obviamente capaz de rebelar-se contra Deus) se encarregaria de gerir a repartição pública que é o inferno.

Afinal de contas, a bíblia deixa claro que nem o Diabo nem seus asseclas estão presos ao inferno; por que exatamente ele se sujeitaria a servir como gerente daquela porra, torturando aqueles que desobedeceram a Deus?!

Primeiro, alguém em sua posição provavelmente diria “foda-se, tou fora dessa merda”. E segundo, não há motivo para o Diabo desgostar de alguém que foi enviado ao mesmo lugar pelo mesmo motivo que ele — desobediência.

A meu ver, o Diabo simpatizaria com um condenado. Mas prossigamos com a história.

Ok, Deus criou o homem, montou lá seu pequeno experimento pra descobrir o que ele supostamente já deveria saber, e expulsou-o do Eden ao mesmo tempo que condenou sua alma ao inferno. Mas Deus precisava bolar também um plano pra salvar o homem (da condenação que ele próprio criou). E simplesmente PERDOAR ESSA MERDA E DEIXAR PASSAR aparentemente não era possível. Ele tinha que complicar as coisas.

(Leve em consideração passagens como Genesis 3:22 ou Genesis 11:7, que corroboram a idéia de que Deus batia papo com os anjos sobre seus planos. Então o diálogo abaixo não é inconsistente com a narrativa bíblia e pode ter realmente acontecido)

“Ô cambada”, berrou Deus, “Querem ouvir meu plano pros próximos 10 mil anos?”

“Claro, Senhor” mentiram os anjos.

“É o seguinte. Eu criei o homem, coloquei-o lá naquele jardim onde estive brincando durante essa semana, e pus lá também uma árvore que tem como único propósito faze-los comer seu fruto. Ah, e eu os proibi de comer o fruto”.

“Ok, e depois?”  perguntou Raziel, um dos servos angelicais.  Os outros anjos o reprovaram silenciosamente igual a gente faz quando o aluno chato fica fazendo perguntas insistentes pro professor.

“Depois eu vou deixar uma cobra falante ir lá e os convencer de comer o fruto que está lá só pra ser comido, apesar de ser contra a regra.”

“Até aqui tudo bem”

“Como sou onisciente, eu já sei que eles comerão o  fruto. Aí eu vou lá, finjo que não sei o que está acontecendo e espremo uma confissão deles.”

“E aí?”

“Aí eu os condeno a uma vida de sofrimento. Quando eles morrerem — ah é, esqueci de mencionar essa parte, eu inventei algo chamado ‘morte’ também — vou joga-los naquele buraco onde joguei Lúcifer e os broders dele.”

“Perfeito!” dizem os anjos, dando a resposta que eles achavam que Deus queria ouvir, achando que isso daria fim à conversa. Lembrem-se que anjos foram criados com o único intuito de adorar um ser com um óbvio complexo de inferioridade; eles já deviam estar de saco cheio dele a essa altura.

“Perfeito?! Como assim perfeito, seu retardado?! Claro que não, porra! O homem, minha criação suprema, estará condenado por mim mesmo a um lugar desgraçado que eu mesmo também criei por causa de um teste bolado por mim mesmo cujo resultado eu já sabia antes mesmo de cria-lo. A situação é um desastre e, obviamente, é tudo culpa daquele filho da puta do Lúcifer!”

Raziel levantou a mão.

“Mas Senhor, se o problema é esse mecanismo de condenação criado por Você mesmo,  por que não simplesmente… perdoar o homem? Ou então, não montar toda essa máquina rude-goldbergiana que resulta na queda do homem?” questionou Raziel, ao ponto que todos os anjos ao seu redor deram passos pros lados. A maioria deles ainda lembra o que aconteceu da última vez que Deus foi questionado abertamente por um anjo.

“Não, assim é fácil demais. Eu quero salva-los, mas não posso simplesmente salva-los assim do nada. Assim não pode.”

“Ok, então o que o Senhor fará?”

“A idéia é a seguinte” disse Jeová com aquele característico brilho nos olhos de alguém que explica o próprio plano “por enquanto os homens estão fodidos mesmo. Só que daqui apenas uns 5 mil anos, farei um clone de mim mesmo. Vou mandar esse clone lá pra baixo, e os homens o matarão de uma forma bárbara. Quem acreditar que esse clone sou eu, será salvo. Não poderia ser mais simples.”

Raziel levantou a mão de novo.

“Mas você mandará só um, e só daqui 5 mil anos? Isso vai servir pra quem estiver lá na hora e conhece-lo. E o pessoal que nasceu e morreu antes disso?”

“Ah, eu estava esperando você perguntar isso. Até lá, eu vou pegar um daqueles povos lá embaixo como minha turma de estimação. Eles se chamarão ‘OS JUDEUS’ e pra provar que os favoreço acima de todos os outros, eles serão subjugados e escravizados por séculos. Mas pelo menos eu os salvarei”

“Mas como vamos diferenciar esse povo escolhido dos outros?”

“Muito simples. Deixarei a instrução de que eles mutilem as próprias pirocas. Assim eu saberei quais bonequinhos são os meus, e quais são dos outros deuses. A propósito não existem outro deuses, mas eu deixarei um mandamento que os proíbem de adorar esses outros deuses mesmo assim. Vou até anotar isso aqui na agenda pra não esquecer”.

“…agora entendi. Mas e o pessoal que vier DEPOIS que o clone morrer?”

“Essa é mais fácil ainda, Raziel. Vou inspirar uma turma lá embaixo a escrever um livro sobre o clone. O livro será um pouco vago, então talvez acabem existindo umas 2 ou 3 ou 50 interpretações diferentes dela. Se você crer na interpretação correta, pronto: tá salvo. Se não, já sabe: pro buraco com o capiroto”.

Nada em relação a esse plano me soa como o projeto de um ser supremo onisciente, e me espanto por pensar que por muitos anos eu não questionei nenhum elemento dessa história.

“What’s in a name? That which we call a rose/By any other name would smell as sweet.”

– Romeu and Julieta

What’s in a name?” é uma expressão inglesa (se foi criada por Shakespeare agora eu não sei) que essencialmente significa “qual a importância de um nome?”. No segundo ato da icônica peça, a Julieta fala frustrada que nomes são nada senão uma convenção artificial, e que ela não se importa com o fato de que o nome do Romeu é Montéquio — uma família odiada pela sua própria, o clã Capuleto.

Essa mulher não sabia de nada, pois sim, nomes têm imensa importância. E eu vou te contar a história do meu.

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