[ Hora da Justiça ] Porrada no skatepark!

O olhar de alguém que percebe que tomou literalmente todas as piores decisões numa situação. Já saí de algumas provas com este mesmo semblante, eu sei do que estou falando.

Os skateparks (eu pensei em traduzir mas se você jogou Tony Hawks Pro Skater você não precisa, e se não jogou não deveria estar acessando meu site) normalmente são locais onde a molecada vai aprender o quão implacáveis são as leis da física, ou quão cara é a instalação de pinos de titânio no fêmur.

Hoje, no entanto, veremos alguém aprendendo uma outra lição tão ou mais importante: a lição da JUSTIÇA.

https://www.youtube.com/watch?v=dT2RtTEB_qA&feature=youtu.be

O vídeo começa com um rapaz se arregaçando no chão violentamente a 10m/s², um ritual que faz parte integral do “esporte” do skatismo — divido esportes em duas categorias, o esporte esportivo (como futebol feminino, pega-pega e natação sincronizada) e o esporte não-esportivo (Fórmula 1, futebol de salão e League of Legends). Como ainda não decidi a qual categoria o skatismo pertence, dou-lhe uma terceira definição: “esporte” com aspas.

Então. Entre o skatista acidentado e o rapaz documentando sua possível fratura, dois outros rapazes dialogam.

O cameraman parecia inicialmente indeciso: registro a briga que está prestes a eclodir aqui perante meus olhos, ou documento aquele garoto ali atrás que possivelmente quebrou a fíbula? Através de um breve zoom, o garoto operando a câmera viu que não havia grandes ferimentos no skatista caído, e então volta sua atenção à dupla discutindo em sua frente.

Temos um garoto alto de camiseta branca e cabelo raspado, e um menino baixo de camiseta preta com cabelo comprido. Perceba que esses moleques são extremos extremos opostos em todos os aspectos — se um gosta de pizza, o outro odeia; se o nome de um fosse João, o do outro provavelmente deve ser Oãoj. Eles são o yin e o yang de si próprios.

E o yin e yang estão a meros segundos de distância de sentar a porrada na cara um no outro.

Nunca entendemos completamente o contexto dessas brigas, já que os cinematografistas amadores sempre começam a filmar depois que as primeiras ofensas foram trocadas. Mas, pelo que consegui entender da discussão, um dos dois teria falado algo a respeito do outro, e este outro não gostou. O rapaz baixinho (chamarei-o de Cabeludo) em um momento diz “o que você faria se eu dissesse que (…)”, com um tom que insinua que ele não gostou de algo que o rapaz alto (o Careca) teria dito sobre ele. Em seguida o Cabeludo diz que “I motherfucking called you out“!.

Uma explicação: “Call out” é uma expressão idiomática que é meio difícil de traduzir. É mais ou menos assim: imagine que alguém faz algo que você reprova. Tu vai lá e esculacha o cara, em público, refutando o que ele está dizendo, ou confrontando-o a repetir o que ele falou. Isso seria um “call out”. O termo também é usado quando alguém mente, e outra pessoa o na mentira e o expõe.

Pois bem. De acordo com esse diálogo, me parece que o Careca teria dito algo sobre o Cabeludo, este não gostou, e decidiu passar a limpo. COM SOCOS.

O Careca acerta um soco logo no começo, mas claramente as artes marciais não são sua especialidade porque o soco teve o impacto de uma pena caindo em cima de uma bolinha de algodão. O Cabeludo revida simultanemaente com um esquerdo no queixo. Um a um.

O Careca continua avançando, e no recuo o Cabeludo acerta outro esquerdo (claramente, sua especialidade) na cara de seu antagonista. O Careca, este noob das lutas de rua, vai ao chão como um candelabro mal instalado. O Cabeluco monta em cima do oponente e acerta diversos socos, com auxílio da sonoplastia do cinegrafista. BOOM BOOM BOOM BOOM.

Aos 36 segundos perceba que o Cabeludo pensa em meter um bicudo daqueles que permite um gol chutado do meio de campo. Entretanto, ele se contem. O Careca, visivelmente tonto, ensaia uma recuperação, mas é recepcionado com o prato do dia: vários outros esquerdos. O Careca vai ao chão de novo.

Alguém espevita o Cabeludo pra continuar sentando o cacete, ao que este se recusa, dizendo que “não vai chuta-lo quando ele está caído” (seja chutar aqui usado em sentido literal, ou figurado — “kick him while he’s down” é também uma expressão idiomática que significa “detonar o cara quando ele já está na merda”).

O Careca se levanta, sangrando e derrotado. Cambaleia timidamente pra cima do Cabeludo, mas este não abusa da posição de superioridade bélica: com punhos em riste, aguarda um possível ataque do adversário em vez de sair demolindo ele de novo. E sobra a ele apenas sair com o rabinho entre as pernas, enquanto o Cabeludo fica com os espólios de uma batalha vencida (apertos de mão dos coleguinhas).

ESCALA CAPITÃO AMÉRICA DE JUSTIÇA: Dou 9/10. Teria sido um 10/10 perfeito se o Cabeludo tivesse sido antagonizado pelo Careca de forma completamente gratuita e covarde, mas pelo que vimos ele estava tirando satisfação de algo que o Careca teria supostamente falado, então ele aparentemente antagonizou o rapaz/desencadeou a briga, ou seja: foi quem de fato “chamou pro pau”. A Justiça é maior quando o sujeito é relutante em entrar na confusão.

Entretanto, por sua habilidade no combate, e principalmente, por exercer em DOIS momentos distintos a parcimônia e auto-controle que são critérios importantíssimos para a ECAJ, dou um 8/10 — e um ponto extra por ele ser visivelmente menor que o outro combatente, chegando aí ao 9/10.

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comments

12 comments

  1. Discordo, devia ter sido 10/10, mesmo q o Cabeludo tenha chamado pra briga em si, parece que o careca que começou toda a treta em primeiro lugar.

    #TeamCabeludo

  2. “Perceba que esses moleques são extremos extremos opostos em todos os aspectos — se um gosta de pizza, o outro odeia; se o nome de um fosse João, o do outro provavelmente deve ser Oãoj. Eles são o yin e o yang de si próprios.”–izzy nobre. Dominando as palavras. Muito foda cara.

  3. Esporte não-esportivo é um nome idiota, desde aquele episódio em que você falou essa palavra no 99 vidas eu penso isso. O que você quer dizer é esporte não-atlético, e nessa categoria se encaixam coisas como hipismo, arco e flecha e xadrez, e NUNCA, o futsal, que ao meu ver é mais esforço físico até que o futebol de campo (por isso as substituições ilimitadas).

  4. Mais um voto a favor de um post sobre os diferentes tipos de esportes :P. Não ficou clara pra mim também essa distinção, principalmente com o futsal quebrando minha hipótese inicial haha

  5. Fala, Izzy!
    Cara, o “Skatismo” pode ser considerado um “esporte esportivo” já que exige muito esforço físico. Quando vc “rema”, empurrando o skate (digamos na stance Goofy, que consiste na perna esquerda ficar na parte da frente do skate e a direita no Tail), a perna direita fica com a maior parte do peso do corpo, sendo assim com o tempo ela fica mais forte. Sem falar que vc tem que aprender a andar de “Switch”, no caso com a perna esquerda na frente, sendo assim fortalecendo as duas pernas. Quanto aos saltos, manda-se o “Ollie” que é nada mais, nada menos vc fazer o movimento de salto mesmo só que na hora de levantar, bater o “pop” no tail pra fazer com que o skate levante acompanhando o seu corpo no espaço, e com a perna da frente dando um leve chute pra frente pra que o tail se levante também. Quando desce, os joelhos são requisitados pra que flexionem absorvendo o impacto. Não só os joelhos, como também o quadril é muito exigido em muitas manobras.
    “O alto impacto na realização das manobras e as diferentes rotações que o a perna faz quando as manobras não são concluídas com perfeição fazem do joelho um dos maiores alvos de lesão nos skatistas.” (Fonte: Skate Saúde)
    Sendo assim, antes da prática é recomendável que alongue-se as pernas e os ombros.

    Abraço, Izzy, e continue com os ótimos posts!

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