Izzy Nobre, justiceiro do trânsito — uma mini-aventura contemporânea atrás do volante

Então né, ontem eu fui lá e comprei a porra do iPad mini Retina Display que eu já tinha falado claramente que não compraria.

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Você pode me chamar de um escravo do consumismo selvagem, mas eu estou apenas contribuindo com o PIB do país que me acolheu de braços abertos. Digo mais: se não fosse esse desejo mórbido de ter e comprar tudo estaríamos ainda nas cavernas, ein!

Pois bem. Primeiro, naturalmente, eu participei do ritual “rasga a embalagem arregaça a caixa tira tudo mas não adianta nada porque o troço ainda não foi setupado com o iTunes então emporcalhei o carro à toa”.

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Satisfeito em mexer no aparelho desligado por alguns instantes, joguei tudo no banco do passageiro e saí fora do shopping.

E aí aconteceu.

Estava eu na Crowchild Trail, uma das principais vias expressas aqui da cidade de Calgary, quando vi uma cena inusitada. No desenrolar da situação, pensei “preciso sobreviver a isso, porque vai dar um post maneiro”.

Na minha frente havia uma F150 vermelha. Tipo essa aqui, pra facilitar o trabalho da sua imaginação:

f150

Logo na frente da picape, havia um carro tipicamente de velho (modelo antigo, tipo do começo dos anos 90, e bem fodido), sendo dirigido por uma velhinha.

Não sei no Brasil mas aqui fora, velhinhos dirigem de acordo com a equação V = (Lim/2) + 10km/h, onde V é a velocidade e Lim é o limite da estrada.  Se o limite é 80km/h (e sim, aqui no Canadá usamos km/h), os velhinhos guiam a (80/2) + 10km/h, ou seja, o V deles é 50km/h.

O cara da picape estava claramente impaciente, e as outras faixas estavam movimentadas demais pra permitir uma mudança. Após longos minutos seguindo a velhinha lesmítica, o cara da picape acha uma brecha à direita, joga o carro pro lado com tudo, acelera, e passa a velhinha.

Mas não sem antes abaixar o vidro e erguer o braço na direção da idosa. Na ponta daquele braço, um dedo médio em impávido riste.

levine

fig4: Adam Levine mostra o que aconteceu ontem no trânsito na minha frente

Como eu já comentei e deve ser óbvio a qualquer pessoa que me segue, eu não sou uma pessoa excepcionalmente inteligente. Uma vez escovei os dentes sem querer com Hipoglós (sério) e eu frequentemente me pergunto se meus action figures tem divertidas aventuras juntos quando eu não estou por perto. Por isso, quando o cara da picape levantou o dedo pra véia que ficava pra trás, inicialmente eu pensei que ele estava levantando o dedo pra MIM.

Será possível?!” eu pensei confuso. O que eu fiz?!?! Mas… mas eu também dirijo um carro da Ford! Não deveria haver algum tipo de fraternidade entre donos de carros da mesma fabricante…? Um dono de um Honda Fit não passaria na frente de um Civic berrando que comeu a mãe deste último, ou passaria…?

Aí eu vi a velhinha no carro, lembrei que por causa dela estou dirigindo a 50km/h, adicionei o fator da picape entrando à direita bruscamente e computei o resultado — o destinatário do gesto obsceno era a pobre octagenária arrastando seu carrim lentamente na via expressa.

Só que eu fiquei com pena da velhinha. Coitada, mano! Eu trabalho com idosos (uns 96% da população de um hospital tem pelo menos 60 anos de idade, é BEM raro eu atender um paciente com menos de 40 anos) e confie em mim, alguns deles são tão ou mais ineptos que bebês de colo; berrando de forma incoerente quando precisam de alguma coisa e ocasionalmente cagando-se completamente na própria cama. A única coisa mais triste que a visão de um velhinho doente tendo espasmos e completamente untado com os próprios excrementos é ter que trabalhar ali do lado dele. Fico triste pelos assistentes de enfermagem que tem que limpar as camas, aliás — espero que eles ganhem bastante.

Então, como estou acostumado a ver velhinho inválido todo fodido no hospital onde eu trabalho, quando vejo um fora de seu habitat natural vivendo ativamente e não agonizando lentamente sob os efeitos de drogas quimioterápicas, eu fico feliz por ele. E aí passei a ver a atitude do cara da picape como maldosa e desnecessária.

E uma idéia louca surgiu na minha mente: eu vingarei esta velhinha da canalhice deste covarde motorista.

Fixei o olhar na picape, a essa altura já tomando distância. Entrei na faixa à direita e pisei fundo pra alcançar a F150. Ao ultrapassar a velhinha, olho pra ela e — sem grande surpresa — a vejo com aquele semblante claro de alguém que está tentando ler um cartaz sem os óculos e num claro estado de confusão mental de alguém que entrou na sala errada no primeiro dia de aula e não sabe qual a melhor hora pra sair.

assim

Mais ou menos assim, com mais artrite.

Deixe estar, pobre donzela” eu pensei “hei de vingar sua honra“.

Comecei a dar skip desesperadamente na playlist do meu celular. Vivo uma vida gorda e sedentária; nesses raros momentos de aventura, é necessário achar a música correspondente ideal. Pulei Coldplay, pulei Adele, pulei David Bowie, cheguei finalmente em target=”_blank”>Take a Look Around do Limp Bizkit. Epa, essa aí serve. Não tinha uma cena bacana de perseguição de carros naquele filme…? Pisei mais fundo.

Colei atrás da F150, mas para o meu plano dar certo eu precisava estar do LADO do maluco — e ultrapassando-o para evitar o return fire. Pisei fundo novamente pra trocar de faixa e saí à esquerda do cara. Não havia muitos carros na minha frente; a fuga será perfeita.

Pisei de novo e os 305 cavalos debaixo do capô do Mustang relincharam com raiva. Me senti jogado pra trás no banco. Cheguei do lado da picape, mas… o maluco não olhava pro meu lado!

Porra! E agora? Buzinar não adiantaria, já que ele está do meu lado e não na minha frente. Preciso chamar atenção dele. Mas como?

Já sei. Acelerei de novo, passando da F150. Sinalizei a mudança de faixa e pus meu carro na frente dele. Uma vez lá, tirei o pé do acelerador e o carro foi descendo dos 110km/h de volta pros 80. A picape foi crescendo no meu retrovisor, e a insatisfação no rosto do motorista era clara. Se pá ele já estava armando um outro dedo, dessa vez pra mim.

Pronto. Agora ele tá de olho em mim. Sinalizei, voltei pra minha faixa original. A picape acelerou pra me passar, e eu senti o maluco me perfurando com os olhos. Baixei o vidro do carro enquanto Fred Durst berrava “now I know why you wanna hate me” nos alto-falantes do meu carro — possivelmente, o momento de maior sincronicidade da minha vida inteira ouvindo músicas.

Lado a lado com a F150, estendi o braço pro malvado motorista. Ejetei o dedo médio em sua direção fixamente; uma ereção digital balanceando o saldo espiritual daquele filho da puta. Segurei o dedo na direção do maluco por uns bons segundos — e ele foi obrigado a absorver cada gota da ofensa, pois um carro na sua frente o impedia de escapar do meu gesto de vingança e justiça.

Arranquei de lá pensando “se essa velhinha tiver um infarto e morrer atrás do volante, quando ela estiver vendo sua vida passar diante de seus olhos ela vai gostar desta parte”.

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comments

24 comments

  1. Já ta incarnando sua personalidade de motorista agressivo. Impressionante o poder que o carro faz as pessoas sentirem que tem. HAHAHA
    Vai com calma jovem… violência só gera violência =]

  2. Izzy, o MAD MAX cearense. na falta de uma escopeta de cano serrado, um dedo do meio ereto tem o mesmo calibre pra causar danos À ALMA

  3. Acho que o momento épico da vingança poética seria se o cara da F150 tivesse resolvido abraçar um poste alguns metros à frente.

    Aposto que o sujeito da picape deve estar pensando “Tinha um fdp num Mustang preto esses dias…”

  4. Mano, irado, mas se fosse no trânsito de Fortaleza e você não conseguisse fugir, isso ia acabar em homicídio. No brasil alias, por muito menos uma mulher ficou com um olho roxo em SP se não me engano.

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