Jovens de Calgary morrem fazendo burrice

Tive até que criar uma nova categoria pra esse post. Nunca escrevi algo assim antes no HBD.

Na madrugada de sábado*, oito moleques sem noção aqui de Calgary tiveram a excelentíssima idéia de descer o COP, Calgary Olympic Park, que é uma pista de bobsled, num toboggan.

Pausa pra descanadensezar o texto.

Bobsled, pra quem não manja das parada, é um “esporte” em que 4 malucos sobem nessa porra aí:

E descem essa piroca numa pista de gelo em velocidades que chegam a passar de 100km/h. Lembra de Jamaica Abaixo de Zero? Então. Foi inclusive nesse mesmo local que filmaram o clássico.

Agora me ocorre que era mais fácil só ter falado isso logo no começo.

E toboggan é um daqueles famosos falsos cognatos que professor de inglês adora usar como pegadinha na aula. No português e espanhol (e provavelmente outras línguas também, quem sabe), tobogã é um escorregador; sendo toboágua a variação aquática da estrutura. No inglês, toboggan é uma espécie de prancha usada pra descer uma colina no inverno, ou qualquer coisa que tenha mais ou menos a mesma função.

Aqui está um vlog que fiz anos atrás com inscritos do meu canal descendo uma colina aqui em Calgary que é apropriadamente chamada de “Suicide Hill”.

Não é que o nome do cara que descobriu a colina era Sir James Suicide nem nada do tipo, é que esportes de inverno — até esses mais brandos — são infamemente perigosos. O Michael Schumacher que o diga, coitado. Aliás, sempre me perguntei porque se pronuncia o Michael do piloto como “MI CA EL”, quando outros Michaels no Brasil viram MÁICOU, e hoje aprendi que essa outra pronúncia é mais próxima do alemão.

Por outro lado, Schumacher soa em alemão mais próximo de “Xu-Ma-Rar”, e no entanto o Galvão Bueno nos condicionou a pronunciar americanizado como “Xu-Ma-Quer”, misturando assim pronúncias alemãs e inglesas. Decidam-se!

Enfim. Oito gênios decidiram invadir o Olympic Park na calada da noite e usar um toboggan pra descer a pista de bobsled. De acordo com a página da Winsport, a empresa que administra a pista, você chega a atingir velocidades superiores a 100km/h descendo a parada.

Uma coisa é bater um carro numa parede indo a 100km/h. Agora você imagina numa parede indo a 100km/h nisso:

Foi o que aconteceu. Oito acertaram um portão que divide as pistas, matando dois deles instantaneamente e mandando os outros 6 pra hospitais daqui da cidade. Não que eles tenham batido no portão, saído voando e chegado lá no departamento de emergência, você entendeu o que eu quis dizer.

A porrada foi tamanha que a polícia não conseguiu identificar os corpos; geralmente quando isso ocorre eu fico com a impressão de que a pessoa foi vaporizada com o impacto ou algo assim. Demorou alguns dias pra descobrirem que eram dois irmãos gêmeos que haviam inclusive trabalhado na pista há algum tempo.

Eu moro aqui há 13 anos, e acho que entendo bem a cultura canadense e seus contrastes com a minha cultura brasileira. Mas uma coisa que me surpreendeu é que quase unanimemente, ninguém culpou os moleques pela merda que fizeram.

Todo mundo que eu conheço expressou condolências em relação aos moleques, com alguns chegando ao extremo de culpar a falta de segurança na pista, ou acusar a empresa de não fazer o bastante pra impedir entrada não-autorizada. Uma repórter daqui de Calgary postou uma foto da cerca que protege o local, insinuando que não há segurança o suficiente impedindo alguém de entrar no local.

Até papo de processo contra a empresa já rolou.

Quando os detalhes da história ficaram mais claros — inicialmente era “acidente grave na pista de bobsled”, depois virou “adolescentes morrem após invadir pista de bobsled de madrugada” –, comentei que Darwin os havia ceifado. Por causa disso tomei bronca de follower gringo e fui criticado no subreddit da minha cidade.

(Curiosamente, meu nome como produtor de conteúdo começa a ganhar um espaço nas mídias sociais daqui e isso me deixa empolgado pra continuar produzindo em inglês)

Por outro lado, quando comentei a parada no meu tuiter em portugues, a reação foi unanimemente de “porra, vacilaram feio né. Se foderam“. E eu acho que essa reação é culturalmente interessante.

Nós brasileiros vivemos uma vida bem menos fácil do que a maioria esmagadora dos gringos; com isso, vem uma certa dureza de espírito que, embora seja subproduto de uma forma mais pragmática de se pensar, soa como cinismo ou até morbidez pra quem não está acostumado. Os gringos, angelicais e inocentes, se compadecem com a morte dos malucos; nós imediatamente pensamos que a culpa é deles (e apenas deles) por ter feito algo imprudente e obviamente perigoso.

Porra, o que me chateou mais na história é que esses idiotas desviaram SETE ambulâncias da frota municipal, e usaram seis leitos nos hospitais locais (ocupando incontáveis médicos e enfermeiras) por causa de sua brincadeira. É um ônus violento à saúde pública — que potencialmente deixa outros cidadãos ao léu se precisarem de serviços de emergência — por causa de uma brincadeira imprudente.

Tenho mais pena da família e dos paramédicos que os socorreram. Esse é o tipo de situação que traumatiza o profissional de emergência pro resto da vida.

*Parem com essa redundância de falar “madrugada de X pra Y”. Madrugada é um período específico de um dia — as primeiras horas da manhã, ali de 1am até mais ou menos umas 4am. Explicar que dia veio antes é desnecessário pra qualquer pessoa que entenda a ordem dos dias da semana.

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comments

18 comments

  1. Esse negócio de “madrugada de x pra y” na realidade me confunde. Muito mais fácil dizer simplesmente “madrugada de sábado” etc. “Madrugada de sábado pra domingo” soa tão burro. hahahaha

  2. Ótimo texto, esse tipo de acidente pra mim demonstra basicamente um fator: as pessoas não entendem física básica. Trazendo pro nosso cotidiano, quantas pessoas você conhece que não gostam de utilizar cinto de segurança?

  3. Os brasileiros estão certos e os canadenses errados. A controvérsia está na expressão “responsabilidade pessoal”. E vou além… os países ricos cada dia mais anulam a responsabilidade pessoal, colocando as culpas das mazelas de qualquer simples evento no governo, nas empresas, no patriarcado, no capitalismo opressor, no cristianismo, no homem branco heterossexual etc. Não… a culpa é sua mesmo, você fez merda, fazer merdas têm consequências, não culpe os outros pelas suas irresponsabilidades.

  4. Não necessariamente um lado está certo e outro errado. Esses garotos foram imbecis? Claro. A empresa tem instalações perigosas? Então ela deve zelar pelo acesso seguro às instalações.

    1. Acesso seguro é uma coisa. Invasão é outra. É ma mesma coisa que um ladrão invadir uma casa ou uma empresa de madrugada, se machucar fazendo isso e depois querer processar o dono (apesar de que já ouvi casos desses tipo, só não sei se foram verdade).

      Se os garotos estivessem acessando a área de forma lícita, pelas formas corretas, e se machucassem, ok. 150% culpa da empresa. Mas a empresa não tem responsabilidade nenhuma se alguém entra ilegalmente lá e se fode.

    2. A responsabilidade é toda das mães de cada indivíduo que tiveram eles sabendo que o mundo é um lugar perigoso para idiotas.
      Elas deviam primeiro terem garantido que o mundo fosse um lugar 100% seguro para só assim depois ter filhos.
      Essa irresponsabilidade foi o que permitiu que uma pista perigosa para um esporte perigoso fosse usada por pessoas idiotas conduzindo sem permissão um veículo inadequado.

  5. Sobre sua conclusão, enxergo o oposto. Sim, as pessoas se vitimizam em qualquer nação ocidental. Não importa se é rica ou pobre, criada a iogurte ou à macaxeira, calvinista ou católica.

    Mas vejo que nos EUA e Canadá (lugares onde morei por 6 anos) a responsabilidade individual à qual o Thiago se refere em um comentário acima é mais respeitada e valorizada.

    Lembro que o Safeway vendia iogurte vencido com desconto. Apenas avisava e deixava para o cidadão escolher se leva ou não (eu levava sempre e comemorava ter pago metade do preço). Aqui se tá próximo de vencer o Procon prende o gerente do supermercado.

    No Brasil somos paternalistas e nunca assumimos a parcela de responsabilidade que nos cabe. Sempre o mais forte -- em geral o Estado, ou o porco capitalista -- é culpado. Veja a Dengue. A culpa é da Dilma, afinal, foi ela quem não limpou o quintal dos porcos brasileiros…

    Mas voltando à discussão do Olympic Park, penso que se essa tragédia tivesse acontecido no Brasil, jornalistas sequer teriam mencionado que os adolescentes “invadiram” o espaço de madrugada. Veja que mesmo o Metro, sensacionalista por essência, reforça que os adolescentes invadiram o espaço.

    Aqui, o enfoque seria na dor das famílias, na busca por culpados (que não incluiria jamais os mortos) e a “opinião pública” seria levada a se revoltar contra os administradores do espaço instantaneamente. Talvez o Datena estivesse esbarrando ao vivo para o presidente da Empresa antes mesmo de retirarem os corpos do local.

    Mas enfim…Darwin funciona aí com adolescente que brinca de madrugada na neve e aqui com uma população inteira de adultos que não limpa quintal. Depois a gente discute os custos para o Estado e a Sociedade.

  6. Izzy,complemento aqui seu comentário sobre as diferentes reações perante a morte dos jovens:

    No Brasil, a morte — e até mesmo acidentes graves, dos que deixam sequelas — é uma coisa banal. Todo mundo está acostumado com esse tipo de notícia, basta lembrar de algum conhecido que morreu em um acidente( que todos o temos por aqui), ou só ligar a televisão mesmo. Isso permite que nós, já quase indiferentes a esse tipo de tragédia, prestemos atenção nas ATITUDES das vítimas; os Canadenses, que não estão acostumados com isso, desviam sua atenção para a TRAGÉDIA EM SI quando ela acontece, daí a maior comoção.

  7. Fizesse realmente uma brincadeira de mal gosto com o Darwin Awards aí hehe. Mas tá certo, aqui na minha região todo final de semana muitos se matam de carro, quando se é jovem a gente passa por amigos malucos dirigindo as vezes, tem que aceitar o risco ou pular fora do carro.

  8. Estou fazendo aula teórica na auto escola e a professora já contou tanta história de moleque imbecil se ferrando (e ferrando os outros também, um imbecil pegou o volante bêbado e matou a namorada de 15 anos) por burrice que eu ando seriamente pensando que o único jeito de conter esses babacas é levar todos pro necrotério e mostrar exatamente o que acontece com quem faz essas porras. Deixa essas mulas ficarem uma semana ou duas tendo pesadelos com os corpos destroçados, cortados ao meio (literalmente), com espinhas rompidas e sem massa encefálica ou, no caso de Calgary, vaporizados de quem morre nesses acidentes e brincadeiras estúpidas pra ver se finalmente aprendem.

  9. Tá aí uma coisa que eu não sabia sobre os canadenses. Imagino a tua surpresa, Izzy. Achei que fosse uma população mais intolerante sobre esse tipo de coisa.

  10. Bom não vejo culpa da empresa, se eles tivessem roubado algo e fossem presos em seguida, não estariam soltos por que a culpa foi da empresa de ter falta de segurança da pista, como disse a pista e de Bobsled, e eles foram num tobogã.É como falar que a culpa é do zoológico que alguém pulou na área dos leões.Em minha opinião eles morreram de trouxas.

  11. Deixa eu ver se entendi, no Canadá garotos de 16 anos também tiram carteira de motorista? Se sim, então se eles tivessem envolvidos em um acidente de trânsito, por dirigirem embriagados, matando assim outras pessoas, esses garotos não seriam culpados pois “são só adolescentes”? Quanta hipocrisia.

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