Eu frequentemente comento nas redes sociais que uma das grandes desvantagens de se morar fora é ter que aturar as temperaturas árticas que fazem aqui no topo do hemisfério norte. Quando o inverno chega em seu ponto “fodeu agora maluco”, temperaturas abaixo de -20 são um acontecimento diário.

Tem lados bons de morar aqui, claro. A segurança, target=”_blank”>a boa saúde pública, os eletrônicos baratos… essas coisas são legais e tal, mas o inverno é realmente difícil de aturar. Aliás, difícil de “aturar” não — difícil de sobreviver.

Você acha que eu tou exagerando, evidentemente. Acontece que o frio e a neve transformam o ato de dirigir, que já é a atividade mais perigosa que você pratica todo dia, numa verdadeira roleta russa. Eu poderia mostrar links de matérias de batidas envolvendo 20 ou 30 carros — uma tradição anual nas rodovias aqui na minha cidade durante o período de nevascas — mas achei um vídeo ainda mais instrutivo.

Os cinagrafistas desta sequência são Boris e Yuri, dois incalculáveis filhos da puta, rindo pra caralho da pilha crescente de carros na frente de seu prédio. Por algum motivo malucos continuam tentando a sorte descendo a porra dessa ladeira — imagino que esse motivo seja “eles são russos ué”.

O ponto alto do vídeo pra mim é o momento em que uma van preta esá girando ladeira abaixo descontroladamente e no último instante dá uma giradinha habilidosa que o tira da trajetória de colisão. Foi uma manobra impossível aquilo ali, no nível em que o Capitão Kirk está caindo em direção a Terra numa nave espacial totalmente avariada (quantas vezes isso aconteceu, ein?) e inventa uma reversão da polaridade dos príons quânticos e de repente salva a pele no último instante.

O que eu estou querendo dizer é que este motorista só pode ser um ex-cosmonauta soviético pra controlar a parada daquele jeito.

É, o HBD ficou sem atualizações por alguns dias. Podia estar roubando, matando, ou mentindo pros leitores, mas prefiro ser honesto: desta vez nem foi tanto a falta de tempo. Tava sem saco pra escrever mesmo!

Mas vamos ao post de hoje.

A grande maioria de nós, em geral, não se esforça taaaaaanto assim em seus trabalhos. O que há de mais comum na força trabalhista mundial — sim, mundial. Vagabundice não é produto exclusivo de brasileiros — é achar a forma mais fácil ou conveniente de executar suas tarefas, aquela permita cultivar a maior preguiça possível enquanto ainda mantendo o emprego. Uma vez que se encontra este método, o indivíduo passa o resto da vida empregando-o — sem jamais por grande esforço na performance, sem nunca se desafiar.

Este Boris aqui é outra história!

Este sujeito expressa tanto entusiasmo em sua profissão que você imaginaria que ele é o embaixador russo dos vendedores ambulantes ou coisa do tipo. A velocidade com a qual o fazedor de wraps prepara os quitutes é estonteante. Aliás, este combo de rapidez com precisão remete àqueles vídeos de braços robóticos montando microchips ou instalando portas em automóveis na linha de produção.

Você já foi num fast food qualquer e comeu um hamburger tão mal projetado que parece que o rapaz do McDonalds o montou com os cotovelos? E olhe que ele estava dedicando 100% da sua capacidade a montar a porra do lanche, sem firulas ou malabarismos como esse russo aí!

Tem uma hora ali aos 36 segundos que o maluco joga as duas espátulas (sei que não é espátula mas não sei o nome disto em português) na sua mesa de trabalho, e as duas retornam DAREDEVILMENTE às suas mãos de forma LITERALMENTE ninja. Não tenho dúvidas de que este rapaz poderia empregar seus talentos como assassino profissional se a demanda por wraps não fosse tão alta ali na Sibéria onde ele mora.

E quando o sidekick dele coloca os wraps no grill, este incrível artista marcial gourmet pega aquela pexeira de resolver encrenca no Ceará* e começa a fazer as mais acrobáticas firulas.

Deu pena é do pobre ajudante sem talento, que se limita a operar o grill em total humilhação perante o skill de seu chefe.

*Antes que algum desavisado resolva me denunciar pro Ministério Público por xenofobia: eu e minha inteira família somos cearenses, caraio. MONTESE REPRESENT (se bem que morei em todo canto daquela cidade)

Aê galera, vamos mais uma vez observar a vida na Mãe Rússia através de vídeos completamente estapafúrdios que algum russo maluco (perdoem a redundância) uploadeou no youtube.

De acordo com o que posso averiguar, o vídeo trata-se de uma tradição de fim de semana de Nikolai e seus compatriotas: provar à ADIDAS que ela ainda é culturalmente relevante em algum lugar.

Opa, não, quero dizer, a tradição no caso trata-se das raves vespertinas em playground infantis. Suspeito que o acidente nuclear que deixou a Rússia com esse aspecto de subúrbio fodido, abandonado e infértil fez o o mesmo com todos os úteros russos; na falta de crianças os playground acabaram sobrando para outras atividades. Vejamos o vídeo:

Este vídeo é cheio de personagens russos impagáveis. Vemos ali à direita o Doutor Batishchev que, niilisticamente convencido que o futuro inevitável é a morte, abandonou seus pacientes (e sua camisa) na UTI mesmo e veio dançar com a galera no playground.

À frente temos o próprio Nikolai, detentor do último toca-fitas portátil existente em toda província de Arkhangelsk (todos os outros foram confiscados em 1989 para a confecção da fogueira municipal, a fim prover a população de alguns instantes de calor). Nikolai, um exímio mestre do estilo de dança “enguia epilética”, abre o vídeo mostrando os passos que conquistaram terceiro lugar no его веселый любопытный, o torneio russo bienal de dança.

Mais na frente vemos Yuri exibindo a mais recente moda nas danceterias russas: o passo “meu pintinho amarelinho”. Nas proximidades vemos também Boris, que sempre se veste das mais conceituadas modas russas (no momento, terno de domador de circo). Perceba também que lá pela metade do vídeo um dos broders da rave é preso por atacar um motorista que se atreveu a dirigir pela área, é prontamente preso pelas autoridades locais, e a festa continua como se nada tivesse acontecido.

Um dos pontos chaves do vídeo é quando Aleksey, com o nariz visivelmente ferido, dança alegremente na frente do que parece ser uma ruína em chamas — um microcosmo da condição russa, pelo que posso averiguar por vídeos como este.

Note que aos dois minutos do vídeo uma velhinha aproxima-se do grupo, arrisca uns passinhos, e é então aceita oficialmente pelo grupo através do tradicional rito de passagem russo: a troca de boinas.

O que confirma minha teoria de que Fievel é um documentário factualmente apurado.

Que cultura fascinante. Que povo alegre e cheio de vida. Que país incomparavelmente fodido.

A propósito, gostaria de lembrar a vocês que os russos ainda são detentores de mais de duas mil ogivas nucleares.

Britadeiras geralmente vem com inúmeras sugestões de uso. Capacetes, protetores de ouvido e/ou testículos, uma admoestação de que você não as opere enquanto está sob efeito de entorpecentes. De uma forma geral a mensagem é “isto aqui é um equipamento pesado que deve ser utilizado apenas conforme indicado, quando necessário, seguindo as devidas precauções e com seriedade”.

E como muitas outros avisos de segurança, o da britadeira é sumariamente ignorado na Rússia. É por isso é que temos o vídeo abaixo:

Num bela manhã de sábado (que na Rússia significa “menos deprimentemente nublado do que de costume”), Vladimir vestiu o que parece ser uma blusa pertencente à sua filha de 5 anos e foi ao point de rolé tradicional na pátria-mãe, uma zona de construção abandonada. Acompanhado por Mikhail, Yury e a única câmera em território russo que não está acoplada ao painel de um Lada, os dois amigos pegaram as britadeiras que encontraram no local e começaram a simular uma batalha com fuzis.

O ponto alto da encenação é aos 11 segundos quando Mikhail — sem dúvida achando que canalizava o espírito da ginasta olímpica Yevgeniya Bochkaryova quando esta ganhou ouro em Atlanta em 1996 — executa o que deve ser a mais desastrada série de movimentos jamais gravada em um arquivo de vídeo (e isso é incluindo aquele target=”_blank”>vergonhoso combo de lip sync com coerografia desengonçada de lesma reumática da Britney no VMA de 2007). Sua cambalhota foi tão inepta que, perceba, ele quase enrolou o próprio pé no cabo da britadeira.

Miraculosamente, nenhum dedo foi arrancado com violência por causa da incauta proximidade da broca.

Já falei isso aqui no HBD; creio que o fim da Guerra Fria foi algo terrível para a sociedade russa. Naquela época, a “certeza” de um fim próximo na aniquilação nuclear produziu uma cultura de disciplina e de avanços tecnológicos com finalidade de auto-preservação e de orgulho nacional (veja o programa espacial deles, por exemplo).

Como escaparam do pior, hoje os russos aparentemente vivem um período de hedonismo auto-destrutivo (com britadeiras).

Que deus permita que tal sina jamais aconteça em nosso Brasil.

Olá molecada! 2012 tá quase acabando e você aí lendo este blog, ein?

Então turma. O meu ilustre e jurídico amigo @gravz me deu uma sugestão interessante de conteúdo e eu achei que seria válido atender sua sugestão (a dele, não a sua, porque até onde eu sei você não me sugeriu nada).

You see, você já deve ter percebido que existe na internet uma miríade de vídeos de russos cometendo loucuras diversas e infrações de trânsito com resultados às vezes trágicos. Isso acontece (de acordo com uma explicação que li no reddit) porque na Rússia tentar scammear os outros motoristas com acidentes intencionais é um tipo de esporte nacional. Na corrida evolutiva, russos desenvolveram o hábito de acoplar câmeras nos painéis dos carros, para se defender de motoristas corruptos.

O efeito colateral dessa dinâmica entre scammers e cidadãos de bem é que foi permitido ao Ocidente pela primeira vez um pequeno vislumbre da loucura cotidiana que é a vida russa. E o vídeo que vos trago hoje, o primeiro numa longa (se Lúcifre quiser) série entitulada MARAVILHAS DA MOTHER RUSSIA.

Comecemos então com O Carro Desgovernado.

O vídeo abre com a visão em primeira pessoa do interior do carro do Alexei. Alexei, um aparente fã da banda oitentista Eurythmics, dirige tranquilamente (algo incomum para um russo, talvez ele não tomou sua terceira vodka do dia ainda) em direção à fábrica de Ladas onde ele trabalha. De repente, algo acontece ali no canto esquerdo da tela.

Do nada vemos Boris, Piotr, Vladimir e Ivan correndo alucinadamente no meio da rua. À primeira instância, imaginei tratar-se de um equivalente russo da Corrida São Silvestre. Tudo bem que ainda não é o dia da São Silvestre, mas sei lá que tipo de calendário ou fuso horário os Yosefs usam. De repente lá já é dia 31 de dezembro.

Por causa do meu contexto cultural, ao ver gente correndo no meio da rua sem um motivo claro imaginei que alguém teria berrado PEGA LADRÃO, ou o equivalente russo “ловит вора”. Talvez algum gatuno tivesse roubado as batatas de Mikhail, o que o fez invocar uma turba ensandecida em sua perseguição. Mas também não era o caso.

O que ocorreu realmente é que a tecnologia do freio de mão é algo indecifrável para os Ruskies, aparentemente. O carro havia sido largado na rua sem o acionamento do freio, e a gravidade não perdoa ninguém. O carro começa sua jornada ladeira abaixo, NA CONTRAMÃO, e os russos correm desesperados a seu encalço.

Quando uma colisão com um carro branco que vem na direção oposta parece inevitável, um dos malucos pula dentro do carro e o joga pro lado oposto, literalmente no último segundo. E a perseguição se encerra; alguns dos russos continuam correndo, embora em outras direções. Foram salvar outros Ladas errantes? Quem sabe.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...