Meu pai achou várias filmagens da nossa família nos anos 90!

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Quem me ouve no 99Vidas deve lembrar de uma história que já mencionei lá diversas vezes — uma viagem de um mês que fiz aos EUA em 1999 com minha família.

E eu mencionei a viagem no meu podcast sobre games porque ela foi particularmente significativa na minha “formação gamer”, e por vários motivos: primeiro, ela marcou a primeira vez na minha vida que eu tive contato com um console next gen pouco tempo após seu lançamento.

No Brasil dos anos 90, e mais especificamente no CEARÁ nos anos 90, era difícil ver (que dirá então jogar!) num console de nova geração. A gente ouvia da molecada da locadora sobre algum suposto novo console; aí via numa revista de videogame as resenhas dos games (com imagens do tamanho de um ícone de smartphone, em resolução de tela de calculadora).

Alguns anos depois quando o brilho de “console next gen” já havia basicamente passado, o videogame finalmente aparecia na sua locadora local, custando 5 reais a hora pra jogar, contra 1 real a hora dos consoles mais velhos (e o dono da locadora achava que isso era um bom negócio. O 3DO da locadora do meu bairro ficava largado às baratas).

Eu demorei ANOS pra finalmente ver um Nintendo 64 de perto, que dirá então jogar — e olha a coincidência? Foi justamente nessa viagem que eu peguei num controle de N64 pela primeira vez na vida.

Eu e meu irmãos brincando na cama do hotel

Mas voltando ao começo da história: naquela viagem tive a oportunidade de experimentar o Dreamcast numa Toys R Us qualque em Nova Iorque. O privilégio de anos morando fora do Brasil me deixaram completamente desensitivizado à maravilha que é, pela primeira vez, ter contato com uma tecnologia inacessível (já que pra mim, não existe mais “tecnologia inacessível”). Foi  uma experiência tão trivial jogar Sonic Adventures no display da Toys R Us, mas foi um momento bem significativo pra mim.

Além disso, eu pude pela primeira vez jogar em algo que foi um sonho de consumo por muitos anos: um Game Boy. Ficamos na casa de amigos cujo um dos filhos ganhou um Game Boy Color de presente de natal, e com o cartucho de Pokemon Blue. Pude pela primeira vez ver em ação, e no console original, um jogo que eu só conhecia dos emuladores.

O garoto e o Game Boy em questão. Hoje, tenho um modelo idêntico, guardado naquela vitrine que você vê nos meus vídeos.

Aliás, meu pai capturou até o momento exato em que o garoto ganhou o videogame:

Com aquela feature cafona CLÁSSICA das filmadoras dos anos 90 — exibir uma mensagem por cima da filmagem.

FALANDO EM CAFONICE eu preciso usar essa oportunidade pra dar um esporro no meu pai. Quando ele digitalizou essas fitas, lá nos idos de 2004 ou 2005, meu pai estava pela primeira vez experimentando com essa tal de “edição de vídeo”, um conceito com o qual ele sempre paquerou, mas que só no meio dos anos 2000 se tornou acessível para o público comum.

Ele deu seu início nesssa indústria vital ripando as fitas. O que ele fez de errado pra merecer esporro? Já explico.

Voltando ao assunto, contabilizando a experiência trancendental gamer que foi essa viagem, teve também o supracitado Nintendo 64 — que eu conhecia só de ouvir os amigos do Brasil falando que era foda, e pude jogar pela primeira vez na casa desse mesmo moleque do Game Boy.

Joguei muito Turok, Goldeneye, Starfox 64, e assisti vários playthroughs de Ocarina of Time com aqueles moleques. Passei uma semana lá, se lembro bem, e vi aqueles moleques zerando Zelda fazendo revezamento do controle umas três vezes.

Mas o post não é sobre videogame, especificamente. É sobre memórias de família.

Meu pai sempre foi early adopter de tecnologia, uma característica que herdei dele. Por causa disso, tivemos a oportunidade de registrar uma viagem como essa em diversas fitas VHS, que meu pai anos mais tarde encontraria embaixo de uma montanha de poeira, e digitalizaria.

Em Denver, no Colorado

A parte injustificável que merece o esporro que citei antes é que ele cagou completamente em cima desse exercício de preservação história de lembranças familiares.

Como ele queria experimentar com edição de video, ele colocou por cima dos vídeos ripados daqueles VHS uma trilha sonora injustificável de Bon Jovi, Shania Twain, Xitãozinho e Xororó (?!?!?!) e outros absurdos. Nem o George Lucas esculhambou tanto um trabalho prévio de sua própria filmagem com adições desnecessárias quanto o meu pai.

E como as fitas já se perderam nas areias do tempo, e meu pai em seu amadorismo de edição não guardou uma versão na íntegra da parada, o único registro que tenho de minha viagem pelos EUA é embalada ao som de That Don’t Impress Me Much, o que eu não tenho nem palavras pra descrever. Tem trecho que não dá pra ouvir o que eu estou dizendo pra minha mãe, mas o “Okay, so you’re Brad Pitt/That don’t impress me much” da muié tá alto e claro.

Mesmo com essa cagada imperdoável do meu pai, é muito interessante rever essas filmagens. Eu adoro relembrar o passado, e esses vídeos dão um insight foda sobre a vida naquela época.

Menos de dois anos da filmagem desse vídeo, por exemplo, o mundo mudaria irreversivelmente

E isso me faz pensar em como a geração atual verá o próprio passado. Nós que já passamos dos 30 temos apenas pequenos vislumbres da vida do passado — uma foto que na época já tinha saído fora de foco e agora desbotou com os anos e ficou ainda menos nítida. Uma filmagem breve, em baixa qualidade, tremida (não tínhamos prática com as câmeras ou tecnologia de estabilização); esse tipo de coisa.

Por fruto dessa escassez de registros da época, eu penso que a nossa geração lembrará um pouco menos do passado do que a turminha que está aí completando seus vinte anos, com até mesmo as maiores trivialidades registradas num Instagram da vida. Sabe, fala-se muito da egolatria que o pessoal mais novo cultiva nas redes sociais, das selfies, dos vlogs feitos com a “presunção” de que alguém se interessa com o registro da vida do sujeito… mas eu invejo esse pessoal, na real.

Daqui dez anos, eles terão uma visão muito melhor do próprio passado do que nós temos, e eu penso que com isso virá um compreendimento melhor da sua própria história pessoal. Sempre que vejo essas filmagens, eu lamento meu pai não ter mais dinheiro, pra comprar mais fitas VHS, e então filmar o que talvez na época passasse por algo completamente bobo e trivial (digamos, eu e meu irmão brincando no quintal de casa), mas que hoje me valeria ouro.

Brincando num troço qualquer no Universal Studios em Orlando

Por isso eu digo: mande esses auto-eleitos críticos das prática sociais contemporâneas às favas. Auto-exposição em demasia? Na real, foda-se. Tire fotos, faça vídeos, registre os momentos (importantes ou não) da sua família. Ter um acesso a esse material é muito mais precioso, eu acho, do que algum aleatório da internet te encher o saco porque você “tira selfies demais”.

E pra quem diz “mas Izzy, e a privacidade?!” é pra isso que servem serviços privados, ora. Esses vídeos que meu pai colocou no YouTube estão com links “unlisted”, ou seja, só vê quem tem a URL. Colocar as coisas na nuvem dessa forma é uma boa forma de garantir que memórias de famílias não serão perdidas num crash de HD. Jogou num dropbox da vida, no YouTube, de forma geral pode confiar que os serviços já provaram que estão aí pra ficar.

Afinal, tem vídeo meu que pus no YouTube há quase DEZ ANOS

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