Minha gradativa transformação num motorista imprudente pra caralho

Se alguém te perguntasse qual a característica definitiva dos seres humanos, que resposta você daria? Aliás, não precisa nem imaginar o cenário como hipotético, tô te perguntando agora, porra. Qual a principal diferença entre um ser humano e um animal?

Alguns diriam que o que distingue humanos dos demais animais irracionais como lontras ou o Xbox Mil Grau é o fato de que o ser humano é um dos poucos animais que pratica sexo recreativo, ou seja, uma boa e velha foda sem fins de procriação, fora do sagrado sacramento matrimonial, só pra deixar Jesus triste mesmo.

Certamente essas pessoas nunca foram no Simba Safari, em São Paulo, onde leões e demais animais, completamente tomados de lascívia (o que diabo será que dão de comer pra esses bichos lá?) saem montando uns nos outros sem qualquer pudor, enquanto mães fazem o sinal da cruz horrorizadas e pais sufocam a risada que eles sabem que não deveriam estar dando.

Creio que nenhum outro programa familiar causava tantas criancinhas a fazerem perguntas bastante desconfortáveis a seus pais no caminho de volta pra casa.

A propósito, a criançada mais nova deve estar querendo saber que porra seria “Simba Safari”. Não, não é uma ROM hack de Yoshi Safari substituindo o amigável dinossauro verde pelo filho do Mufasa; Simba Safari era o nome original do tal “Zoo Safari”, de São Paulo. Suponho que a mudança de nome veio por intermédio de uma comida de rabo jurídica da Disney.

Sim, o Simba Safari era anterior a Rei Leão, mas estamos falando da Disney — uma empresa que, em 2012, se viu dona de toda propriedade intelectual da LucasFilm porque uma das secretárias entendeu errado a instrução “vai lá comprar Star Wars que faz tempo que não assisto”. Contra um oponente de tamanho poder financeiro, só resta acatar os pedidos caladinho e pedir desculpa até pelo que você não fez.

Como se pronuncia isso, aliás? ZU SAFARI? OU ZÔ SAFARI?

Voltando o assunto, sim, animais também transam apenas pela putaria da coisa. De bonobos a golfinhos, passando por um cachorrinho que eu tinha que não podia ver uma panturrilha desavisada que corria pra fazer amor com ela, inúmeros animais curtem fornicar sem compromisso.

Outros diriam que o que diferencia humanos de bestas selvagens é o fato de que somos capaz de discussão e debate, o que eu não sei se é exatamente uma vantagem. Você ja leu comentários do YouTube, né? Aquilo desafia a definição de que o ser humano é um “animal racional”. Aliás, esse é o maior legado da internet como um todo — após passar uma tarde lendo comentários do G1, você continua convencido de que essa é a MESMA espécie que inventou antibióticos e pôs um homem na lua?1

Uma vez fiz uma postagem — de brincadeira! — mencionando o Lula no Facebook; 2 horas e setecentos comentários revoltados depois, três familiares haviam me dado unfriend, meu email sofreu tentativa de invasão, e eu acho que já consigo sentir os efeitos de uma macumba feita em meu nome. Seres humanos são MUITA coisa, mas RACIONAIS é algo que presencio com pouquíssisma frequência.

Não, a REAL diferença, o que de fato eleva o homo sapiens acima de formas de vida inferiores como oxiúros ou Xbox Mil Grau é que o ser humano é incrivelmente adaptável. Não existem muitas coisas que não somos capazes de contornar. Não importa o que aconteça, a gente dá um jeito e acaba se acostumando às novas condições.

O ser humano é mais difícil de matar do que a sua sensação generalizada de abandono e depressão. Doenças estavam dizimando a população? BOOM, inventamos vacinas e o hábito de lavar as mãos após cagar. Crianças dificilmente passavam dos 5 anos de idade durante o período medieval? ” Vamo parar de chacoalhar essas criança aí”, e pronto. Estamos destruindo a camada de ozônio? Toca todo mundo a usar menos spray de cabelo e porra, resolvemos a ecologia E a moda dos anos 80 ao mesmo tempo.

O ser humano sobrevive a tudo, se adapta a tudo. Essa é nossa característica primordial; os bichos não chegam nem perto do nosso jogo de cintura.

Bota um peixe de água doce no mar e ele praticamente explode. Dê chocolate pra um cachorro e os rins dele se dissolvem igual algodão doce no chuveiro. Quase nenhum gatinho sobrevive a um tiro. Já o ser humano, que em teoria só poderia viver nas zonas temperadas, se espalhou feito erva daninha pelo planeta inteiro, e já começa a dar seus primeiros passos rumo estragar até outros planetas.

O problema é que essa nossa impressionante capacidade pra nos moldar ao ambiente ao nosso redor pra garantir maior sobrevivência tem um efeito colateral, também — complacência.

À medida que nos tornamos mais adeptos a uma atividade, a precaução que exercemos quando fazemos aquela atividade vai lentamente, mas inevitavelmente, tendendo a zero. Se eu tivesse prestado mais atenção nas aulas de Cálculo Diferencial na faculdade, eu traçaria uma função limite legal mostrando a queda da cautela à medida que você vai se adaptando mais e mais a alguma coisa, só que em vez de dar valor ao dinheiro do contribuinte que custeava minhas aulas na UFMA, eu estava no laboratório de informática jogando Worms Armageddon, então vai isso aí:

E acho que nenhuma atividade é mais representativa disso — adaptação que gera complacência — do que dirigir meu carro.

Aprendi a dirigir na Parati do meu pai, lá pelos idos de 1999. Entre estancar aqui e arranhar a lataria do carro contra o portão da garagem ali, eu me tornei semi-proficiente em dirigir o carro por intervalos de 4 minutos. Meu aprendizado foi interrompido quando me mudei pro Canadá, em 2003.

Só fui tirar minha carteira de motorista muitos anos mais tarde, em 2012, se me lembro bem. Parte do motivo da demora é que por boa parte da minha vida aqui foi interrompida por um longuíssimo processo de imigração que limitava muito onde eu podia trabalhar. Em outras palavras, fui por muitos anos o clássico “imigrante fodido”, um estado larval obrigatório antes de “se dar bem” na gringa (leia-se “ter uma vida normal de classe média norte-americana, mas que visto por lentes brasileiras faz parecer imensa benesse financeira”)

Logo após tirar minha carteira de motorista, comprei meu primeiro carro: um Buick Century 1999. Eu não manjava os pormenores do trânsito canadense, então optei por fazer uma auto-escola (o que de quebra rendia um desconto no seguro do carro).

As primeiras vezes que dirigi TOTALMENTE SOZINHO, ou seja, sem um pai ou instrutor do lado pra berrar OLHA O SINAL, MOLEQUE!, a tensão era palpável. Eu seguia TODAS as regras de trânsito com uma devoção quase paladinesca. Mãos na posição certa do volante, costas retesadas, olhos escaneando o ambiente a minha frente com a prontidão e alerta de uma águia particularmente cuidadosa, do tipo que sempre confere religiosamente as faturas do cartão de crédito pra garantir que seu Visa não foi clonado e que usa duas camisinhas ao mesmo tempo pra garantir.

Eu seguia as regras de trânsito como se eu tivesse as inventado. Eu ia dizer que as seguia “como se minha vida dependesse disso”, só que ela literalmente depende e eu aparentemente não perceber isso ia me fazer parecer um motorista ainda PIOR do que estou prestes a admitir que sou.

Quando comecei a dirigir, eu não tirava a mão do volante com o carro em movimento em condição ALGUMA (uma das vantagens de só dirigir carro automático2). Não pegava no celular, não comia um salgadinho, eu não mexia nem nos controles do ar condicionado do carro… era quase como se eu pensasse que o carro ia se desmontar sozinho se eu tirasse a mão da direção — se bem que, considerando que era um Buick de 1999, não é uma teoria completamente sem mérito.

Só que ao contrário do hímen, nós nos tornamos mais complacentes com o passar tempo. Primeiro comecei a me permitir mudar o volume da música no painel do carro. “Não dá nada”, eu pensei. Depois graduei pra mudar a música com o celular. Pouco a pouco, manter os olhos na estrada não parecia mais tãããão crucial assim em alguns momentos que eu me convencia de que eram “seguros”.

Isso chegou ao absurdo completo no dia que eu EDITEI UM VÍDEO NO IMOVIE DO CELULAR enquanto dirigia pro trabalho, algo que eu não sei nem se devia estar admitindo em público. Em minha defesa, eu não precisava olhar pro celular — a interface do iMovie permite fazer edições só a base dos gestos com os dedos, sem prestar muita (ou nenhuma) atenção à tela. E sim, eu sei que um juiz não ia aceitar esse elogio aos engenheiros de UI da Apple no meu julgamento de homicídio culposo por atropelar 50 pessoas enquanto editava o novo vlog.

Esse foi o meu wakeup call, e desde então eu voltei à cautela de antes. Felimente aprendi a lição sem precisar passar por cima de ninguém com meu carro, o que é um bônus excelente.

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comments

19 comments

  1. Não e não lerei, mas não gostei.
    Concordo que somos uns dos animais mais adaptáveis do mundo e que essa é talvez nossa maior características.
    Considerando que tirei a carteira em 2004, tenho que concordar que vamos ficando mais “relaxados” com o tempo. Eu era muito radical com as regras de trânsito e ainda ficava fiscalizando os outros, hoje tenho que lutar contra meu instinto de “não dá nada”.
    Só acho exagerada a zoeira ao mil grau. Você deveria ser mais compreensivo porque a essa temperatura o Xbox já deu 3rl.
    Há braços!

  2. Eu sinto a mesma coisa tanto com o carro quanto com a moto. Só que com essa última já me fodi algumas vezes e desde então minha atenção tá redobrada, mas com o carro…

  3. Finalmente, ele vive! Long live HBD.

    Acredito que esse negócio da direção é assim mesmo.
    Imaginao nível que não chega quando você, por 5 anos, faz o mesmo trecho todo fim de semana praticamente. É uma estrada longa, com muitas retas, e no horário que você pega ela, quase sem movimento.
    Pois é.
    Mas felizmente nunca rolou nada bizarro pra chamar de wake up call -- só me peguei algumas vezes pensando na vida e observando a placa torta do restaurante chulé enquanto fazia uma curva inconscientemente.

  4. Caralho! Pensei que era só eu que estava me desvirtuando do caminho. Eu era do nível que meus amigos me zoavam por dar seta enquanto dirigia por ruas completamente vazias, às 3h da madruga, numa cidade de 20 mil habitantes.

  5. Se os canadenses conseguirem usar a seta com mais frenqüencia que os brasileiros já é uma vitória.

    Só piloto moto, a “vantagem” é que vc não pode vacilar um segundo pois sempre tem algum pedestre, motorista ou buraco querendo testar seu reflexo.

    Outra “vantagem” é que a própria moto te leva pro chão se vc está ficando confiante demais. rsrs

    Essas coisas acabam te fazendo ficar mais cauteloso. Afinal é sempre bom chegar em casa inteiro.

    ps.: Escreva mais, poderia dizer excelente texto e blablabla pra tentar motivá-lo mas sabemos que não funciona.

  6. Aff, eu tava lendo o texto na maior tensão achando que ia ocorrer um desastre no final e a conclusão da história é que nada aconteceu kkkkk

  7. Essa história só me faz ter inveja na real, sou um completo inútil pra fazer duas coisas ao mesmo tempo. Nem andar e olhar o celular consigo.
    Qual vídeo foi? Queria ver quão boa ficou essa edição on the go

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