Acho que todo grupo de amigos tem um Marquinhos. Eu mesmo já participei de vários grupos de amigos com Marquinhos’s diferentes, e até mesmo grupos sociais distintos que compartilhavam um Marquinhos entre si, tal qual um par de irmãos siameses que dividem um fígado ou algo assim.

Marquinhos era o filho de uma das melhores amigas da minha mãe na época da igreja, o que inevitavelmente significava que éramos bastante próximos — no sentido de que quando duas mães com filhos em idades equivalentes se encontram com frequência, os pirralhos acabam se vendo constantemente também. O Marquinhos era gente boa e tinha praticamente os mesmos interesses que eu, mas por algum motivo ele não entrava no rol de melhores amigos. Não era maldade com o cara, nem falta de consideração. Ele simplesmente não constava entre os titulares.

Cê já teve um amigo assim, né? Um cara que gosta das mesmas coisas que você, que é super gente boa (talvez até gente boa demais, o que graças à nossa natureza humana sem sentido é visto como um demérito), mas que simplesmente não chega a ser efetivado como um true parça?

Talvez por ser um amigo da igreja. Essa foi a época da minha vida em que eu estava começando a ter minha dúvidas sobre a fé, e o exercício de frequentar a igreja se tornava cada vez mais enfadonho. No processo de gradual desligamento da cultura evangélica, os amigos daquele círculo também foram ficando pra trás — independente de quão gente boa eles fossem.

O Marquinhos tinha umas maluquices sensacionais que eu jamais vi ninguém fazendo antes. Por exemplo, ele era completamente incapaz de beber água sem deixar um restinho no copo, que ele então esvaziava com um rápido movimento mdo punho que lançava a água violentamente contra a parede da cozinha. Respingava por todo lado, ele olhava pra mim esperando a confirmação de que eu aprovava sua irreverência com as paredes da cozinha, e eu me mijava de rir.

Chegou ao ponto de que ele enchia o copo sem nem estar com sede e tomava apenas um golinho mínimo, pra maximizar o payload de água jogada contra a parede.

Foi o Marquinhos que me introduziu ao mundo do RPG, também. Até então eu conhecia o RPG de forma abstrata, sem nunca ter jogado, mas entendendo mais ou menos qual era a idéia. Nenhum de meus amigos jogava, então eu ficava com esse conhecimento limitado baseado no que lia em sites e na revista Dragão Brasil.

Foi justo nessa época que um suplemento de Pokemon pra 3D&T havia sido lançado pela revista. O bairro onde morávamos, o Conjunto Ceará, era uma das periferias mais fodidas de Fortaleza. Naturalmente, um joguinho que requeria apenas uma revistinha, papel e lápis e alguns dados — e ainda por cima baseado no desenho mais popular do momento — bombou entre a molecada.

Ele me levou nos “points” do RPG do Conjunto Ceará. Divididos em vários grupos, a galera jogava na rua mesmo, sentados ao meio fio com suas fichas e suplementos, jogando sob a luz pífia dos postes da pracinha. Às vezes um membro de uma das rodinhas ia “batalhar” contra um treinador de outra, interrompendo a história dos caras, mas adicionando um nível de realismo que eu nunca havia visto no RPG antes, ou mesmo depois disso — um crossplay entre campanhas diferentes. Frequentemente alguém que havia perdido uma disputa dias antes via um desafeto jogando

Então. Pela nossa proximidade, era comum ir dormir na casa do Marquinhos. Ocorre-me agora, aliás, que enquanto o inglês tem um termo específico pra isso (“sleepover”), o português não nos equipa com um equivalente, e eu tenho que escrever, por extenso, “dormir na casa do Marquinhos”. Nossa língua não é tão eficiente quanto poderia ser.

Nesse período, eu estava viciadíssimo em Super Mario Kart. Mario Kart é um dos poucos jogos em que sou realmente bom — minha namorada que o diga, que apanhou em todas as partidas de Mario Kart 8 que disputamos até hoje e por isso busca refúgio no Mario Kart 64 onde ela tem suposta hegemonia.

Aliás, um rápido parêntese — quando a Nintendo anunciou um novo modelo de New 3DS XL, como ela faz toda quinta feira, eu esbocei insatisfação com o fato de que esta nova versão do console (cujo design é inspirado no SNES) inclui uma cópia digital de Super Mario Kart. Os limitados 140 caracteres do tuíter são excelentes pra gerar mal entendido, e muitos interpretaram minha reclamação como uma espécie de declaração de desprezo por Mario Kart.

Nada poderia ser mais distante da realidade. Mario Kart foi um dos jogos que mais joguei na vida, e eu apenas vejo a inclusão do jogo como oportunidade perdida. Ou colocassem Super Mario World, que é muito mais emblemático como “jogo incluso junto com um SNES”, ou algo bem diferente — sei lá, um Chrono Trigger…?

A propósito estou namorando esse New 3DS XL de Super Nintendo desde que foi anunciado, e decidi que preciso de um para ser verdadeiramente feliz.

Voltando à história:

Naturalmente, eu sempre levava minha fita de Mario Kart quando ia dormir na casa do Marquinhos. Ficávamos até tarde da noite, sentados no chão da sala, monopolizando a televisão da família (nessa época era comum ter só uma em casa, não esqueça) metendo cascos e bananas no rabo um do outro1. Considerando que o jogo tinha até pouca variedade, é impressionante quantas horas conseguíamos gastar naquele jogo. Isso mostra que pivete se diverte com muito pouco mesmo, que é uma boa desculpa pra não dar presente de aniversário pra crianças da família.

Vale lembrar que vivíamos numa era pré-casco azul em Mario Kart — uma época mais civilizada, onde a meritocracia permitia o cidadão vencer uma corrida de forma justa. Acertar o oponente com um projétil bem posicionado, assim fodendo completamente uma corrida que até então tinha sido virtualmente perfeita, requeria muito mais habilidade naquela época. Eu gostaria de culpar o PT por isso.

Num desses sleepovers, acordei de manhã e descobri, completamente consternado, que meu Super Nintendo (e meu amado Mario Kart) haviam sumido.

Junto com o Marquinhos.

Nunca tive um carro roubado na vida (quer dizer, uma vez abriram a porta do meu carro e levaram meu transmissor bluetooth e o controle da porta da garagem — isso conta?), mas eu imagino que a sensação de chegar na garagem e encarar só as paredes é semelhante ao que eu senti naquele momento.

Não precisaria ser um Sherlock Holmes cearense pra concluir facinho que o moleque sequestrou meu videogame pra ir jogar com outro amiguinho. A única outra teoria que explicava sumiço súbito de alguém, de acordo com meu worldview cristão, seria um Arrebatamento. Só que eu duvido muito que o meu SNES teria sido levado ao céu, e duvidava mais ainda que o Marquinhos seria merecedor dessa honra.

Agora, por que diabos ele não apenas convidou tal amiguinho pra vir jogar com a gente, eu jamais saberei. Seria infinitamente mais simples trazer o outro pirralho pra casa e jogarem lá mesmo, do que ter que convencer OUTRA mãe a instalar um videogame na TV da sala, sob protestos de que “esse negócio de videogame” estraga a visão, ou a TV, ou ambos.

Como moleque hiperativo, eu sempre acordava bem cedo, antes de todo mundo na casa. Isso sempre foi um problema quando eu ia dormir na casa de amigos, especialmente numa época anterior a celulares e tal. Por causa disso, tive que agonizar por algumas horas até a mãe do moleque acordar e me dar algumas pistas do paradeiro de Marquinhos.

Com sorte, o primeiro palpite dela era o correto — Marquinhos havia levando meu SNES pra casa de um amigo que morava na mesma rua, algumas casas à direita. Esqueci o nome do infeliz, mas chamemos de “Fernando”. Cheguei lá e lá estão esse possível Fernando e Marquinhos, jogando o MEU Super Nintendo, o MEU Mario Kart, com a cara mais lavada do mundo. Vê se tem cabimento um desrespeito desse.

Em vez de exigir uma explicação dessa empáfia, tomei o controle e surrei-os impiedosamente por duas horas, porque a vida era realmente mais simples em 1995.

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Quem me ouve no 99Vidas deve lembrar de uma história que já mencionei lá diversas vezes — uma viagem de um mês que fiz aos EUA em 1999 com minha família.

E eu mencionei a viagem no meu podcast sobre games porque ela foi particularmente significativa na minha “formação gamer”, e por vários motivos: primeiro, ela marcou a primeira vez na minha vida que eu tive contato com um console next gen pouco tempo após seu lançamento.

No Brasil dos anos 90, e mais especificamente no CEARÁ nos anos 90, era difícil ver (que dirá então jogar!) num console de nova geração. A gente ouvia da molecada da locadora sobre algum suposto novo console; aí via numa revista de videogame as resenhas dos games (com imagens do tamanho de um ícone de smartphone, em resolução de tela de calculadora).

Alguns anos depois quando o brilho de “console next gen” já havia basicamente passado, o videogame finalmente aparecia na sua locadora local, custando 5 reais a hora pra jogar, contra 1 real a hora dos consoles mais velhos (e o dono da locadora achava que isso era um bom negócio. O 3DO da locadora do meu bairro ficava largado às baratas).

Eu demorei ANOS pra finalmente ver um Nintendo 64 de perto, que dirá então jogar — e olha a coincidência? Foi justamente nessa viagem que eu peguei num controle de N64 pela primeira vez na vida.

Eu e meu irmãos brincando na cama do hotel

Mas voltando ao começo da história: naquela viagem tive a oportunidade de experimentar o Dreamcast numa Toys R Us qualque em Nova Iorque. O privilégio de anos morando fora do Brasil me deixaram completamente desensitivizado à maravilha que é, pela primeira vez, ter contato com uma tecnologia inacessível (já que pra mim, não existe mais “tecnologia inacessível”). Foi  uma experiência tão trivial jogar Sonic Adventures no display da Toys R Us, mas foi um momento bem significativo pra mim.

Além disso, eu pude pela primeira vez jogar em algo que foi um sonho de consumo por muitos anos: um Game Boy. Ficamos na casa de amigos cujo um dos filhos ganhou um Game Boy Color de presente de natal, e com o cartucho de Pokemon Blue. Pude pela primeira vez ver em ação, e no console original, um jogo que eu só conhecia dos emuladores.

O garoto e o Game Boy em questão. Hoje, tenho um modelo idêntico, guardado naquela vitrine que você vê nos meus vídeos.

Aliás, meu pai capturou até o momento exato em que o garoto ganhou o videogame:

Com aquela feature cafona CLÁSSICA das filmadoras dos anos 90 — exibir uma mensagem por cima da filmagem.

FALANDO EM CAFONICE eu preciso usar essa oportunidade pra dar um esporro no meu pai. Quando ele digitalizou essas fitas, lá nos idos de 2004 ou 2005, meu pai estava pela primeira vez experimentando com essa tal de “edição de vídeo”, um conceito com o qual ele sempre paquerou, mas que só no meio dos anos 2000 se tornou acessível para o público comum.

Ele deu seu início nesssa indústria vital ripando as fitas. O que ele fez de errado pra merecer esporro? Já explico.

Voltando ao assunto, contabilizando a experiência trancendental gamer que foi essa viagem, teve também o supracitado Nintendo 64 — que eu conhecia só de ouvir os amigos do Brasil falando que era foda, e pude jogar pela primeira vez na casa desse mesmo moleque do Game Boy.

Joguei muito Turok, Goldeneye, Starfox 64, e assisti vários playthroughs de Ocarina of Time com aqueles moleques. Passei uma semana lá, se lembro bem, e vi aqueles moleques zerando Zelda fazendo revezamento do controle umas três vezes.

Mas o post não é sobre videogame, especificamente. É sobre memórias de família.

Meu pai sempre foi early adopter de tecnologia, uma característica que herdei dele. Por causa disso, tivemos a oportunidade de registrar uma viagem como essa em diversas fitas VHS, que meu pai anos mais tarde encontraria embaixo de uma montanha de poeira, e digitalizaria.

Em Denver, no Colorado

A parte injustificável que merece o esporro que citei antes é que ele cagou completamente em cima desse exercício de preservação história de lembranças familiares.

Como ele queria experimentar com edição de video, ele colocou por cima dos vídeos ripados daqueles VHS uma trilha sonora injustificável de Bon Jovi, Shania Twain, Xitãozinho e Xororó (?!?!?!) e outros absurdos. Nem o George Lucas esculhambou tanto um trabalho prévio de sua própria filmagem com adições desnecessárias quanto o meu pai.

E como as fitas já se perderam nas areias do tempo, e meu pai em seu amadorismo de edição não guardou uma versão na íntegra da parada, o único registro que tenho de minha viagem pelos EUA é embalada ao som de That Don’t Impress Me Much, o que eu não tenho nem palavras pra descrever. Tem trecho que não dá pra ouvir o que eu estou dizendo pra minha mãe, mas o “Okay, so you’re Brad Pitt/That don’t impress me much” da muié tá alto e claro.

Mesmo com essa cagada imperdoável do meu pai, é muito interessante rever essas filmagens. Eu adoro relembrar o passado, e esses vídeos dão um insight foda sobre a vida naquela época.

Menos de dois anos da filmagem desse vídeo, por exemplo, o mundo mudaria irreversivelmente

E isso me faz pensar em como a geração atual verá o próprio passado. Nós que já passamos dos 30 temos apenas pequenos vislumbres da vida do passado — uma foto que na época já tinha saído fora de foco e agora desbotou com os anos e ficou ainda menos nítida. Uma filmagem breve, em baixa qualidade, tremida (não tínhamos prática com as câmeras ou tecnologia de estabilização); esse tipo de coisa.

Por fruto dessa escassez de registros da época, eu penso que a nossa geração lembrará um pouco menos do passado do que a turminha que está aí completando seus vinte anos, com até mesmo as maiores trivialidades registradas num Instagram da vida. Sabe, fala-se muito da egolatria que o pessoal mais novo cultiva nas redes sociais, das selfies, dos vlogs feitos com a “presunção” de que alguém se interessa com o registro da vida do sujeito… mas eu invejo esse pessoal, na real.

Daqui dez anos, eles terão uma visão muito melhor do próprio passado do que nós temos, e eu penso que com isso virá um compreendimento melhor da sua própria história pessoal. Sempre que vejo essas filmagens, eu lamento meu pai não ter mais dinheiro, pra comprar mais fitas VHS, e então filmar o que talvez na época passasse por algo completamente bobo e trivial (digamos, eu e meu irmão brincando no quintal de casa), mas que hoje me valeria ouro.

Brincando num troço qualquer no Universal Studios em Orlando

Por isso eu digo: mande esses auto-eleitos críticos das prática sociais contemporâneas às favas. Auto-exposição em demasia? Na real, foda-se. Tire fotos, faça vídeos, registre os momentos (importantes ou não) da sua família. Ter um acesso a esse material é muito mais precioso, eu acho, do que algum aleatório da internet te encher o saco porque você “tira selfies demais”.

E pra quem diz “mas Izzy, e a privacidade?!” é pra isso que servem serviços privados, ora. Esses vídeos que meu pai colocou no YouTube estão com links “unlisted”, ou seja, só vê quem tem a URL. Colocar as coisas na nuvem dessa forma é uma boa forma de garantir que memórias de famílias não serão perdidas num crash de HD. Jogou num dropbox da vida, no YouTube, de forma geral pode confiar que os serviços já provaram que estão aí pra ficar.

Afinal, tem vídeo meu que pus no YouTube há quase DEZ ANOS

iml

Eu queria usar uma imagem do IML de Fortaleza, onde a história realmente se passou, só que o prédio pelo jeito mudou TANTO de 1995 pra cá (ou talvez agora é outro prédio totalmente diferente) que não há benefício de verossimilidade em usa-lo.

Foi o seguinte. Em 1995, eu cursava a quinta série numa escola chamada Colégio Evangélico. A escola pertencia à Igreja Betesda, uma congregação em que naquele mesmo ano meu pai se tornaria pastor. A escola ficava nos fundos da igreja.

Essa era a Igreja Betesda. Tá vendo ali na esquerda?

Hoje aparentemente funciona ali a Coordenadoria de Vigilância em Saúde; nos anos 90, descendo essa rampa você chegava nas instalações do Colégio Evangélico. Ficava, tecnicamente, no “porão” da igreja.

Então. Nessa época, estudávamos eu e meu irmão nessa escola — eu na quinta série, ele na terceira. E meu irmão estudava com um garoto chamado Samuel.

O Samuel era aquele bully estereotípico. Com um físico desproporcional ao resto da molecada de sua sala e não muito inteligente — um explicava o outro; ele havia repetido dois anos, daí o constrate com a pirralhada –, Samuel rondava os corredores do colégio impondo uma lei talibanesca de terror e opressão. Em uma ocasião ele bateu num garoto da sexta férie, uma bizarríssima inversão das leis naturais do universo. Como podia um moleque da terceira série bater em alguém da sexta?!

Aliás, eu não lembro de ver o Samuel interagindo tanto com a gurizada de sua sala. Sua turma mesmo, me parecia, era a galera da MINHA sala. Isso ficou mais claro quando descobri que ele era repetente, e que aquele pessoal que estudava comigo havia sido de fato a turma dele anos antes.

Pois bem. O Samuel estabelecia sua dominância na escola distribuindo porrada em volumes cavalares na pivetada. Não havia um método muito claro no seu método de bullying; às vezes ele chegava no garoto, agarrava o pirralho pelo pescoço sem qualquer provocação, e empurrava o moleque na parede. Em outras ocasiões ele abaixava as calças da criança, de preferência em um momento que o pivete estivesse falando com os coleguinhas.

Seu MO mais frequente era pegar um maluco pelos braços, rodopiar até os pés da vítima descolarem do chão, e finalmente soltar a criança e deixar que a força centrífuga* resolvesse a situação.

Fui vítima de todas essas “brincadeiras” repetidamente.

Ocasionalmente (na real, um pouco raramente), o Samuel protegia suas vítimas de avanços de outros bullies. Lembro de uma situação específica em que ele se colocou entre eu e um moleque mais velho que queria me bater por um motivo qualquer. Samuel, que pelo que posso concluir era um psicopata mirim, alternava entre o papel de algoz e herói pura e exclusivamente para abaixar as defesas psicológicas de suas vítimas. No dia seguinte ele estava lá chutando a molecada novamente.

Então. Este episódio em particular aconteceu no pátio da escola após o término das aulas. Nessa época eu fazia algo chamado “tempo integral”, uma modalidade de ensino que nem sei se ainda existe mais.

Durante a manhã, rolava o período didático tradicional — matemática, português, geografia, etc.  Ao meio dia metade da escola ia pra casa, enquanto a outra metade ia para os chuveiros tomar banho e tirar o uniforme. Agora à paisana, os alunos dirigiam-se ao refeitório da escola, onde eram servidos o almoço.

Depois do almoço, a pirralhada se recolhia a “salas de descanso”, que nada eram senão salas comuns em que o espaço previamente ocupado por mesas e cadeiras havia sido substituído por colchonetes. Rolava aula de música (foi nessa época que aprendi o obrigatório Asa Branca numa flauta doce), um reforço escolar, e o dia terminava com um filme na biblioteca.

Então. Eu e o Samuel fazíamos o tal tempo integral, e frequentemente seus ataques aconteciam durante esse período (talvez porque a opção de vítimas era limitada). Num desses dias, o maluco chegou por trás de mim enquanto eu conversava com um coleguinha e me deu um safanão no braço, seguido de um soco nas costas.

Caí no chão na hora. Eu nunca havia entendido a expressão “ficar sem fôlego” até aquele dia. Pra terminar de me zoar, o Samuel tirou meus sapatos (????) e jogou pro outro lado do pátio. Tive que de certa forma admirar a criatividade do bully.

Demorei alguns segundos pra recuperar o fôlego; foi uma experiência desesperadora. Quando os amiguinhos vieram acudir, percebeu-se que havia ficado um hematoma nas minhas costas.

Quando meu pai apareceu na escola pra me pegar, contei o acontecido, e mostrei o hematoma, ele ficou colérico. O garoto não estava mais nas redondezas da escola, e ao contrário da outra ocasião em que meu pai teve que resolver uma situação de bullying, dessa vez ele foi um pouco mais comedido — meu velho decidiu que a decisão correta seria registrar o ocorrido e buscar uma solução por meios legais apropriados.

Fomos para o IML de Fortaleza fazer um exame de corpo de delito. Chegando no prédio, a primeira coisa que reparei foi o estado de total abandono do local — alguns pontos no forro haviam caído, deixando buracos no teto. Havia marcas de infiltração por toda parte, e uma boa parcela das lâmpadas estavam queimadas. Foi uma visão que eu convencionei a associar com a infraestutura pública; os anos que passei estudando em instituições públicas solidificaram essa imagem.

Após algum tempo esperando no saguão, o médico legista de plantão passou pelo corredor. Meu pai se levantou pra falar com o cara, e ele continuou em sua trajetória sem sequer olhar pro meu pai e entrou num dos escritórios. Meu pai voltou-se pra pedir ajuda à garota da recepção, mas ela só falou algo como “poisé o Doutor Fulano é ocupado mesmo, não sei quando ele vai poder atender vocês”.

Alguns minutos mais tarde, o médico saiu do escritório e foi em direção a um corredor. Meu pai levantou da cadeira mais uma vez pra tentar falar com o médico, e ele novamente sequer olhou na nossa direção. Sentamos novamente.

Acho que uma hora se passou antes que meu pai tentasse pedir ajuda à recepcionista novamente, e a resposta foi algo como “senhor, eu já lhe falei que o doutor está bastante ocupado” repleto de desdém, somado aquele tom que deixa claro o prazer da pessoa em te “corrigir”.

Frustrado com a situação de tentar resolver um problema da forma correta e se foder, meu pai perdeu a paciência e discutiu com a recepcionista, que daquela forma característica a funcionários públicos se recusava a fornecer muita ajuda ao mesmo tempo que lidava com qualquer pedido como se atender o cidadão pagador de impostos fosse um imenso favor de sua parte e não a descrição da sua função.

Nesse momento a frustração levou meu pai à ebulição. Revoltado de uma forma que eu nunca o vi antes, ele protestou que é um absurdo um cidadão receber tão péssimo tratamento num serviço que só existe por causa dos abusivos impostos que ele tem que pagar. E virou-se pra sair.

O médico aparentemente ouviu a explosão do meu pai e apareceu na porta de seu escritório pra ver do que se tratava a coisa. Os dois começaram a discutir; não lembro mais o que foi dito, mas o ponto principal era uma expressão de frustração com a falta de qualidade e o abandono do serviço público quando se mais precisa dele. O tom foi ficando cada vez mais alto; foi talvez a primeira vez (única, também…?) que lembro de ter visto meu pai ativamente brigando com alguém.

Meu pai encheu-se da discussão, me pegou pelo braço e virou-se pra sair, não sem antes falar algo em relação à mitológica vagabundagem do funcionarismo público. Nisso o médico avançou pra cima do meu pai, que já estava de costas. “Quem que é vagabundo aqui, seu filho de uma puta?“, berrava o médico completamente descontrolado. Uma coisa que lembro claramente é que ele NÃO tinha sotaque cearense; seria impossível confundir isso porque o sotaque cearense num momento de uma discussão como essas é inconfundível.

Ainda lembro daquela pergunta retórica sendo repetida, em tom cada vez mais agressivo, enquanto o médico se aproximava do meu pai pisando firme no chão.

Meu pai virou-se pro médico e perguntou algo como “você que realmente fazer um negócio desse na frente do meu filho aqui?“. Acredito que o médico nem ouviu, ele continuou berrando na cara do meu pai, o xingando. “Me chama de vagabundo de novo seu viado” ou algo assim.

Estávamos quase chegando no carro, enquanto o médico continuava nos seguindo e berrando. Queria MUITO lembrar o que diabos ele estava gritando, exatamente. Lembro vagamente de xingamentos, e de um repetitivo “me chama de vagabundo de novo! Quem que é vagabundo aqui?“. Comecei a pensar que os dois vão se quebrar na porrada ali mesmo.

Meu pai abre a porta do banco traseiro pra mim. O médico está cada vez mais próximo, colérico, e eu começo a me desesperar, porque o cara está MUITO perto agora, e vai atacar meu pai pelas costas. Nervoso, não olhei pra trás. Meu pai falou calmamente “entra no carro e fecha a porta“. Obedeci. Fiquei imaginando se daria tempo do meu pai entrar no carro, dar a partida e sair dali, ou se tal qual nos filmes de terror, o carro falharia num instante crucial.

Nisso meu pai abre a porta do lado do motorista e desaparece procurando algo embaixo do banco. Pela janela da porta do banco traseiro, vi o médico cada vez mais perto, ainda berrando… até o momento em que meu pai puxou uma imensa chave de fenda de cabo transparente levemente avermelhado debaixo do banco do motorista.

Eu sei que chave é essa“, pensei distraidamente. “É aquela chave com a ponta magnética que meu pai usa pra catar parafusos que cairam no chão“.

A pose calma, que eu acho que meu pai estava mantendo por que eu estava ainda “em cena”, evaporou-se quando meu pai viu que eu estava no carro em segurança. Ele fechou a porta do motorista com uma porrada homérica, do tipo que me renderia bronca se EU fechasse daquela forma.

Meu pai virou na direção do médico, apontou a chave na direção dele, alertando-o que se ele desse mais um passo na nossa direção ele ia voltar pra dentro do IML, mas como “paciente”. O médico parou no ato, olhando pra chave, revezando entre olhar pra chave e olhar pro meu pai, e vi que inegavelmente a coragem de outrora havia sumido. O médico deu meia volta e voltou correndo pra dentro do prédio. Vi meu pai dar alguns passos indecisos na direção dele, certamente calculando se valia a pena perseguir o médico pra dar um susto nele.

Ele decidiu voltar pro carro. Jogou a chave de fenda no banco do passageiro e saímos de lá. Meu pai não falou nada sobre o incidente.

E o Samuel? Bem, o destino o levou para o IML de uma forma mais literal.  Mais ou menos um ano após o ocorrido, numa viagem com seu pai pelo interior do Ceará, o carro acertou um caminhão que estava parado no meio da BR. O pai do garoto tentou desviar no último instante, mas no exercício acabou “focalizando” a porrada contra o parachoque traseiro do caminhão no lado do passageiro — onde o Samuel estava.

O choque OBLITEROU o moleque. Segundo as descrições que ouvi no funeral (o único em que fui na minha vida, aliás), a cabeça do moleque basicamente explodiu. No enterro, seu caixão estava fechado. Lembro de um dos presentes explicando, com tristeza, que “tentaram” deixar o garoto apresentável pro funeral, mas não deu.

Seu pai, por outro lado, “apenas” ficou em coma por alguns meses — e eu nunca soube se ele sobreviveu eventualmente, aliás.

Não foi meu único bully que acabou tendo final trágico, aliás. Um antigo amigo da quarta série que se juntou aos bullies no ano seguinte, o argentino Jean (ou era Gean?) Franco matou acidentalmente seu irmão J(G)ean Pietro durante treino de jiu jitsu. O moleque tinha uns 16 anos na época (1998 ou 1999), e lembro de ler notícias na época que falavam que o juiz absolveu o rapaz porque o intenso trauma psicológico de matar o próprio irmão acidentalmente já era punição o bastante.

*Sim, eu sei. Não precisa comentar. Eu cursei bacharelado em Física numa faculdade federal no Brasil, caraio.

 

coitada

Eu não sei na escola de vocês, mas na minha havia havia uma claríssima hierarquia de professores.

No upper tier tínhamos os professores de matemática, física e química. Não bastasse as matérias serem universalmente desafiadoras (especialmente as duas primeiras, eu diria), os professores combinavam a dificuldade do material com uma atitude meio exigente. Às vezes dependentes de “favores” desses professores — aquele trabalhinho que rendia um ponto na prova, ou uma recuperação um pouco mais branda –, parecia que todo mundo tinha um misto de medo e respeito por estes mestres.

Aliás eu diria que 70% medo, 30% respeito. A zoeira MÁXIMA que a gente arriscava era a icônica e atemporal “mas professor quando é que eu vou usar isso na minha vida” durante uma aula sobre polinômios ou coisa assim. E em tom espirituoso, definitivamente sem intenção real de confronto, porque arriscava ouvir um “na sua próxima prova, porque ela vai ter SÓ POLINÔMIOS” pra aprender a deixar de ser otário.

Abaixo desses tínhamos os professores de português, geografia e biologia. Não que as matérias fossem exatamente fáceis, mas elas não eram as que nos davam mais medo — e por isso, não eram as aulas que requeriam prestar tooooda aquela atenção. Esses nossos professores adotavam aquele jeitão de “amigo da sala”. Contavam piadas, puniam alunos bagunceiros de forma não convencional (como jogar giz nos moleques; a proximidade dos alunos os faziam se dar a tais luxos sem medo de uma denúncia ao Conselho Tutelar), tornavam de uma maneira geral sua aula mais divertida.

Tive um professor de história que entrava nessa categoria, o Sampaio que dava aulas no falido e consequentemente extinto Colégio Evolutivo da Parangaba, em Fortaleza. Aliás RIP in piece Colégio Evolutivo, morreu TÃO bem morrido que nem foto no Google Imagens eu encontro.

Surpreendentemente, de acordo com o Google Street View a fachada continua lá a despeito da morte do colégio:

Expliquem-me isso, amigos de Fortaleza

Aliás, ao encontrar o colégio no Street View eu “atravessei a rua” virtualmente e me choquei ao ver que o que era outrora um terreno baldio desolado e habitado por mendigos e cheiradores de cola virou um impressionante shopping. Quando isso aconteceu?

Voltando à história. No mais baixo escalão dos professores tínhamos aqueles cujas matérias não apenas eram mais fáceis (sociologia, religião, educação física), mas também não metiam muita moral na sala. Talvez por serem novatos na profissão, ou por evitarem confronto, esses professores tinham pulso mole, e a sala inteira detectava isso MUITO rapidamente.

Professor molenga e aula fácil: era a combinação PERFEITA pra não levar aqueles 40-50 minutos a sério. E a história de hoje é sobre um desses professores.

Era o ano 2000 (meu deus como estou velho E PRÓXIMO DA MORTE, achei que seria jovem para sempre). Eu estava na Escola Dom Pedro II, praticamente uma instituição da classe média maranhense. Entra este nosso novo professor de religião, o… puta merda, eu realmente não lembro o nome real do cara. ACHO que começava com R. Embora seu nome de nascimento tenha sido esquecido pelas areias do tempo, a alcunha que ele ganhou entre a nossa turma viverá eternamente.

O tal professor R era gentil; talvez gentil demais. A galera sentiu no ar o cheiro da sua falta de disciplina para com a sala, e as conversas paralelas que são interrompidas momentaneamente quando o professor entrou na sala retomaram rumo. O volume das conversas paralelas, aliás, refletem o pulso fraco do instrutor — quanto mais bunda mole, menos cerimônia a gente fazia conversando no meio da aula dele.

Uma das poucas coisas que eu lembro sobre o professor R, além de suas pífias tentativas de salvar as almas daquele bando de filho da puta sem costume através de parábolas bíblias e momentos de oração pela desgraça africana du jour (um surto de malária, talvez?), é que ele tinha uma aparência meio indiana. Aqui no Canadá há muitos indianos, mas no Brasil (especialmente naquela época) era meio raro, então era algo bem notável na aparência do cara.

Pro seu azar, naquele mesmo período no Brasil esta música dominava as rádios:

Guarde isso na memória.

Então, como eu ia dizendo, as aulas do professor R mal podiam ser consideradas aulas. A galera era TÃO ousada em seu flagrante desinteresse pelo material que em uma ocasião uma turma literalmente virou as carteiras pra formar um pequeno círculo e jogaram dominó durante a aula toda. O R claramente viu este gritante desrespeito, esboçou uma leve melancolia, e continuou tentando nos ensinar sobre as parábolas de Cristo — e sem interromper o dominó, porque já mencionei que ele era totalmente frouxo? Poisé. Até eu fiquei constrangido pelo cara.

Numa aula seguinte o professor R pelo jeito resolveu exercer algum semblante de autoridade. Infelizmente, ele escolheu o pior alvo. Devia ter passado mais um tempinho examinando a fauna da nossa sala, pra que sua primeira tentativa de ganhar controle da classe fosse menos desperdiçado.

Um dos moleques mais zuões da sala estava fazendo sei lá o que, e o professor resolveu que era a hora de bater o pé no chão afinal porra, ele cursou quatro anos numa faculdade (eu acho. Sei lá se cobra-se isso de professor de religião)! Se ele merece uma cela especial, merecia também o respeito desse bando de adolescente feladaputa.

R chamou atenção do garoto, pedindo silêncio. O moleque mal educado respondeu tão rápido e sem titubeação (sem sequer a consideração de olhar na direção do professor) que imaginei que a réplica havia sido planejado a algum tempo:

“Peraí, KHALED”

khaled

Fig1: O cantor e multi-instrumentalista algeriano Khaled. Ou seria o professor R? Jamais saberemos.

Meu amigo, aqueles 1.7 segundos de silêncio enquanto a sala processava a nova e definitiva alcunha do professor pareceram intermináveis. A sala então explodiu em gargalhadas, e a falta de moral do professor estava cimentada com adamantium. O professor, um evangélico provavelmente bem reprimido em relação a “música secular” (qualquer tipo de música que não seja cantada em igreja, com a letra constando na Harpa Cristã), provavelmente não entendeu a referência ao cantor algeriano — mas certamente sabia que estava sendo a piada da galera.

Ninguém mais se referiu ao professor por NENHUM outro nome além de Khaled. Cês sabem como criança é com apelido, né.

Sinto vergonha alheia até hoje, 15 anos depois, quando lembro da cena da sala inteira se mijando de rir na cara do professor com total impunidade. Nem tentar parar as risadas ele tentou, tamanha foi a desmoralização do cara.

Coitado do Khaled, mano.

 

Eu estou de mudança, como já comentei no meu vlog. Tá uma bagunça absurda aqui no momento, e do jeito que eu e a patroa vivemos ocupados, mesmo no novo apartamento vamos ficar cercados por um stonehenge de caixas de papelão por alguns dias.

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Nossos últimos dias se revezam entre entre empacotar nossos pertences, e decidir de quais vamos nos desfazer. Uma mudança é uma boa oportunidade pra abrir mão de muita coisa que você vem guardando a anos sem motivo (“vai que um dia eu preciso” não computa como um bom motivo, vai por mim).

Todos os meus livros e DVDs, por exemplo, eu estou doando para a biblioteca local pois abandonei de vez a mídia física. As vantagens intangíveis (o tal proverbial “cheiro do livro” que alguns tanto valorizam) não chegam nem perto das vantagens objetivas e inegáveis de ter toda sua coleção de livros num aparelho que cabe no bolso. E sobre DVDs/Blurays, eu não consigo lembrar qual foi a última vez que eu assisti um filme em mídia física.

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Entre “ficar cheirando papel” e “migrar para o inevitável século XXI”, não me culpe por optar pelo segundo.

 

Ou seja, na prática, estou há anos entulhando minha casa com tralha inútil. Meus livros já estão todos no meu bolso, meus filmes estão divididos entre a nuvem do iTunes e o Netflix. Tá na hora de exercer o desapego.

Então, essa mudança iminente me fez pensar em todas as outras casas em que morei na vida — muitas dessas que foram o cenário das histórias aqui do HBD. Resolvi então dar uma pausa no encaixotamento dos meus pertences pra fazer uma retrospectiva de todos os locais onde morei na vida!

Vamos por partes:

A Casa Fodida

Essa foi difícil de encontrar. Como morei há MUITO tempo, a fauna residencial ao redor mudou muito, e foi difícil triagular exatamente qual era a minha casa. Pra achar a vizinhança foi relativamente fácil, já que ela fica a poucos quarteirões de distância da Casa Dos Meus Avós (já já chegamos lá). Mas enquanto achar a localização geral foi fácil, descobrir em qual dessas casas eu morei não foi.

Só saquei que era essa a casa quando atentei a detalhes quase imperceptíveis à primeira vista, como o tipo de janela usado nessa casa. Não sei como se chama, mas são aquelas que você puxa uma alavanca e tiras de vidro paralelas giram, permitindo a passagem de ar ou de uma criancinha de cinco anos. Já explico.

Por que eu a chamo de “a casa fodida”? Como você pode claramente ver, a casa não é lá essas coisas todas, e isso porque dos anos 80 pra cá ela foi bastante melhorada. A casa não tinha nem forro, e sempre acordava repleta de uma fina camada de poeira oriunda das vigas de madeira no teto — minha mãe suspeitava que eram cupins hiperativos.

1988 ou 1989, no jardim da Casa Fodida. Meu irmão à esquerda, eu na direita.

Só tínhamos um banheiro, e me lembro claramente de ter passado um bom tempo sem tampa no sanitário. Sanitário sem tampa é uma evidência inegável de família financeiramente fodida.

Essa casa, mais do que qualquer coisa na minha infância inteira, representava uma família humilde — uma época em que meus pais eram apenas jovem adultos sem uma carreira muito bem definida e com um futuro ainda incerto. É bizarro pensar que eu, hoje, tenho mais do que meus pais eram naquela época.

Aliás, vale mencionar aqui toda a minha família é de origem bem humilde. Minha mãe é filha de retirantes do interior do Ceará, o Seu Luiz (curiosamente, ele é xará do meu pai) e a Dona Cássia. Meu avô era o típico “faz tudo” que era tão comum no cenário popular de baixa renda daquela época.

Da esquerda pra direita: meu irmão, minha mãe, minha avó, meu avô, eu, minha tia. O objeto na mão do meu irmão era um aviãozinho de metal verde com dizeres “Lula Lá”, distribuídos na em Fortaleza pela campanha do candidato. Ou seja, essa foto foi tirada em 1989, e portanto eu tinha 5 anos; meu irmão, 3.

Seu Luiz fez de tudo pra pôr comida na mesa da família, de erguer muros sob o implacável sol cearense a matar porcos comprados na feira pra vender a carne. Minha avó também trabalhava informalmente como costureira, e completava o orçamento familiar fazendo salgados sob encomenda pra festas.

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Seu Luiz e Dona Cássia, em 2010. Felizmente ambos são ainda muito saudáveis, não bebem ou fumam e nem tem problemas graves de saúde.

Já meus avós de parte paterna são meio que uma incógnita pra mim. Se me lembro bem do folclore da família, meu avô (o representante comercial Luiz Felipe Santiago; “Luiz” era um nome popular no Ceará aparentemente), morreu quando meu pai era criança de colo. Minha avó, a dona Elisa Nobre, morreu quando eu tinha 5 ou 6 anos. Só tenho duas lembranças dela: uma, quando ela me presenteou com um saco de animaizinhos de plástico iguais a estes, e a outra de ir no cemitério durante uma noite chuvosa deixar flores na cova dela.

Voltemos à Casa Fodida, que ficava justamente a poucos quarteirões da casa dos meus avós. O motivo pelo qual eu lembro claramente daquela janela é porque inúmeras vezes eu precisei engatinhar através dela pra destrancar a porta da casa. O que rolava é que a porta não se abria por fora, e em algumas ocasiões meus pais esqueceram a chave dentro de casa ao sair comigo.

A única solução (e que se me lembro bem foi empregada múltiplas vezes) era forçar a janela por fora e então me colocar pela estreita abertura dos paineis de vidro. De acordo com o relato da minha mãe, e de minhas próprias memórias embaçadas disso, eu saia correndo pela casa escura, sozinho, e conseguia destrancar a porta por dentro — com míseros cinco aninhos de vida.

Eu cresci ouvindo meus pais contando orgulhosamente essa minha proeza pros amigos (“…e aí ele deu a volta na casa inteira, toda escura, e destrancou a porta! Já pensou?”). Pela familiaridade com a história, eu nunca a achei tão impressionante quanto meus pais claramente achavam. Pensando nela hoje, é realmente impressionante que uma criança de 5 anos conseguisse resolver um problema como esse. A maior lembrança que tenho disso é de pôr meus pezinhos na cômoda do meu quarto, ao ser içado pela janela pelo meu pai, e pisotear todos os meus brinquedinhos — que cairam por toda parte.

No finalzinho dos anos 80, nos mudamos para…

O Prédio Esquecido

Eu tinha literalmente esquecido que morei nesse prédio. Já tinha terminado o artigo e estava dando um passeio virtual entre A Casa Amarela (aguarde, tá lá na frente) e a escola em que eu estudava na época, quando esbarrei com esse prédio e me veio o estalo “caralho, eu morei aí também!

É estranho que eu tenha esquecido desse prédio, porque eu tenho até bastante lembranças dele (ou melhor, de eventos que aconteceram quando eu morava nele).

Uma das mais memoráveis foi quando eu trouxe pra casa o peixinho de estimação da minha turma da escola (ainda se faz isso?), porque todo moleque ficava com ele por alguns dias e aí escrevia uma redação sobre cuidar do bicho ou algo assim. Coloquei o peixe numa bacia metálica — é estranho o quão sólida e firme é a lembrança dessa bacia; lembro até de pequenas imperfeições nela — e fiz um barquinho de papel pra que a cena ficasse mais parecida com Tubarão.

(Eu tinha uma fixação por reproduzir cenas de filmes com meus briquedinhos)

Após alimentar o peixe, fui ao banheiro e de lá ouvi os berros maravilhados do meu irmão (que devia ter 3 ou 4 anos na época): “ele pula, olha ele pulando!

Corro pra área de serviço e lá está o peixinho se debatendo no chão. Meu irmão havia o pescado e queria saber como o peixinho nadaria no piso da cozinha.

Outra lembrança desse prédio é algo que eu espero que algum de vocês também conheça. Foi nessa época em que meu pai comprou pra gente uma casinha de brinquedo, feita com um material que parecia papelão de plástico. Era bem pequena, mas cabia eu e meu irmão com razoável conforto. A gente levava travesseiros, lençois, e biscoitos pra dentro da casinha, e passava o dia inteiro lá. Às vezes, a montávamos na frente da TV, pra assistir nossos VHSs de filmes da Disney.

Alguém mais sabe do que diabos eu estou falando? Eu nunca descobri qual era o nome daquela casinha.

Em 1991, se me lembro bem, foi quando nos mudamos pra Londrina-PR. E a primeira casa lá foi…

O Edifício Coincidência

Este é o Edifício Fortaleza, que fica na aprazível Rua Porto Alegre. Houve uma época em que eu cheguei a cogitar que o nome do prédio, uma alusão à nossa cidade natal, teria sido o fator determinante na decisão paterna de morarmos lá.

Evidentemente meus pais não tinham o cacife financeiro pra tamanho capricho (“só podemos morar em prédios que façam referência à nossa cidade ou pelo menos estado de origem, ora mais!”), então me parece óbvio — sem nem ter que consultar meus pais — que o prédio simplesmente calhou de encaixar no orçamento familiar e como bônus de coincidência podíamos continuar dizendo que morávamos em Fortaleza.

Eu era muito novinho pra brincar na rua ainda (morei lá entre meus 5 e 6 anos), então eu era o absolutamente típico “piá de prédio”. Aprendi a andar de bicicleta naquela rampa ascendente do lado direito da imagem.

É curioso como tudo na nossa infância parecia maior; essa rampa, nas imagens mentais que tenho aqui da época, tinha a largura de uma auto-estrada. Era justamente nessa mesma área que eu brincava de Cybercops com os outros garotinhos do bairro, pulando das muretas simulando chutes nos amiguinhos.

As lembranças mais características desse prédio foi quando flagrei, da janela, os amiguinhos andando na minha bicicleta — “emprestada” sem minha autorização, vejam só que picaretas –; Collor, nosso pastor alemão que acredito ter recebido esse nome do meu pai de sacanagem, e a gravidez da minha mãe. Minha irmã foi a única Nobre que não nasceu em Fortaleza — nem na cidade nem no prédio, porque no ano de seu nascimento estávamos morando n’..

A Casa Que Não Mudou Nada

O motivo da alcunha dessa é óbvio: a casa não mudou LITERALMENTE NADA. Todas as outras passaram por reformas, pinturas e outros processos que tornaram difícil a identificação. Essa aí tá DO MESMO JEITO QUE ERA em 1991, com a exceção notável de uma árvore que na época ficava na frente daquele pé de limão restante, do lado esquerdo da foto.

É uma das poucas casas cujo endereço eu lembro até hoje sem titubear: Rua Marília 140, Jardim Veraliz. Não lembro EXATAMENTE por que esse endereço fixou e os outros não; a minha teoria é que por causa daquele Satanic Panic fodido que rolou no Paraná nos anos 90, meus pais acharam que valia a pena fazer os filhos decorarem o endereço e o telefone de casa caso fossem raptados ou algo assim.

Leitores de longa data do HBD talvez ficarão felizes em descobrir que foi nessa casa aí que o causo do “teste de sobrevivência” aconteceu. Spoiler pra quem não quiser ler o artigo do link: inspirado no Rambo, MacGyver e outros ídolos da auto-suficiência, eu sem cerimônias caguei no jardim da minha casa, em plena luz do dia.

Eu realmente recomendo que você leia aquele artigo. Deixe esse aqui no pause e vai lá ler aquele. Num plot twist raro, meu próprio irmão apareceu nos comentários pra oferecer mais detalhes da história.

Esse bairro marcou por alguns motivos: primeiro, o nascimento da minha irmã, meu primeiro familiar que eu literalmente vi nascer (eu tinha só 2 anos quando meu irmão nasceu). Segundo, essa casa me rendeu três cicatrizes que tenho até hoje.

A primeira foi um ralado no tornozelo esquerdo, oriundo de uma corrida de carrinho de rolimã com um vizinho/amigo de escola com quem mantenho contato até hoje, o Marcel. A segunda foi uma mordida de um cachorro de rua enquanto eu brincava com meus amiguinhos; a marca no pulso direito tá até lá hoje. O desgraçado mordeu e não largou, foi necessário o pai de um amigo surgir com um pedaço de pau e descer a lenha no pulguento desgraçado.

A terceira cicatriz é psicológica — um trauma permanente de cachorros na rua, graças àquele ataque. Até hoje, se estou na rua e um cachorro vem pra cima de mim, sofro efeitos psicossomáticos do trauma: respiração entrecortada, dilatação das pupilas, taquicardia, dor intensa nas costas, etc.

É estranho que algo que aconteceu há mais de vinte anos me cause tais efeitos, mas aí está.

Perto dessa casa morava um garotinho meio estranho, filho de uma mulher cheia de papos de espiritualidade e o caralho. O nome dele era Sacaq, ou Sacaque, que ela havia explicado que não era um “nome estranho” como a pivetada do bairro insistia, mas que tinha um significado cabalístico ou algo assim. Mano, eu tinha míseros 6 ou 7 anos e ela ficava enchendo meu saco falando um monte de abobrinha sobre “alinhamento cósmico” e “espíritos regentes do universo”, calcule a maluquice da mulher. Não culpo o Sacaq(ue) por ser meio estranho.

Ah, e a casa deles era bem zoada, parecia uma casa abandonada que eles haviam ocupado/invadido.

Em 1993 a família voltou de mala e cuia para Fortaleza. E passamos a morar n’…

A Casa Amarela

Essa é a segunda casa cujo endereço eu lembro — Rua Barão de Aracati 3000. E eu não sou daltônico, não — o muro dessa casa era amarelo na época.

Muito ouvi sobre o tal “desmatamento”nas aulas de Estudos Sociais quando criança e vejo que meus professores não exageravam. Como a casa anterior, essa também tinha uma árvore na frente que não existe mais. Levei muitas quedas daquele imponente pé de jambo, de onde eu observava a atividade da pivetada do bairro quando estava proibido de sair de casa por decreto paterno.

Essa casa me marcou por um motivo excepcional — foi quando morava lá que eu me tornei gamer. Eu tinha um amiguinho na escola, o Eric (também ainda mantenho contato com ele até hoje. Oi, Eric!) que trazia revistas de videogame pra escola, onde líamos juntos. Além disso, era só atravessar a rua pra chegar na lendária Locadora do Seu Roberto, um local mítico que já mencionei no 99Vidas infinitas vezes.

Tá vendo aquele estabelecimento ali com as faixas? Era ali que o Seu Roberto operava a R&R Games, a locadora do bairro onde aconteceu minha formação gamer. Tá vendo esse Peugeot ali? Foi exatamente onde ele está estacionado que meu pai desceu a porrada num bully que havia me batido. Foi lá que soltei uma ratazana de esgoto, também.

Essa foto traz à tona mais uma vez o estranho dimorfismo espacial que acontece na nossa infância. Na minha lembrança infantil, esse prédio tinha tipo 30 andares. Hoje constato com incredulidade que são míseros 6 (ou 7, caso você seja essa galera estranha que conta o térreo).

Eu tinha toda uma patotinha nesse bairro, e a gente inventava altas presepadas. Por exemplo, um dia atentamos a esta portinha aí.

Isso é uma portinha que por onde o lixeiros extraiam o lixo do prédio. Descobrimos que era fácil forçar a parada e assim ganhar acesso a esta pequena área:

Decidimos que aquele era agora nosso “clubinho” (nenhum dos moleques sequer morava nesse prédio, diga-se de passagem — era uma invasão totalmente ilegítima). No primeiro dia lá, exerci um senso de liderança inédito — convoquei a pivetada a arrumar dinheiro que usaríamos para adquirir “mantimentos” pro nosso esconderijo; no meio do caminho, armazenar alimentos virou “vamos fazer uma festa pra inaugurar nosso clube”. E assim, eu e outros 4 ou 5 pirralhos acabamos sentados dentro da área de serviço de um prédio aleatório comendo biscoito e um Cheetos genérico qualquer com refrigrante.

Foi enquanto morávamos nessa casa que meu pai se tornou pastor de uma igreja chamada Assembléia de Deus Betesda. Sinta-se à vontade pra fazer a piadinha óbvia de Skyrim que todos já fizeram.

Ao contrário da maioria de pastores, meu pai era pastor “part time”, ou seja, como hobby. Sua profissão e carreira sempre foi Tecnologia da Informação e Eletrônica.

Em 1996 ou 1997, a família se mudou novamente. Dessa vez, para…

O Apartamento Imenso

Eu vivo falando isso pra Jurema também.

O térreo deste prédio de 3 andares era ocupado na época pela Igreja Betesda do Montese, uma outra congregação da mesma denominação da qual éramos membros. Imagino que pela familiaridade com o prédio, meus pais notaram uma vaga que bateu com o timing da mudança, e assim acabamos indo morar lá.

Essa foto não dá uma noção boa de quão grande o apartamento era — e dessa vez não é impressão infantil, porque comentários impressionados sobre o tamanho do apê eram lugar comum sempre que tínhamos visitas. Talvez essa foto lateral ajude a dar uma idéia do espaço:Screen Shot 2014-07-28 at 3.39.52 PM

Cada andar era ocupado por apenas um único apartamento, e a área que você vê aí com as grades (uma espécie de varanda em formato de L) era tão larga que quando entediado eu ficava andando de bicicleta nela. Tá vendo as janelas lá no fundo do prédio? Meu quarto ficava ali — só que, claro, no primeiro andar. Compara a distância de onde era meu quarto, pra varanda. Era um apartamento grande!

Apesar disso, quando nos mudamos pra esse apartamento, foi necessário dar adeus ao Collor. Pelas minhas contas, aquele pastor alemão deve ter morrido por meados do ano 2003; perdemos há muito tempo contato com o sujeito para quem meu pai deu o cachorro, então é impossível confirmar a data exata do falecimento do bicho.

Foi quando eu morava aí neste prédio que meu pai me deu possivelmente o mais significativo presente que ganhei na vida — um Super Nintendo de segunda mão, comprado de um quase mitológico “Barbalha”. Barbalha era um amigo de trabalho que morava em Brasília do qual sempre ouvi falar, mas jamais conheci.

Outro amigo do meu pai se tornou presente nos anos em que morei nesse prédio, e também teve uma conexão gamer — o ilustre “Tio Monte”. Sem conexão sanguínea, o Monte era um velho amigo de trabalho do meu pai na época em que ambos trabalhavam na Cobra (uma empresa de tecnologia made in Brazil) nos anos 80.

O Tio Monte era, além de muito engraçado e desbocado, um PC Gamer fanático; seu gênero favorito era estratégia. Por intermédio dele fui apresentado a todos os clássicos de estratégia e simulação na época: Sim City,  Warcraft, Age of Empires e tudo mais. Ele trazia lá em casa CDs piratas que ninguém seria capaz de adivinhar de onde surgiram, lotados de jogos completos. E ele me subornava com os joguinhos, também — lembro que as condições pra ele me dar o Sim City era não ouvir reclamações relativas ao meu lendário mal comportamento.

Meu histórico mal comportamento, aliás, era na real um sintoma claro de hiperatividade. Nos anos 90 isso não era tão bem diagnosticado. Naquela época, moleques como eu eram apenas os “encrenqueiros que não param de falar na sala e interrompem a aula de 5 em 5 minutos pra fazer gracinhas”.

Os meus anos de jogador de SNES foram curtos — como já contei aqui no HBD, foi nesse apartamento (tentando pregar uma peça no meu irmão) que eu destruí meu Super Nintendo. Morei pouco tempo nesse local (como todos os outros), e por isso calculo que nosso SNES durou pouco mais de um ano. Naquela época, ganhar jogos era limitado a aniversário e Natal; mesmo somando os aniversários e presentes de Natal de dois irmão, não tinha como ter uma coleção muito grande.

Vocês que vivem me zoando no 99Vidas por “não jogar nada” , seus filhos da puta, vocês estão esfregando meu trauma e limitação na minha cara, é quase como tirar onda de um cara que não sabe jogar bola porque teve a perna decepada quando foi atropelado por um trem. Puta que pariu como vocês são desgraçados.

Apesar da morte prematura do meu SNES, eu tive oportunidades de continuar jogando — a casa vizinha da esquerda era uma locadora, assim como a casa da esquina na direção oposta. Só que eu percebi que a patotinha do bairro era o real motivo pelo qual eu orbitava a fauna infantil da locadora do Seu Roberto, e acabava jogando videogame por tabela. Nessa nova rua aí eu não tinha literalmente NENHUM amigo, nenhum mesmo, e sem o círculo social fazendo baderna na locadora, Command and Conquer me atraia mais.

Tive apenas um amigo no bairro — o Farney. Conheci-o na sétima série, no Colégio Adventista de Fortaleza onde eu uma vez fui suspenso por apagar a luz da sala. É curioso pensar que eu e ele nos conhecemos quase vinte anos atrás e continuamos tão amigos como sempre fomos quando criança.

Eu e o Farney, rindo e ajeitando os ternos, momentos antes do meu casamento. O cara no meio é o Trevor, um grande amigo canadense que também já foi personagem coadjuvante de causos aqui no HBD.

A essa altura, como mencionei antes, meu pai era pastor de uma pequena e humilde congregação evangélica num bairro de periferia chamado Conjunto Ceará.

Por causa dessas idas e vidas dos meus pais pra essa igreja (que ficava bem longe), e como a congregação não pagava nada a eles,  o gasto com a gasolina pesava no orçamento familiar. Essa era a igreja, a propósito:

Imagem de um vídeo de família que tenho aqui no HD

Esse Voyage branco era do meu pai, aliás.

De acordo com o Google Street View, a igreja evoluiu bastante de lá pra cá. Esta é a fachada da Igreja Betesda do Conjunto Ceará hoje:

O dízimo pelo jeito é melhor do que na época do meu pai. Vai ver que por não precisar daquela grana, ele não espremia tanto os fiéis na lábia como seus equivalentes contemporâneos, sei lá.

A propósito, se assim como eu você tem dificuldade de imaginar meu pai como pastor (porque nem eu consigo mais visualizar isso, tamanho foi o desligamento do meu pai de religião organizada de qualquer espécie), aqui vai uma foto pra ajudar:

Meu pai (e minha mãe, ao fundo) durante o casamento da irmã de um amiguinho meu da igreja, o Paulinho. Também ainda mantenho contato com ele, pelo Facebook. Oi, Paulinho!

Descendo um pouco a rua da igreja, encontramos outro palco de um relato histórico aqui do HBD:

Este terreno baldio (eu havia desenhado um mapinha bem fiel no Paint pra ilustrar aquele post, mas as imagens se perderam — se um dia isso acontecer com esse post eu ficarei MUITO puto. Alguém me faz o favor de salvar essa porra offline ou algo assim…?) foi o campo de batalha onde eu apanhei miseravelmente de um pequeno marginal armado com uma perna de uma cama.

Como ninguém vai ler esse post inteiro, este é o momento em que eu insiro uma mensagem subliminar no texto: RAPADURA.

Subindo a avenida semi-perpendicular a esse terreno aí, chegamos à nossa primeira casa no Conjunto Ceará.

A Casa da Periferia

Mais uma casa que mudou quase que completamente (o muro tinha outra cor, e havia um acesso lateral aos fundos que aparentemente não existe mais). Para encontra-la, precisei usar outros pontos geográficos da rua como referência — até perceber que mesmo depois de tantos anos e mudanças, a calçada permanece EXATAMENTE como era em 1998.

Morar nessa casa foi um choque de realidade porque como garoto de condição social razoavelmente elevada, eu não estava acostumado a estar no meio do subúrbio fortalezense. Não coincidentemente, foi enquanto eu morei nesse bairro que fui assaltado pela primeira vez na vida enquanto voltava pra casa da escola.

Exatamente na frente dessa sorveteria, que na época não existia.

Foi o seguinte: um garoto me seguiu brevemente, pedindo “algum trocado”. Outro, maior, se materializou na minha frente no meio do caminho, exibindo no bolso o que ele alegava ser o cabo de uma faca.

Eu não tinha nenhum centavo, então levaram meu relógio e minha camisa (???). Depois, me mandaram sair caminhando calmamente na direção oposta, e que se eu desse algum pio eles atirariam em mim. É esse tipo de inconsistência sobre a arma do crime que me faz pensar que o cara me mostrou era a pontinha dum pente com cabo de madeira, e não uma faca. Que tipo de filho da puta assalta uma criança de 13 anos, mano? O que você poderia esperar levar nesse roubo, um punhado de Tazos?

Um ano depois, o dono da casa onde morávamos precisava dela de volta ou algo assim, e nos mudamos para uma casa na mesma rua, quase vizinha. Era…

A Casa da Periferia, round 2

A coisa mais digna de nota sobre essa casa é que foi nela que desenvolvi o hábito/vício de passar as madrugadas acordado acessando a internet no pulso único. O que aconteceu é que meu colégio era bem longe, o que fez meus pais me transferirem pro turno da tarde. Assim, eu podia ficar a madrugada inteira no mIRC, dormir impunemente durante a manhã, e ir pro colégio de tarde.

Essa foi nossa última casa em Fortaleza. No final de 1999, passamos um ano viajando pelos Estados Unidos. Ao voltar ao Brasil, já nem tínhamos mais casa na minha cidade natal — fomos direto pra São Luis, no Maranhão. Foi a época d’…

A Casa Rosa, Que Eu Insistia Que Era Salmão

Ou pintaram de branco, ou o sol maranhense castigante desbotou o muro. Na minha época, a casa era claramente rosa (ou “salmão”, como minha mãe um dia explicou, e virou meu principal argumento pra me defender de galhofagens dos amiguinhos). Era essa casa que tinha um portão elétrico automático que servia como alarme de que meus pais haviam chegado em casa, dando a mim e a minha namoradinha da época mais ou menos 20 segundos pra nos vestirmos.

Nessa época eu fiquei tão pavlovianamente condicionado a ouvir o barulho da ativação do portão como um alerta “PAIS EM CASA, PARE AGORA AS ATIVIDADES ILÍCITAS” que mesmo quando eu tava de boa estudando ou assistindo TV e o portão abria, eu sentia uma profunda inquietação.

Morei nessa casa de 2000 até 2002. Foi nela que vi o Brasil ser campeão pela quinta e até então última vez numa Copa do Mundo. Muitos de vocês eram bebês de colo nessa época. Aliás, olha eu decorando a rua pra Copa e de quebra inventando a selfie!

O cabelo tava curtinho por ter passado no vestibular no final do ano anterior

Aliás, a casa que aparece atrás de mim (onde morava o Márcio, meu vizinho da frente, cujo claim to fame era ser sobrinho do cantor maranhense Zeca Baleiro) não mudou quase nada nesses 12 anos:

Pouco tempo depois, meus pais realizaram o tal “sonho da casa própria” e compraram uma residência num bairro próximo. Essa era…

A Casa Própria

Esta foi a única casa própria em que a Família Nobre morou. E moramos por pouco tempo — a mudança para o Canadá já estava sendo idealizada quando morávamos aí, e no final de 2003 estávamos vindo pra cá. Acabei tendo pouquíssimas lembranças dessa casa, com exceção do fato de que eu costumava me reunir com os amiguinhos pra tocar na garagem.

Eu na guitarra, Fívio no contrabaixo

Tenho poucas lembranças dessa casa, com exceção do fato de que foi AÍ que o HBD nasceu. Mais precisamente, aqui:

Esse era o meu quarto, como menciono no meu Patreon. Foi aí que descobri os blogs, e iria eventualmente abrir o meu próprio.

Eu vivi em muitas casas diferentes, o que complicava o desenvolvimento de amizades duradouras e de maiores lembranças. Todas as memórias dessas casas são curtas, porque afinal de contas meu tempo nelas foi curto. Mas mesmo mudando mais que caixeiro viajante, houve UMA casa na minha infância que foi constante.

A Casa dos Meus Avós.

Terminamos essa jornada bem próximo do ponto de onde começamos — a casa dos meus avós, que como mencionei ficava a poucos quarteirões da Casa Fodida. Tão próximo, aliás, que lembro de ir correndo (sozinho) almoçar na casa da minha avó quando tinha 5 ou 6 anos.

Por motivos que não devem ser difíceis de entender, essa casa foi o único ponto de referência imutável na minha infância. Meu avós a compraram quando imigraram pra Fortaleza, era uma casa minúscula. O vizinho do lado pôs a casa à venda também, meu avô comprou e usando skills rudimentares de engenharia e arquitetura, pôs-se a unificar ambas casas em uma só.

Foi um trabalho excelente pra alguém que fez tudo sozinho sem qualquer educação formal no ramo, mas ainda assim, pequenas imperfeições no “projeto” dele são imediatamente aparentes — janelas que dão pra um corredor estreito, escadas com degraus de dimensões variantes, etc — e dão um charme pitoresco à casa.

Há mais detalhes nessas imagens do Google Street View que me remetem à vida brasileira. Sabe esse Corsa cinza na frente da casa da minha avó? Então, esse carro pertencia à minha mãe. Em 2003, com a mudança iminente pro Canadá, minha mãe o vendeu pra minha tia (que mora no andar de cima), e o carro tá lá até hoje.

Neste outro ângulo, algo que me deixa até com um nó na garganta — a eterna cadeirinha de plástico, onde meu avô costuma passar suas tardes observando o movimento da rua.

Ver pequenos detalhinhos da minha infância no Street View dá uma sensação muito estranha — um registro acidental da minha infância no processo da captura de imagens da cidade. É bizarro pensar que alguém que eu nunca conheci na vida dirigiu por essa rua, fotografou a casa dos meus avós (sem sequer imaginar a significância emocional daquela foto); as imagens foram então uploadeadas e moram lá num servidor do Google, inertes, esperando que me dê na telha de escrever esse texto e então passear virtualmente pela área, e assim encontrar a cadeira do meu avô e o antigo carro da minha mãe.

É como se a minha infância fosse algo tangível, palpável, que está lá como um fóssil esperando para ser redescoberto.

Porra mano, foi aí que eu vi a final da Copa de 1994!

A outra curiosidade sobre a casa da minha avó é meio triste. Quando o Street View surgiu, eu CORRI pra visitar a casa da minha avó, apenas pra perceber decepcionado que o carro do Google não passou pela rua dela.

O carro passou na avenida perpendicular, e isso era o mais próximo que eu conseguia chegar: uma visão quase tangente da casa, da esquina.

Isso me encheu de melancolia. Quão irônico é poder FINALMENTE revisitar a casa onde eu cresci — a única casa onde pode-se dizer que “cresci”, por ser o único ponto de referência fixo numa vida nômade –, sou obrigado a ver de longe; da esquina. Cheguei até aqui… mas não posso chegar mais perto.

Eu não estava planejando visitar Fortaleza este ano. Estou muito focado no futuro e tal, mas ao escrever esse post, acho que mudei de idéia.

material

Quando moleque (e não apenas quando moleque), eu era incrivelmente bagunceiro e desleixado.

Eu era um pirralho muito irriquieto, e que fazia de TUDO pra arrancar risadas dos coleguinhas de sala. Os professores me odiavam; passar o dia escolar inteiro sem ser expulso de sala pelo menos em UMA das aulas era TÃO raro que minha mãe me fazia promessas tipo “se você passar um mês sem ir pra sala da coordenadora eu comprou um SNES pra você” (em vários meses diferentes!) sem jamais ter que se preocupar com a logística de cumpri-la.

Era um win-win pra ela, porque a esperança de ganhar um SNES me mantinha na linha por um bom tempo, mas o ímpeto galhofeiro era tão potente que geralmente no finalzinho do prazo eu tocava o puteiro de novo e ela tinha justificativa legal pra não me dar porra nenhuma.

izzy jovem

Uma das minhas palhaçadas de classe clássicas era o “Nômade”. E sim, eu realmente usava esse termo pra definir a brincadeira — devo ter lido em algum livro de história na semana em que bolei o chiste.

Consistia no seguinte: quando o professor virava pro quadro negro (um minuto de silêncio por uma geração inteira dos meus professores que devem ter morrido de câncer após inalar tanto pó de giz), eu levantava minha carteira e a movia alguns metros pra trás. Dependendo da geografia da sala, dava pra me movimentar relativamente sem muitas obstruções, e a graça era ver quão longe eu chegava antes que o professor se emputecesse e inevitavelmente me expulsasse da classe

gincana 1994

Uma gincana escolar em 1994 (que nosso grupo ganhou, aliás). A seta verde sou eu. A seta vermelha aponta pro @ericxlive, um grande amigo infantil que eu tenho contato até hoje. Nos conhecemos na alfabetização, há mais de vinte anos!

Um dos reflexos da minha vagabundagem escolar eram as condições lastimáveis do meu material escolar. Quando criança, os flipbooks me cativavam, e então eu convertia as margens de todos os meus livros da escola em flipbooks rudimentares. Você não podia pegar um livro meu de matemática ou ciências sem ver bonequinhos palito pulando, fazendo polichinelo ou qualquer outra atividade fácil de desenhar nas beiradas das páginas.

Um outro hábito semi-artístico que eu nutria era desenhar adereços por cima das ilustrações de personagens do nosso folclore histórico. Se havia um retrato em bom tamanho do Santos Dumont, por exemplo, o ímpeto de desenhar óculos, uma barba, e as vezes band-aids (?) na cara do Pai da Aviação era absolutamente irresistível — imagino até que fosse tão irresistível quanto sua gana por ganhar os céus franceses no começo século 20, então por termos paixões de igual intensidade eu acho que ele me perdoaria.

O problema era quando meu pai via essas putarias no meu material. De vez em quando, meu pai chegava em casa puto com alguma coisa, e talvez pra manter o momentum da raiva, ele exigia inspecionar nosso material escolar pra avaliar seu estado de conservação e o status das tarefinhas de casa.

Aí que tá. Meu irmão era o comportadinho, o almofadinha que se comportava na sala (ou seja, não tinha histórias geniais pra contar durante a aula inteira), nunca brigava com os coleguinhas (ou seja, não tinha a fibra moral para defender com os punhos sua convicção na superioridade do SNES sobre o Mega Drive), não era chutado de sala quase todo dia (ou seja, não deixava os professores invejosos de sua popularidade na sala). Até penteado pra escola ele ia.

irmãos nobre

Essa foto ajuda a ilustrar a diferença nos nossos temperamentos. Às esquerda, meu irmão: comportado, engomadinho, servindo como pajem no casamento da minha tia. Às direita, eu: estragando uma foto familiar com uma lagartixa de brinquedo com a qual eu planejava assustar minha avó. Repare a mão da minha tia, tentando impedir que eu estragasse o registro fotográfico familiar com a parada.

Então. Meu pai pegava o material do Daniel e lá estava tudo bonitinho, com as tarefas de casa terminadas, o encapamento dos livros impecáveis, como se tivesse acabado de ser feito por minha mãe.

Aí ele ia ver o meu. O encapamento todo rasgado e riscado, com super heróis desenhados em todo canto. Animações de bonequinhos pulando em uma cama elástica nas margens. Uma ou outra página julgada como “inútil” estava em falta, certamente usada como matéria prima para um aviãozinho de papel no dia anterior. Ao abrir as páginas do livro de história, meu pai era recepcionado por um Dom Pedro II de óculos escuros, fumando cachimbo, com uma cartola e com uma inexplicável tatuagem de uma caveira na bochecha. Minha reinterpretação da figura do nosso último imperador certamente não foi apreciada pelo meu pai.

Minha vida escolar foi inteiramente assim.

Quando eu era moleque, um dos meus livros favoritos era The Lost World, do Michael Crichton — a continuação de Jurassic Park. Foi o primeiro livro de scifi que eu li na vida, com uns 12 ou 13 anos, e fiquei fissuradaço no gênero logo de cara.

Lá pelo meio do livro, acontece o encontro da Kelly Curtis (uma das personagens crianças que o Crichton insistia em colocar nos seus livros) e Sarah Harding, uma bióloga que a garota idolatrava. Durante a conversa, a bióloga dizia que apreciava a inteligência da menina, e comentava que ela era nova o suficiente pra que o processo educacional tradicional não tivesse roubado dela a criatividade e a espontaneidade. Mais tarde, um outro personagem faz um comentário similar de desdém pelos métodos convencionais de educação, e de seu efeito negativo sobre a criançada.

Como li o livro quando ainda era pré-adolescente, eu não soube como interpretar aquela passagem. Quando você é criança, as figuras de autoridade educacional (e a própria instituição escolar, aliás) são semideuses. Eles sabem tudo e tem autoridade reconhecida pelos seus pais — são, de fato, uma extensão dos seus pais no que diz respeito ao processo de formação civil e educacional. Foi psicologicamente confuso ver alguém apontando falhas do sistema educacional, porque eu ainda estava numa idade em que eu não tinha ainda o senso crítico necessário para perceber os problemas da máquina escolar.

Só que hoje eu consigo perfeitamente notar inúmeros problemas com ela. Incluindo um evento que eu relembrei recentemente.

Lembram dessas câmeras aqui?

Então. Essa câmera descartável, como a foto indica, se chamava “Love” e era vendida no Brasil nos anos 80. Meus pais sempre gostaram muito de fotografia (meu pai inclusive fez bicos de fotógrafo nos anos 80), então volta e meia tinha uma dessas lá em casa.

A câmera, apesar de descartável e barata, era “brinquedo” dos meus pais. Até que um dia, calhou que uma delas acabou vindo parar nas minhas mãos; creio que estava danificada ou algo assim.

Sempre me interessei muito por ciência e tecnologia; eu era um daqueles moleques que sempre queria saber como tudo funcionava. Então, meu pai havia me explicado que a câmera funcionava graças a duas lentes, a objetiva e a ocular. Meu pai tinha uma coleção de livros lá em casa chamados COMO FUNCIONA ou algo similar, e ele me mostrou o capítulo que descrevia o funcionamento de câmeras.

Ora, havia outro instrumento que eu muito queria quando moleque que também funcionava com duas lentes — um microscópio.

Meti na cabeça que aquela pequena câmera descartável era um microscópio esperando para ser montado. Um dia criei coragem para desmontar a bichinha; ao remontá-la, mexi tanto no posicionamento do “chassi” das lentes que acabei, meio sem querer, realmente construindo um microscópio rudimentar. Claro que ficou todo troncho, precisei meter muito durex ao redor da câmera pra que as lentes não saltassem pra fora, mas funcionava!

Só que tinha um problema — quando eu encostava o meu pequeno microscópio no objeto a ser examinado, a carcaça da câmera bloqueava toda a luz. Precisava de condições quase perfeitas pra que eu conseguisse ver alguma coisa.

O que eu fiz em seguida parece uma daquelas histórias que pertencem às biografias de grandes inventores. Peguei um reloginho de pulso Casio que eu tinha dando sopa, desmontei o bicho, arranquei a luzinha que iluminava o display do relógio — que na época era um LEDzinho mesmo na lateral interior do relógio; essas luzes mais modernas, que iluminam por baixo do display, são relativamente recentes.

(A propósito, numa dessas brincadeiras de desmontar as coisas eu quase morri eletrocutado quando pluguei na tomada uma lampadinha LED que um garoto da igreja me deu. Outro dia conto essa história!)

Então. Montei a “motherboard” da luzinha na lateral interior do microscópio, perto da lente objetiva. Precisei mexer mil vezes na posição do troço pra que funcionasse legal, e a essa altura a carroceria da máquina/microscópio já tava quase se desfazendo. O botão do LED do relógio obviamente estava inutilizável uma vez que eu arranquei a plaquinha do corpo do relógio, mas dava pra fazer a luz acendeu encostando dois fiozinhos. Passei mais dois metros de durex na porra toda e lá estava: um microscopio em miniatura, com luzinha e tudo. Todo torto, e parecendo que ia se desmontar a qualquer instante, mas funcionava.

Acho que eu ainda era muito novo pra sentir orgulho de mim mesmo, mas a alegria que eu senti quando o troço funcionou devia ser algo próximo à auto-satisfação. Passei o dia vendo fiapos de carpete, sujeira do controle do videogame e pedacinhos de cream cracker no meu microscópio.

No dia seguinte, levei o microscópio pra escola pra mostrar pros meus amigos. Havia um formigueiro perto de uma das quadras de futebol, e eu havia passado a noite inteira planejando levar o microscópio lá no recreio para ver as formiguinhas. Sabendo que o bicho se esfarelaria todo se eu tentasse leva-lo pra escola no bolso, embrulhei o frágil microscópio em um monte de papel higiênico e coloquei-o dentro da minha lancheira, o único receptáculo com material resistente o bastante para protege-lo. Afinal, coloca-lo na mochila teria provavelmente dado merda.

Pois bem. Bate o recreio e eu corro pra quadra pra ver as formiguinhas. Alguns amigos me acompanharam, e eu os deixei usar o microscópio sob severa supervisão — afinal o bicho tava quase se desmontando já. Sob as lentes da câmera Love e os restos mortais de um relógio Casio, vimos a anatomia das formigas — as articulações em suas pernas, as antenas, as cerdas em suas patinhas, essas coisas todas.

Aí veio a merda. O sinal tocou, e a galera fez filas no pátio pra retornar à sala. A escola, aliás, era o Colégio Adventista de Londrina — que ainda existe, e que pelo que averiguei nas fotos, não mudou taaaaaanto assim não. Afinal, se depois de vinte anos eu ainda consigo reconhecer algumas estruturas…

Tá vendo essa quadra aí? Eu ainda lembro dela, a diferença é que na época ela não era coberta. Então, estávamos todos enfileirados no pátio, e eu ainda fuçando no meu microscópio. Uma professora me viu irrequieto na fila (afinal, eu estava animadíssimo porque o meu plano havia dado certo); ela veio, viu o “brinquedo” na minha mão e, de forma brusca e sem falar nada, tomou-o de mim.

E você sabe como as coisas são quando somos crianças: eu simplesmente deixei ficar por isso mesmo, com medo de estar em apuros com professores ou com meus pais pela “traquinagem”. Eu era muito “certinho”, raramente abria berreiro ou tentava forçar a situação a se desenrolar em meu favor. Fui educado assim.

Eu tava pensando nessa história ontem, avaliando-a pela primeira vez com a mente de um adulto. Olha a situação: lá estava eu, no alto dos meus 8 ou 9 anos, tendo essencialmente montado um pequeno microscópio — e que eu estava usando com inclinações científicas, pra observar anatomia de insetos. Isso exibe um rudimentar domínio de ótica, eletrônica (e por que não dizer de engenharia), além do impulso científico de observar o mundo ao meu redor. Não porque há uma prova na semana que vem e eu preciso decorar capitanias hereditárias ou a equação da fotosíntese — eu estava, por mim mesmo, buscando conhecimento científico.

Aí vem a professora, cujo nome infelizmente não me lembro. A desgraçada me vê agitado na fila, o que ela reconhece automaticamente como uma ameaça à ordem e disciplina escolar. Ela vem em minha direção, detecta o catalisador da minha euforia — uma caixinha preta de plástico cheia de durex — e, decidindo que é mais importante botar um moleque de 8 anos na linha do que tomar algum interesse pelo motivo que o deixou agitado, ela simplesmente tomou a parada de mim, sem mais essa nem aquela.

Ela nunca nem olhou pra parada nem perguntou o que era. Não tenho dúvidas de que ela jogou o meu microscópio na cesta de lixo assim que passou perto de uma, supondo tratar-se de alguma imbecilidade de criança. Algum cacareco inútil que eu trouxe de casa.

Olha que merda, mano. Só de lembrar dessa história eu fico puto. Eu não havia feito NADA de errado. Eu estava manifestando um saudável senso de curiosidade, e usando os poucos recursos que tinha em minha disposição para fazer melhores observações sobre o mundo ao meu redor — além de compartilha-las com a molecada. E a desgraçada que estava supostamente com uma parcela da carga de me educar e estimular meu intelecto toma o negócio de mim e o joga fora sem jamais tomar interesse no que se tratava.

Eu tenho um meio-irmão* de 7 anos; o moleque é extremamente habilidoso com computadores. Outro dia vi-o jogando Total Annihilation, um RTS clássico que não é de forma alguma fácil de jogar ou user-friendly. A facilidade com a qual ele navega a interface e joga o jogo é espantosa. Sempre pergunto pra ele como ele aprendeu a jogar o troço, pergunto o que cada unidade faz pra ver se ele realmente manja do jogo. Eu fico estupefato quando vejo demonstrações de inteligência em crianças.

Revendo essa história, eu finalmente entendo perfeitamente o que o Michael Crichton quis dizer. O ambiente escolar prima às vezes mais por disciplina do que por criatividade e espontaneidade, e eu senti isso na pele naquela tarde no pátio do Colégio Adventista de Londrina. Aquilo me serviu de lição do que jamais fazer com uma criança que exibe interesse maior em ciências.

*Quando menciono esse termo no tuíter, noto que muitos parecem não conhece-lo. Meio-irmão é um irmão cuja conexão fraternal vem por parte de apenas um dos seus pais. No caso, o Kevin é filho do segundo casamento do meu pai.

Eu estava ontem passeando por uma livraria, cumprindo minha tradição da semana antes do Natal (comprando presentes de última hora), quando avistei o que você vê aí acima: uma seleção variada dos tais moleskines, cuja popularidade hoje em dia parece ter diminuído mas há alguns anos era um prerequisito pra ser considerado hipster sujo.

Eu nunca tive nenhuma grande atração por esses caderninhos aí — muito pelo fato que, apesar de gostar de escrever, a idéia de escrever à mão me parece tortura. Nem eu entendo mais minha caligrafia; escrever à mão é um skill perdido definitivamente.

O que é aliás um tapa na cara de professoras de português que insistiam que a gente escrevesse “bonitinho”. “Um dia no futuro sua competência será analisada pela uniformidade e beleza da sua grafia manuscrita”, me disse uma delas. Não, sua desgraçada, você errou.

Então. Nunca fui megafanboy desses tais moleskines. Entretanto, ao pegar num deles rapidamente na loja quando tirei essa foto, lembrei que eu ADORAVA caderninhos quando era criança. E é bizarro ter esquecido disso todos esses anos.

Sempre gostei de escrever (desde moleque, como já comentei aqui várias vezes), e frequentemente as idéias para historinhas vinham quando eu menos esperava. Por não ter muitas experiência de vida aos 9 anos, quando moleque eu escrevia ficção; hoje é que minhas escritas viraram auto-biográficas.

Então, naqueles tempos de moleque eu fantasiava sobre ter um caderninho bacana que eu pudesse sempre levar no bolso pra escrever qualquer coisa.

Até consegui bloquinhos de anotações uma vez ou outra, daqueles com espiral e tudo mais. Tipo assim:

Eu pegava um lápis, quebrava no meio, lixava a extremidade quebrada como podia, enfiava o lápis na espiral do bloquinho e metia no bolso. E sempre que vinha uma idéia na cabeça, eu escrevia no bloquinho.

Aí eu bolei que meus bonequinhos, que evidentemente eram proxies da minha própria personalidade, também tinham que ter seus caderninhos.

E sim, acredito que crianças projetam muito de suas próprias personalidades em seus bonequinhos. Qual outra explicação para as inúmeras brincadeiras infantis onde meus Comandos em Ação invadiam o quarto da minha irmã, talvez um sentimento de vingança por ela ter nascido poucos dias depois do meu aniversário e usurpado o importante significado que novembro tinha em minha casa até então.

Então, meti na cabeça que meus bonequinhos também precisavam de seus caderninhos. Acho que é porque, na minha cabeça ingênua, se EU sentia a necessidade de um caderninho pra anotar idéias, todo mundo precisava, e meus bonequinhos não eram exceção. Sabe o que eu fiz?

Primeiro, eu peguei várias revistas Veja do meu pai. Manja que naquela época (talvez hoje também, sei lá) vinham encartes de cartolina no meio da revista, convidando o leitor a fazer assinatura de outros periódicos da editora?

Esses encartes vinham com thumbnails de capinhas das tais revistas, incluindo a da Playboy (cuja miniaturização no encarte a tornava inútil para fins promíscuos a menos que você tivesse um microscópio ou algo semelhante, e ainda assim seria estranho ir pro banheiro com um microscópio. Os banhos de duas horas já eram suspeitos o bastante.)

Então. Eu arranquei esses encartes e recortei os thumbnails cuidadosamente (com uma tesoura COM ponta — daquelas imensas, de alfaiate mesmo — porque nós geração anos 80 fomos criados sem a bolha de proteção em que a garotada atual vive). Em seguida, roubei folhas A4 daquela impressora matricial enorme que meu pai tinha em seu escritório. Cortei as folhas em vários pedacinhos de dimensões iguais a dos thumbnails das revistas. Finalmente, grampeei vários desses quadradinhos de papel a cada capinha.

O resultado era várias mini-revistinhas, com folhas em branco por dentro. E eu distribuia esses caderninhos pros meus bonequinhos, tudo pra que eles ficassem mais parecidos comigo, que levava o meu caderninho pra todo canto.

Talvez foi nisso que começou o meu fascínio por tecnologia móvel — afinal, o que era esse meu caderninho senão uma ferramenta de produtividade/criatividade portátil?

Alguns anos mais tarde, meu pai recebeu um laptop da empresa. A idéia de um computador que você pode levar pra qualquer lugar me fascinou e cimentou minha afinidade por portabilidade.

Isso se manifestou mais claramente no campo tecnológico (smartphone, tablet, ereader, consoles portáteis…), mas não é exclusivo a ele. Nesta mesma livraria, vi algo que teria me deixado MALUCO quando eu era criança.

LIVROS PORTÁTEIS! Ok livros já são portáteis mas esses são MAIS.

 Isso são mini-livrinhos que as livrarias aqui oferecem como idéia pra presente. Eles existem em tudo quando é tema: comédia, terror, referência, livros baseados em filmes, esse tipo de coisa.

São baratinhos, pequenos, engraçados e até úteis em alguns casos. Aquele The Worst-Case Scenario é essencialmente um misto de Manual dos Escoteiros Mirins com Guia do MacGyver — como se não bastassem essas referências da minha infância, ainda é em um tamanhinho perfeito pro seu bolso.

 

Se tal coisa existisse quando eu era criança, fissurado no MacGyver E por mini-coisas, meus pais não teriam conhecido descanso até que comprassem essa merda pra mim.

Eles têm uma bibliazinha de poker, com o visual eclesiástico e tudo:

 

Não sou muito chegado em poker (não gosto de jogos de azar, prefiro jogos que envolvem perícia), mas achei a idéia de um manualzinho de bolso com as regras do jogo muito foda. Eles também têm pequenas antologias de quadrinhos pulp, olha só que negócio foda:

 

Eu gostei demais desses livrinhos (que eu já tinha visto antes, mas nunca dado a devida atenção) e já planejo inclusive sortear alguns deles no HBDtv e aqui no HBD. Fiquem no aguardo.

Ah, e pra melhorar seu Natal em aproximadamente 800%, clique aí embaixo:

Vocês já perceberam que depois que você conhece uma pessoa nova, em breve a conversa se torna uma disputa de quem já se envolveu nos acidentes mais mirabolantes?

Passei os últimos 24 anos estudando essa tendência da psiquê humana. Aliás, de onde surgiu esse acento circunflexo, que minha professora de alfabetização (tia Socorro, que já morreu até, coitada) ficava muito puta se o chamassem de “acento chapeuzinho”? Qual o problema de chamar o circunflexo de chapeuzinho? Temo que agora apenas Satanás poderá perguntar isso a ela.

Não importa. Faça o teste aí; da próxima vez que conhecer alguém novo, comente COMO QUEM NÃO QUER NADA que no verão passado você perdeu um dedo do pé enquanto tentava, sei lá, operar um moedor de carne em cima de um skate. Pode ter certeza que o sujeito tirará a camisa, mostrará uma cicatriz entre a terceira e quarta costela e dirá que foi perfurado por uma viga de construção quando mergulhou do terceiro andar de seu prédio tentando capturar uma pipa desgarrada. Antes que você puxe de memória algum acidente mais imbecil, vai lembrar da minha teoria.

Falando em pipas desgarradas, já contei pra vocês o dia em que apanhei por causa de uma porra de uma pipa?

Era 1997, ou 1998, sei lá. Geralmente lembro os anos em que minhas putarias aconteciam porque bastava lembrar em que série eu estava (fiz a quarta em 94, a quinta em 95, a sexta em 96 e etecétera), mas dessa vez o ano me escapa da memória.

Eu morava na época no asqueroso Conjunto Ceará, um bairro escroto na periferia mais fodida de Fortaleza. Os leitores cabeça-chata não precisam que eu descreva a imagem, mas tem muito sulista lendo isso aqui, então vamos fazer um exercício mental. Pensem aí no bairro mais sujo das redondezas de Calcutá, e em seguida imaginem um caminhão-pipa cheio de esterco, muco, placentas, cadáveres em avançado estado de decomposição e cópias do último CD do Los Hermanos explodindo bem no meio dele, espalhando a repugnante mistura por todo lado. Esse é o Conjunto Ceará.

Meu pai, na época pastor evangélico, liderava uma congregaçãozinha quase ou tão fodida quanto o próprio bairro, bem no meio do sertão cearense. Morávamos na Aldeota, e se eu não estivesse com a imensa preguiça de abrir o Google Earth vocês veriam que há um continente inteiro entre os dois bairros. Depois de algum tempo gastando uma nota preta em gasolina, o coroa resolveu se mudar lá praquela invasão. Ir pra igreja à pé seria seria uma economia considerável, ainda que isso significasse ter que disputar a calçada com crianças peladas brincando dentro de poças de lama com carrinhos de plástico sem rodas e com as caras ocupadas por moscas varejeiras.

Sem putaria, o lugar era sinistrão. Era um misto de invasão do MST com favela indiana, muito tosco mesmo. Inclusive, foi lá que fui assaltado pela primeira vez na vida (o que é assunto pra um post que só escreverei depois de anos de cobranças dos leitores).

Voltando à história, papai-pastor se muda de mala e cuia pra uma periferia fodidaça e eu, filhinho de papai acostumado com colégio particular caro e amiguinhos ricos, me vi morando numa casa rente à rua sem asfalto e moleques que nunca nem tinham visto um computador de perto. Sem computador, sem videogame (eu havia destruído meu SNES acidentalmente pouco tempo antes da mudança), sem carros de controle remoto, tivemos que nos comunicar com base em um denominador comum, ou seja, nossos papos de brinquedos não podiam envolver coisas cujo preço ultrapassasse os dois dígitos.

Acima, uma simulação computadorizada de mim mesmo, aos 14 anos, empinando uma pipa. Perceba as gravatas borboleta com que eu enfeitei minha pipa

E a resposta foram as pipas.

Pipas não eram apenas aeromodelos rudimentares construídos com bambu, papel de seda e cuspe; com um pouco de cola branca, cacos de vidro e malícia tipicamente brasileira, uma pipa comum se tornava uma fabulosa aeronave de combate.

Nas mãos de pilotos habilidosos, uma pipa podia cruzar os céus com maestria e cortar a linha da pipa de um oponente, e aí fodeu. Alguém voltaria pra casa chorando, com um carretel de linha sem uma pipa na outra ponta.

A confecção e decolagem de pipas era basicamente o único passatempo que aquela crianças dignas de um show beneficente do Bono Vox podiam desfrutar. Os que conseguiam arrancar algum dinheiro dos pais de vez em quando podiam se dar ao luxo de comprar pipas pré-fabricadas no mercantil do seu Joaquim da Mandioca. Desconheço o motivo dessa alcunha, porque jamais vi seu Joaquim com nenhuma mandioca, com M maiúsculo ou não. Por isso mesmo, temo o duplo sentido do apelido.

Os mais miseráveis e desnutridos da turma (ou seja, aqueles para quem os dois reais que cada pipa custava constituia uma fortuna inalcançavel) tinham que implorar pelas pipas velhas de outrem, fazer suas próprias a duras penas ou disputar as pipas abatidas.

E as pipas abatidas, mas que espetáculo! Uma pipa derrubada era praticamente o equivalente do Conjunto Ceará do lançamento de um ônibus espacial. Pessoas vinham de todos os cantos pra assistir. Não, não é exagero, é literalmente mesmo: o fenômeno resultante de uma briga de pipas fazia muitos interromper seus afazeres e ir à rua assistir a putaria.

Quando uma pipa cruzava os céus à deriva, saíam pivetes de TUDO QUANTO ERA BURACO numa carreira desesperada no encalço da pipa grátis. Crianças desciam de árvores, pulavam da esquina, saltavam de dentro de bueiros, chutavam o portão de casa e passavam sebo nas canelas. Eu nem sabia que tinha tanto moleque naquele lugar. Imagino que estes passavam o tempo se escondendo e analisando o tráfego aéreo do bairro, aguardando o momento de correr. E a animação era porque, segundo o código de honra da pivetada, uma pipa cortada pelo cerol alheio pertencia ao povão. Aquele que a capturasse primeiro se tornaria o dono, e ai do dono legítimo se este se meter a reclamar a posse da pipa! Um delito dessa natureza requeria pena de pelo menos cinquenta cascudos em áreas variadas do corpo.

Segundos após a pipa perdida encontrar descanso no telhado da vizinha da frente, mais guris se juntavam à turba na corrida em direção à aeronave abatida. Chinelas havaianas não aguentavam a velocidade e as tiras estouravam, frequentemente levando rostos imberbes de encontro ao asfalto. Com tantos corpos caídos no chão, o negócio frequentemente se tornava uma corrida com obstáculos.

Sem o menor respeito à propriedade alheia, aos amiguinhos ou aos próprios ossos, a pivetada escalava os muros da casa da dona Francisquinha de Jesus – aquela que vendia pastel de queijo na feira -, disputando cada ponto de apoio na base do tapa, até que alguém finalmente tocasse a seda da pipa. Devia haver algum tipo de lei informal regendo a briga pelo brinquedo, porque no exato momento que alguém encostava na pipa, todo o resto da turma abandonava a disputa.

A cena era pitoresca; aquela criançada toda correndo feito loucos no meio do trânsito, desviando de carros, se empurrando, se esbofeteando, caindo de cara no chão, trepando em muros alheios… por algo que custava dois reais. Ah, Conjunto Ceará…

Além dessa putaria toda (ou por causa dela mesma), a brincadeira das pipas gerava uma perpétua inimizade entre as patotas de cada rua. O pessoal da Comendador Machado odiava a turma da Sete de Setembro, que por sua vez não podia sequer ver a galerinha da 89. Bando de metidos. Se achavam nova-iorquinos, só porque o nome da rua era um número!

O que acontecia é que tomar posse da pipa abatida da rua oponente era uma injúria imperdoável. Se alguém da turma oponente cortasse sua pipa no cerol, tudo bem, era parte do esporte. Bastava voltar pra casa, roubar o dinheiro do pão e comprar outra. Mas quando os amigos do algoz conseguiam pegar a pipa perdida e trazer de volta pro bando, ahhhh… Isso feria a dignidade. A pipa cortada de um oponente era praticamente um troféu de caça, um atestado de superioridade. Era quase como se seu inimigo estivesse de posse de sua própria alma.

Havia ainda uma patifaria ainda mais vilanesca, o ato de “fazer farofa”. “Fazer farofa” consistia em capturar a pipa do oponente apenas para destruí-la completamente.

Entendidas as regras do esporte, continuo a historinha.

Num belo dia de domingo, estávamos eu e a minha turminha empinando pipas. A galera da rua da frente, cujo nome não consigo lembrar, estava na mesma atividade. Eles lá, a gente cá. Olhares raivosos cruzavam a rua em ambas direções. No ar, as pipas materializavam o ódio mútuo que as nossas gangues infantis nutriam uma pela outra – com habilidade, os empinadores de cada lado jogavam suas pipas umas contras as outras, tentando faze-las se engancharem na linha acerolada (que é uma linha com cerol, e não acerolas. Embora o Manélzinho da 21 jurasse ter projetado uma pipa com suco de acerola ao invés de cola. Vai ser pobre assim na puta que pariu).

Num lance de sorte, o Adriano conseguiu desvencilhar a pipa do oponente da linha. Esta começou a cair, desenhando uma espiral no céu em direção à nossa turma. Por ser um domingo, o movimento no bairro era bem menor, e a pipa já caía em nossa direção mesmo. Nem foi necessário correr. Eu, por ser o mais alto entre a nossa turma, peguei a pipa caída com facilidade. Joguei um olhar pra turma da rua da frente, e as caras deles não eram das melhores. Um moleque saiu do meio do grupo em nossa direção.


Ele atravessou metade da rua e, com frases curtas, exigiu a devolução da pipa. Sua mão pendia no ar, insistente.“Ah, mermão” falei “tu sabe como é o negócio. Pipa bolada não tem dono!”O sujeitinho, que acho que se chamava Marcelo, não perdeu tempo debatendo. Ao invés disso, ele voltou rapidamente pro meio da sua turma, que aguardava do outro lado da rua. A retirada voluntária do inimigo foi algo ainda mais honroso que ter capturado a pipa dele. Meu espírito gozador não se conteve.

“Ei, ei, ô, ô, olhaqui!” o rapaz virou o corpo em minha direção “Brigado pela pipa nova, ein!” tendo dito isso, ergui o artefato acima da minha cabeça e ensaiei uma breve e constrangedora dança de vitória.

O moleque, indignadíssimo, apressou o passo em direção aos seus amigos. Ao chegar lá, conferenciou com eles brevemente. Em seguida, correram todos pra rua, saindo da nossa visão.

Minha turma e eu voltamos às nossas atividades normais. Em pouco tempo, a turma inimiga reapareceu na esquina.

Com paus e pedras nas mãos, e olhares sérios na cara.

Não minto, gelei instantaneamente. Nunca fui de brigar, especialmente quando os oponentes são mais numerosos e armados. Pensei em correr, mas eu era o mais velho da minha turminha e a vergonha jamais seria esquecida. Permaneci no mesmo lugar, com a pipa ainda na mão.

“Me dá” disse Marcelo, sem precisar especificar exatamente o que eu deveria dar.

As palavras quase não vinham à boca.

“Mas eu peguei…”

Sem pensar duas vezes, Marcelo girou o braço e o pedaço de pau em sua mão foi de encontro à minha perna. Virei o corpo instintivamente (e vi de relance que meus amigos tinham desaparecido), e a porrada pegou do lado do joelho. Dei um passo pra trás, irado, mas sabia que seria impossível me defender dos três ao mesmo tempo.

“Me dá essa porra, branquelo de merda” disse o menino. Com o joelho doendo e uma inegável vontade de sair em disparada, o orgulho falou mais alto. Fiquei calado. Reconheci um dos pedaços de pau que os moleques carregavam como a perna de uma cama que havia sido jogada num terreno baldio das proximidades (não o do mapa acima, um mais distante).

Sem esperar a minha resposta, Marcelo deu uma estocada com o pedaço de pau e perfurou a película de seda da pipa. Com um rápido movimento, ele arrancou-a das minhas mãos. Me senti como se alguém tivesse arrancado minhas roupas.

Na sua fúria e falta de planejamento na hora de reconquistar a pipa, o moleque acabou estragando-a. Sem pensar duas vezes, ele “fez farofa” ali mesmo. Depois jogou a pipa aos meus pés, e saiu. Até hoje me pergunto o que impediu o sujeito e seus amigos de me dar uma surra de perna de cama.

E eu passei uma semana sem falar com o meu irmão, também. Aquele corno fazia kung fu na época e me deixou apanhar sem se manifestar!

Logo após os malfeitores abandonarem nossa rua, a minha turma começou a aparecer. Eu estava morrendo de vergonha, mas dava pra ver que a deles era ainda maior que a minha. Eu estava revoltadíssimo, afinal, éramos uns nove. Armados ou não, cada um dos moleques da rua rival teria que se virar contra três! Seria um massacre, se eu não tivesse sido abandonado como um filho cujo pai descobriu sua homossexualidade.

Mandei todos aqueles medrosos de merda irem pro inferno (incluindo o meu irmão) e voltei pra casa. E passei o resto do dia jogando Command and Conquer.

Aqui na América do Norte estamos chegando na reta final da chamada “summer season”. Além do calor característico da estação climática, a temporada marca também o lançamento dos blockbusters do ano.

Hollywood escolhe essa data porque além dos estudantes estarem de férias e terem mais tempo livre (e de serem o demográfico que mais vai ao cinema), as pessoas em geral se sentem com mais vontade de sair de casa graças ao clima ameno. Ou seja, variáveis benéficas pra garantir a maior arrecadação possível dos filmes que custam mais pra fazer.

E sempre que aparece um filme que eu quero assistir  — e teve vários esse ano: Avengers, Prometheus, The Dark Knight Rises, Total Recall, Katy Perry: Part of Me 3D –, eu sinto uma leve agonia, um sentimento de urgência irresistível.

Só que não é (só) por empolgação de ver o filme. O motivo dessa ansiedade, eu percebi recentemente, é um pequeno trauma de infância.

Eu, em 1990

É o seguinte. Desde molequinho, eu era muito fã de cinema. Meu pai — que já tinha o hábito de nos levar pro cinema, embora não fosse algo tããão frequente assim — foi um dos primeiros da turma que adotou o videocassete. Com isso, eu era um dos únicos moleques que eu conhecia (talvez o único) que tinha uma coleção imensa de filmes em VHS em casa. Quase todas as minhas brincadeiras de criança se resumiam em simular cenas de filmes de ação com meus Comandos em Ação. Nossa, que repetição de termos escrota.

Enfim. Lá pelos meus 11 ou 12 anos, quando comecei a ter idade pra sair com a patotinha, o que eu mais queria fazer é ir ao cinema. Só que ir ao cinema naquela época era meio complicado, porque dependia de inúmeros fatores (e cada um deles fora do meu alcance):

Primeiro, tinha que ter o dinheiro pra ir ao cinema. Não lembro se eu já pagava meia-entrada na época; ainda que sim, essa era uma época de pobreza pessoal — no sentido de que eu não tinha renda alguma. Pegava um ou dois reais aqui e ali pra comprar lanche na escola e . Então, ir ao cinema requeria planejamento; eram dias sem comer na escola pra angariar o suficiente para a entrada e a pipoquinha.

E se sobrasse dinheiro, uma caixa desta belezinha aqui

Então, não eram todos os filmes que eu podia ir assistir. Tinha que escolher sabiamente, e vários filmes que eu queria tanto ver entravam e saíam de cartaz sem que eu os visse.

Em segundo lugar, tinha que organizar a logística da saída com a turminha. Éramos todos crianças e, como tais, a autonomia de nossos planos era muito reduzida. Tudo dependia do resto da turminha arrumar o dinheiro, e poder sair de casa naquele dia/hora, e ter carona pra ir e voltar do cinema (nessa época ainda éramos muito novos pra pegar ônibus sozinhos). Ir pro cinema sozinho é meio deprimente, e todas as estrelas tinham que se alinhar pra que a turminha pudesse sair junta.

E em terceiro lugar, além da simples logística do encontro com a galera no cinema, tinha também a questão dos gostos conflitantes. Curiosamente, eu tinha o que podia se chamar de gosto “refinado” na época. Não gostava de comédias babacas, por exemplo — eu senti um desgosto incrível em 1994 quando Debi & Lóide foi eleito pela turma da classe como o melhor filme do ano, e no ano seguinte quando Ace Ventura 2 recebeu a honra. E quando a turma insistia em ver esse tipo de filme, eu ficava em casa mesmo.

(A ironia é que hoje eu adoro comédias imbecis; elas servem bem pra escapar da agonia diária que é a vida adulta contemporânea e a condição humana.)

Como você pode ver, as estrelas tinham que se alinhar perfeitamente pra que eu pudesse ir pro cinema quando eu mesmo queria (ir com os pais era bacana, mas não é o mesmo efeito de ir com o pessoal, e não era tão frequente assim também).

Isso acabou me imbuindo em mim a noção de que ir ao cinema pra ver o filme que EU quero ir é algo difícil de fazer acontecer. Ou falta dinheiro, ou não há carona, ou os amigos estão sem grana, ou indisponíveis naquele dia, ou querem ver algo que eu não quero. Era meio raro finalmente reunir todo mundo pra ir ver alguma coisa.

Por isso, quando um filme que eu quero muito ver aparece em cartaz, eu sinto um desespero primordial em ir ve-lo o mais cedo possível. Em alguma área escondida do meu cérebro habita ainda aquela noção de autonomia infantil limitada, o que se manifesta num desejo incontrolável de assistir TUDO que aparece em cartaz.

E mais: tento fazer a melhor experiência possível: chego cedo pra pegar os melhores assentos e ver todos os trailer, compro toda aquela comida absurdamente cara, compro os docinhos que patroa tanto gosta, geralmente ainda a levo pra jantar depois, esse tipo de coisa.

Ir pro cinema aqui é consideravelmente caro: cada ingresso custa entre 12 e 15 dólares, os lanches (um sanduíche, refrigerante e batatas fritas) ficam por volta dos 15 dólares também, e por um pacote de M&M que custa CAD$1,50 em qualquer outro lugar os cinemas costumam cobrar o dobro. Como eu costumo pagar tudo pra patroa, uma ida ao cinema me custa facilmente uns 60-70 dólares (isso quando não vamos jantar algumas horas após o filme).

Mas eu não tou nem aí. Ir ao cinema é uma daquelas coisas que eu não pude fazer o quanto queria, por causa da falta de independência dos tempos de criança, e hoje vou à desforra.

Aliás, nos tempos de vacas gordas (quando meu irmão morava com a gente, quando ainda não havíamos nos casado e não tinhamos um carro — fatores que nos faziam economizar MUITO dinheiro) eu cheguei a ir ao cinema 3 vezes na mesma semana.

Me contem aí as coisas que vocês não podiam fazer quando criança, e hoje fazem ao extremo.

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