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O dia em que um bully me mandou pro IML

Postado em 31 March 2015 Escrito por Izzy Nobre 20 Comentários

iml

Eu queria usar uma imagem do IML de Fortaleza, onde a história realmente se passou, só que o prédio pelo jeito mudou TANTO de 1995 pra cá (ou talvez agora é outro prédio totalmente diferente) que não há benefício de verossimilidade em usa-lo.

Foi o seguinte. Em 1995, eu cursava a quinta série numa escola chamada Colégio Evangélico. A escola pertencia à Igreja Betesda, uma congregação em que naquele mesmo ano meu pai se tornaria pastor. A escola ficava nos fundos da igreja.

Essa era a Igreja Betesda. Tá vendo ali na esquerda?

Hoje aparentemente funciona ali a Coordenadoria de Vigilância em Saúde; nos anos 90, descendo essa rampa você chegava nas instalações do Colégio Evangélico. Ficava, tecnicamente, no “porão” da igreja.

Então. Nessa época, estudávamos eu e meu irmão nessa escola — eu na quinta série, ele na terceira. E meu irmão estudava com um garoto chamado Samuel.

O Samuel era aquele bully estereotípico. Com um físico desproporcional ao resto da molecada de sua sala e não muito inteligente — um explicava o outro; ele havia repetido dois anos, daí o constrate com a pirralhada –, Samuel rondava os corredores do colégio impondo uma lei talibanesca de terror e opressão. Em uma ocasião ele bateu num garoto da sexta férie, uma bizarríssima inversão das leis naturais do universo. Como podia um moleque da terceira série bater em alguém da sexta?!

Aliás, eu não lembro de ver o Samuel interagindo tanto com a gurizada de sua sala. Sua turma mesmo, me parecia, era a galera da MINHA sala. Isso ficou mais claro quando descobri que ele era repetente, e que aquele pessoal que estudava comigo havia sido de fato a turma dele anos antes.

Pois bem. O Samuel estabelecia sua dominância na escola distribuindo porrada em volumes cavalares na pivetada. Não havia um método muito claro no seu método de bullying; às vezes ele chegava no garoto, agarrava o pirralho pelo pescoço sem qualquer provocação, e empurrava o moleque na parede. Em outras ocasiões ele abaixava as calças da criança, de preferência em um momento que o pivete estivesse falando com os coleguinhas.

Seu MO mais frequente era pegar um maluco pelos braços, rodopiar até os pés da vítima descolarem do chão, e finalmente soltar a criança e deixar que a força centrífuga* resolvesse a situação.

Fui vítima de todas essas “brincadeiras” repetidamente.

Ocasionalmente (na real, um pouco raramente), o Samuel protegia suas vítimas de avanços de outros bullies. Lembro de uma situação específica em que ele se colocou entre eu e um moleque mais velho que queria me bater por um motivo qualquer. Samuel, que pelo que posso concluir era um psicopata mirim, alternava entre o papel de algoz e herói pura e exclusivamente para abaixar as defesas psicológicas de suas vítimas. No dia seguinte ele estava lá chutando a molecada novamente.

Então. Este episódio em particular aconteceu no pátio da escola após o término das aulas. Nessa época eu fazia algo chamado “tempo integral”, uma modalidade de ensino que nem sei se ainda existe mais.

Durante a manhã, rolava o período didático tradicional — matemática, português, geografia, etc.  Ao meio dia metade da escola ia pra casa, enquanto a outra metade ia para os chuveiros tomar banho e tirar o uniforme. Agora à paisana, os alunos dirigiam-se ao refeitório da escola, onde eram servidos o almoço.

Depois do almoço, a pirralhada se recolhia a “salas de descanso”, que nada eram senão salas comuns em que o espaço previamente ocupado por mesas e cadeiras havia sido substituído por colchonetes. Rolava aula de música (foi nessa época que aprendi o obrigatório Asa Branca numa flauta doce), um reforço escolar, e o dia terminava com um filme na biblioteca.

Então. Eu e o Samuel fazíamos o tal tempo integral, e frequentemente seus ataques aconteciam durante esse período (talvez porque a opção de vítimas era limitada). Num desses dias, o maluco chegou por trás de mim enquanto eu conversava com um coleguinha e me deu um safanão no braço, seguido de um soco nas costas.

Caí no chão na hora. Eu nunca havia entendido a expressão “ficar sem fôlego” até aquele dia. Pra terminar de me zoar, o Samuel tirou meus sapatos (????) e jogou pro outro lado do pátio. Tive que de certa forma admirar a criatividade do bully.

Demorei alguns segundos pra recuperar o fôlego; foi uma experiência desesperadora. Quando os amiguinhos vieram acudir, percebeu-se que havia ficado um hematoma nas minhas costas.

Quando meu pai apareceu na escola pra me pegar, contei o acontecido, e mostrei o hematoma, ele ficou colérico. O garoto não estava mais nas redondezas da escola, e ao contrário da outra ocasião em que meu pai teve que resolver uma situação de bullying, dessa vez ele foi um pouco mais comedido — meu velho decidiu que a decisão correta seria registrar o ocorrido e buscar uma solução por meios legais apropriados.

Fomos para o IML de Fortaleza fazer um exame de corpo de delito. Chegando no prédio, a primeira coisa que reparei foi o estado de total abandono do local — alguns pontos no forro haviam caído, deixando buracos no teto. Havia marcas de infiltração por toda parte, e uma boa parcela das lâmpadas estavam queimadas. Foi uma visão que eu convencionei a associar com a infraestutura pública; os anos que passei estudando em instituições públicas solidificaram essa imagem.

Após algum tempo esperando no saguão, o médico legista de plantão passou pelo corredor. Meu pai se levantou pra falar com o cara, e ele continuou em sua trajetória sem sequer olhar pro meu pai e entrou num dos escritórios. Meu pai voltou-se pra pedir ajuda à garota da recepção, mas ela só falou algo como “poisé o Doutor Fulano é ocupado mesmo, não sei quando ele vai poder atender vocês”.

Alguns minutos mais tarde, o médico saiu do escritório e foi em direção a um corredor. Meu pai levantou da cadeira mais uma vez pra tentar falar com o médico, e ele novamente sequer olhou na nossa direção. Sentamos novamente.

Acho que uma hora se passou antes que meu pai tentasse pedir ajuda à recepcionista novamente, e a resposta foi algo como “senhor, eu já lhe falei que o doutor está bastante ocupado” repleto de desdém, somado aquele tom que deixa claro o prazer da pessoa em te “corrigir”.

Frustrado com a situação de tentar resolver um problema da forma correta e se foder, meu pai perdeu a paciência e discutiu com a recepcionista, que daquela forma característica a funcionários públicos se recusava a fornecer muita ajuda ao mesmo tempo que lidava com qualquer pedido como se atender o cidadão pagador de impostos fosse um imenso favor de sua parte e não a descrição da sua função.

Nesse momento a frustração levou meu pai à ebulição. Revoltado de uma forma que eu nunca o vi antes, ele protestou que é um absurdo um cidadão receber tão péssimo tratamento num serviço que só existe por causa dos abusivos impostos que ele tem que pagar. E virou-se pra sair.

O médico aparentemente ouviu a explosão do meu pai e apareceu na porta de seu escritório pra ver do que se tratava a coisa. Os dois começaram a discutir; não lembro mais o que foi dito, mas o ponto principal era uma expressão de frustração com a falta de qualidade e o abandono do serviço público quando se mais precisa dele. O tom foi ficando cada vez mais alto; foi talvez a primeira vez (única, também…?) que lembro de ter visto meu pai ativamente brigando com alguém.

Meu pai encheu-se da discussão, me pegou pelo braço e virou-se pra sair, não sem antes falar algo em relação à mitológica vagabundagem do funcionarismo público. Nisso o médico avançou pra cima do meu pai, que já estava de costas. “Quem que é vagabundo aqui, seu filho de uma puta?“, berrava o médico completamente descontrolado. Uma coisa que lembro claramente é que ele NÃO tinha sotaque cearense; seria impossível confundir isso porque o sotaque cearense num momento de uma discussão como essas é inconfundível.

Ainda lembro daquela pergunta retórica sendo repetida, em tom cada vez mais agressivo, enquanto o médico se aproximava do meu pai pisando firme no chão.

Meu pai virou-se pro médico e perguntou algo como “você que realmente fazer um negócio desse na frente do meu filho aqui?“. Acredito que o médico nem ouviu, ele continuou berrando na cara do meu pai, o xingando. “Me chama de vagabundo de novo seu viado” ou algo assim.

Estávamos quase chegando no carro, enquanto o médico continuava nos seguindo e berrando. Queria MUITO lembrar o que diabos ele estava gritando, exatamente. Lembro vagamente de xingamentos, e de um repetitivo “me chama de vagabundo de novo! Quem que é vagabundo aqui?“. Comecei a pensar que os dois vão se quebrar na porrada ali mesmo.

Meu pai abre a porta do banco traseiro pra mim. O médico está cada vez mais próximo, colérico, e eu começo a me desesperar, porque o cara está MUITO perto agora, e vai atacar meu pai pelas costas. Nervoso, não olhei pra trás. Meu pai falou calmamente “entra no carro e fecha a porta“. Obedeci. Fiquei imaginando se daria tempo do meu pai entrar no carro, dar a partida e sair dali, ou se tal qual nos filmes de terror, o carro falharia num instante crucial.

Nisso meu pai abre a porta do lado do motorista e desaparece procurando algo embaixo do banco. Pela janela da porta do banco traseiro, vi o médico cada vez mais perto, ainda berrando… até o momento em que meu pai puxou uma imensa chave de fenda de cabo transparente levemente avermelhado debaixo do banco do motorista.

Eu sei que chave é essa“, pensei distraidamente. “É aquela chave com a ponta magnética que meu pai usa pra catar parafusos que cairam no chão“.

A pose calma, que eu acho que meu pai estava mantendo por que eu estava ainda “em cena”, evaporou-se quando meu pai viu que eu estava no carro em segurança. Ele fechou a porta do motorista com uma porrada homérica, do tipo que me renderia bronca se EU fechasse daquela forma.

Meu pai virou na direção do médico, apontou a chave na direção dele, alertando-o que se ele desse mais um passo na nossa direção ele ia voltar pra dentro do IML, mas como “paciente”. O médico parou no ato, olhando pra chave, revezando entre olhar pra chave e olhar pro meu pai, e vi que inegavelmente a coragem de outrora havia sumido. O médico deu meia volta e voltou correndo pra dentro do prédio. Vi meu pai dar alguns passos indecisos na direção dele, certamente calculando se valia a pena perseguir o médico pra dar um susto nele.

Ele decidiu voltar pro carro. Jogou a chave de fenda no banco do passageiro e saímos de lá. Meu pai não falou nada sobre o incidente.

E o Samuel? Bem, o destino o levou para o IML de uma forma mais literal.  Mais ou menos um ano após o ocorrido, numa viagem com seu pai pelo interior do Ceará, o carro acertou um caminhão que estava parado no meio da BR. O pai do garoto tentou desviar no último instante, mas no exercício acabou “focalizando” a porrada contra o parachoque traseiro do caminhão no lado do passageiro — onde o Samuel estava.

O choque OBLITEROU o moleque. Segundo as descrições que ouvi no funeral (o único em que fui na minha vida, aliás), a cabeça do moleque basicamente explodiu. No enterro, seu caixão estava fechado. Lembro de um dos presentes explicando, com tristeza, que “tentaram” deixar o garoto apresentável pro funeral, mas não deu.

Seu pai, por outro lado, “apenas” ficou em coma por alguns meses — e eu nunca soube se ele sobreviveu eventualmente, aliás.

Não foi meu único bully que acabou tendo final trágico, aliás. Um antigo amigo da quarta série que se juntou aos bullies no ano seguinte, o argentino Jean (ou era Gean?) Franco matou acidentalmente seu irmão J(G)ean Pietro durante treino de jiu jitsu. O moleque tinha uns 16 anos na época (1998 ou 1999), e lembro de ler notícias na época que falavam que o juiz absolveu o rapaz porque o intenso trauma psicológico de matar o próprio irmão acidentalmente já era punição o bastante.

*Sim, eu sei. Não precisa comentar. Eu cursei bacharelado em Física numa faculdade federal no Brasil, caraio.

 

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Categorias: Minha infância

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 32 anos, também sou conhecido como "Kid", e moro no Canadá há 13 anos. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas, e sobre notícias bizarras n'O MELHOR PODCAST DO BRASIL. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

20 Comentários \o/

  1. Cesar Filho says:

    Que plot twist. Achei que o garoto ia se foder e o negócio virou um episódio de Prison Break e Six Feet Under.

  2. Victor says:

    Eu tive dois bullys na minha vida. Foi entre a 2° e a 4º série. Esses moleques gostavam de impor respeito, e em colégio público sempre tem um desses(não sei hoje em dia). Porradas, cara na grade, abaixar as calças era o que eles sabiam fazer. Geralmente ocorria rodas de briga nos intervalos, e eles sempre estavam lá. Sorte que não sofri tanto como o Izzy, porque eu era um alvo secundário.

  3. Leo says:

    Interessante o envolvimento do seu pai, em todos posts que ele é incluindo dá pra perceber que ele não nasceu pra essa vida de brasileiro gado, que seu lugar realmente era outro.

  4. Jotalex says:

    Estudei em escola pública minha vida toda no capão redondo e bully é que não faltava, mas felizmente desde sempre eu tinha um grupo grande de amigos que se defendiam entre si, inclusive uns brutamontes q tinha interesse em assuntos nerds e praticamente nos livraram do bully.

  5. Amanda says:

    Funcionarismo público não…. Funcionalismo!
    Não gosto de ficar corrigindo, mas dessa vez doeu… 🙂

  6. André says:

    E ainda tem gente que defende o aumento do estado e é contra a privatização. Altos impostos, nenhum retorno, corrupção para manter a máquina política e o serviço ou é ruim ou inexistente.

  7. Artur says:

    Caralho Izzy, que final macabro. Passei um instante congelado até. Como assim o moleque acidentalmente matou o IRMÃO num treino de jiu-jitsu mano? Completamente insano.

  8. BrunoHe says:

    Jesus cristo Izzy, como vc é amaldiçoado cara, ia criticar o texto mas nem vou mais.

  9. Vinícius Martarello says:

    História que nunca havia sido contada em lugar nenhum, coisa rara.

  10. André Henrique says:

    Que macabro cara. Terminei o ensino médio sem ver nem mesmo alunos da mesma escola morrendo. Esse texto teve un clima bem tenso hein.

  11. André says:

    Tempo integral tá na moda hoje em dia Kid. Eventualmente todas as escolas vão ser assim.

    A escola onde eu trabalho tá trollando os alunos mala do nono ano… Quando eles saem de lá, vão direto pra uma escola de ensino medio de tempo integral, com matricula já feita e tudo mais. Os que não são mala vão pra escolas com turmo normal.

  12. joão says:

    Kid viado, vai morrer de tanto sofrer bullying

  13. Leici says:

    Engraçado que o médico não tinha tempo pra atender vocês, mas teve bastante tempo pra ficar xingando e discutindo. É chato mesmo ficar esperando, tem que ter muuuita paciência.

  14. Samuel says:

    Caramba, eu conhecia esses irmãos Geans… Eles moravam na casa em frente ao edifício q eu morava na Vir Távora com Dom Luiz, nem lembrava mais dessa historia

  15. IBG says:

    No meio do texto: “Seu MO mais frequente era pegar um maluco pelos braços, rodopiar até os pés da vítima descolarem do chão, e finalmente soltar a criança e deixar que a força centrífuga* resolvesse a situação.”

    Holy. Shit. Como ninguém nunca quebrou um dente com isso? Aliás, ele chegou a fazer isso com você?

    Ao terminar o texto: HOLY. SHIT. Tá de sacanagem. É sério isso tudo mesmo? Inclusive o último parágrafo??

    PS.: Sei que vc sempre falou que só conta histórias reais aqui, mas cacete… vou precisar de um tempinho pra processar. Esse episódio teve muito twists and turns.Como vc nunca contou essa pra gente?

    • Izzy Nobre says:

      Sim, ele fazia aquilo comigo com frequência.

      Eu comentei essa história numa gravação do 99 Vidas (acho que nem foi ao ar esse trecho), e aí caiu a ficha que nunca tinha contado essa história aqui. E sim, tudo é verdade.

  16. Valmir says:

    Cara, eu acho que na estória do “Jean”, tu confundiu um pouco as coisas. Pelo que eu lembro teve um aluno que morreu estrangulado chamado Gian Franco, que estudava no Ari de Sá, mas foi numa briga e não foi o irmão dele. Num sei se é o mesmo caso, mas achei muita coincidência os nomes e a idade.

  17. Amei o seu blog, a sua maneira clara e divertida de escrever.
    Parabéns!!

  18. Alenonimo says:

    Já parou pra pensar que esse acontecimento pode ter sido o estopim para a mudança da sua família pro exterior? O dia em que seu pai decidiu que ia catar a família e mudar para “um país de verdade”?