Minha primeira "suspensão": conclusão final

Eita, eu tinha esquecido dessa saga. Onde foi que paramos, mesmo? Vejamos aqui.

Perguntei à Mara (que era uma gostosíssima, eu nunca perdia uma oportunidade de falar com ela) qual era o lance.

“Ah, eles nos fizeram umas perguntas lá. Queriam saber quem apagou a luz ontem”.

Senti a espinha esfriar. Pro meu horror, pelo jeito eles iriam investigar a história a fundo.

E estavam atrás da pessoa que apagou a luz.

Ahh, é. No dia seguinte à putaria, a diretora começou a entrevistar os alunos — chamando-os em grupos para a sala dela –, tentando descobrir quem havia sido o meliante responsável pela destruição da sala. Quando o primeiro grupo retornou da diretoria, fui perguntar a uma colega de sala gostosa qual era o lance, e ela me contou que a diretoria estava interrogando todo mundo.

A agonia veio forte. Na noite anterior eu me julgava um gênio do crime do calibre de Lex Luthor, fugindo da cena antes que se pudesse estabelecer um flagrante. Obviamente a diretora não iria deixar essa putaria passar em branco e iria arrancar a verdade de alguém, nem que para isso aparentemente tivesse que interromper um dia inteiro de aula interrogando estudantes.

Logo em seguida, a coordenadora retorna à nossa sala com outros 4 nomes. Os quatro alunos levantam-se à mira do olhar curioso do resto da turma e desaparecem da sala, sendo seguidos pela coordenadora como se esta fosse uma cuidadosa carcereira.

Fiquei aguardando minha vez de ser chamado, analisando minhas opções — que na verdade era apenas uma: negar até a morte. O fato de que estavam chamando grupos de alunos me dava uma pista — eles ainda não sabiam quem havia apagado a luz da sala.

A propósito, esta não é a conclusão da saga. E estou explicando isso no meio da história só pra sacanear os safados que abrem a página e correm pro final do texto pra ver se tem um CONTINUA AMANHÃ. Se você se afobou pra ler a frase final do texto, respirou aliviado achando que a história finalmente se conclui hoje, começou a ler o texto e chegou aqui agora, tenho uma mensagem para você.

Onde eu parei mesmo? Ah, sim.

Então esse era o meu plano. Quando a diretora inevitavelmente chamasse um grupo que me incluísse (o que por si só já seria bom sinal), eu negaria qualquer envolvimento com a coisa.

Só que eu precisava bolar certas desculpas pra resolver três problemas fundamentais.

Primeiro problema: a minha posição de proximidade ao interruptor levantaria suspeitas. Certamente a diretora já devia ter em mãos uma cópia do mapa da sala, e estava limitando os suspeitos àqueles mais próximos ao interruptor. Como eu tinha várias passagens pela sala dela E me sentava em posição privilegiada, teria que considerar a possibilidade de que eu já era um dos principais suspeitos, antes mesmo das interrogações. Seria necessário mentir como jamais havia mentido na vida.

Segundo problema: mesmo que eu conseguisse negar minha responsabilidade com performance digna de um Oscar, havia uma outra possibilidade: a posição geográfica da minha cadeira me dava uma posição privilegiada para testemunhar o “real culpado”. No mínimo a diretora também faria essa pergunta aos prováveis suspeitos. Essa seria relativamente fácil de resolver — eu poderia dizer que saí da sala ANTES da luz ser apagada. O único problema com esse plano nos leva ao…

Terceiro e pior problema: caguetas. Na sala, perante os outros colegas, ninguém estava falando nada — tal qual nos presídios, favelas e associações de corintianos bichas (muitas das quais ficam em presídios ou favelas), a lei do silêncio impera e ninguém aponta o dedo pra ninguém. Entretanto, não poderia contar com esse senso de solidariedade uma vez que os alunos fossem isolados do grupo social que estabelece essa regra. Perante a diretora, um leal coleguinha que jamais xisnovearia alguém na frente do resto da sala contaria até o que não perguntaram.

De todos os problemas, caguetas eram o que mais fugiam do meu controle. Eu poderia mentir até ficar sem fôlego, e dizer que não vi quem apagou a luz — mas se alguns amigos me viram com a mão no interruptor e não estavam a fim de proteger minha identidade, eu estava com sérios problemas.

Os últimos alunos entrevistados retornam à sala, com a coordenadora no encalço. Sempre usando o papelzinho lá como referência, ela chama outros seis alunos.

Achei estranho que o número de alunos interrogados tivessem sido maior que o da última leva. Logicamente, o processo de interrogação deveria afunilar os suspeitos; o esperado é que os grupos chamados à diretoria fossem cada vez menores, até saberem com considerável certeza o responsável pela parada. O fato de que estavam chamando mais gente parecia indicar que a lei do silêncio estava sendo mantida e que a diretora não tinha nenhuma boa pista de quem seria o real culpado.

Até que a coordenadora apareceu na sala trazendo de volta a última leva de entrevistados e, sem auxílio do papel a que já estávamos acostumados, me chama.

Pronto. Fodeu. Naquele instante eu esqueci todo o meu cuidadoso planejamento pra negar a responsabilidade do crime; senti a certeza de que estava irremediavelmente fodido.

O coração bateu acelerado e senti o peso dos olhos de toda a sala em cima de mim quando me levantei da cadeira pra ir de encontro à mulher. Fui escoltado à diretoria pela coordenadora, cujo silênio estóico me incomodava mais do que se ela tivesse me levado pro cadafalso perguntando o tempo inteiro “foi você? diz logo aí, foi você?”.

Cheguei à sala da diretora preocupado que o suor na testa me denunciaria — por isso eu passava boa parte do tempo fingindo que estava aprumando os óculos, na verdade aproveitando o movimento pra enxugar a transpiração.

A diretora (cujo nome me escapa) estava mais séria do que nunca. Ela era sempre bastante séria — que outra forma de impor moral numa cambada de moleque mal criado? –, mas naquele dia ela parecia ditador de republiqueta do oriente médio: completamente impassível e com um olhar que deixava claro que ela seria capaz de julgar e condenar sem seguir procedimentos legais.

Sem rodeios, a mulher me perguntou se eu sabia quem havia apagado a luz. Concentrando-me ao máximo pra não deixar que a voz vacilante me traísse, respondi em alto e bom tom que “não”.

Lembram do Barba, um personagem do filme Carandiru?

Esse bonitão da direita aí

Em um determinado momento do filme, Barba (no livro era outro personagem) descreve ao doutor Varella as circunstâncias nas quais ele veio a ser preso: alguém matou seu irmão, e o assassino eventualmente foi morto também. Alguns disseram que não viram, mas que foi o Barba que o matou; outros disseram que viram que não foi ele.  E nisso o cara acabou encarcerado.

Pois bem, a minha situação era idêntica. Sem poupar suas fontes, a diretora falou que a Fulaninha (uma mina gordinha que todos suspeitavam gostar de mim, as suspeitas agora eram maiores) era uma das poucas da sala que disse que eu não havia sido o culpado pelo apagão. Quase todo o resto era unânime em me apontar.

Tentei futilmente negar, mas era sem jeito. A severidade da diretora e a certeza com a qual ela me acusava minava toda a minha confiança em minhas mentiras. Tentei lorotear a mulher, mas era claro que eu não estava conseguindo.

Mas eu ainda não estava disposto a confessar. No fundo da minha mente, eu tinha ainda a certeza de que sem uma prova indiscutível (digamos, uma foto, ou uma filmagem de segurança) me apontando como o culpado, no final das contas seria a palavra de um contra a de outro. Reinvigorado por este pensamento, continuei com o plano de mentir até a última consequência.

E aí a diretora lançou o golpe de mestre.

Veja só: as salas da diretoria e da coordenadora eram vizinhas, e separadas por uma imensa vidraça. Em minhas inúmeras viagens à coordenação, nunca entendi a arquitetura do ambiente. A vidraça complicava a conversa entre as duas salas, qual era o propósito então…?

Naquele dia, havia um propósito. A diretora, com aparente certeza da minha autoria do crime mas querendo arrancar uma confissão, aponta para a vidraça atrás de mim. Sem entender o gesto, viro pra trás na cadeira.

Atrás de mim, do outro lado da vidraça, estava toda a turma da minha sala. A coordenadora havia trazido todo mundo pra sala dela, e estavam todos observando silenciosamente as minhas lorotas. Surpreendido pela presença de tanta gente que, a essa altura, sabia que havia sido eu o causador da confusão, desmoronei.

Mas não de uma vez — numa última tentativa, aleguei que na correria pra sair da sala no término da aula, escorreguei e bati com a mão no interruptor, causando o apagão.

A mentira foi tão improvável que a sala inteira, do outro lado, reagiu num “Ahhhhhh, não, Israel!” abafado pela vidraça.

Nem uma sala de moleques de 13 anos eu consegui convencer. Não adiantava mais. Era o fim da linha.

A diretora me explica a gravidade dos danos causados à sala — se eu tivesse a mentalidade que tenho hoje, me recusaria a tomar responsabilidade do prejuízo, visto que eu talvez fosse o provocador, mas não o causador delem — e apanha de sua gaveta uma folhinha amarela. Reconheci de pronto: era o formulário de suspensão, a ser preenchido em detalhes com a causa da punição, com espaço dedicado à assinatura dos “pais ou responsáveis”.

Sempre gostei dessa expressão. “Pais ou responsáveis”. Por causa da conjunção alternativa “ou”, o significado implícito da frase é que “pais” e “responsáveis” são conceitos mutuamente exclusivos. É como se a diretora dissesse “pede aí pro seu pai ou pra alguém responsável assinar o papel”.

A diretora preencheu o papel lenta e ostensivamente, falando em voz alta à medida que escrevia nele. “Israel Nobre será suspenso por três dias por causar danos às instalações da escola num incidente ocorrido ontem…” e aí ela parou no meio da frase. Olhou o papel, olhou pra mim. Pôs a caneta no formulário de novo, mas continuava pensativa. E aí ela me oferecendo uma alternativa à suspensão — e o motivo pelo qual os títulos dessa saga sempre trazem a palavra “suspensão” entre aspas.

E foi assim que fui suspenso pela primeira vez. Você que correu aqui pro fim do texto pra saber se a saga tinha terminado: pode ler o texto em paz agora.

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comments

86 comments

      1. na verdade, nem corri pro final do texto, só pelo título “conclusão final”, julguei ser o último. E sim, fui trollado por esse FDP

  1. eu fui ler as 2 ultimas linhas, li o texto e cai na trollagem do continua… De novo.
    quer dizer que tu fez 4 textos sobre suspensão e no fim das contas não tomou uma?
    como diria um leitor oldschool daqui: que você morra de tanta suspensão enfiada no cu!

    1. eu não .. fui ler de baixo pra cima e vi q não acabou mas vou ler do inicio anyway, ele demora tanto que to me sentindo assistindo um seriado

      eu não sou exatamente o tipo que aguenta chegar o final da temporada pra assistir tudo de uma vez.

  2. Trollou com sucesso. Genial, Yuri Nobre!
    A propósito, essa saga me lembrou de escrever dois ou três casos de uma escola em que estudei sete anos atrás.

    E mais: só eu que estou gostando dessa saga quase sem fim? Claro que eu quero um final, mas tá muito bacana desse jeito.

  3. HAHAHA!
    Melhor do que a nova trollagem do Izzy é perceber que tem gente que tem capacidade interpretativa NULA hahahahahaha
    Um grande abraço.

  4. Agora que o Kid aprendeu a ganhar dinheiro com o AdSense não para mais de fazer texto em partes, que ai um bando de nerd gordo (assim como eu) vem todo o santo dia ver se saiu o final, e ele enche o rabo de dinheiro. Maldito kid.

  5. O q leva ah 1 jumento escrever “first” ou “primeirão” num comentário??? Problemas de ereção? Um pária social? Antigamente vc excluia esses comentários. Mas lembrei o que eu ia te trollar: é interrogatório e não interrogação.

    PS: Sem esse mimimimi de estar fora do Brasil a x anos….

  6. Ei Kid….

    1º -- Bela trollagem
    2º -- Vc vai enrolar pra terminar essa história igual fez com a das intercambistas?
    3º -- Cadê o daily vlog?
    4º -- Cadê o vlog da bebba?

  7. diz assim vai tomar no cu diretora eu apaguei sem querer, esses vandalos que deterioraram a sala e mataram a prof.

    e a galera de nego safado ainda reclamam pqp…
    eu n aceitava porra nenhuma n
    dizia q eu apaguei sem querer e os vandalos tavam me apontando pq eles qbraram td

  8. Na moral, vai pra pqp… Eu iria discutir com essa velha maldita até ela enfartar martelando que eu não era culpado… E, definitivamente, você não o era. Voce apenas apagou as luzes, foda-se que nego tocou o puteiro depois, simplesmente NÃO FOI VOCE QUEM FEZ AS MERDAS. Qualquer que tenha sido a punição, é ridícula e injusta. E tu me decepcionou não contestando a mesma, independente da sua idade na época. MORRAM, você e a velha maldita…

  9. Izzy vc foi frouxo.

    Já soltei rojão na escola e nem advertência levei.

    Me acusaram e tudo mais, me esquivei like a boss.

    Tentaram me acusar, disseram que viram e etc, MAS a minha fucking skill de Ator era up demais.

    Fora outras merdas que me renderiam fácil fácil uma suspensão.

    Also o que aconteceu com a prof gostosa?

  10. Na verdade, a conjunção “ou” só é excludente para um dos casos quando se usa “ou fulano ou sicrano” e não “fulano ou sicrano”. Este último pode ser “fulano”, “sicrano” e “fulano e sicrano”.

    Mas, claro, todo mundo entendeu o que você quis dizer.

    Fonte: aulas de raciocínio lógico para concursos públicos.

  11. “Pais ou responsáveis” é para crianças que, de alguma forma, não têm os pais como responsáveis legais.

    Como por exemplo no processo de adoção.

    1. Eu sei, porra. Não tenho 7 anos né huashiasjsalk.

      É que quando criança eu sempre achava engraçado o uso de “responsáveis” como alternativa a “pais”. Soava como se pais e responsáveis fossem mutuamente exclusivos.

      1. Hahahaha, acho que eu nunca pensei dessa maneira porque fui adotado e nunca vi meus pais como meus responsáveis.
        Mas agora que você falou realmente faz sentido.

  12. Com 13 anos, eu teria a mesma reação, inda mais tendo visto atrás de mim toda (TODA) a maldita sala só pra terminar de me incriminar.

    Porém, ao acontecer coisa similar comigo no 1o ano (15 anos), tive mais presença de espirito pra, além de negar “até a morte”, apelar e incriminar de vez toda a “ala selvagem” da sala por depredação ATIVA. Deu muito certo, levei uma ocorrência, enquanto outros 5 tomaram suspensão.

    Evidente que saí do colégio no fim do ano. Iam me matar…kkkkk

  13. ela vai te oferecer um suborno ou algo assim? enfim, contando que dessa vez você não afirmou que “continua amanhã”, acho que dessa vez a gente deve esperar um bocado pra ver a próxima parte..

  14. vai morrer de tanta adsense enfiada no cu
    bão é que o filha da puta não contesta esse tipo de comentário
    então pelo meu raciocinio logico de qi mais de 8000-(-7920) eu concluo que você é um filha da puta.

  15. Sinceramente: eu estou procrastinando aqui comentando pela terceira vez nesse post, enquanto deveria estar estudando MICROECONOMIA, mas ok, foda-se.

    Analisando o texto, e vendo que a diretora ofereceu uma “alternativa” ao KID que não fosse a suspensão, e sendo essa alternativa parte FUNDAMENTAL DA HISTÓRIA que provavelmente vai merecer apenas um post, tenho certeza absoluta que…

    … que a alternativa foi ela ser comida pelo KID. Só pode. Qual outra alternativa daria (DARIA HAHA) ela pra ele? Dar pra ele, uai.

      1. Cala a sua boca! Você deve ser leitor recente! Eu me lembro de um texto que o Kid falou que um dia ía contar da ‘primeira vez’ dele que foi na escola com uma adulta. Só pode ser isso, seu bastardo!

  16. E eu me achando a esperta por esperar ATÉ HOJE pra ler todos os episódios juntos…
    Mas tudo bem, a história é massa e o Kid conta super bem hhehehe.

  17. Que tal depois de terminar todos os capitulos fazer um super post com todos os capitulos? Ou vai ficar ai chupando pirombas lotadas de veias?

  18. A opção dada foi a seguinte, a Diretora se revelou uma transexual e passou 3 dias enrabando o sr. Nobre. Desde entao o menino se revelou um grande doador do anel de couro, tendo inclusive que mudar de país, tal o desgosto dos amigos e familiares…

  19. A conjunção alternativa “ou” pode ser considerada, nesse contexto, como o conector lógico “ou” que é verdadeiro quando pelo menos uma das proposições é verdadeira, o que torna a sua idéia de que “pais” e “responsáveis” são conceitos mutuamente exclusivos.

  20. Golpe de mestre dessa diretora hem!

    Mas é sacanagem punir quem apagou a luz e não quem fez o quebra-quebra…

    Como sr. e sra. Nobre reagiram a isso?

  21. bah, que anti climax ridículo. tava legal, mas depois de tt tempo nem me darei o trabalho de ler.

    KID GORDO FORA DO VALE TUDO

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