Minha primeira "suspensão"

…E lá estava eu, sentado perante a diretora, sendo interrogado pela mulher enquanto meus amigos sofriam numa aula de matemática.

Visitar a sala da mulher não era exatamente novidade pra mim; geralmente me mandavam à coordenação, mas minhas reincidências ultimamente me rendiam viagem sem escalas pra sala da diretora. Especialmente num caso de traquinagem séria, como era o caso dessa vez.

Eu encarava minhas bagunças escolares com muito descaso; pra total revolta dos meus professores e meus pais, eu nunca parecia compreender a seriedade das galhofas que eu aprontava na escola quase diariamente. “Esse moleque só vai aprender quando acabar sendo expulso do colégio“, ouvi meu pai dizer mais de uma vez quando se via obrigado a comparecer à escola por minha causa, ou assinar notas enviadas pela coordenação. “E se você for expulso“, ele continuava, “vou te colocar numa escola pública! Não vou gastar meu dinheiro com vagabundo!

Eu sempre considerava tal diagnóstico alarmista demais. Expulsão da escola era uma solução final drástica pra contravenção séria (tipo, sei lá, nego fumando no banheiro ou se masturbando durante aula de Geografia). Ninguém é expulso da escola porque conversa demais na sala ou porque vive zoando os amiguinhos, que era o meu modus operandi costumeiro.

Eu como orador da turma na formatura da alfabetização -- O início de uma longa carreira de perturbador de sala

Acontece que isso não era o que eu havia feito dessa vez. Dessa vez, a brincadeira (e mais relevante, seus resultados) havia sido “um pouco” mais grave. Quando digo “um pouco mais grave”, compreenda-se “causou danos sérios a propriedade escolar, alunos E a uma professora, que agora considerava se demitir da escola”.

Sob investigação impiedosa da diretora, me bateu aquela horrível sensação de “dessa vez eu me fodi”. Minhas mentiras estavam apenas atrasando o inevitável.

A expressão facial da diretora era de profunda intensidade; ela sondava meu rosto, meus pequenos movimentos involuntários, tentando detectar qualquer sinal que indicasse que eu estava nervoso ou pior, mentindo. Senti o suor frio brotar na testa.

Aos meus tenros 12 ou 13 anos, eu não havia vivido o suficiente pra adquirir características de mau-caratismo que me permitiam mentir com total cinismo. E eu sabia que a minha versão da história estava soando cada vez menos verossímil. Mas não importava — enquanto a diretora não tivesse provas, ela não poderia me condenar. Fingi que ia aprumar o óculos no rosto e aproveitei o movimento pra enxugar a testa.

Talvez eu devesse começar esta história pelo começo.

***

Era uma tarde de terça feira em Fortaleza, meu querido Ceará, no longínquo ano de 1997. Eu cursava a sétima série no Colégio Adventista de Fortaleza, que ficava ali no centro.

Ó a escola aí.

Naquele ano eu estudava de tarde, e às seis horas — o horário de saída da escola –, o céu já estava bastante escuro. Há alguns dias eu matutava comigo mesmo: “quão escura essa sala ficaria se alguém apagasse a luz na hora da saída?”.

Nosso colégio, como você pode ver na foto acima, ficava bem do lado de um prédio. Isso bloqueava boa parte da luz que vinha da rua. De fato, na hora da saída, o colégio inteiro estava bastante escuro.

(A proximidade do prédio rendeu boas confusões quando um aluno — não direi quem fui — incitou os coleguinhas a arremessar pedras nas varandas acima, “só pra ver quem consegue acertar o apartamento mais alto”)

Passei uns dias bolando meu plano de ação. O mapa de sala (tou ligado que o termo é diferente em alguns estados; me refiro à tabela que rege a posição em que os alunos sentam na sala. O objetivo é separar os focos de baderna) me colocava numa posição privilegiada bem próximo da frente da sala — e do interruptor.

Meus professores conspiraram contra mim me separando do meu grupo e me colocando numa posição completamente indefesa, sentado na frente da turma. Ironicamente, naquele dia eu usaria isso contra eles.

Ou melhor, contra UM deles — Cibele, a professora de biologia. Naquele dia fatídico, a aula dela era a última. Senti uma certa pena da mulher — a Cibele era mais nova, devia ter uns 20 e tantos anos. E era a que encarava minhas palhaçadas com mais espírito esportivo; de fato, não lembro de ter sido mandado pra fora de sala por ela nenhuma vez sequer.

E era gostosa. A Cibele (e mais especificamente, as saias curtas e blusas decotadas que ela frequentemente usava, pro delírio dos estudantes) tornava minha posição na frente da sala menos indesejável.

Imagine que essa era a professora

Mas foda-se. A decisão estava tomada; eu iria recolher minhas tralhas 5 minutos antes do final da aula e, ao soar o toque do final do dia, passaria sem cerimônia do lado do interruptor, e apagaria as luzes da sala.

Durante o planejamento da brincadeira, eu jamais havia parado pra pensar que o resultado tinha potencial pra ser tão catastrófico.

Mas agora já era. O sinal tocou, a turma começou a se levantar pra sair da sala. Levantei-me da cadeira como que impulsionao por uma mola e me joguei em direção ao interruptor.

Nada poderia ter me preparado para o que aconteceu em seguida.

(Continua amanhã)

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comments

71 comments

  1. Assim que eu li o “(continua amanhã)” a primeira coisa que me veio em mente foi “feladapulta”. Parabéns, você conseguiu o que queria lol

  2. HHAHAHAAHA Suas histórias de quando era um filhote são muito engraçadas.
    Vou ter que dormir pra passar as horas mais rapidamente e assim terminar de ler isso amanhã. Abs

  3. eu era suspenso so por coisa grave, geralmente era porrada, desafiava prof me tirar de sala, desrespeitava coordenador, mas n conversava e n colava nem a pau q eu era revoltado

    sabia q n dava em caray nenhum q ninguem me desafiava q eu era loko

    as vezes nem ia, que dizia q n ia aceitar a susp e ficava puto, q eu tinha razao pq so faziam merda la na sala, qndo era susp. continuava fazendo merda pior

    chegou um ponto q a coordenaçao vazia vista grossa

    mas dps q fikei conhecido na diretoria, pqp
    por causa de nada eu era suspenso, tava nem na confusao acharam q era eu tava suspenso..

    eu fikava puto. ia ela me deu 4 credito de susp
    a ultima era 15 dias e dps expulso

    eu dizia q se fosse exp. qbrava tudo…
    isso pq qndo entrei era calmo

    se fosse colegio de estado levava um canhao pra aula e queria ver

    mas ai sai dakela merda q eu ia reprovar e tomara q todo mundo q estudou la se foda
    e passei, agora tenho q encontrar uns fdp na facul

    mas sou mais adiantado q qse todos akeles bostas
    q se achavam o maximo

    segunda parte o caray

  4. Po, e logo uma professora de Biologia???? hahahha
    Já fui professora d Bio, mas nunca lidei com “demôniozinhos” não… rsrs
    Sinceramente, duvido q sua prof fosse da maneira q vc descreveu, já q o Colégio Adventista é cristão e, até ond eu saiba, não permite q os professores usem roupas desse naipe. =/

  5. Conte mais histórias de tempos remotos, também conhecidos como infância. São os melhores posts.

    Porém, sem esse paganismo de novela mexicana (ok, Dragon Ball Z também tinha) de “Continua…”.

  6. Po, Colégio Adventista…
    Tive minhas histórias no de Juiz de Fora -- MG.
    Estudei lá entre a 5ª e a 8ª serie e, se me recordo bem, fui suspenso 8 vezes.
    Na 7ª serie ( e na 7ª suspensão), tive que encarar o Conselho (com letra maiúscula e tudo) e alí quase que minha cabeça rodou…
    Os motivos eram os mesmo fúteis que os seus: conversa na aula…
    A suspensão mais grave aconteceu tambem na 7ª serie ( minha 6ª suspensão), que foi quando os professores e diretores descobriram que todas as “crianças” de lá ja nao eram mais “inocentes”.
    O contrabando de PLayboys acabou naquele ano com o incrível saldo de 18 suspensos no mesmo dia por “pornografia”.
    Bons tempos!

  7. Ixi, esse “continua amanha” me cheirou a trollagem hehe. Tô mais ansioso pro final dessa história do que pro próximo episódio de Game of Thrones…

    Boa Kid!

  8. FILHO DA PUUUUUUTA!!! Que mil pirombas suadas e peludas sejam enfiadas no seu orifício retrofuricular, por esse suspense!
    Ok, exagero, nem foi tudo isso, mas fiquei curioso bagaraí!

  9. dejavu
    “por que deixou sua ferrari aqui por causa de um emprestimo tão pequeno bla bla bla vou no banheiro até nunca”
    HUAHUAHUAHUA

  10. fui estrupado pela minha prof de educação fisica -- a mais gostosa que ja vi -- e ela teve um filho comigo, detalhe ela estava noiva de um cara, hj ela e casada com o cara e o meu filho tem uns 8 anos de idade….. querem que eu termine a historia?

  11. Quando estudei nesse horário o pessoal barbarizava demais quando acabava a luz na hora da saída. Varias histórias dos muleques passando a mão nas meninas, arremesso de cadeira, nego que perdeu dente pq jogaram a mesa nele, fora uma professora que saiu rolando escada abaixo, gordaça, deve ter feito um strike. Se essa sua história realmente continuar, e for verdade, acredito que vá ser mais ou menos assim também.

  12. (Continua amanhã)
    *Obvious Troll is obvious

    Maaaass, apagar a luz era foda. à noite na escola que estudei, a turma jogava as cadeiras em desafetos quando faltava energia.

  13. Manolo, hoje é domingo. Dá uma colaborada aí, amanhã de manhã já tenho q despachar lá no Catete. Abs.

  14. minha turma era a mais retardada de todas. uma de nossas diversões era esperar do lado de fora do banheiro masculino para cuspir na cara de alunos mais novos e fracos. isso me rendeu uma semana de suspensão.

    tenho medo do que aconteceria comigo hoje…

    1. Cara isso não é brincadeira, já é sadismo…
      Sem querer entrar na onda de “você sabe o que?”, mas porra sacanagem non-sense essa…
      No meu colégio com certeza você ia levar surra do resto da turma…

  15. Câde a “continuação”? -- Que mancada, brother. Queremos a segunda parte do texto, pois creio que todos nós (leitores) estamos curiosos. 🙂

  16. Caralho Kid! Já li muito livro que não tinha metade da qualidade desse seu texto, já pensou em seguir o ramo de escritor (de pornô, claro)?

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