Como emigrante em uma terra estrangeira, há sempre algumas expectativas sobre você (algumas que beiram o racismo, diga-se de passagem). Por exemplo, todo asiático é visto como descendente direto da linhagem sanguínea dos monges que criaram o kung fu. Há também o estereotipo de que asiáticos são muito bons em matemática.

Russos tem fama de beberrões, americanos são célebres por sua arrogância e ignorância, e por aí vai. E como brasileiro, espera-se que eu seja um exímio futebolista.

Pelos últimos 8 anos eu aprendi um padrão: após ser apresentado a algum novo amigo e contar que sou brasileiro (ou confirmar quando alguém diz “…e ele é brasileiro! Conta pra ele, Izzy!” que, por algum motivo, sempre acontece), a próxima coisa que eu sempre sou obrigado a dizer é “não, eu sou péssimo em futebol”. A imagem  mental que todo mundo aqui fora tem quando pensa no Brasil é o Ronaldinho deixando um oponente tonto com suas habilidades.

(Tem as meninas que se assanham também, fique ligado)

Pois bem. Como eu não gosto de dar falsas ilusões aos meus amigos, sou o primeiro a admitir que sou uma vergonha nacional em relação a futebol. Não sei jogar, não gosto, não tenho time favorito, não acompanho nada. Assisto os jogos da Copa — porque não gostar nem disso é coisa de hipster bunda-suja que diz que tá torcendo pra Alemanhã ou pra Moçambique; não fodam — e só.

Pois bem, ontem fui convidado pra uma partida com os amigos aqui perto. Eles vivem me convidando, mas tou sempre ocupado com uma coisa ou outra (a internet ou internet). Ontem o dia estava sensacional e eu não via os colegas há algum tempo, portanto topei.

Chego lá no campo e noto meus amigos peruanos trajando orgulhosos as camisetas de sua seleção, e pensei “caralho, quando eu finalmente tenho um bom motivo pra usar minha camiseta pirata da seleção comprada por 10 reais na Feirinha do Artesanato em Fortaleza, não uso!“. Mas tudo bem.

Apresentações rápidas entre os caras que ainda não se conheciam (tudo gente boa), e os times foram escolhidos.

Os capitães disputaram a minha posse avidamente, e como justificativa argumentavam que o outro já tinha escolhido o Fulano ou o Sicrano, e portanto pegar também o brasileiro não era justo. Observei o impasse com nervosismo; a decepção seria imensa quando eu pegasse a bola pela primeira vez. Enquanto me aquecia, estava na esperança de ter escondido em meu DNA algum resquício de habilidade esportiva que até então não havia se manifestado. Tipo um gene mutante dos X-Men.

Pois bem, começa o jogo. Assim que nosso atacante se vê marcado e impedido de prosseguir, obviamente a bola passa pra mim. Matei no joelho desengonçadamente e manobrei-a pra frente sem pisar nela — o que pra mim é um achievement incrível — e lá na frente perdi a bola pra um zagueiro muito mais habilidoso.

O tempo inteiro, o time berra incentivos a quem está com a bola. VAI FULANO, É TUA, CORRE PRA CIMA, METE NELES! O espírito de camaradagem é contagiante, e por mais que eu não dê a mínima pra esportes ou trabalho em equipe de qualquer forma (aliás eu não gosto de elogiar ou encorajar ninguém), em pouco tempo eu estava também gritando palavras de aprovação às boas jogadas dos amigos.

E isso é muito bacana. Vocês que viveram a vida toda em algum esporte devem ser bastante familiarizados com a experiência, mas pra alguém que nunca jogou nada (nem na escola), é uma situação nova.

Por isso eu me sentia realmente o herói futebolesco que meus companheiros achavam que eu era. Sabe quando você assiste um jogo de futebol e a comoção do estádio aumenta automaticamente no momento que um atacante invade a área adversária? Então, era isso que acontecia sempre que eu sequer passava PERTO da bola ontem.

Até então eu estava ativamente FUGINDO da bola pra evitar vexame e/ou fracassar no domínio dela e entrega-la sem querer pro outro time. Acontece que toda essa animação acabou me motivando pra tentar alguma coisa um pouco mais ousada. E eu tive minha chance quando, enquanto avançava com a bola, fui bloqueado por dois jogadores oponentes.

Fiz um search mental por todos os vídeos de tributo ao Ronaldinho que já vi no youtube e MIRACULOSAMENTE, executei aquela drible em que o sujeito engana a defesa oponente passando as pernas por cima da bola. Esse tal do “pedalada”.

Poisé. O problema é que exauri toda a minha pouca habilidade esportiva na execução (muito boa até, e olha que eu não sou de elogiar o que eu mesmo faço, porque sei que não tenho talento pra nada) do drible, e em seguida errei o passe: essencialmente entreguei a bola pra um jogador adversário cuja cor da camiseta me confundiu. Achei que era um broder nosso.

(Aliás o nosso goleiro foi jogar sem óculos e duas vezes cometeu o mesmo erro, um deles resultando em um gol contra a gente)

Mas enfim. Não fiz mais porra nenhuma no jogo, mas a impressão que os amigos tiveram é que eu sou um mega mestre do futebol que esconde o ouro por ser muito humilde.

Perdemos de 5 a 3 no final, não fiz nenhum gol — mas o simples fato de que eu aguentei correr por duas horas praticamente initerruptas, e que não pisei na bola e caí vergonhosamente nenhuma vez, já teria sido considerado uma vitória por mim.

Sem contar que o espírito de camaradagem entre o time é um negócio muito legal. Como já falei, pra mim que me isolei de todo tipo de atividade esportiva a vida inteira, é uma sensação completamente nova. Voltarei na semana que vem pra jogar com os broders, e assistirei mais vídeos do Ronaldinho até lá.

Tenho apenas uma coisa pra dizer (ou melhor, mostrar) aos companheiros internautas que me irritam com esta frase tão singela. Sim, eu sei que soa como babaquice, mas ouvir coisas como “adoro frio/adoro neve!” ditas com tanto aprazo quando você passa quase 6 meses por ano convivendo (leia-se “sofrendo”) com essa merda, não tem como não se irritar.

Coloque-se no meu lugar. Imagina que tá fazendo 45 graus na sombra aí no Rio de Janeiro ou em Juazeiro do Norte (eu lá sei onde tu mora?), quando o verão acaba de chegar em Calgary trazendo seus amenos 20 graus médios. Você aí sem camisa sentado na frente do computador com dois ventiladores ligados e cubos de gelo empilhados nos ombros e preparando um banho de álcool isopropílico pra evitar uma convulsão.

Aí tu me vê falando “nossa eu adoro um calorzim bom demais“. Cê não ia ficar puto também não…?

Enfim, neve é uma merda por causa disso aqui, ó:

YouTube Preview Image

O único tipo de pessoa que alega gostar de neve são pessoas que ou conhecem o fenômeno apenas pelos filmes, ou que passaram algumas semanas no exterior sem ter que conviver frequentemente com essa merda.

Pergunte a QUALQUER imigrante sobre neve e conviver com o frio ártico e nenhum deles terá algo positivo a dizer. Reclamamos sobre o inverno com uma amargura de espírito que é digna da sua compaixão.

Eu já odiava o inverno (um sentimento que adquiri rapidim, aliás); passei a odiar mais ainda após comprar um carro. Dirigir na neve, dependendo da infraestrutura da sua cidade, é uma roleta russa do caralho. Meu carro é provavelmente a coisa mais cara que eu possuo nesta vida; imagina tu pegar o maior investimento que você já fez e aposta-lo contra a habilidade de outros motoristas de pilotar sobre uma camada de gelo? Puta que pariu.

Aliás, outro dia passei por um apuro dirigindo durante uma tempestade de neve; depois explico aqui o que rolou.

E que venha logo a porra do verão. Você tem idéia do quão deprimente é ver o sol nascer às 8 da manhã, e se pôr às 4 da tarde? É uma desgraça que não desejo nem pros meus amigos mais corintianos.

Ahhh, e a propósito: neve é gelo caralho. Se você raspar a unha dentro do seu congelador, esses floquinhos de gelo que sairão na sua unha e essa merda branca que soterrou meu carro são exatamente a mesma coisa. Não me paguem este mico imperdoável de comer neve quando forem ao exterior, pelo amor de Jesus Cristo e de suas criancinhas.

(Você talvez me ache um SUPERBABACA por este texto, mas repasse pra um amigo ou parente que mora fora e veja o sujeito bater palmas)

Sabe uma coisa que eu nunca gostei? Esportes.

Nunca gostei de nenhum deles. Desde o tempo de pivete, meu negócio era assistir desenho animado e jogar videogame. Acho que nunca sequer tive uma bola na vida, agora que paro pra pensar.

Boa parte disso é culpa do meu pai, eu acho. Meu pai também não é chegado a esportes, nem acompanha futebol nem nada — acho que ele nem tem um time favorito.

Aliás, é essa a nomenclatura adequada? “Time favorito”? Só estou familiarizado com a versão quarta-série da terminologia, o famoso “que time é teu”.

Pois então, meu pai não era fã de futebol como é costumeiro de pais brasileiros. Nunca o vi assistindo futebol (salvo, obviamente, durante tempo de Copa do Mundo), nunca o vi sequer falando de futebol. Eu imagino que é por causa disso que eu não curto o esporte.

Aliás, a única coisa remotamente ligada a futebol que teve um certo papel na minha infância foi esse tipo de joguinho aqui:

Eu encontrei nas dependências da escola onde eu estudei um joguinho desse tipo; surrupiei-o e passava as tardes brincando com meu irmão. Tirando isso aí, eu caguei pra esportes em geral e futebol em particular.

Isso é, até tomar conhecimento da selvageria neandertal que é o hockey no gelo.

E você aí achando que UFC era violento

Enquanto no Brasil temos o futebol, aqui no Canadá o esporte preferido da galera é o hockey no gelo. Hockey chegou a conhecimento da galera do hemisfério sul por intermédio daquele filme Mighty Ducks, estrelando o irmão do Charlie Sheen, que eu nunca assisti. Pelo que entendo é igual a todo filme de esporte jamais filmado: o time inferior treina bastante e vence dos preferidos da competição super-importante.

Aliás, um adendo aqui — ao contrário do que muitos pensam, hockey não é o esporte nacional canadense. Este é lacrosse, uma espécie de híbrido entre futebol americano com tênis com sei lá que diabo é isso.

Diga-se de passagem, é um esporte bem porradento também. O termo técnico é “full contact”, e o termo menos técnico é “a chibata come solta”. Mas voltemos ao hockey.

Hockey é praticamente um futebol de salão, se o salão estivesse coberto de gelo. Tem gols, tem 5 marmanjos de cada lado (nem sei se esse é o número de jogadores de times de futsal mas quero continuar usando essa analogia), tem uma “bola”. O objetivo é botar a “bola” dentro da rede do oponente.

A outra coisa peculiar sobre o hockey é que às vezes, outro esporte acontece dentro das partidas de maneira totalmente espontânea — o boxe.

Neste jogo de canadenses desdentados, brigas entre jogadores não fossem apenas permitidas mas até mesmo encorajadas. Observe esta montagem das melhores brigas desta temporada do equivalente hockeyzístico do Brasileirão:


Note a empolgação com a qual os narradores passam a descrever a luta. É como se de repente o jogo virasse um round de boxe mesmo.

Sabe qual a punição pra esse tipo de selvageria e conduta anti-esportiva? Dois minutos fora do jogo. Só isso. E observe o quão pouco os juízes se entrometem no quebra-pau, como se dissessem telepaticamente um pro outro “deixa eles se resolverem”.

É incrível. Nós brasileiros estamos acostumados com esse esporte de bichinhas frágeis que é o futebol, em que nego que age como se uma pancadinha de nada tivesse fraturado sua coluna. É ainda mais patético quando você leva em consideração que metade das tais pancadas sequer realmente acontecem. É uma desgraça.

No futebol, você dá uma rasteirinha de nada por trás de um oponente (com boas intenções às vezes até) e é expulso do jogo ou suspenso de partidas subsequentes ou algo assim.

Com hockey o buraco é mais embaixo. Você tem brutamotes patinando pra lá e pra cá em alta velocidade e frequentemente em vetores opostos, resultado em cacetadas épicas equivalentes a enfiar o carro numa parede de concreto. Tem porrada que faz o sujeito sair voando pra fora do rinque, conforme mostram os 1:04 target=”-blank”>deste vídeo aqui, igual em Virtual Fighter. Aliás, assista o vídeo todo pra você poder contextualizar a brutalidade que é o esporte.

Nesse momento é válido apontar a similaridade das palavras “ringue” e “rinque”.

Se você já esbarrou em cheio em alguém caminhando num passo normal, você sabe o quão doloroso é o impacto. Imagina essas cacetadas que os malucos dão uns nos outros.

Quando um jogador faz uma manobra exageradamente maliciosa, o oponente tem direito de retaliar à base de socos na cara. O mais impressionante pra nós brasileiros que somos acostumados com as regras draconianas que regem o futebol é que os juízes assistem completamente impassíveis enquanto um dos jogadores amassa o rosto do outro com socos.

Lembra quando eu falei lá em cima que hockey é um esporte de canadenses desdentados? Eu aposto que você talvez não saiba que a expressão é literal. As porradas do esporte são tão sinistras e os socos na cara tão frequentes que perder os dentes é uma ocorrência trivial.

Aí você tá pensando “pffff UFC é muito mais porradaria e masculinidade”, e você obviamente está errado e portanto é um merda. Em UFC, é uma luta limpa 1×1 de dois sujeitos que estão no pico máximo de preparo físico para combate desarmado e têm conhecimento profundo das artes marciais mais letais jamais desenvolvidas por monges tibetanos ou algo assim (como é o caso de todas as artes marciais).

Há um senso de fair play, de equilíbrio entre os competidores.

No hockey por outro lado você tem que se preocupar em patinar de lá pra cá em velocidade máxima (se você já patinou alguma vez na vida compreenderá o desafio) enquanto desvia-se de diversos malucos que desejam pintar as paredes do rinque com sua vesícula biliar, espremendo-a pra foda da sua boca com o impacto do corpo.

Ah, e tem que se desviar da hockey puck também, que é a tal bolinha que passa voando na altura do seu rosto target=”-blank”>de vez em quando.

Outra coisa que eu sinto que devo ressaltar: aqueles patins são essencialmente lâminas de barbear atadas em sapatos. target=”-blank”>Observe o que acontece quando você combina gente correndo em alta velocidade em direção um ao outro com instrumentos cortantes.

Pois bem. Se por acaso uma briga estoura no estabelecimento (novamente, brigas são incentivadas como parte cultural fundamental do esporte), não há nenhum tipo de expectativa em relação ao equilíbrio da briga. Um dos caras pode ser um excelente atacante que nunca se meteu em altercações físicas na vida, e o outro pode ser faixa preta em moer ossos que participa de torneios de jiu jitsu como hobby nos fins de semana. É uma parada totalmente unilateral.

Essa porra é tipo um esporte de gladiadores. Se é pra finalmente começar a gostar de algum esporte, será hockey então. GO FLAMES!

Oi perebinhas! Desculpem a demora eu atualizar o HBD, eu estava cagando.

Como você deve saber, hoje é o dia 11 de novembro de 2011 — o dia em que a internet não para de falar sobre a data cabalística 11/11/11. E tem alguns retardados que vão além, aliás:

O que apenas reforça minha teoria de que deveríamos esterelizar usuários de Blackberry

Aliás, se os fidalgos senhores quiserem me “seguir” no Fêice, é só clicar neste link mágico: ABRACADABRA. Não sei exatamente qual o propósito desse novo esquema de “subscribe” em perfil do Facebook, mas tavam me pedindo há algum tempo, e eu sou essencialmente um escravo de vocês. Aí está.

Pois bem, 11 de novembro tem um significado interessante no Canadá: ele é o Remembrance Day. A data — ou equivalente — é celebrada em outros países também, aliás.

O Remembrance Day é a data de lembrar o sacrifício feito pelas tropas canadenses no front europeu da Primeira Guerra. Aliás, fazia muito tempo que eu não via o termo “Primeira Guerra” — só consigo lembrar de ter lido isso nos livros de história quando eu morava no Brasil. Tou mais acostumado a ver “World War I” ou “Great War”, como ela era chamada na época.

Como vocês são cultos e sabem bem, 11 de novembro de 1918 foi o fim oficial da  Primeira Guerra, o Dia do Armistício (aliás, é assim que a data é conhecida em muitos países). A Alemanha levantou a bandeira branca na “décima primeira hora do décimo primeiro dia do décimo primeiro mês”, e essa expressão (no original “the 11th hour of the 11th day of the 11th month“) se tornou icônica.

No ano seguinte, em 11 de novembro de 1918, o rei George V da Inglaterra decidiu que a data seria dali em diante dedicada aos soldados mortos durante a guerra — os soldados da Tríplice Entente, obviamente — e, por extensão, todo o corpo militar.

O símbolo do Remembrance Day é a poppy, ou “papoula” em bom português (que eu não sabia e tive que perguntar no tuiter).

Durante o finzinho de outubro e todo o começo de novembro, todo mundo fica andando por aí com um broche desse na jaqueta ou na camiseta. Essa papoula estilizada virou o símbolo da data por causa do poema In Flanders Fields, escrito no dia 3 de maio de 1915 pelo médico canadense John McCrae, que serviu na guerra.

No dia 2 de maio daquele ano, McCrae viu seu broder morrer no campo de batalha. No dia seguinte, ele escreveu isto:

Os Flanders Fields (ou campos Flanders) a que o poema se refere foi o palco de uma sangrenta batalha da Primeira Guerra. Vários soldados foram enterrados lá mesmo; algum tempo depois brotaram um monte de papoulas na região. O vermelho forte das flores traçou um paralelo poético perfeito com o sangue derramado na área, e aí pronto.

E por isso o pessoal aqui anda com broches de papoula durante essa temporada. A data é observada RELIGIOSAMENTE por policiais, militares e famílias de militares.

E políticos, claro. Mas esses o fazem mais por demagogia, eu acho.

A frase “lest we forget” (“lest” é uma palavra difícil de traduzir, mas é quase um “para que nunca esqueçamos“) geralmente é usada junto com a imagem da papoula. Aliás, chequei no Google Translate agora mermo e vi que “lest” significa exatamente “para que não”.

Palavrinha estranha né? Ela sozinha significa um trecho de uma frase inteira. É igual o termo alemão “schadenfreude” (já escrevi um texto sobre isso), ou o nosso “saudade” que, quando eu traduzo pra minha mulher, digo que significa “the feeling you feel when you miss someone“. Como vocês sabem, “saudade” é aparentemente um termo que só existe no português.

O Google Translate diz que “saudade” traduz-se como “longing”; serve só de leve. “Longing” é um termo bem vago pra “ter vontade/querer algo” que serve até como sinônimo “de pau duro”. Sério.

Aliás, toma esse artigo na wikipédia em inglês sobre o nosso “saudade”.

A propósito, “Saudade” é também um quadrinho de 2008 do Wolverine em que ele vai passar as férias em… Fortaleza!

Onde o gene mutante, aparentemente, provocou uma mutação no rosto do Logan para que ele ficasse mais parecido com os habitantes locais

Em vez de ir para São Paulo ou Rio de Janeiro, o Wolverine foi para Fortaleza. Lide com isso.

Como vocês talvez saibam, estou na reta final do meu processo de cidadania canadense. A prova de cidadania requer conhecimento sobre a história e cultura canadense, e é bem provável que o significado do Remembrance Day caia nela.

Se daqui 10 ou 20 anos você acabar imigrando para o Canadá e se ver diante de uma prova que te pergunta a razão dos broches de papoula durante outubro e novembro, saiba que eu acabo de salvar sua vida.

Lembro como se fosse ontem.

Meu pai entra na nossa casa com um sorriso no rosto e um envelope grande, de onde ele removeu nossos passaportes. Um por um os documentos foram abertos e inspecionados, pra conferir o importante carimbo do consulado canadense nos nossos vistos. Depois de muitos meses de planejamento, formulários, viagens e entrevistas, finalmente toda a família tinha vistos canadenses.

Eu já havia viajado para o exterior antes — a família inteira fez um  mega tour pelos EUA em 1999, dirigimos pelo país inteiro quase –, mas isso aqui era diferente. Uma coisa é você visitar um país por 30 dias e depois voltar à sua zona de conforto e familiaridade; outra coisa totalmente diferente é dar adeus permanentemente a tudo que você conheceu a vida inteira: a cultura, a língua, a família, essas coisinhas que definem quem você realmente é.

Essa foi nossa primeira casa no Canadá. A foto foi tirada pelo meu irmão; aquele indo em direção à porta da frente sou eu. Meus pais e minha irmã tão tirando algumas roupas de dentro do nosso Chevy Venture.

Vale lembrar que essas roupas que você vê na foto eram nossas únicas posses naquele momento. Havíamos vendido tudo pra vir “tentar a vida” no Canadá. Naquela primeira noite na casa vazia, dormimos todos juntos no chão do quarto, usando as jaquetas como cobertores pra tentar se aquecer (a calefação da casa só seria ligada no dia seguinte).

Essa casa ficava num condomínio chamado “Sarasota Village”, pelo qual hoje você pode passear graças à magia do Google Street View.

A data na foto lá de cima é 28 de dezembro de 2003, mas àquela altura já estávamos no Canadá há um mês. Naqueles primeiros  30 dias, moramos em um motelzinho em uma cidade próxima chamada Scarborough.

Aqui cabe um parêntese: motéis aqui não são a mesma coisa que motéis no Brasil. O “motel” aqui é um hotel mais humilde, geralmente em beira de estrada, pra servir viajantes — ou, no nosso caso, uma família de imigrantes.

Lembro da primeira neve. Acordei um dia naquele quarto de motel (que, quando você divide com outros quatro membros da família por um período logo de tempo, se torna cada vez mais claustrofóbico) e noto uma claridade maior vinda da janela. Abro a cortina e lá está aquele tapete branco cobrindo o mundo inteiro lá fora.

A tal claridade maior se devia, no caso, ao fato de que a neve branca reflete muito mais luz solar que o mundo “normal” — uma realização que jamais havia passado pela minha cabeça antes. Foi uma das minhas primeiras descobertas aqui.

Eu já havia visto neve antes, na tal viagem de 1999. Acontece que há uma diferença imensa entre ver neve como um fenômeno incrível e isolado que você experimentará uma vez na vida durante as férias, e a realização de que aquilo será a partir de agora um fato da sua vida. Neve seria a partir de agora a mesma coisa que vento ou chuva — um fenômeno metereológico trivial, senão inconveniente.

Quando meu pai recebeu seu primeiro pagamento, precisou ir a um banco abrir uma conta corrente. A mulher que o ajudou sugeriu que procurássemos casas para alugar na cidade de Oshawa, e é pra lá que fomos.

É curioso pensar que aquele evento completamente casual mudou minha vida permanentemente. Se meu pai tivesse optado por outro banco, ou se tivesse sido ajudado por outra pessoa lá, talvez eu jamais tivesse pisado em Oshawa — e assim nunca teria conhecido minha mulher.

Este sou eu e ela, (com 19 anos e 15 anos, respectivamente), no porão da casa do Andy. Andy era o moleque que dava todas as festinhas da nossa turma, e todo fim de semana estávamos lá. Quando esta foto foi tirada, eu e a Rebecca (que vocês conhecem afetivamente como “Bebba”) nem namorávamos ainda, era só pegação ocasional nos fins de semana e xavecadas no MSN.

Meu inglês não era dos melhores, diga-se de passagem. Mas sei lá como, apesar deste pequeno problema começamos a namorar. No começo, nos víamos só nas tais festinhas. Com o passar do tempo o relacionamento foi ficando um pouco mais sério, e nos encontrávamos na casa um do outro.

Aquelas primeiras festinhas eram um negócio mágico pra mim, aliás. As house parties nos moldes que conhecemos por filmes eram uma das coisas da vida norte-americana que eu estava muito curioso para experimentar.

Essa foto foi tirada quando eu estava indo para a minha primeira festa de Halloween — mais uma das inúmeras características da vida norte-americana que eu só conhecia pelos filmes. A garota na foto é a Kelli, uma amiga da irmã da minha mulher. Poisé, eu já fui magro e tinha cabelo meio longo.

Eu estava, obviamente, sem dinheiro pra comprar uma fantasia. Essa garota da foto me deu essas anteninhas felpudas, e falou que eu podia ir de “fada”. O que no Brasil passaria como profunda baitolagem aqui pega mais como uma piada auto-depreciativa. E fui desse jeito pra festinha.

Esse aí é meu primeiro quarto. Na porta do armário, um poster do Foo Fighters que eu ainda tinha até pouco tempo atrás. O computador era umFrankenPC montado pelo meu pai, e aquelas caixinhas de som eu ainda uso no meu desktop até hoje.

E teve a escola, também.

 

Google ao resgate novamente

Essa é a Durham Alternative, uma high school pra adultos desajustados onde, sabendo o que eu sei hoje sobre o Canadá, eu jamais teria pisado.

O negócio é o seguinte: eu precisava converter meu boletim pras notas canadenses, e não sabia onde fazer isso. Me disseram que essa escola fazia esse serviço, então me matriculei lá pra ganhar alguns créditos extras enquanto a escola avaliava meu boletim brasileiro.

O que acontece é que foderam a avaliação. Eles não me deram créditos pelas notas que eu tinha no Brasil, apenas “equivalências”. As tais equivalências atestam que eu completei o segundo grau, mas sem as notas é impossível entrar numa faculdade (e evidentemente, eu só fui descobrir isso muitos anos mais tarde, quando tentei me matricular numa faculdade).

O motivo dessa cagada com meu boletim está no nome da escola. No “Durham Alternative”, a palavra “alternativa” significa “se você foi expulso de todas as outras escolas, esta aqui é a única que te aceitará”. Era uma escola pra vagabundos, estudantes com passagem pela polícia, membros de gangues, meninas que engravidaram aos 17 anos, essas coisas. A escola era meio barra pesada.

Aula de sei lá o que. Tá vendo o rapaz de preto lá na frente? Esse foi o cara que me apresentou à minha mulher, o Chris

E eu tive que ir pra lá porque, tendo àquela altura 20 anos, as high schools “convencionais” não me aceitavam. O problema é que a filosofia dessa Durham Alternative era mais “vamos dar a estes vagabundos um papel que prova que eles completaram o segundo ano”, e não “vamos prestar atenção pra que a grade curricular deles sirva pra algum estudo pós-secundário”.

Ou seja: invés de analisar o boletim e converter minhas notas, essencialmente imprimiram um papel que atestava que eu cursei o segundo grau — mas sem nenhuma nota. Expliquei a situação em maiores detalhes aqui.

Tirei essa screenshot assim que conseguimos conexão na internet lá em casa, absolutamente impressionado com a velocidade da conexão. No Brasil, eu já achava minha ADSL da Velox de 256kbps impressionantemente rápida; ao chegar no Canadá fui recepcionado por uma conexão de 1.5mpbs.

E note que eu tava baixando ICQ, pra você ter uma noção de quanto tempo faz. Hoje em dia, esta é minha conexão:

Se meus downloads hoje ficarem em 321kbps eu desisto do meu provedor.

No dia 28 de novembro de 2013, completarei 10 anos de Canadá. É incrível olhar pra trás e notar quanto tempo se passou, e o quanto minha vida mudou após a mudança pro Canadá. Eu definitivamente não sou a mesma pessoa que era em 2003.

Ok. Deixa eu explicar logo essa história.

ANTES DE MAIS NADA, UM AVISO: eu não sou homofóbico, quem me conhece sabe disso muito bem — aliás, eu duvido bastante que um cara realmente homofóbico sequer cogitasse ir a uma boate gay com uma cambada de homossexuais que ele acabou de conhecer. Se alguns dos meus comentários soarem maldosos ou preconceituosos, lembre-se que preconceito é literalmente “ignorância”, e de fato eu era até o fim de semana passado completamente ignorante a respeito de uma boate gay. Por isso, os comentários talvez soem “preconceituosos” mesmo, mas jamais intolerantes ou odiosos.

Favor não se ofenderem.

Tudo começou no último sábado. Estava eu lá no trabalho quandAahhhh, quer saber? Vou contar esta fábula por intermédio de uma rage comic. Tou viciado em desenhar essas porras. Acompanhe:

Pois foi isso aí, amigos. A muié me liga no trabalho, convida-me para ir à balada pós-serviço, eu aceito prontamente e em seguida ela informa — como se fosse um detalhe completamente irrelevante —  que trata-se de um estabelecimento noturno para simpatizantes da causa homobaitolística.

Como uma reação involuntária, recusei.

Pô, boate gay? Sei não…” arrisquei.

Bom, que diferença faz pra você? Tu não tá indo pra balada pegar ninguém, então dá no mesmo. E eu poderei dançar com as meninas tranquilamente sem maluco escroto dando em cima de mim“.

Diante uma lógica tão infalível, fui obrigado a aceitar. Além disso, gosto de me imaginar como um sujeito progressivo, tolerante, então pensei “bom, se eu afirmo achar homossexualidade normal e digo ser a favor de direitos gays mas fico com ”nojinho’ de ir à uma boate gay com a mulher e suas amigas, estou sendo hipócrita. E de qualquer forma, é melhor sair à noite que voltar pra casa e estudar sozinho no apartamento escuro.”

Meu cotidiano ultimamente se resume ao trabalho e aos estudos. Há algum tempo que não saio com os amigos, que andam igualmente ocupados, então achei que seria uma boa opotunidade pra fazer algo diferente, quem sabe estreitar um pouco os laços de amizade com as amigas da minha patroa. Muié valoriza muito essas paradas, né, quando o cara se dá bem com as amigas dela. Achei que deveria valer a pena, nem que fosse só por isso.

Ok, vamo lá“.

Ficou combinado que eu iria à casa dos amigos dela após o trabalho, e então de lá iríamos todos juntos à tal Twisted alguma coisa — a boate gay preferida lá dos amigos da menina.

Como eu trabalho de noite e durante os fins de semana, não é raro a muié me convidar pra algum programa noturno e eu recusar por estar cansado. Como que para me deixar despreocupado, ela sempre adicionava “não se preocupa, os caras que tão indo com a gente são tudo gay!”.

Não que fizesse grande diferença, eu não sou um cara ciumento, por mim ela pode ter todos os amigos homens que quiser. Entretanto, sempre achei que esse papo de “os caras que estarão lá com a gente são tudo gay, nenhum deles tentará me beijar” era conversa fiada dela com desígnio de evitar que eu aja como o namorado ciumento padrão e vete a saída dela.

Pois bem, não era. Chego na casa dos cupades lá e de fato, são tudo gay. Ela não estava mentindo.

Passada a rodada de apresentações, as meninas começam os preparativos pra saída. Uma maquiagenzinha aqui, uma troca de roupa de última hora, essas coisas. O clima na casa era de festa e, apesar de não conhecer quase ninguém daquela turma, me senti imediatamente parte do grupo.

Como eu sou infame entre nossos círculos sociais por não beber, evidentemente todo mundo tenta me embebedar o mais rápido possível. Uma das melhores amigas da minha mulher aparece do nada com um copo de uma bebida qualquer com gosto de perfume e já vai enfiando o receptáculo na minha boca, pondo a mão embaixo do meu queixo já antecipando que eu me babe todo e molhe o chão. Achei o gesto quase maternal.

Tomaí Izzy! Hoje tu vai passar mal! Hahaha!

Bebo a parada rapidamente e sinto uma náusea na hora. Eu só consigo aturar bebidas “de menininha” — até hoje sou zoado por ter ficado bêbado no Desencontro à base de Smirnoff Ice, mas o que posso dizer? Fui criado em ambiente estritamente religioso, não ia pra shows nem festa quando moleque, nunca adquiri o gosto por álcool.

A cena se repetiu umas três vezes. As meninas pareciam competir em quem seria capaz de me embebedar primeiro. Eu estaria mentindo se dissesse que não gostei de toda a atenção e adulação das meninas.

Alguns minutos mais tarde, já tava todo mundo etilicamente calibrado e os ares começaram a se tornar mais, digamos, libidinosos.

Vertendo vodca na boca da amiga usando os peitos, por que não.

Pois bem, foi aí que nossa pequena comitiva — éramos uns 10 ao todo, acho — os dirigimos ao bar. Eu era o único homem heterossexual da trupe, pela primeira vez pertencia a uma minoria sexual.

Chegamos ao clube. Na fila, uma visão bastante incomum pra mim, muito diferente do que estou acostumado a ver nas boates em que (raramente) vou — algumas drag queens, homens abraçados, homem de maquiagem, alguns casais de lésbicas (algumas estonteantemente pornográficas, mas a maioria era gordinha e/ou com cara de homem — e homem mal-encarado ainda por cima). Posicionamos-nos ao fim da fila, mas um dos nossos amigos conhecia o segurança da boate e subitamente fomos arrebatados da calçada diretamente pra dentro da boate.

A foto tá uma merda, eu sei

Já dentro do clube, adotei uma postura quase científica. Manja os cinegrafistas do Discovery Channel que são colocados em algum local completamente inóspito e encarregados de documentar toda a fauna em seu redor, prestando bastante atenção para os relacionamentos entre as espécies?

Caralho, eu sei que certamente alguém vai se ofender todo com essa comparação, mas era assim que eu me sentia mesmo: completamente fora do meu elemento e presenciando algo completamente inédito (pra mim) em um ambiente potencialmente perigoso. Sim, porque eu estava tenso a cada momento.

E tentando prestar atenção em TUDO pra relatar aqui no blog depois.

Qualquer esbarrada, qualquer mínimo contato acidental contra qualquer superfície me fazia pular e investigar os arredores suspeitíssimo. Invariavelmente era sempre algum folião que encostou em mim acidentalmente e imediatamente pedia desculpas. Em mais de uma ocasião, foi apenas uma cadeira.

O clima de festa que começou na casa manteve-se na boate. Do nada aquela loira da foto lá de cima me aparece com duas Ices na mão. “Pra você“, ela disse rindo e esfregando às mãos na saia, pra enxuga-las da condensação da garrafa. “Hoje eu quero te ver bêbado!“.

É o que todo mundo costuma fazer quando descobre que eu não bebo. Já me acostumei.

Comecei a virar as garrafas, me sentindo progressivamente mais tonto. Volta e meia uma das amigas me estendia sua própria bebida, com olhares maliciosos e inviolável recusa de me informar do que exatamente tratava-se o drink. “Bebe aí, bebe!“, repetiam. Um pequeno gole e eu sentia o líquido queimando meu esôfago, uma sensação quase insuportável de ânsia.

Whiskey. Resisto bravamente à vontade de vomitar a parada, aliviado por ter tomado um gole pequeno.

Num determinado momento, as meninas queriam ir pra pista. Acontece que a pista é cercada por um bar em que a galera se senta pra bebericar seus drinks enquanto observam a massa dançante e as luzes estroboscópicas. O bar circundeia a pista inteira, e como a boate estava muito lotada, circunavegar todo o seu diâmetro até chegar à sua  abertura estava fora de cogitação.

Sem cerimônia, as meninas apenas se agaixaram e passaram uma a uma por baixo do bar, reaparecendo segundos mais tarde no meio da pista. Tendo todas atravessado a divisa, viram-se pra mim e me chamam.

Avalio a situação. Estou cercado de gays. Pra passar por baixo do bar, eu teria que me abaixar, posicionando meu rosto na altura das virilhas adjacentes. “Perigo“, pensei.

Vou dar a volta, pera que já chego aí“. disse, obstinado. Mas era sem chance — àquela altura a massa dançante já estava vazando da pista para a região adjacente, e portanto minha segunda opção de travessia resumia-se a “passar por osmose entre os casais gays que se esfregavam por ali, boa parte dos quais já encontrava-se àquela altura sem camisa“.

“Foda-se”, pensei. “Vou me agaixar aqui e seja o que Satanás quiser” vaticinei. Imediatamente arrependi-me desta expressão; conhecendo a reputação de Lúcifer, o que ele desejaria naquele momento é o inverso do que eu desejaria.

Emergi do outro lado do bar, ileso e rodeado pelas meninas. Elas me puxaram pelo braço pro meio da boate. Dancei com todas as amigas da patroa — elas pareciam muito dispostas a dançar comigo; tenho a impressão de que apesar da ida à boate gay ser em parte pra evitar o assédio masculino, a provocativa natureza feminina ainda gosta de arrancar reações de desejo; sendo eu o único homem hetero do local, o jeito era dançar comigo.

Pelo menos essa é a minha teoria. Posso (devo) estar errado.

Três ou quatro Ices mais tarde, eu já estava sentindo bem mais tonto e completamente indiferente ao fato de que eu dançando me assemelho a uma lagartixa epilética. E aí ocorreu o impensado.

Comecei a sentir vontade de mijar.

O pavor dominou meu ser. Já ouvi histórias sórdidas sobre o tipo de putarias que acontecem nos lavatórios de boates do gênero. Enquanto até o momento a bicharada do ambiente mostrou-se extremamente respeitosa (talvez porque me viram dançando com a mão na bunda da mulher — e talvez das amigas? Não lembro exatamente), mas como saber se este pudor seria mantido nos banheiros?

Viro-me praquela a loira da foto acima (chamarei-a de R), que àquela altura etílica já era minha melhor amiga e futura madrinha dos meus filhos, e explico a ela meu dilema.

Por que você não vai no banheiro das meninas?” ela falou, rindo. Não consegui detectar se ela estava bêbada ou não, ela ri bastante mesmo sóbria.

O QUE?” gritei no ouvido da menina. Senhor target=”_blank”>Deadmau5 tonitruava nas caixas de som do ambiente e impedia qualquer diálogo a menos que você depositasse sua mensagem aos berros a menos de 5mm de distância do tímpano do interlocutor.

Sem titubear, R pega meu rosto com as duas mãos — senti um imediato arrepio; esse tipo de toque é estranho vindo de uma garota que não seja minha mulher — e, com os lábios pressionados contra meu lóbulo esquerdo, repete:

Vai no banheiro das meninas. Não tem problema!

Afasto-me dela, pensativo. Ousaria eu penetrar o Santo Santíssimo vestíbulo sanitário feminino?  Se eu precisava de uma desculpa pra fazer isso, AGORA era a hora. Talvez notando minha indecisão, ela vai e acrescenta:

De repente cê até vê umas gostosas se pegando lá” e pisca, maliciosamente. Dito isto ela se vira e começa a dançar com um dos broders que veio à boate conosco, esqueci o nome do cara.

Desci ao porão da boate, me apegando ao corrimão como se minha vida dependesse disso. Já tava consideravelmente alto àquela altura.

Diante o lobby dos banheiros, um momento de indecisão — devo realmente entrar no banheiro feminino…? E se a R falou zoando, ou influenciada pela bebida? Poderia eu ser chutado da boate por tamanha empáfia…? Um pensamento aterrorizador cruzou minha mente — o que será que fazem pra punir homens que quebram as regras neste estabelecimento?

Decidi não arriscar. Respirei fundo, tentei lembrar rapidamente todos os movimentos que aprendi naquelas aulas de kung fu anos atrás, concentrei meus últimos neurônios sóbrios numa tentativa de erguer meu nível de alerta e prontidão, e com um passo incerto adentrei o banheiro masculino da boate gay.

E lá dentro… nada. Um cara no mictório, outro ajeitando o cabelo no espelho. Um terceiro entrou depois de mim e, observei estupefato, obedeceu as convenções heterossexuais de ocupar o mictório mais distante daquele já ocupado.

Eu entrei no banheiro esperando uma reprodução contemporânea da decadência sexual dos tempos de Calígula e invés disso vi um banheiro indistinguível de qualquer outro banheiro masculino que já vi na vida. Foi quase decepcionante o quanto a minah expectativa estava errada.

Um outro carinha esbarra em mim acidentalmente ao sair — justamente o tipo de contato não-intencional que me atemorizava, considerando o contexto geográfico — e apenas diz “opa, desculpa cara!” enquanto me dá um tapinha no ombro.

Aproximei do mictório pra aliviar-me e então finalmente ergui os olhos para inspecionar o ambiente. Todos os outros caras se ocupavam nas próprias funções e não conversavam nem nada. Eu é que parecia o baitola do local, olhando pra todo canto como se procurasse ali um amor homossexual. Quando atentei-me para a ironia daquele fato, desviei os olhos de volta ao meu mictório.

Termino de mijar e volto para a pista. Reencontro as amigas e os broders, danço novamente com mais uma delas, mais uma Ice materializa-se em minha mão. Àquela altura eu tinha comprado UMA bebida, mas já tinha virado pelo menos umas cinco. Começo a pensar que, se um dia começar a realmente gostar de beber, continuarei pregando a ladainha sobre crescer em lar evangélico e afastado dos prazeres da carne — seria uma excelente forma de economizar nas noitadas.

Ao fim da noite, eu já estava perdidamente inebriado. Todos estávamos em variados níveis de embriaguez, sendo a R a mais resistente do grupo. Comecei a bater papo com os broders gays, eram todos extremamente amigáveis e muito gente fina. Descobri na manhã seguinte que havia sido adicionado por eles ao Facebook.

Passamos por um fast food qualquer — que eu não lembro de forma alguma qual era; a fachada do local escapa completamente da minha mente. Num instante eu estava vomitando na calçada, no outro estava sentado a uma mesa, ladeado pelas meninas, comendo batatinha frita. Minha mulher estava muito bêbada pra dirigir, então dormimos na casa da R.

E essa foi minha primeira vez numa boate gay. Em retrospecto percebo que era completamente imbecil o receio de ser agarrado por algum gay contra minha vontade simplesmente porque os caras gostam de pirocas. Mulheres também gostam e até hoje nunca fui agarrado por nenhuma ninfomaníaca numa boate hetero. Achar que eu seria sexualmente molestado pela bicharada chega a ser presunção minha.

No fim das contas, gostei de receber tanta atenção das meninas — algo que jamais havia acontecido em nenhuma outra noitada nossa –, os broders são muito gente boa, o ambiente era bacana e eu retornaria à boate sem hesitar.

Como emigrante em uma terra estrangeira, há sempre algumas expectativas sobre você (algumas que beiram o racismo, diga-se de passagem). Por exemplo, todo asiático é visto como descendente direto da linhagem sanguínea dos monges que criaram o kung fu. Há também o estereotipo de que asiáticos são muito bons em matemática.

Russos tem fama de beberrões, americanos são célebres por sua arrogância e ignorância, e por aí vai. E como brasileiro, espera-se que eu seja um exímio futebolista.

Pelos últimos 8 anos eu aprendi um padrão: após ser apresentado a algum novo amigo e contar que sou brasileiro (ou confirmar quando alguém diz “…e ele é brasileiro! Conta pra ele, Izzy!” que, por algum motivo, sempre acontece), a próxima coisa que eu sempre sou obrigado a dizer é “não, eu sou péssimo em futebol”. A imagem  mental que todo mundo aqui fora tem quando pensa no Brasil é o Ronaldinho deixando um oponente tonto com suas habilidades.

(Tem as meninas que se assanham também, fique ligado)

Pois bem. Como eu não gosto de dar falsas ilusões aos meus amigos, sou o primeiro a admitir que sou uma vergonha nacional em relação a futebol. Não sei jogar, não gosto, não tenho time favorito, não acompanho nada. Assisto os jogos da Copa — porque não gostar nem disso é coisa de hipster bunda-suja que diz que tá torcendo pra Alemanhã ou pra Moçambique; não fodam — e só.

Pois bem, ontem fui convidado pra uma partida com os amigos aqui perto. Eles vivem me convidando, mas tou sempre ocupado com uma coisa ou outra (a internet ou internet). Ontem o dia estava sensacional e eu não via os colegas há algum tempo, portanto topei.

Chego lá no campo e noto meus amigos peruanos trajando orgulhosos as camisetas de sua seleção, e pensei “caralho, quando eu finalmente tenho um bom motivo pra usar minha camiseta pirata da seleção comprada por 10 reais na Feirinha do Artesanato em Fortaleza, não uso!“. Mas tudo bem.

Apresentações rápidas entre os caras que ainda não se conheciam (tudo gente boa), e os times foram escolhidos.

Os capitães disputaram a minha posse avidamente, e como justificativa argumentavam que o outro já tinha escolhido o Fulano ou o Sicrano, e portanto pegar também o brasileiro não era justo. Observei o impasse com nervosismo; a decepção seria imensa quando eu pegasse a bola pela primeira vez. Enquanto me aquecia, estava na esperança de ter escondido em meu DNA algum resquício de habilidade esportiva que até então não havia se manifestado. Tipo um gene mutante dos X-Men.

Pois bem, começa o jogo. Assim que nosso atacante se vê marcado e impedido de prosseguir, obviamente a bola passa pra mim. Matei no joelho desengonçadamente e manobrei-a pra frente sem pisar nela — o que pra mim é um achievement incrível — e lá na frente perdi a bola pra um zagueiro muito mais habilidoso.

O tempo inteiro, o time berra incentivos a quem está com a bola. VAI FULANO, É TUA, CORRE PRA CIMA, METE NELES! O espírito de camaradagem é contagiante, e por mais que eu não dê a mínima pra esportes ou trabalho em equipe de qualquer forma (aliás eu não gosto de elogiar ou encorajar ninguém), em pouco tempo eu estava também gritando palavras de aprovação às boas jogadas dos amigos.

E isso é muito bacana. Vocês que viveram a vida toda em algum esporte devem ser bastante familiarizados com a experiência, mas pra alguém que nunca jogou nada (nem na escola), é uma situação nova.

Por isso eu me sentia realmente o herói futebolesco que meus companheiros achavam que eu era. Sabe quando você assiste um jogo de futebol e a comoção do estádio aumenta automaticamente no momento que um atacante invade a área adversária? Então, era isso que acontecia sempre que eu sequer passava PERTO da bola ontem.

Até então eu estava ativamente FUGINDO da bola pra evitar vexame e/ou fracassar no domínio dela e entrega-la sem querer pro outro time. Acontece que toda essa animação acabou me motivando pra tentar alguma coisa um pouco mais ousada. E eu tive minha chance quando, enquanto avançava com a bola, fui bloqueado por dois jogadores oponentes.

Fiz um search mental por todos os vídeos de tributo ao Ronaldinho que já vi no youtube e MIRACULOSAMENTE, executei aquela drible em que o sujeito engana a defesa oponente passando as pernas por cima da bola. Esse tal do “pedalada”.

Poisé. O problema é que exauri toda a minha pouca habilidade esportiva na execução (muito boa até, e olha que eu não sou de elogiar o que eu mesmo faço, porque sei que não tenho talento pra nada) do drible, e em seguida errei o passe: essencialmente entreguei a bola pra um jogador adversário cuja cor da camiseta me confundiu. Achei que era um broder nosso.

(Aliás o nosso goleiro foi jogar sem óculos e duas vezes cometeu o mesmo erro, um deles resultando em um gol contra a gente)

Mas enfim. Não fiz mais porra nenhuma no jogo, mas a impressão que os amigos tiveram é que eu sou um mega mestre do futebol que esconde o ouro por ser muito humilde.

Perdemos de 5 a 3 no final, não fiz nenhum gol — mas o simples fato de que eu aguentei correr por duas horas praticamente initerruptas, e que não pisei na bola e caí vergonhosamente nenhuma vez, já teria sido considerado uma vitória por mim.

Sem contar que o espírito de camaradagem entre o time é um negócio muito legal. Como já falei, pra mim que me isolei de todo tipo de atividade esportiva a vida inteira, é uma sensação completamente nova. Voltarei na semana que vem pra jogar com os broders, e assistirei mais vídeos do Ronaldinho até lá.

Se você nunca leu meu FAQ, talvez não saiba que moro no Canadá desde novembro de 2003.

Caralho, já faz quase dez anos! Passou muito rápido. Parei pra pensar agora que a única vida adulta que eu conheço é a canadense. Estranho… Enfim.

O período de imigração demorou pra caralho; só viemos nos tornar residentes permanentes (em outras palavras — possuidores do icônico green card) anos depois.

Um dos resultados dessa demora imensa em obter o status de imigração plena é que a sua vida fica, em algumas áreas muito importantes, no pause.

Continue reading

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...