Morreu o primeiro motorista de um carro autônomo. E agora?

No ano passado li este estupendo artigo do Wait But Why (sem dúvida o melhor blog da internet, pecando apenas pela demora entre atualizações), que me tornou fanboy tanto da Tesla quanto do Elon Musk.

model s

E alguns meses depois eu tive a oportunidade de dirigir um Tesla Model S, o belíssimo carro acima. E tive também a oportunidade de estupidamente perder a oportunidade de gravar um vlog sobre isso.

Geralmente eu evito “forçar” estranhos a participar do meu vlog; é meio constrangedor. Digo “forçar” entre aspas pra diluir o significado da palavra porque não tenho sequer o poder de realmente forçar alguém de estrelar nos meus vídeos. Me refiro a forçar alguém a participar por estar gravando um vídeo perto de alguém que não conheço.

Na situação em que eu estaria fazendo um test drive num Model S, o cara da concessionária teria que de alguma forma participar do vlog, mesmo que fosse apenas em papel de cameraman. Por isso, decidi não levar a câmera pro test drive e apenas “apreciar o momento”, uma sugestão que muitos amigos próximos me dão quando estou me preocupando em capturar o momento pra fazer um vídeo depois.

(A parte que eles sempre ignoram é que essa “preocupação” paga minhas contas, mas enfim.)

Quando eu chego lá, no entanto, o cara que faria o test drive comigo está animadíssimo pra que eu grave um vídeo da experiência. Numa infinita coincidência, o sujeito conhecia meu vlog em inglês (que é bem pequeno ainda, mas através de uso de hashtags da minha cidade, estou tendo um certo sucesso em divulga-lo localmente), e a Tesla é super amistosa com vlogueiros e outros tipos de criadores de conteúdo porque eles não gastam um centavo sequer em propaganda. Cada vídeo ou artigo falando do Tesla com entusiasmo é uma propaganda pela qual eles não pagaram.

Dirigir um Tesla é uma experiência bizarra. Primeiro, porque o carro exala futurismo. As maçanetas que retraem pra dentro da porta, a imensa tela no meio do painel do carro (conectada à internet, aliás, graças ao sinal 4G que todos os donos de Tesla recebem de graça da empresa), o fato de que o carro recebe updates de firmware que dão a ele funções novas de uma hora pra outra… o carro é tão DUFUTURU que não dá nem pra fazer a piadinha do “só falta ele se dirigir sozinho rsrsrs” porque a porra do carro se dirige sozinho.

(Aliás, o piloto automático do Tesla deveria ser o assunto central desse post, mas como fanboy do carro o texto acabou ficando bem mais longo.)

Segundo, por que há MUITO espaço dentro do carro. Como o veículo não depende do imenso aparato mecânico convencional que faz um automóvel comum funcionar, o carro acaba sendo muito mais espaçoso. O Model S é um sedan por fora, mas um SUV por dentro. Há espaço pra SETE passageiros no carro, e ele tem DOIS porta malas.

E terceiro, porque o carro é RÁPIDO. Inacreditavelmente rápido. O carro deixa Ferraris e Lamborghinis no chão no que diz respeito a aceleração (e lembre-se: o Model S é um sedan pra família, não um carro projetado pra correr).

Não apenas isso, mas ele é incrivelmente rápido ao mesmo tempo que é completamente silencioso. Todos nós temos algum tipo de experiência com veículos acelerando subitamente (nossos próprios carros, ou aviões, ver corridas de Fórmula 1), mas associamos intrinsicamente a idéia de velocidade com um algum som poderoso. O Tesla dispara violentamente do nada sem fazer qualquer som; é difícil explicar o quão estranho essa dissonância cognitiva parece quando você está dentro do carro.

Voltando pro esquema do piloto automático. Os Teslas tem uma função em que o carro se dirige sozinho, que eu também experimentei. Se eu achava a aceleração silenciosa do carro estranha, o piloto automático é literalmente aterrorizador. Ver o carro mudando de faixas e o caralho, o volante girando sozinho como que por mágica, é muito bizarro.

Embora a promessa de carros autônomos seja muito tentadora (afinal, mais de 90% dos acidentes são causados por burrice humana), é de se esperar que as primeiras versões da tecnologia tenha alguns bugs. A diferença aqui é que ser early adopter de um celular pode no máximo causar alguma chateação com uma função que não funciona tão bem, já ser early adopter de veículo autônomo pode causar uma morte horrível.

A colisão aconteceu em maio, mas só recentemente descobriu-se que o motorista estava usando o piloto automático na hora do acidente. Aparentemente, o caminhão que entrou no cruzamento onde o cara dirigia tinha uma carreta branca que foi confundida pelos radares do Tesla porque o céu acima estava nublado.

Daí o sistema não conseguiu diferenciar céu da carreta e passou por baixo da parada com tudo, obliterando o topo do carro. Pior, o carro continuou dirigindo um bocado até arregaçar-se num poste lá na frente.

O Elon Musk tentou rapidamente esclarecer que o sistema de piloto automático foi usado por 130 milhões de milhas nos EUA com seu primeiro acidente fatal, enquanto a média de acidentes automobilísticos fatais nos EUA é de um a cada 94 milhões.

Também foi apontado que é requerido do motorista atenção no trânsito mesmo quando o piloto automático está ativado; o fato de que o carro jamais freou parece sugerir que o motorista estava distraído no volante (usando o celular, talvez dormindo).

[ Update ] Testemunhas haviam dito que viram o cara vendo um filme no carro; eu não inclui no post porque me pareceu um tanto incomum que testemunhas pudessem ter visto o que o cara tava fazendo antes de uma batida. A polícia agora confirmou que achou um DVD player no carro, o que corrobora a versão das testemunhas — uma delas o motorista do próprio caminhão, que aparentemente tentou socorrer o motorista e ouviu o filme rolando.

Uma coisa é definitiva: ele não estava prestando atenção na estrada, como é recomendado pela Tesla.

Talvez seja importante lembrar que é perfeitamente natural que problemas com uma tecnologia necessária, porém não plenamente testada causem acidentes ou até mesmo mortes. Não demorou muito após a invenção do carro ou do avião pra que estes ceifassem suas primeiras vidas também, afinal de contas (e tinha muito menos gente dirigindo carro ou pilotando avião do que tem pessoas usando o piloto automático do Tesla). Eu creio plenamente que as estradas serão infinitamente mais seguras quando TODOS os carros forem autônomos — ou seja, todos guiados pelos mesmos algoritmos e eletronicamente conscientes dos outros carros na rua –, então espero que esse acidente sirva apenas pra melhorar a tecnologia, e não pra demoniza-la.

O mais trágico da história é a seguinte ironia. O motorista era Joshua Brown, ex-Navy SEAL, dono de uma empresa de tecnologia e entusiasta da Tesla. Você nunca ouviu o nome dele na vida, mas é bem capaz que você viu um vídeo que ele fez.

Neste vídeo de abril, o Joshua mostra como o piloto automático do seu Tesla potencialmente salvou sua vida, desviando de um caminhão que invadiu sua faixa abruptamente. Um mês depois, o mesmo carro cometeria um erro que custaria sua vida.

Na ocasião, Elon Musk até tuitou o vídeo, provavelmente orgulhoso do que seu carro foi capaz de fazer.

Parafraseando Jó: Tesla dá, Tesla tira.

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comments

11 comments

  1. Se morrer no trânsito fosse um impedimento pra eu andar de carro, eu não andava de carro.

    Eu usaria o piloto automático do Tesla numa boa, mesmo depois desse acidente fatal.

    Só não uso porque sou brasileiro e pobre e não tenho um Tesla. 😛

    PS: Kid, vai lá fazer outro test drive na Tesla e leva a câmera dessa vez.

  2. Porra, se for pra prestar atenção na estrada, prefiro eu mesmo dirigir, pelo menos vou estar fazendo alguma coisa, ao inves de simplesmente ficar igual a imbecil olhando pela janela.

    O bom de um carro autonomo desses seria justamente o fato de vc entrar, falar o destino, e ficar la dentro fazendo outra coisa e ganhando tempo.

    1. Exato, se é pra ficar “prestando atenção” é basicamente inútil (diluindo o significado aqui tbm, claro) esse piloto automático nesse estágio, além de soar vago esse prestar atenção, dando a entender que a parada não é confiável (?).

      Enfim, essa parada ainda tá muito complicada de ser funcional nos moldes atuais e sem ser do jeito q o Izzy falou, com bastante carros autonômos, um ciente do outro.

      1. Mas NAO É CONFIAVEL, é uma tecnologia nova, nao foi testada incessantemente e esta passivel de erros. Lógico que o objetivo da Tesla é um dia voce entrar e nao se preocupar, mas vamos e viemos, ter um carro capaz de fazer isso ja é algo inovador pra caralho numa industria que só se preocupa com inovaçoes pifias pra dizer que esta evoluindo.

        Inclusive, nem piloto automatico de aviao é totalmente seguro, os caras ainda tem que estar ali, atentos. Eu ja acho super valido poder sentar no banco do motorista, ouvir um podcast e ficar tranquilo só olhando pra estrada…

    2. A diferença é que o carro não vai dirigir igual um bosta ou ficar fazendo merda na estrada.
      Quer assistir filme vai pro cinema, porra! Carro não é brinquedo (assim como aviões, navios e etc) Pessoas são pagas para ficar ali “olhando” por você [monitorando tudo], a diferença fica na complexidade desses meios de transporte. Se você não quer se dar ao trabalho de monitorar seu próprio veículo, você deve ser um motorista exemplar(ironia aqui)A empresa NUNCA indicaria o motorista a se desligar totalmente de suas funções ( > motorista< , pois isso pode, não só custa a sua vida, mas a dos outros também.

  3. As pessoas não entendem o significado de uma coisa chamada BETA.

    Algo em fase de testes não deve ser utilizado como definitivo, principalmente quando isso CUSTAR A SUA VIDA!

    Não quero dizer que a culpa é do motorista ou da Tesla, quero dizer que a culpa é dos dois! A Tesla (que diz que o piloto automático é apenas para testes) meio que deixa todos intusiasmados para o uso apesar dos possíveis bugs podem te MATAR, e o motorista confiou em algo que está claramente, publicamente e EXPLICITAMENTE em beta.

    Eu confiaria minha vida a um carro autônomo? Não enquanto ainda existirem seres humanos dirigindo os carros ao meu lado.

    1. A questão é que, mesmo sendo beta, dirige melhor que 99% das pessoas.
      A única coisa que você deve fazer é ficar de prontidão para eventuais erros, coisa que não aconteceu aqui.

      Esses tempos também vi um vídeo de um cara dormindo, com o banco reclinado e tudo, enquanto o carro dirigia.
      Se der alguma merda, quem é o culpado?

  4. Se ninguém usar, não é a empresa que irá fazer todos os testes possíveis e imagináveis.
    É preciso sempre alguns tropeços, antes de colocar em definitivo, e mesmo assim ainda pode acontecer algo não previsto e ruim.
    A inteligência artificial ainda não tem como identificar todos os perigos que estamos sujeitos. Nem nós mesmos.
    Não o usaria em uma estrada, mas com certeza em velocidades menores.

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