O dia em que a internet se voltou contra Casey Neistat

casey

Eu nutri uma grande admiração pelo Casey nos último meses, por motivos que expliquei aqui no HBD recentemente. Acho muito legais suas técnicas mais cinematográficas, que inspiram outros criadores de vídeo a experimentar mais com suas criações (e pelo jeito andam fazendo escola YouTube a fora); o cara tem um talento incomum de transformar o aparentemente trivial e cotidiano em narrativa interessante.

(Obviamente ele é ajudado pelo fato de que sua vida é tudo, menos trivial, mas enfim…)

E eu consigo me identificar muito com esse estilo de vida corre-corre dele; eu tenho que fazer um insano malabarismo entre meu trabalho convencional, meu site, meu canal no YouTube, meu novo livro, meus podcasts, o tempo que dedico à minha esposa/família… ver outro cara fazendo algo similar, e sendo bem sucedido nisso, é uma fonte de inspiração.

Pouco a pouco, no entanto, a admiração pelo cara vem dando lugar a um crescente incômodo sobre a persona que o Casey projeta.

Uma coisa que eu notei no subreddit sobre o cara é que ele tem muito mais críticos do que eu imaginava acompanhando o fandom dele nos comentários dos seus vídeos. Fiquei sabendo que isso acontece porque o Casey faz uma malha fina nos comentários dos seus vlogs, deletando qualquer comentário crítico. À primeira vista, isso não me incomodou — se o cara não quer ter negatividade circulando seu trabalho, é compreensível.

Mas outra coisa que eu só passei a perceber após ler o subreddit do cara, sim, me causou um certo incômodo — a insistência teatral do Casey de tratar de seus equipamentos com total desdém. Das vezes em que o cara rasgou caixas com tanta avidez que chegou até a danificar os produtos, às tomadas ensaiadas em que “derruba” uma câmera que custa mais de cinco mil reais.

Faz tudo parte de uma narrativa, claro: como já explicou umas trocentas vezes, o Casey não se importa com equipamentos porque eles são empecilhos no seu desejo de contar e compartilhar históricas. Admira-me que alguém faça tantos vídeos pra dizer que não se importa com algo; como diria a Rainha Gertrude de Hamlet, “tô achando que a senhora protesta demais, hein?”

E você achando que isso aqui era apenas um vlog com histórias sobre cagar num tapete.

Não sou o único que se incomoda um pouco com essa teatralidade de quebrar brinquedos caros porque “ah, não me importo com equipamentos!”. Isso cheira mais a ostentividade; vem à mente imagens do Dan Bilzerian, um playboy famoso do Instagram, atirando em drones.

No caso do Bilzerian é mais descarado e gratuito: ele quer mostrar que faz isso porque pode fazer isso e pronto; é mais ou menos o mesmo motivo pelo qual ele não apenas se cerca de mulheres gostosas, como também documenta isso no seu Instagram. Não dá nem pra realmente odiar o cara por isso, ele tá sendo plenamente honesto ao menos.

Quando se contrapõe isso contra o que o Casey faz, a narrativa “ah, é que eu não me importo com equipamento rsrs” parece um pouco… forçada. Parece, na realidade, que ele tenta uma versão mais discreta do MO Bilzeriano — ele também que ostentar seu meio de vida, mas (como é, afinal, um contador de histórias), precisa envelopar esse gesto numa historinha bonitinha. Ele não é um esbanjador, ele é um criador pragmático que não permite que suas ferramentas ditem seu comportamento.

Seria mais fácil comprar essa idéia se o cara não se cercasse de tudo que há de melhor que o dinheiro pode comprar. Um cara que realmente não liga pra gear não se submeteria ao incômodo de carregar por aí uma câmera imensa, com microfone externo E tripé, pra cima e pra baixo.

É óbvio que o equipamento tem seu valor; não é porque você pode comprar uma 70D nova no mesmo dia que quebra a sua (quase intencionalmente) que o negócio não tem valor ou importância.

Aí teve o vídeo de hoje, em que a persona do Neistat me aborreceu finalmente.

No vlog de hoje, o Casey Neistat mostra mais uma vez a sua antipática esposa (que sempre tem essa cara de que não apenas não quer estar no vlog mas também abomina a própria presença do Casey), elabora pela milésima vez a ladainha de que não se importa com aparelhos, e então quando tá filmando na rua, passa por um policial dirigindo um Smart Car.

Ao ver o Smart Car, o Casey inexplicavelmente começa a zoar a viatura. O cara para em seu caminho pra zoar o carro, e o policial. Não satisfeito, ele recruta transeuntes pra também zoar o policial, a quem ele acusa de não ter dignidade. No que o cara finalmente entra no carro e vai embora, claramente constrangido, o Casey continua tirando onda com o sujeito, chamando-o condescendentemente de “little buddy” e avisando pra que ele tome cuidado pra não cair num buraco.

…tudo isso por causa do carro que ele dirige.

Porra, que negócio desnecessário. O cara agiu como um bully de colégio, de uma forma totalmente gratuita, no processo desrespeitando dois grupos que fizeram muito pelo cara — a polícia de New York, que entre outras coisas até o ajudou a recuperar um drone perdido, e a Mercedes Benz (uma marca que, entre outras coisas, possibilitou o cara dar um incrível presente de aniversário pro filho dele). Vamos ver quanto tempo demora pra que ele perceba que ele cagou em cima de um produto da empresa a troco de NADA, porque sequer foi um segmento engraçado no vídeo.

É meio decepcionante. Existe há algum tempo no fandom do cara uma teoria que diz que a personalidade real do Neistat é algo mais próximo do de sua esposa (afinal, casais tendem a ter personalidades semelhantes), e que o Casey que vemos é na realidade um personagem mais marqueteável.

Rejeitei a idéia mesmo quando veio de um amigo meu que conheceu o cara pessoalmente num evento de YouTubers; estou mais inclinado a acreditar nessa versão dos fatos agora.

Algum advogado do diabo veio me falar no Twitter que na real não foi nada tão grave, afinal, o Casey apenas zoou o carro da polícia, e não o veículo particular do policial. Não vejo isso como um argumento tão bom: imagina que eu vou no McDonalds e tiro onda da roupa que o sujeito no balcão está usando. Não apenas isso, mas filmo essa zoação, chamo pessoas das redondezas pra rir junto, tiro sarro do cara até quando ele vira de costas pra sair do lugar.

Seria uma boa desculpa apontar que não estou zoando a roupa dele de fato, e sim um uniforme que na realidade pertence ao McDonalds? Acho que não.

É uma pena, mas por outro lado, eu já estava ficando meio cansado da fórmula do cara — timelapse, vídeo andando de skate, alguns conselhos sobre a vida, tomadas feitas com o drone, a perene insistência de que equipamento não interessa, a sua esposa sempre com cara de madame enjoada… embora eu tenha me maravilhado com a estilística dos vídeos (realmente excelente, isso ninguém pode negar), na prática ao ver um vídeo do Casey, você viu todos.

E eu acho que pra mim chega.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

15 comments

  1. Eu não posso dizer muita coisa sobre o cara, porque não assisti muitos vídeos dele, mas toda essa coisa de que não se importa com equipamento e tal só me deixou com menos vontade de conhecer o trabalho dele.

    Se você curte um vídeo mais produzido, que passa algumas boas mensagens e mostra o dia a dia de uma família recomendo muito que você procure pelos Michalaks. O canal deles é sensacional, tem uma pitada de humor, uma mega produção e mexe muito comigo! 🙂

    http://www.themichalaks.co.uk/

  2. Olá Izzy sou de Sobral-CE, só gostaria de dizer que gosto muito do conteúdo do HBD, ultimamente estou gostando muito mais, pois os seus posts me despertaram aquela vontade de ler, estou lendo todos os posts.
    Estudante de Física na UF (Universidade Federal do Ceará)
    Ps:Gostaria de perguntar se ja veio a Sobral ja que morava no Ceará
    Desde já agradeço pela leitura.

  3. Assistam o Cadê a Chave q é sucesso, o Leon e a Nilce parecem ser gente boa e o vlog é bom.
    Não acrescentei nada a discussão, mas eu gosto do Cadê a Chave.

  4. Izzy, eu sinceramente parei de ver os vídeos do Casey por pura e simples repetição. Todos os vídeos tem a mesma fórmula, a única mudança substancial -- que conforme o tempo passa acaba se mostrando insuficiente pra prender a atenção -- são os diferentes lugares que ele vai. Mas até nisso temos os denominadores comuns (aeroporto, pegar uber/taxi, andar de skate, fuder os equipamentos, etc.) Fora que aos poucos comecei a achar essa persona carismática, alegre, good vibes um pouco forçada demais. Esse exemplo do carro é um dos que revelam a fragilidade de se construir algo que não é.

    Em relação a esposa do cara, eu realmente acho incrível o fato de que não exista UM vídeo sequer no qual ela demonstre que está feliz. Sempre trata o Casey com indiferença, antipatia ou sarcasmo. E parece fazer questão de transparecer esses sentimentos. Inclusive acho que acabou abraçando essa persona desagradável. Isso também contribuiu pra eu parar de ver o cara, essa postura da esposa me deixava pra baixo, incomodado, e até mesmo constrangido -- será se só o Casey não percebe o quanto ela é tóxica, pelo menos nos vídeos?- Pra mim deu faz tempo.

  5. “mas por outro lado, eu já estava ficando meio cansado da fórmula do cara — timelapse, vídeo andando de skate, alguns conselhos sobre a vida, tomadas feitas com o drone, a perene insistência de que equipamento não interessa, a sua esposa sempre com cara de madame enjoada… embora eu tenha me maravilhado com a estilística dos vídeos (realmente excelente, isso ninguém pode negar), na prática ao ver um vídeo do Casey, você viu todos.”

    Esse final me fez vir comentar, porque eu falei exatamente a mesma coisa p/ minha esposa, porém sobre o André Pilli. O Pilli seria o Casey brasileiro? Hehe.

    1. o Pili é o wanna be casey do brasil. mas o cara ilude o publico dele. eu tenho duvidas se o pili teria qualidade sem dinheiro. se o time lapse dele nao fosse do topo de um apt de aluguel que é mais caro que um palio 0km e sem os brinquedos dele, e se ele tivesse que pegar na labuta 8h por dia. o casey ja é um cara mais movie maker, o equipamento ajuda mas ele nao precisa do equipamento se ultima linha para fazer algo bom e criativo.

    2. O André Pilli é somente aquele garoto de prédio rico que tem uns brinquedos legais, o cara mora em NY e não consegue mostrar nada legal da cidade. Mora não, morava, quero ver o canal dele sobreviver com ele voltando pro Brasil.

      1. é o dono da bola da brincadeira da rua.

        eu vi ele falar uma que fez eu me contorcer. ele falou que Nova York não acrescentou em nada a ele como pessoa.

        eu não sei o que dizer. quem já foi em Nova York sabe como a cidade é unica. tem quem goste e quem não goste, mas falar que não acrescentou em nada em mais de um ano morando lá, das duas uma, ou vem de uma pessoa muito vivida ou de alguem que não sabe enxergar o que está ao seu redor

        acompanhando pra ver os Pilies babando ovo com o meninão agora filmando o Morumbi e nao o empire state.

  6. Eu admiro muito o trabalho que o Casey faz, é claro que também sei ver os defeitos, mas não compreendo como tem gente que crítica tudo sem olhar a meios. Como por exemplo a atitude da Candice por esta ser mais sisuda, se houver alguém que faz menos teatro ali é ela. Quem assiste a todos os vídeos sabe que a Candice é briguenta, mal-humorada e introvertida, mas é o feitio dela e eu aprecio pessoas de uma só cara e não julgo uma pessoa por sorrisos.
    Quanto ao equipamento, sim ele várias vezes já mencionou que este é um meio e ao mesmo tempo um obstáculo para chegar ao público, todos nós gostamos de tecnologia mas quando esta falha torna-se uma dor de cabeça e atrapalha mais do que resolve, quem nunca partiu um SD e perdeu material importante? Quem nunca fez filmagens espantosas e ficou sem som? Quem nunca editou e o software travou perdendo horas de trabalho? Entendem? Tudo é muito bom mas pode se tornar muito mau e o Casey é pragmático e quer passar material com qualidade mas da maneira mais simples.
    Não acho que ele seja assim tão ostentador mas se for, qual o youtuber que não gosta de exibir os seus bens? Quanto à maneira dele abrir o correio faz parte da assinatura dele naquele bloco, mas também a maior parte das coisas são propaganda querendo aparecer.
    A cena do Smart também achei desnecessária, eu sei que a maioria dos Americanos julgam as pessoas pelo tamanho do seu carro ou casa afinal tudo lá é XL e o tamanho do carro por vezes é sinal de masculinidade para os homens quanto mais para uma força policial. Se repararem bem o Casey é muito simpático e cordial com a policia mas com um tom de ironia no meio, afinal foi isso que o levou ao sucesso que ele tem hoje.
    Dizem que a internet não tem fronteiras mas tem sim, culturas diferentes e por vezes chocam entre si.

  7. Nunca fui inscrito no canal do cara. Realmente o estilo do vídeo é interessante, mas ele tem jeito de ser meio babaca mesmo. O comportamento com o policial foi bem infantil, mas não achei TÃO grave assim. Provavelmente o público ficou meio puto por uma somatória de coisas que já vinham de outros vídeos, e não somente por essa situação em específico.

  8. Izzy, esse negócio de apagar comentários já virou praxe, as pessoas não gostam de opiniões contrárias, inclusive eu fui banido do grupo do 99 vidas no facebook por isso, em uma discussão sobre representatividade onde não xinguei ninguém ou algo do tipo.
    É muito triste mas é a internet de hoje.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *