O dia em que eu comi um sanduíche velho que achei no meu carro… pela ciência

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Eu sempre me considerei um cientista amador, desde criancinha. Tive um daqueles kits de Pequeno Químico quando era criança, assistia o Mundo de Beakman religiosamente (RIP in peace Lester o Rato), e gostava de ler uma enciclopédia que meu pai tinha lá em casa nos momentos de tédio. Aprendi muito com aquela enciclopédia — por exemplo, que o ar na terra é 78% nitrogênio, 20% oxigênio, e o restante é composto de peidos, gás carbônico que escapa daquela latinha de coca cola que você deixou na geladeira e do cheirinho que sai quando você abre boosters de Magic.

Por causa dessa inclinação científica que senti durante toda a minha vida, alguma vezes eu fiz coisas que sabia não serem exatamente a melhor idéia do mundo, mas a curiosidade em relação aos resultados foi irresistível.

A foto acima é de um sanduba de frango do KFC que eu havia comprado alguns dias antes na saída da aula. Não terminei o bagulho e deixei na caixinha, na intenção de termina-lo mais tarde. Com o movimento do carro a caixinha caiu no assoalho e eu não a vi quando saí do carro.

Alguns dias mais tarde, estaciono o carro aqui no estacionamento do prédio e noto a caixinha do KFC que estava abandonada. “Que merda!”, pensei no momento. “Desperdicei meio sanduíche!”. Eu não sabia exatamente quantos dias haviam se passado desde a compra do sanduba. Não sou perito legista mas a consistência borrachuda da “carne” do sanduíche sugeria que ele havia sido esquecido no carro por uns 3, talvez 4 dias.

Subo pro apartamento com o sanduíche na mão, incerto se ele ainda seria próprio para o consumo ou não. A curiosidade, inicialmente inocente, começou a me corroer por dentro. Seria de fato aquele semi-sanduíche impróprio para o consumo humano? Ou os conservantes nos quais esses fast food mantem suas carnes de minhoca submersas derrotaram a microbiologia que leva tudo ao pó?

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O sanduíche

Não era mais nem uma questão de não querer desperdiçar este “sanduíche”. A coisa agora era maior que isso.

Eu decidi que se jogasse o sanduíche no lixo, a pergunta “um lanche do KFC continua comestível após 4 dias ao léu?” ficaria eternamente sem resposta. E perguntas sem resposta me causam profunda agonia psicológica.

Não sabemos, por exemplo, se estamos ou não sozinhos nesse universo. Não sabemos o que acontece depois da morte. Não sabemos se a porra da Intelligent Systems vai finalmente lançar um Advance Wars pro 3DS.

Seria eu responsável por adicionar mais uma pergunta sem resposta a essa lista? Não. É uma responsabilidade grande demais. Eu não posso fazer isso.

Eu tenho que comer esse sanduíche.

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Coloquei o bicho no microondas por 30 segundos e, disposto a sacrificar meu próprio bem estar pela ciência, comi o sanduíche.

Pela ciência

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O sanduíche tinha exatamente a consistência que você esperaria de um sanduíche esquecido no chão de um carro por 4 dias. Parecia uma borracha levemente salgada. O pão já estava praticamente uma torrada de tão duro e esfarelante. Foi possivelmente a pior coisa que já comi na vida.

Aí eu comecei a pensar que não sabia exatamente quanto tempo o sanduíche passou fermentando no meu carro. Eu tenho um absolutamente PÉSSIMO senso de passagem de tempo, nunca sei se algo aconteceu há 3 dias ou no mês passado. Aí lembrei que como paguei o sanduíche no cartão, bastava logar no e-banking pra ver exatamente quando a parada foi comprada.

Com uma certa consternação vejo que o sanduíche havia sido comprado não 3 ou 4 dias como eu imaginei — mas exatamente uma semana antes. O arrependimento começou a bater levemente. Contei pra minha mulher o que havia feito e ela ficou REVOLTADÍSSIMA. Ela não compartilha do meu senso científico, obviamente. Ela reduziu minha importante experiência gastro-biológica a “uma jumentice que vai acabar de levando pro hospital”. Veremos o que a bancada do Prêmio Nobel dirá.

Fui uma vez no dentista com a família inteira lá pros meus 10 ou 11 anos e o doutor (dentista é “doutor”? Eu sinceramente não sei) se surpreendeu com o fato de eu ser o único entre nos Nobres que não precisava de uma obturação. Ele hipotetizou que meu sistema imunológico era hiperativo e não permitiu que meus dentes fossem dominados pelas cáries.

Por isso, passei a vida inteira me vendo como um Wolverine cearense, totalmente imune a mazelas e essencialmente invencível.

Evidentemente, essa teoria iria por água abaixo umas 12 horas mais tarde, quando me vi no hospital.

Em aula no dia seguinte, comecei a sentir um profundo mal estar. Estômago e cabeça doendo em dueto, detectei o começo de uma enxaqueca. Fui levado ao hospital, onde vomitei aproximadamente 1/3 do meu peso. A enfermeira cuidando de mim substuiu os fluidos perdidos com uma deliciosa mistura de soro fisiológico com uma pitadinha de morfina pra dor de cabeça.

Não faço a MENOR idéia se a enxaqueca e o desarranjo estomacal foram provocados pela minha experiência. Entretanto, vou aconselhar que você não replique meu experimento e não coma um sanduíche que foi abandonado no seu carro por uma semana.

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comments

30 comments

  1. > vou aconselhar que você não replique meu experimento e não coma um sanduíche que foi abandonado no seu carro por uma semana.

    O máximo que fiz foi comer salgadinho adormecido a 2 dias.

  2. Isso fez-me lembrar de um dia que estava preparando um seminário sobre indução eletromagnética, onde estávamos a fazer um imã a partir da corrente elétrica criada por uma pilha, na empolgação do bagulho eu e dois amigos decidimos fazer o inverso também, ou seja, criar corrente elétrica através da indução magnética, tudo certo… Olhamos o experimento que Faraday havia feito e tentamos o repetir fazendo um solenoide de cobre e colocando as duas pontas uma próxima da outra para poder ver a fagulha e desligamos a luz, porém, passávamos o imã dentro do solenoide para induzir a corrente mas não víamos porcaria alguma. Então decidi comigo mesmo e disse: “Eu seguro as duas pontas para confirmar se de fato está havendo corrente, pela ciência.
    Ok, peguei as duas pontas e autorizei meu amigo a passar o imã por dentro do solenoide, algumas tentativas e nada, então levanto a voz e digo que “acho que não está funcionando, não vai dar em nada”. Por que não fiquei calado? Na mesma hora senti um choque forte o suficiente para que eu ficasse 15 minutos sentindo algo na costa da mão se contraindo e puxando meu indicador/polegar e soltar um “caralho” dentro de uma sala da biblioteca. xD

  3. Imbecil com experiência em experimentos científicos aqui. Pra saber se a sua diarréia foi causado pelo sanduíche podre você precisa repetir o teste mais algumas vezes; se em mais de 95% das vezes você acabar no hospital, então provavelmente essa é a causa.

    Faça isso pela ciência, esse pode render um artigo científico (se você sobreviver).

  4. Uma vez, em um projeto de iniciação científica na faculdade, eu desliguei remotamente o motor de partida de um carro e fui enfiar a cara no motor para me certificar de que isso realmente faria o carro parar de funcionar.

    Quando liguei novamente o motor de partida, meu colega no projeto ligou o carro enquanto minha face se encontrava firmemente acima do motor… A explosão seguinte me causou uma concussão e uma perfuração no tímpano.

    Turns out, a bomba de combustível continuava funcionando e o combustível passava inerte pelo motor de partida desligado, se depositando no silencioso, antes do escapamento. Ao ligar o carro, todos aqueles litros de combustivel depositados nas camadas de espuma do silencioso sofreram uma… Erm.. Expansão explosiva, vamos chamar assim.

  5. Aeeeeeee Mundo de Beakman!!!! Aprendi muito com esse maravilhoso programa.. tudo o que não aprendi em aulas de ciência, física, química.. ou se aprendi, foram fórmulas matemáticas que esqueci e nunca usei na minha vida, enquanto o Beakmen me ensinou coisas que realmente nos fazem entender os funcionamentos do mundo. Jamais haverá um programa igual a esse, tão útil e tão engraçado.

    Agora, relacionando com o tema do post.. teve um episódio que o Beakman responde “como os cientistas sacam as coisas” e mostra o método científico: propor uma hipótese, testar a hipótese… e aí a hipotese que ele usa como exemplo é: a água salgada conduz eletricidade? Faz a experiência e o resultado é positivo. MAS… em seguida ele lança uma pergunta genial: será que é só a água, ou será que é só o sal? E novas experiências mostram que o que conduz eletricidade é mesmo a ÁGUA SALGADA. E aí… se seu mal estar foi causado por esse sanduiche, será que foi somente pelo pão, ou somente pelo frango? Isso pede novos sanduíches esquecidos no carro…

  6. Momento religioso que toda mãe manda para um filho:

    Tá vendo, isso é Deus te mandando tuas burradas de volta na tua cara, aí o lema do teu blog é TODO DIA TEM UMA MERDA e não sabe porque!!!

  7. Uma pequena sugestão, se você realmente quer ser cientificamente rigoroso com este “experimento”, você precisaria replicar essa condição asquerosa (sandúiche de 7 dias largado no carro) diversas vezes para você falar com rigor estatístico que ele realmente fica cagado. Se você sobreviver até lá.
    Melhor ainda, crie um “grupo de controle”, digamos um sanduíche de 7 dias na geladeira. Comendo vários sandubas nas duas circunstâncias permite você responder a questão se 1: ele não nunca é comestível em 7 dias ou 2: ele não é comestível em 7 dias SE você deixar ele largado no carro.
    As possibilidades são ilimitadas, você poderia até avaliar qual o dia mágico que separa um sanduba bom de um ruim.

    Por fim, RIP in peace é redundante… imagino que você esteja trollando propositalmente com essa…

  8. Obrigada por constatar e provar a gente que comer um sanduíche com uma semana no carro faz mal..
    Mas te garanto que no calor do Brasil esse sanduba com uma semana fermentado no carro já estaria bem verde!
    E eu que passo mal só de comer qualquer coisa feia a noite com muita gordura ja teria passado mal muito antes de vc!

  9. Muito lindo Izzy ter essa coragem no inverno do Canadá, onde a temperatura média dessa uma semana deve ter sido mais frio do que o congelador da esmaltec da sua cozinha. Duvido você ter tido essa coragem toda seu cabra da peste, se ainda morasse aqui no Ceará no auge do verão e deixasse o seu caiduro com ovo e “Maonese” escorregar em baixo do banco de seu Maverick 78 de 4 cilindros e sem ar-condicionado. Aí sim seria uma experiência digna do maior de todos os cientistas cabeça-chata e deixaria até o finado seu Lunga orgulhoso pela brutalidade da coragem.

  10. Mas voce nao estaciona seu carro em um surface parking? Como fez muito frio na ultima semana, seu sanduiche nao deveria estar beleza?

    Moral da historia: LOL!

  11. ”rip in peace” sertinho isso daí.
    você fez errado ao esquentar no microondas. isso deve etr matado uns 2/3 das bactérias que tavam ali

  12. Izzy, que coisa mais idiota, kkkkk. Rindo muito de vc. Agora, já experimentou maionese? Sinceramente, nego fala que faz mal, que tem vermes e tal.
    Frescura, cara. Maionese, se tiver na jeladeira, dura uns quinhentos anos. Já no carro, daí sei não…
    Aqui em casa, o povo tem mania de comer coisas de uma semana (pão, feijão, arroz) mas tudo na jeladeira, por isso que ninguém morreu ainda kkkk.
    Parabéns pelo post, rapaz.

  13. Dentista não é doutor e nem médico é doutor. Doutor é só quem tem doutorado. Minha irmã, que é médico, chega falou isso certa vez.

    Porém, como ninguém segue as regras, acho que dá pra chamar qualquer um que veste roupa branca de doutor, até o pessoal do terreiro.

  14. Acompanhei toda a saga do sanduíche pelo Tuíter e finalmente vim ler aqui.
    Em nome da ciência (, bitch!), segue minha reação ao texto:

    “Carai, desde janeiro que eu tô adiando essa porra?! o_O”
    -BÁRBARO, Arthur (2015)

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