O dia em que eu me fodi, parte 3

Amarrado na maca com o cilindro de óxido nitroso entre as pernas e o tubo na boca, fui empurrado na calçada em direção à ambulância. A namorada seguia de perto, trazendo minhas tralhas nos braços (calças, camiseta, tênis e celular). Meu irmão a seguia, recapitulando o acontecido pra menina ainda meio desinformada.

Os paramédicos abriram as portas traseiras da ambulância e ergueram a maca, empurrando-a em direção ao interior do veículo. As hastes da maca se retrairam à medida que a maca adentrava a ambulância. A namorada fez menção de me acompanhar, mas um dos paramédicos interviu e explicou que ela precisava ir sentada na frente. Ela obedeceu.

Era a minha primeira vez dentro de uma amulância. Eu tinha uma experiência superficial com o ambiente, advinda dos filmes. Uma porrada de instrumentos médicos povoavam o interior o veículo – reconheci um desfibrilador portátil, aparelho que fui treinado a usar no trabalho. O desfibrilador estava montado numa base retrátil, que podia ser puxada pra fora pra coloca-lo mais próximo do paciente.

Havia um monte de gavetas cobrindo toda a área intera do negócio. Pra onde eu olhava, havia uma gaveta. Jeff abriu uma dessas, e puxou um pacotinho plástico. Havia uma mera semelhança com um embrulho de doce, e lembrei-me de quando eu ia no dentista e o cara me dava um pirulito.

Jeff não tinha um pirulito pra mim. Ele rasgou a embalagem e revelou um cáteter. Sua mão mergulhou na gaveta novamente, e voltou à minha vista com outro pacotinho. Ele rasgou o novo embrulho, e seu conteúdo era aquilo que é tão universalmente odiado quanto pizza de atum ou Hitler:

Uma seringa. A visão do instrumento odiável enviou calafrios à minha espinha.

Habilmente, Jeff descartou os dois pacotinhos plásticos num receptáculo marcado com o símbolo que indica dejeto hospitalar. Com a mão livre, ele depositou a seringa e o cáteter num banco ao lado.

Sob a névoa do gás, perguntei “…seringa pra que?”

Jeff agora se inclinava por cima de mim, tentando alcançar uma gaveta próxima ao teto da ambulância. Ergui um pouco o pescoço e pude ver que ele estava aparentemente procurando alguma coisa entre o conteúdo da gaveta.

“O problema do gás do riso” explicou Jeff “é que o efeito dele é muito fraco, e a pessoa adquire tolerância rapidamente. Daqui a pouco o efeito sedativo dele vai passar, e suas costas vão doer mais do que estavam doendo antes. E não queremos isso, né?”

Estranhei o tom teatral dele. Imaginei que na faculdade, os caras são instruídos a manter tom informal e amigável com o paciente, pra inspirar confiança e acalmar os acidentados.

Jeff puxou alguma coisa de dentro da gaveta, e eu não consegui ver o que era por causa do ângulo. Ele fechou a gaveta e sentou-se novamente no banco. Aí ele olhou pro objeto em sua mão, se inclinou em direção a mim e o estendeu-o diante dos meus olhos. Era um vidrinho de uns quatro centímetros de comprimento, com lacre metálico em cima.

“É aí que isso aqui entra”.

“Que é isso?” perguntei curioso. Jeff não estava brincando, dava pra notar que os efeitos do gás estava realmente passando. E rápido.

“É um sedativo um pouco mais forte. Ele vai te deixar um pouco tonto e menos alerto ao mundo ao seu redor, mas eu poderia derrubar uma bigorna na sua canela e você não vai sentir nada”.

E sem perder muito tempo, Jeff removeu a proteção plástica do catéter, exibindo a parte pontuda. Ele produziu um algodão do nada e começou a desinfetar as costas da minha mão.

Eu queria protestar o uso da injeção, mas eu não sabia o que dizer. Não queria dar uma de frouxo, mas porra, eu já estava todo fodido. Tive que ser resgatado pelo 911 por ter caído da cama. Todos os meus vizinhos me viram sendo levado pro hospital de cuecas, e eles sabem o motivo. Minhas costas estavam doendo como nunca nenhuma parte do meu corpo doeu. Precisava me furar também?

“Mas precisa mesmo?” perguntei temeroso e tentando não transparecer minha mariquice.

“Bom” respondeu Jeff num tom que indicou que minha tentativa foi falha “o efeito do gás vai passar. E quando chegarmos no hospital, você não vai poder ficar andando por lá com o tubo. Vai ter que ser intravenoso mesmo. Relaxa, nem dói”.

Whatever, pensei enquanto ele terminava de desinfetar as costas da minha mão. Olhei pro outro lado enquanto ele enfiava o catéter na minha mão. A sensação de um objeto estranho adentrando a pele não é exatamente dolorosa, é mais é agoniante.

O paramédico em seguida afixou o catéter na minha mão com fita adesiva. Ele então meteu a seringa no vidrinho, sugou uma quantia que julgou suficiente, e deu tapinhas no vidro.

“Ahahaha, igual nos filmes” falei pra mim mesmo em voz alta.

“É pra remover o ar”, explicou o Jeff. E depois conectou a agulha com a saída do catéter, e empurrou o êmbolo.

Cinco segundos depois senti o alívio. Aliás, o alívio foi tão grande que eu tive a impressão de que iria me borrar/mijar todo se não me segurasse. Minha cabeça pendeu pro lado, e eu senti sono. Jeff apanhou o cilindro do gás e o depositou em outra gaveta. Depois descartou a seringa no mesmo lugar onde havia jogado as embalagens.

Olhei pro cáteter. Apertei a pele na área onde o tubinho entrava na minha mão; era estranho sentir aquele troço embaixo da minha pele.

Notei os adesivos que o maluco usou pra firmar o cáteter no lugar. Imaginei o quão doeria pra arrancar aquela porra, que invariavelmente levaria junto todos os pelinhos da minha mão. Pra testar a aderência do negócio e ter uma idéia de quão dolorosa seria sua remoção, arranquei as beiradinhas.

“Izzy, pare de mexer no negócio!” veio a voz da namorada, que estava sentada na frente da ambulância. Eu havia até esquecido que ela estava lá.

“Como é que você está me vendo?”

Jeff apontou pra um círculo plástico afixado acima das portas traseiras da ambulância. Um círculo composto pelo que parecia várias LEDs adornava a circunferência do negócio.

“Tá vendo aquilo? É uma câmera, tem um monitorzinho lá na frente, pra eles saberem o que acontece aqui e tal”.

“Hmmm.”

“Pare de arrancar o negócio!” repetiu a namorada. Ouvi-a dizer pro motorista que eu era “igual criança”.

Deixei o adesivo em paz. Quando essa porra tiver que sair, pensei, foda-se. Vai com cabelo e tudo mesmo.

Poucos minutos após isso, chegamos no hospital.

Continua no próximo episódio

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comments

91 comments

  1. Putz, você também tem medo de agulha? Achei que eu fosse o único nesse mundo.

    E achei que fosse ter mais. :/
    Quando chega a parte 4?

  2. Porra Kid, mais de 3 partes? Só pra tu não ficar sem assunto no blog =p

    Pelo menos tenta não demorar, pra vermos logo o final dessa sua saga enferma de dor e sofrimento.

  3. Parte 4? Vai se foder, Kid. :/

    Acho que sei como você se sentiu quando recebeu a agulhada, já recebi uma dessas também, só que na endoscopia. :S

  4. Conta aqui para nós.

    Pelo menos agora você aprendeu, depois desta saga inteira, a arrumar a cama direito sem risco de sofrer um atentado terrorista ocasionado pelos lençóis?

  5. iuahIUAHiuaHUIAHuia
    Muito bom!!!!
    AIhaiuHAIu

    E aí Kid… Tem alguma idéia de em quantas partes serão? Apesar que o suspense é mais divertido…
    aiuHAIUha

    =DD

  6. Eram pra ser 2 partes, aumentou pra 4 (por enquanto). A criatividade acabou ou é falta de assunto mesmo? Ah, esqueci: vc agora é um adulto produtivo que tem que sustentar a casa, a esposa e os vícios.

  7. Que frustrante, três posts enormes para contar uma experiência bizarra de um paraíba que caiu da cama. Ainda por cima revelar que tem medo de agulha, que viadagem…

  8. Kid…It’s like a child!…D’OH!!!

    Nunca tomei sedativo forte assim…q me lembre, mas já “bebi” de ficar sedado assim…ñ recomendo! Ñ é a toa q tem gente q fica viciada nisso…Is this the painkiller?

  9. Minha Bisavó acordou de madrugada e sentou errado na cama. Resultado: Caiu e quebrou o braço;
    Agora vc não é o único. Você e minha Bisavó de 90 anos!!

  10. Porra, eu não era muito chegado em agulhas também, mas ai uma combinação de coca-cola + café + computador -- exercícios me premiou com uma pedra no rim, todo dia ia ao hospital uma ou duas vezes tomar uma injeção pra dor, minha tolerância a dor aumentou muito depois disso, então é só você cair da cama mais umas cinco ou seis vezes você se acostuma.

  11. “As hastes da maca se retrairam à medida que a maca adentrava a ambulância.”

    vc tem certeza absoluta que isso aocnteceu mas duvido que tenha prestado atenção nisso estando de cuecas em uma maca entrando em uma ambulancia com todo mundo te olhando com akela cara “que maneh…” hehehe

    votei lah no tchananã. keremos post das patricinhas escrotas. flw!

  12. Poxa, tomara que essa história tenha um final trágico, tipo, os médicos erraram e tiveram q decepar as pernas e uma bola do saco do Kid.

    Estou torcendo!!! =D

  13. esse negócio de dividir o post em 3000000 partes é bem cansativo ¬¬

    e só pra constar, eu gosto de pizza de atum (muito) e não tenho o menor problema com seringas. seu menininha.

    abrass

  14. A galera ta achando que são aquelas agulhas ridículas que todo mundo conhece.
    Essas agulhas que o KId chamou de catéter são bem mais grossas e de plástico, do tipo que deixa um rombo qdo tira. Essas sim são foda, ja passei por tratamento quimioterápico, então pra mim agulhas são mesma coisa que nada 🙂

    E porra KID história gigante , qdo termina essa Decalogia?

  15. EOIEIOUHEIOUHEIHEPIO ela eh tua namorada ou tua mae?
    lembro qndo tava removendo minha apêndice, eu acordei no meio da cirurgia, o médico botou um tubo na minha fuça e dormi denovo em 2 segundos, acordei numa sala perdida no meio do hospital
    é o demo!
    e q bosta einh kid, n demora tanto pa botar o prox epi xD

  16. @Thitok

    Exato, quem já levou agulhada de cateter conhece o drama, é um plástico afiado e grosso e tão, não é apenas agulhinha. Devia ter deixado isso claro.

  17. o CCCC já apareceu falando q vc vai morrer d tanta agulha no cu?

    é errado dizer “Imaginei o quão doeria pra arrancar ”
    ou é ‘o quão doloroso seria’ ou ‘o quanto doeria’..

    e pq o cara injetou na mão? dói mais q no braço..

    q comentário insuportável o meu.. mas é q achei chatinho esse texto..

  18. Porra, Kid! Tu é brasileiro mesmo, hein? Vê que uma coisa faz sucesso e começa logo a enrolar… Parte 4, 5, 6, 30…

    As patricinhas que o digam! =P

  19. a histórinha eh bem grande… quando sai a parte 4?

    a… lembrei de uma coisa, vc sabia q o oxido nitroso (n2o) eh tambem o mesmo gas utilizado no nitro! (tipo do need for speed)

  20. Aproveite e passe as proximas duas semanas agradecendo ao seu pai por ele ter te tirado do Brasil, ai sim é que seria “o dia que eu me fodi e morri de infecção hospitalar” ou “o dia que eu me fodi e perdi os dois braços por erro médico”

  21. confesso q fiquei com vontade de parar de ler em “num banco ao lado.” mas a expectativa de vir algo q me fizesse rir assim como nas partes anteriores foi maior…

    li ateh o final mas sinceramente naum ficou tao bom qto os anteriores… parece q vc escreveu com pressa esse…

    esbocei um leve levantar de sobrancelhas… nada mais..

    em todo caso parabens…continue assim fera..

  22. Cara,adoro seu blog=D.Vc podia fazer um time-lapse(sei lá como se escreve)de vc fazendo um texto qualquer.Assim os vagabundos q leem isso sabem o quanto demora pra escrever um texto

  23. “Ai eu encontrei um médico escroto que mancava de uma perna e carregava uma muleta.

    Acho que se chamava House.

    O filho da puta descobriu que sofro de tripanossomíase africana e que terei de tomar 20mg de melarsoprol todos os dias.

    Fim.”

  24. Na verdade isso tah parecendo é joão kleber, conta a história aos pouquinhos pra garantir audiência por mais tempo…. rsrsrsrs
    Acompanho seu blog a uns 5 anos e acho que é a primeira vez q comento. Essa espera tá realmente me tirando do sério.

    Parabéns pelo seu blog.

  25. Po ta parecendo aqueles folhetins que era publicados no séc XIX.
    Cada semana era um capítulo, depois eles editavam e publicavam como um livro.
    Pelo tamanho que ta ficando num duvido nada que sua história vira um livro Kid
    “Como NÃO arrumar uma cama”

  26. Tá virando programa de barraco essa história do dia que vc se fudeu, mó decada pra escrever tudo, só falta parar pra fazer anúncio dos patrocinadores antes da próxima parte =P

  27. Véio, não tem NADA a ver com o POST, mas acabei de ler alguns posts seus sobre games e tal… Cara, foi MUITO nostálgico. Primeiro porque em 96 eu tinha um Pentium 166 (arregacei seu pai!) com 32 de RAM (perdi pro véio).
    Me diverti MUITO com Alley Cat (tinha um XT antes, aposto q vc NUNCA teve o tesão de jogar ele em tons de verde RÁ), depois Duke Nukem 3D, Warcraft 2 (Na minha opinião, obra prima até hoje), Prince of Persia…
    Mas o que me chamou MESMO a atenção no seu post foi a menção a obras prima que NINGUÉM que eu conheço teve o prazer de jogar e PIOR, NINGUEM mais faz jogos com tamanha simplicidade e desafio: The INcredible Machine (também conhecido por TIM, devido a sua localização no DOS: c:gamesTIM) e SETTLERS 2.
    Obras primas que nenhum GTA IV consegue atingir em jogabilidade e diversão por horas e horas…
    hehe

    Ah!
    Uma dica
    Settlers 2 tem remake pra computadores modernos… Chama-se Settlers 10th anniversary. É Settlers clássico, mas com gráficos melhorados.

    Abração!

  28. Nossa, tudo isso por que você caiu da cama?? Vou procurar a parte 2 e a 1..
    Eu também odeio injeção, mas como sou mulher, posso ser fresca (=D) e desmaiei quando fui tomar a segunda injeção pra alergia…

    fuiz..

  29. Que que c tem na costas cara?
    e se tu achou uma injeçãozinha a toa na veia ruim, imagina se tu tomasse uma raqui na espinha, hein?

  30. Decidi não confiar mais na veracidade da sua narrativa assim que vc descreveu a experiência de colocar um cateter como agoniante.
    Quando eu tive cólicas renais (acredite, parece que existem pequenas criaturinhas nas suas entranhas brincando de te arregaçar com canivetes) eu quase arranquei a seringa da mão do cara e injetei eu mesma pra passar logo a dor.

  31. Kid, se você não parar com esse negócio de “Continua no próximo episódio”, eu chamo o titio Jason Voorhees pra te dar uma lição. Sério.

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