O ex-evangélico e as três categorias de filmes de terror

Eu quero compartilhar com vocês a taxonomia que eu emprego pra classificar filmes de terror/horror.
A propósito, eu sei que vocês gostam de falar que Terror é (blá blá blá) e Horror é diferente porque (blá blá blá) mas se você parar pra pensar essas definições não são inerentes à semântica das palavras e sim definições completamente arbitrárias, então foda-se, PRA MIM terror e horror são sinônimos. Pelo menos pro propósito deste texto.

Então. Eu considero filmes de terror/horror em 3 categorias:

1) O terror “real”

Nesta categoria estão os filmes de terror/horror que realmente poderiam acontecer no mundo tridimensional em que vivemos. Desconsiderando a extrema implausibilidade de alguns cenários cinematográficos (como o do Sawverse, ou “universo de Jogos Mortais” no nosso português), aqui eu incluo os filmes que envolvem um assassino em série ou… Pensando bem, os filmes de terror “real” todos envolvem assassinos em série. É o único cenário realístico de terror.

Se você parar pra pensar, em Tubarão o personagem titular era um assassino em série também — embora um elasmobranco e não um humano — então entra nessa categoria merecidamente. Digamos que todos os filmes de terror de monstros que poderiam plausivelmente existir no mundo real entram nessa categoria.

Essas coisas causam medo JUSTAMENTE porque é possível nos vermos naquelas situações. Voltando ao Tubarão, lembra a primeira vez que você foi à praia após assistir o filme…? Porra, o efeito é tão intenso que há quem sinta angústia relembrando o filme até quando nada numa piscina!

As aspas no “real” é porque real aqui neste contexto é apenas um antônimo de “sobrenatural”, ou seja — sem elementos metafísicos. Alienígenas sedentos de sangue, pros fins de categorização dessa lista, são um terror “real” (no sentido de que sua existência não desafiaria o que compreendemos sobre as propriedades físicas da nossa realidade).

Exemplos: a série Jogos Mortais, Turistas, O Massacre da Serra Elétrica, Tubarão, Alien (em sua essência é um Tubarão no espaço — um animal aniquilando humanos e evadindo captura).

2) O terror sobrenatural

Aqui entra o tipo de terror que NÃO poderia acontecer no nosso mundo (vamos considerar aqui que todos concordamos que fantasmas e tipos similares de manifestações ectoplásmicas não existem).

Essa categoria abrange monstros míticos, cemitérios indígenas capazes de ressureição, fantasma/assombrações, esse tipo de coisa. Estes elementos causam medo não porque acreditamos de fato nelas, mas sim porque os sons e imagens nesse tipo de filme ativam áreas bem primitivas do nosso cérebro reptiliano. Todos sabemos que são situações em que você nunca se encontrará mas dá medo do mesmo jeito.
(É por isso, a propósito, que é possível a ateus e outros descrentes no sobrenatural ainda ter medo de filmes que o evocam como antagonista)

Exemplos: Atividade Paranormal, Silent Hill, quase tudo do Stephen King, A Hora do Pesadelo, O Chamado, O Sexto Sentido, e por aí vai.

E agora chegamos no meu estilo de terror favorito…

3) O terror satânico 

Este é meu tipo favorito de terror, por motivos psicológicos bem interessantes. Este é o tipo de terror cujos antagonistas sobrenaturais não são apenas monstros ou fantasmas — são essencialmente demônios, às vezes interpretados como antigas divindades mesopotâmicas ou coisa similar.

Nesses filmes há geralmente algum tipo de rituais bem definido com base na religião judaica-cristã, símbolos arcanos, uma sociedade secreta que cultua o Coisa-Ruim, um personagem pertencente ao clero que entende sobre demonismos e satanices que dá um contexto maior sobre o fenômeno, e por aí vai. Curiosamente, esses filmes geralmente não tem final feliz — o que faz sentido, porque o tom destes é mais sério e sombrio.

Exemplos: O Exorcista (e todo filme de exorcismo, na real), O Último Portal, A Entidade, O Bebê de Rosemary.

A principal característica do terror satânico é que, se você teve a mesma criação que eu, ele pertencia simultaneamente ao terror sobrenatural e ao terror “real”. É sobrenatural porque envolve forças além-mundo, e é “real” porque houve uma época em que eu acreditava firmemente em sua existência.

É assim. Convivi toda a minha infância e adolescência num lar evangélico pentecostal. A inclinação dogmática da igreja que minha família frequentava era uma bastante popular no meio evangélico no final dos anos 80 e começo dos 90 (talvez até hoje?): a firme crença de que há demônios (e seus agentes humanos) por toda parte, prontos para te causar o mal.

A paranóia era tão absurda e exagerada quanto você está imaginando. Sabe como nos filmes de terror satânico geralmente há um símbolo relacionado ao demônio em questão, que causa angústia nos personagens principais e/ou contribui para a invocação do capiroto?

Igual nesses filmes

Não sei se vocês manjam, mas essa angústia/medo de símbolos arcanos — por crer que eles carregam algum poder espiritual — é real no meio evangélico.

Durante os anos 90 eram muito comuns apostilas que identificavam “símbolos da Nova Era”; esse tipo de literatura era vendida em igrejas com o propósito de ensinar os cristãos que símbolos evitar, porque aparentemente ter em casa algum produto com esses símbolos dava uma espécie de “direito” aos demônios a mexer com a sua família.

Eram assim as tais apostilas. Alguns evangélicos não gostavam nem de manusear os materiais, tamanha era a crença no poder dos símbolos.

Aliás, este é o motivo pelo qual muitos cristãos se opõem a filmes de terror: muitas vezes ocorre uso de simbologia real nesses filmes, e eles preferem evitar esse tipo de influência.

E sim, existe todo um dogma de “legalismo espiritual” do qual já falei aqui. Várias denominações evangélicas de fato pregam que desavisadamente permitir a entrada de certos símbolos na sua casa dá “direito” aos demônios de atacar sua família. Sabe o trecho de A Entidade em que um personagem mostra que os antigos símbolos do demônio do filme foram parcialmente destruídos por cristãos de séculos atrás…? Então.

Esse tipo de dogma explodiu no meio cristão americano nos anos 80, por causa de uma autora chamada Rebecca Brown. Ela escreveu um livro chamado “Ele Veio Para Libertar Os Cativos”, em que estabelecia toda essa network demoníaca passeando pra lá e pra cá, causando intervenções caso você tenha dado “direito” a eles pra isso (rola até demônio estuprando mulher nesse livro, é tenso mesmo)

Acabo de descobrir que saiu até HQ do livro dela, e olha que bosta essa ilustração

O livro da Brown inspirou outras obras cristãs, como o best seller “Este Mundo Tenebroso” de Frank Peretti — que serviu pra solidificar na comunidade evangélica a idéia de demônios dividindo o planeta terra conosco (e batalhando anjos ao nosso redor sem nosso conhecimento), de seitas satanicas conspirando pra enluciferizar o mundo através do estabelecimento de religiões falsas, como a tal Nova Era e seus símbolos.

Era uma época mágica pra ir à igreja, meu amigo. Eu me sentia um protagonista de uma campanha de Dungeons and Dragons. Magia, símbolos arcanos, demônios por toda parte, versos sagrados pra recitar e gerar um campo de força mágico espiritual ao meu redor… até ir buscar um copo dagua na cozinha à noite era uma aventura.

Diga-se de passagem, o tipo de dogma oferecido pela Rebecca Brown não era unanimidade, não — havia quem a acusasse de perverter completamente a mensagem bíblica.

Talvez por causa do medo extremo que essas coisas provocavam quando eu era mais novo, terror satânico acabou se tornando meu tipo favorito de terror. Qual o seu filme favorito de terror satânico?

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comments

20 comments

  1. Hoje em dia tenho 20 anos e sou ateia. Mas quanto tinha lá meus 15 anos era viciada em ler sobre conspirações e acreditava em nova ordem mundial e tudo. Qualquer noticia da mídia era um medo constante de nominação mundial. E li esse blog aqui http://danizudo.blogspot.com.br/ que até hoje tem tudo que é conspiração. Dai uma olhadinha ai que e olha quanta maluquice.

  2. Gosto mais de filmes de fantasmas, porque me parecem mais possíveis e me dão mais medo. Filmes de demônio são muito ridículos e eu acho graça deles.

  3. Horror Real
    Frontiers, Haute Tension, A’Linterieur, Martyrs, Batoru royaru, the Devil’s Rejects, the Thing (se alien pode, então :D…)

    Sobrenatural
    Amityville Horror (original), Shutter, Ju-on, Ringu, Chakushin Ari, Honogurai mizu no soko kara, Poltergeist, the Haunting (91).

    Demoniacos
    Noroi, Demoni(85), Evil Dead Trilogy.

  4. “A principal característica do terror satânico é que, se você teve a mesma criação que eu”

    Acho que nesse caso a pessoa não precisa ser evangelica, afinal, 99% da criançada (e em grande parte, adolescentes) acredita em fantasmas, demonios, etc.

    Talvez a diferença seja a de que os evangelicos tem, de fato medo disso, enquanto quem não é, acredita, mas acha é graça e se fosse possivel até fariam um pacto com o diabo só pra ver como é.

    Quando eu era a criança a molecada adorava essas coisas. Parecia que todo mundo era satanista.

  5. Cresci numa família bastante católica mas quando era criança eu queria ver fantasmas pra ter certeza que a vida eterna era real.
    E eu sempre tive muito medo de ETs.

    “But who shall dwell in these Worlds if they be inhabited?
    . . . Are we or they Lords of the World? . . . And
    how are all things made for man?”
    Kepler (quoted in “The Anatomy of Melancholy”).

  6. O gênero ‘terror real’ é o único que eu gosto, o único que funciona plenamente em sua função: provocar sensações de medo, tensão, aflição. Os outros no máximo dão sustos, e isso é irritante pois se o susto é o melhor efeito do filme, imagine a qualidade do resto.

    Mas eu, por questões particulares, coloco nesse gênero qualquer filme que não se apoie em efeitos especiais ou maquiagens monstrengas… logo filmes de fantasma que primam pela elegância da sutilidade também me causam medo e tensão, como “Os Outros”. “O Bebê de Rosemary” também. Filmes que insinuam, ao invés de mostrar. Tudo terror REAL!!! =P

    Mas me mostre um fantasma que é uma sombra branca esfumaçada, ou um monstro deformado e eu terei bocejos.

    Minha dica é o filme Martyrs. Pra mim a grande qualidade desse filme é que mesmo eu não gostando do tipo – é recheado de cenas de tortura, violência, crueldade e sangue – ele me fez gostar dele! Pois tudo é justificado… e ainda quando você pensa que a história tá chegando ao fim, um novo fato abre a porta para uma nova continuidade da trama. Não dá pra imaginar onde vai parar e o porquê de tudo aquilo que vc tá assistindo. Mas ele chega lá. E penso que o final pode agradar de religiosos a ateus, pois nele se pode colocar diferentes interpretações.

  7. Izzy,
    O filme Atividade Paranormal (o primeiro claro) causou esse ‘confusão’ toda que narrou no seu excelente texto; e fiquei uns dois dias estranho por causa disso, mesmo não acreditando nessas paradas todas.

    Mas o filme que mais gosto é O Ritual, ver Anthony Hopkins gritando ‘Baaaaallll’ é sensacional.

    Não cito Exorcista entre outros porque são clássicos

  8. O meu favorito é O Exorcista, vi ainda criança e me causava um medo incrível.
    Em relação a religião, eu era uma Testemunha de Jeová, e eles não dizem abertamente, mas creem em influências demoníacas. Quando eu me afastei da religião (sou ateu atualmente) eles vinham falar comigo sugerindo que a música que eu escuto (rock e metal em geral) estava atraindo demônios, citando relatos e tudo o mais.

  9. Izzy,
    só adicionaria uma categoria que pode ocorrer nas 3 classificações:

    “Filme-que-a-criancinha-é-do-mal”

    São os que mais me dão sustos 🙂

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