O fenômeno do bike lanche

Como já mencionei aqui algums vezes, eu cursei Bacharelado de Física na Universidade Federal do Maranhão — em boa parte inspirado pela minha tia, aliás, que é uma cientista foda da área. Naquela época, eu sobrevivi graças à inventividade e empreendedorismo de jovens da região que uniram a habilidade de algum conhecido (talvez eles mesmos?) de preparar quitutes, com a mobilidade de baixo custo de uma bicicleta parcelada em 76 vezes nas Casas Bahia: o fantástico bike lanche.

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Por causa dos anos anos em que estudei na UFMA, a visão de um bike lanchista (bike lancheiro?) era um disparador psicológico de emoções intensas de alívio e felicidade. Tal qual o cachorro de Pavlov, que salivava ao ouvir uma campainha, se eu vejo hoje um sujeito levando uma caixa na garupa de uma bicicleta eu fico instantaneamente com água na boca.

De acordo com o Google Imagens, existiam bem mais metodologias diferentes para o bike lanche do que eu conhecia. A estrutura que eu frequentemente via lá na UFMA era sempre uma combinação de “vitrine” com salgadinhos na frente (uma versão miniaturizada das que vemos em padarias e coisas do tipo).

Os bike lanchers da região ficavam ali orbitando o Centro Tecnológico da faculdade, a espreita dos estudantes com pouco dinheiro mas muita fome. O rapaz parava a bicicleta/lanchonete ali na frente do CT e esperava os alunos esfomeados cercar sua bicicleta. Era realmente outra época — com 50 centavos você comprava um pastel E um copo de suco de maracujá. Mesmo pros padrões low budget da confecção daqueles salgadinhos caseiros, é de espantar que custasse tão pouco. Os early 2000’s eram realmente outro mundo.

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Havia um sujeito que praticava o bike lanche também lá na frente da Aço Maranhão, uma empresa de distribuição de aço onde trabalhei no Brasil — só que não era a mesma coisa. Acho que a diferença crucial é que na época, como eu já trabalhava, tinha acesso a mais dinheiro. Eu podia comer onde quisesse, quando quisesse, sem precisar depender da opção de baixo orçamento. Se o bike lanche atrasasse lá no serviço, eu ia na padaria no outro quarteirão. E às vezes ia mesmo que ele não atrasasse.

Mas na UFMA? Tendo no bolso 70 centavos e talvez um vale-transporte (que eles também aceitável, diga-se de passagem — na periferia da capital maranhense, como imagino que em muitas outras do nosso país, vale-transporte eram um papel-moeda paralelo), o bike lanche fazia a diferença entre uma existência relativamente confortável e a agonia de só comer quando chegasse em casa 6 ou 7 horas mais tarde.

A inventividade do bike lanche não chegou aqui nas terras do norte. Talvez porque o clima não é propício a bicicletas por quase metade do ano, talvez porque gringos não são exatamente super chegados em soluções low budget de comida. Pros norte americanos, comida low budget é um McDonalds da vida; já os pé-sujo onde eu comia no Brasil (por exemplo, lanchonete de terminal de ônibus onde moscas voavam sem cerimônia dentro da própria “vitrine” das coxinhas e pasteis”) chocariam minha esposa.

Um dos nomes a que se convencionou chamar esse tipo de estabelecimento no Brasil é “podrão”; a RAFAEL LANCHES ali do terminal da Lagoa (onde este texto aconteceu, aliás) fazia jus a esse nome.

Que saudade do bike lanche.

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comments

11 comments

  1. “Os early 2000’s eram realmente outro mundo.”

    Saudade, eu comprava três pães de queijo por um real, e cada pão de queijo mais ou menos do tamanho da minha mão, ainda quentinho.

    E, a propósito, tá faltanado um pedaço do teu texto, mah :V

  2. Izzy, separa um tempo e relê com calma o teu texto. Você cometeu uns errinhos de concordância e esqueceu de terminar uma frase. Mas sabe que to pensando em aderir a ideiade fazer minha própria franquia bike lanche?

  3. Lembro na época de colégio tinha um carrinho que parava lá na frente com Pastel de queijo com leite moça e açúcar com 1 copo de coca por R$ 1,50.
    Não sei como não sou diabético hoje, sinto saudades até hoje.

  4. Mano, o bike lanche da UFMA se profissionalizou e a reitoria construiu um quiosque entre o CCH e o CCET para servir estas deliciosas iguarias. E no cenário atual você consegue comer com um suco por 3 conto. Um momento quase obrigatório na vida do homem maranhense é comer no bike lanche que fica na porta do alistamento do exército, que diga-se de passagem, não há outros estabelecimentos alimentícios por perto. Bons tempos.

  5. Bikelanches é um fenômeno cultural maranhense. As pessoas sempre ficam alegres quando percebem a chegada de um representante da classe por perto. Minha patota do RPG era cliente de um senhor que apelidamos de Lancheman que nos oferecia iguarias salgadas e um copo de suco ou acabacatada por 2,50. O Izzy com certeza comia a chamada Bamba que é uma parada feita com massa de trigo vencida com pedaços de apresentados, frutas em óleo reotilizado 200x. Aposto que tu comeu um negócio desse no CSU no dia do teu alistamento.

    Quanto as bicicletas, elas eram compradas no Armazém Paraíba já que casas Bahias só chegou aquivo maranhão por volta de 2014.

    1. Correções: o nome do saldado é Bomba e não Bamba como acabei escrevendo; eu quis dizer que dentro da tal bomba tem apresuntado, o corretor trocou para apresentados; e a grafia correta é reutilizado.

  6. Agora tem umas bikelanche goumet, chamadas foodbike, em referência aos foodtrucks, que no brasil, por algum motivo, são “chiques” e “gourmet”.

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