O professor de religião

coitada

Eu não sei na escola de vocês, mas na minha havia havia uma claríssima hierarquia de professores.

No upper tier tínhamos os professores de matemática, física e química. Não bastasse as matérias serem universalmente desafiadoras (especialmente as duas primeiras, eu diria), os professores combinavam a dificuldade do material com uma atitude meio exigente. Às vezes dependentes de “favores” desses professores — aquele trabalhinho que rendia um ponto na prova, ou uma recuperação um pouco mais branda –, parecia que todo mundo tinha um misto de medo e respeito por estes mestres.

Aliás eu diria que 70% medo, 30% respeito. A zoeira MÁXIMA que a gente arriscava era a icônica e atemporal “mas professor quando é que eu vou usar isso na minha vida” durante uma aula sobre polinômios ou coisa assim. E em tom espirituoso, definitivamente sem intenção real de confronto, porque arriscava ouvir um “na sua próxima prova, porque ela vai ter SÓ POLINÔMIOS” pra aprender a deixar de ser otário.

Abaixo desses tínhamos os professores de português, geografia e biologia. Não que as matérias fossem exatamente fáceis, mas elas não eram as que nos davam mais medo — e por isso, não eram as aulas que requeriam prestar tooooda aquela atenção. Esses nossos professores adotavam aquele jeitão de “amigo da sala”. Contavam piadas, puniam alunos bagunceiros de forma não convencional (como jogar giz nos moleques; a proximidade dos alunos os faziam se dar a tais luxos sem medo de uma denúncia ao Conselho Tutelar), tornavam de uma maneira geral sua aula mais divertida.

Tive um professor de história que entrava nessa categoria, o Sampaio que dava aulas no falido e consequentemente extinto Colégio Evolutivo da Parangaba, em Fortaleza. Aliás RIP in piece Colégio Evolutivo, morreu TÃO bem morrido que nem foto no Google Imagens eu encontro.

Surpreendentemente, de acordo com o Google Street View a fachada continua lá a despeito da morte do colégio:

Expliquem-me isso, amigos de Fortaleza

Aliás, ao encontrar o colégio no Street View eu “atravessei a rua” virtualmente e me choquei ao ver que o que era outrora um terreno baldio desolado e habitado por mendigos e cheiradores de cola virou um impressionante shopping. Quando isso aconteceu?

Voltando à história. No mais baixo escalão dos professores tínhamos aqueles cujas matérias não apenas eram mais fáceis (sociologia, religião, educação física), mas também não metiam muita moral na sala. Talvez por serem novatos na profissão, ou por evitarem confronto, esses professores tinham pulso mole, e a sala inteira detectava isso MUITO rapidamente.

Professor molenga e aula fácil: era a combinação PERFEITA pra não levar aqueles 40-50 minutos a sério. E a história de hoje é sobre um desses professores.

Era o ano 2000 (meu deus como estou velho E PRÓXIMO DA MORTE, achei que seria jovem para sempre). Eu estava na Escola Dom Pedro II, praticamente uma instituição da classe média maranhense. Entra este nosso novo professor de religião, o… puta merda, eu realmente não lembro o nome real do cara. ACHO que começava com R. Embora seu nome de nascimento tenha sido esquecido pelas areias do tempo, a alcunha que ele ganhou entre a nossa turma viverá eternamente.

O tal professor R era gentil; talvez gentil demais. A galera sentiu no ar o cheiro da sua falta de disciplina para com a sala, e as conversas paralelas que são interrompidas momentaneamente quando o professor entrou na sala retomaram rumo. O volume das conversas paralelas, aliás, refletem o pulso fraco do instrutor — quanto mais bunda mole, menos cerimônia a gente fazia conversando no meio da aula dele.

Uma das poucas coisas que eu lembro sobre o professor R, além de suas pífias tentativas de salvar as almas daquele bando de filho da puta sem costume através de parábolas bíblias e momentos de oração pela desgraça africana du jour (um surto de malária, talvez?), é que ele tinha uma aparência meio indiana. Aqui no Canadá há muitos indianos, mas no Brasil (especialmente naquela época) era meio raro, então era algo bem notável na aparência do cara.

Pro seu azar, naquele mesmo período no Brasil esta música dominava as rádios:

Guarde isso na memória.

Então, como eu ia dizendo, as aulas do professor R mal podiam ser consideradas aulas. A galera era TÃO ousada em seu flagrante desinteresse pelo material que em uma ocasião uma turma literalmente virou as carteiras pra formar um pequeno círculo e jogaram dominó durante a aula toda. O R claramente viu este gritante desrespeito, esboçou uma leve melancolia, e continuou tentando nos ensinar sobre as parábolas de Cristo — e sem interromper o dominó, porque já mencionei que ele era totalmente frouxo? Poisé. Até eu fiquei constrangido pelo cara.

Numa aula seguinte o professor R pelo jeito resolveu exercer algum semblante de autoridade. Infelizmente, ele escolheu o pior alvo. Devia ter passado mais um tempinho examinando a fauna da nossa sala, pra que sua primeira tentativa de ganhar controle da classe fosse menos desperdiçado.

Um dos moleques mais zuões da sala estava fazendo sei lá o que, e o professor resolveu que era a hora de bater o pé no chão afinal porra, ele cursou quatro anos numa faculdade (eu acho. Sei lá se cobra-se isso de professor de religião)! Se ele merece uma cela especial, merecia também o respeito desse bando de adolescente feladaputa.

R chamou atenção do garoto, pedindo silêncio. O moleque mal educado respondeu tão rápido e sem titubeação (sem sequer a consideração de olhar na direção do professor) que imaginei que a réplica havia sido planejado a algum tempo:

“Peraí, KHALED”

khaled

Fig1: O cantor e multi-instrumentalista algeriano Khaled. Ou seria o professor R? Jamais saberemos.

Meu amigo, aqueles 1.7 segundos de silêncio enquanto a sala processava a nova e definitiva alcunha do professor pareceram intermináveis. A sala então explodiu em gargalhadas, e a falta de moral do professor estava cimentada com adamantium. O professor, um evangélico provavelmente bem reprimido em relação a “música secular” (qualquer tipo de música que não seja cantada em igreja, com a letra constando na Harpa Cristã), provavelmente não entendeu a referência ao cantor algeriano — mas certamente sabia que estava sendo a piada da galera.

Ninguém mais se referiu ao professor por NENHUM outro nome além de Khaled. Cês sabem como criança é com apelido, né.

Sinto vergonha alheia até hoje, 15 anos depois, quando lembro da cena da sala inteira se mijando de rir na cara do professor com total impunidade. Nem tentar parar as risadas ele tentou, tamanha foi a desmoralização do cara.

Coitado do Khaled, mano.

 

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comments

24 comments

  1. Eu também tive aulas de religião na escola nos longínquos anos de 1997 a 2002, quando subitamente deixou de ser uma disciplina presente na grade…

    A minha professora era uma senhorinha, beata ferrenha da igreja católica que nos repreendia, apenas, por brincar que o ocultismo era o único caminho a ser seguido.

    Uma pena saber que ela faleceu alguns anos depois atropelada por uma ambulância (quem disse que isso é o cúmulo da sorte hein?!)

  2. iuhaiuauhaiuhaiuhiuaha Ensino Religioso era realmente uma matéria de merda, junto com Educação Artística!

    Acho que cabe aqui contar um dos meus conflitos mais épicos: estava no terceiro ano e o prof era de química. Daqui em diante chamado de prof J. J era conhecido por tentar ser malandrílson e zoeiro, mas extremamente vagabundo. Não gostava de corrigir provas e nem fazer seminários, então dividia as avaliações em nos obrigar a fazer resumos de 3-4 capítulos do livro. A turma toda era composta por gatos barbados, todo mundo com 17-18 anos e nenhuma vontade de continuar em sala de aula.

    Excetuando os problemas óbvios de ensino, o que deixava nossa turma com raiva eram que as notas SEMPRE variavam entre 7,0-8,5. Ninguém tirava mais, ninguém tirava menos. Alguns colegas e eu formulamos a teoria que ele não lia, apenas dava a nota pela cara que fazíamos, portanto, nosso nobre colega Ronaldo(por sinal um cearense) resolveu fazer o seu resumo e incluir certas passagens quadrinísticas do Homem-Aranha.

    Os dois primeiros parágrafos eram sobre o assunto, mas os 4 seguintes eram um resumo das histórias do aracnídeo novaiorquino, seus inimigos, seus poderes, suas aventuras mais animadas. No fim do último parágrafo Ronaldo voltava para a boa e velha química. E assim ele entregou o resumo.

    Dois dias depois tivemos novamente aula que esse professor J. e ele entregou nossos resumos. Como sempre, as notas não variaram de 7,0-8,5. Ronaldo conseguiu um 7,0 e assim que vimos as notas todos começaram a rir. O professor J perguntou qual era o motivo dessa bagunça, e nós o confrontamos antes de dizer a razão:

    -Professor, o senhor realmente não lê esses resumos né? Coloca qualquer nota…
    -Que conversa é essa? Vocês estão muito engraçadinhos.
    -Professor, o senhor leu TODOS os resumos?
    -É claro que sim -- Nesse momento, Ronaldo se levanta e começa a ler seu resumo(que não lembro qual é o assunto, mas jogarei qualquer um aqui apenas para ilustrar)
    “Destilação fracionada é o processo de separação onde se utiliza uma coluna de fracionamento na qual é possível realizar a separação de diferentes componentes que apresentam propriedades químicas distintas, como o ponto de ebulição… O HOMEM-ARANHA É UM HERÓI QUE VIVE EM NOVA YORK. ELE TEM PODERES DE UMA ARANHA. SEUS PRINCIPAIS INIMIGOS SÃO O DOUTOR OCTOPUS, O DUENDE VERDE E O VENOM(…)”.

    Com a coragem de um espartano, Ronaldo leu um parágrafo inteiro sobre o Cabeça de Teia e terminou o resumo com a última frase sobre química.

    O professor J veio com os olhos esbugalhados, tomou o papel da mão de Ronaldo e leu para si. Confirmando o conteúdo da folha e vendo a nota que ele próprio colocara no resumo, ele nos olhou com o sangue em ebulição, balbuciou alguma coisa e decretou o fim da aula. Mas não teve coragem de alterar a nota de Ronaldo.

    Tivemos outros conflitos com ele, mas esse foi um dos mais memoráveis

    1. Mano, minha turma fez a mesma coisa com a professora de Geografia só que escrevemos uma receita de bolo.
      “A américa do sul possui um clima tropical e coloque três ovos, farinha, chocolate em pó…”

      Outra história que aconteceu foi durante uma prova de educação artistica. Nossa fila combinou com a fila ao lado de passar as provas pra frente a cada X minutos, assim o colega afrente respondia as perguntas que não sabíamos e vice-versa. O cara lá na frente da fila passava pro cara ao lado que por sua vez passava pra trás, etc.
      E tudo escrito à lápis pro coleguinha dono da prova poder escrever com a sua propria caligrafia.
      Como nos divertimos naquele dia…

      Ps: Mesmo com todo esse esquemão a maior nota foi 9. Teve aluno que mesmo assim tirou 7, é mole?

    2. Isso me lembrou uma passagem que um mito lendário que estudou comigo no ensino médio foi personagem. Era um gordo cheio de mitadas, teve uma prova de literatura com uma questão perguntando sobre qual era a diferença do realismo e do naturalismo. A gente pegou a prova dele escondido quando o professor entregou para a turma, e lá tinha: “O realismo são coisas naturais, fabulas, príncipes, princesas, realeza, enquanto o naturalismo são coisas naturais, arvores, arbustos, a natureza”. E incrivelmente o professor deu ponto nessa questão e a deixou como correta. A tecnica do gordo consistia em fazer uma letra ilégivel para que o professor tivesse preguiça de tentar ler a questão e só passar o sinal de certo na questão.

    3. Isso me lembrou as velhas listas de chamada, onde a gente assinava nomes como Clodvil Hernandez, Osma Bin Laden, Luke Skywalker, Homer Simpson, etc etc, e os professores nem percebiam. Saudade do ensino médio…

    4. Mano, JURO que aconteceu uma parada dessas na faculdade.

      Trabalha de Hidrologia e o cara mete um monte de palavrões pelo meio do trabalho.

      Coisa tipo: “Viscosidade do meu toba*”

      Passou com 8,5.

      Ninguém teve coragem de desmarcarar o professor porque ele dava aulas até o 10 periodo. Ninguém queria reprovar à toa.

      * Toba é gíria para cu.

  3. Ah cara… eu queria ter enfrentado mais certos professores.. mas eu era muito molenga. Lembro de uma vez, por volta da sexta série, não lembro por qual motivo mas houve uma discussão bem seria entre uma aluna e a professora mais bruxa velha que tínhamos na época. Até que a professora expulsou a aluna da sala e esta levantou e disse: com muito prazer eu saio da sua aula! E saiu. Agora imagine que legal se alguém (podia ter sido eu) se levanta em seguida e diz: eu também! E sai. E aí um a um os alunos vão se rebelando e dizendo eu também, eu também, e saindo, bem cena de filme… acredito que isso poderia acontecer porque aquela professora era muito odiável mesmo.

  4. Eu tive um professor de história que era a maior lenda do colégio, a pessoa com mais classe com quem eu já tive aula, respeitado por todos da sala, do mais nerd ao mais baderneiro, a aura de respeito que ele impunha aos seus alunos, colegas professores e a toda a escola era tremenda. Quando eu penso na palavra professor, eu lembro dele, por que ele é de fato um professor no significado da palavra, conseguia dar o assunto de sua aula excepcionalmente bem, conseguia dar atenção para todos os alunos quando eles precisavam e acima de tudo era uma autoridade quando entrava em sala. Por causa dele, pra mim, professores de história estariam no primeiro patamar citado.

    1. Também tive um professor assim de história. Ele estudou para padre mas conseguiu ver o tamanho da cagada e abandonou a tempo e começou a estudar história. Se formou e começou a lecionar na rede estadual/municipal da longinqua Videirs, SC.
      Seu nome era Sidney Rui, apesar da galera meio que tirar onda do jeito de padre dele falar, todos respeitavam ele pra caramba.
      Ps: até onde eu sei, ele namorava uma gostosa na época. 1996 isso.

  5. Evolutivo centro-sul que saudades haha. Ele ia ser o estacionamento pra esse shopping, Izzy. Mas tambem não sei o que ele faz la intocável ainda. Por acaso esse Prof. Sampaio é um louco pela Cearamor? Se for eu fui aluna dele no Farias Brito. Meus irmãos mais velhos que estudaram nesse colégio do post…
    Ah eu tive uma professora de religião que na verdade ensinava catolicismo. Era revoltante. Tivemos que fazer provas escritas sobre o sinal da cruz.

  6. O prédio do Evo centro-sul é de propriedade de uns padres, um lance assim, por isso que continua intocado. A maioria dos outros prédios já foram ocupados ou demolidos. E o shopping foi inaugurado em novembro de 2013 😀

  7. Ahw, essa história me lembra um professor de educação física. Ele não era nenhum molenga, mas teve uma vez…

    Estávamos no auditório da escola para uma aula dele. Não lembro do tema ou do porque estávamos lá. O espaço estava preenchido com duas grandes fileiras de cadeiras e um grande corredor central. Digamos que este meu professor nunca foi de arrancar suspiros das garotas e… ele realmente estava perdendo a paciência com a turma ali. Estava uma grande algazarra.

    Quando ele não aguentou mais, manda essa: “Ô galera, vamos parar com essa zorra aí, afinal eu não cheguei até aqui só por ser bonito!”

    Cara, depois dessa foi um laugh storm pela turminha. A galera ria com vontade, em alto e bom som. Um dos mais zoeiros da turma se jogou no chão, naquele corredor central, e simulou um ataque epilético enquanto gargalhava hard! Eu ri também, mas coitado do professor. 🙁

  8. Eu tinha uma professora de Quimica chamada Geralda, ela era meio idosa (suspeito ae uns 55+) e era banguela, só tinha um dente.

    Eu, o grande fila da puta mor da sala, carinhosamente a apelidei de:

    Geralda Chupa-Bife.

  9. Estudei no segundo grau (atual ensino médio) em uma escola técnica na cidade de Campinas, curso de quimica.

    Lá os professores mais zuados eram daquelas disciplinas sem sentido pra encher grade horária, tipo administração de empresas (WTF???), segurança no trabalho, desenho técnico, essas merdas todas.

    A aula mais zuada de todos os tempos de todos os lugares que passei foi a de segurança no trabalho. O cara era tão sem pulso que sua fama era lendária, uma turma contava pra outra e no primeiro dia de aula tudo já estava uma merda pro coitado (imagina colégio técnico, sala cheia de cueca adolescente revoltado).

    Pessoal saía correndo no meio da sala, jogaram um extintor uma vez dentro da sala DURANTE a aula, cara o negócio era pesado, mas ao mesmo tempo sádica e EXTREMAMENTE divertido.

    A única coisa que realmente deixou o cara PUTO foram os caras da turma do B (que tinha O DOBRO de muleks sem noção comparado a minha turma do A) terem descoberto que seu apelido de faculdade era BOBÉIA. Mano, um cara chamou ele disso durante uma aula, algo do tipo: “Pára com isso, Bobéia!”. Disseram que o cara virou macho neste dia, hahahahahah. Putz, são muitas histórias…

  10. Izzy, coincidências do 666 from Hell, também estudei em um colégio Dom Pedro II.

    Imagino que existam dezenas de colégios de diferentes redes de ensino homenageando o nosso último imperador.

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