[ O que você faria? ] A cartinha religiosa

cartinha

Eu sou o responsável pelo boletim semanal do departamento do hospital onde trabalho. Memorandos da chefia, reconhecimento de colegas do nosso time, mudanças de protocolos, todas essas coisas são passadas pra mim e eu as compilo de uma forma bacana e visualmente atraente, pra liberar pra galera do hospital toda segunda feira. Jogaram essa pica na minha mão depois que descobriram que eu sou mais ou menos um escritor.

Então. Como vocês talvez tenham lido em algum lugar aí na rede mundial de intercomputadores, rolaram umas paradas tensas lá nas Filipinas. Morreu gente pra caralho, famílias perderam tudo, uma desgraça humana de proporções nacionais.

Tenho muitos colegas de trabalho que são das Filipinas, e uma delas foi tocada pela tragédia de forma maior que as outras — toda a sua família é da região que foi mais atingida. Os parentes da mulher, que tinham inúmeros negócios na região — um pequeno posto de gasolina, uma farmácia e uma pet store — perderam absolutamente tudo. Estão arruinados financeiramente.

Maaaaas, felizmente, ninguém morreu. E por isso a mulher estava absurdamente aliviada, naturalmente.

Hoje ela chega em mim e diz “Izzy, meu Mestre (ninguém diz isso por mais que eu insista mas como sou eu quem estou relatando a história, digamos que ela disse sim), escrevi um negócio aqui pro boletim da semana que vem” e me entrega um envelope. Abro o negócio e encontro uma carta.

A mulher abriu a missiva agradecendo as mensagens de apoio dos colegas de trabalho, e logo em seguida começou o trecho que me fez escrever este post.

Em 3 longos parágrafos, a mulher explica que a salvação da sua família foi um “livramento do Senhor” (os colegas evangélicos que lêem o HBD devem conhecer bem a expressão), falou que Deus é maravilhoso por salvar a família dela — os outros 4 mil filipinos que se fodam, entretanto –, enfim: basicamente a carta é um esforço de evangelizar o departamento.

Aí que mora o problema. Não sei se a coisa é assim no Brasil também, mas o ambiente corporativo norte-americano é FORTEMENTE secular, não dá preferência ou voz a nenhuma religião. Pra você ter uma noção de como a coisa funciona, por estas bandas muitas empresas substituem o “Feliz Natal” (Merry Christmas) de decorações, cartazes e saudações por “Feliz Feriado” (Happy Holidays), porque “Natal” é na prática uma celebração cristã. “Feliz Feriado” é mais religiosamente neutro, e por isso preferível. Aliás, tem toda uma polêmica por causa disso.

Pois bem. Agora estou numa posição extremamente chata e delicada — como eu explico pra ela que a cartinha proselitista que ela escreveu (mal e porcamente; creia-me, não é todo mundo que sabe escrever bem e de forma coerente. Manja as pessoas que escrevem exatamente como falam? Então, é o caso dessa carta) é completamente inapropriada pro cenário hospitalar-corporativo…?

Aliás, ironicamente, rejeitar a carta dela pelo teor religioso pode ser considerado discriminação religiosa, dependendo da imaginação e má vontade dessa mulher.

Como diabos eu defuso essa bomba relógio? Preciso dar uma resposta pra mulher até segunda feira.

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comments

26 comments

  1. antes de mais nada, tem espaço nesse informativo pra publicar a carta inteira?
    uma solução seria dizer que o conteúdo da carta teria que ser resumido a apenas algumas frases, sendo assim voce pode manter o agradecimento e omitir toda a parte religiosa…

  2. Situação complicada mesmo hein =s
    O ideal seria recusar a carta e explicar para ela o motivo. Ai ela entenderia e ficariam todos felizes para sempre. Mas se a mulher não compreender…
    Não tem nenhum superior que vc possa empurrar essa pica não?

  3. Simples,

    Fale sobre o que ocorreu nas filipinas e que a funcionária x possui parentes lá e que nao ocorreu nada com eles conforme carta escrita por ela mesmo em Anexo.

  4. Minha dúvida é: geralmente você reescreve de “forma bonita” no boletim ou só compila tudo em duas frases? Porque do segundo jeito seria mais fácil de falar sobre o agradecimento e dar só uma esbarrada no assunto religião pra sua colega não se sentir censurada.

    De fato é um assunto delicado, principalmente se ela não conseguir entender que religião não é assunto pra ambiente de trabalho.

  5. Não vi problema nenhum. Ela não falou de Maomé, Buda ou mesmo Jesus, e sim de Deus. Ora, Deus é uma palavra genérica que aponta apenas para o divino, sendo usada por diversas pessoas religiosas ou não para se referir àquela parte da existência que transcende o material. Logo, não há nada de proselitismo aí. É claro que isso irrita os ateus fanáticos, mas a militância chata ateísta que vá brincar na internet.

    1. Deus (assim, com “d” maiúsculo) é um conceito que só faz sentido para religiões monoteístas. De qualquer modo, o problema não é “qual” religião, mas sim o proselitismo em si.

  6. Fala cara. Acho que em questão de dúvida, talvez você tenha que levar a questão a seu superior, e perguntar o que deve ser feito. Caso não seja possível ou no fim o cargo seja sua responsabilidade de qualquer forma, acho que você teria a obrigação de explicar a mulher que a carta tinha um cunho religioso demais, o que vai contra o regulamento da publicação. Ela pode entender o seu lado, ou não, mas aí isso é com ela.

    1. Exato. Ela nao precisa gostar disso ou nao -- sao as regras, e o mais profissional para ambos e’ segui-las. Inclusive, e’ esperado dela que ela acate isso de forma profissional tambem. Pelo menos aonde trabalho, quem leva isso pro lado pessoal vai para a rua.

      Pense assim: voce pode ser honesto com ela ou desonesto com TODOS os seus outros colegas ao inserir topicos que nao deveria ser inserido.

  7. Bem, Izzy. A situação é muito complicada. Eu, na sua posição, iria utilizar todo o espaço que talvez pudesse ser utilizada para publicar a carta com um texto meu sobre a situação que ocorreu nesse país, escrevendo algo do tipo “Inclusive, das inúmeras pessoas afetadas está a família de nossa companheira de trabalho”, explicaria a situação que ocorreu com ela e a família dela e deixaria um “… é possivel ler a mensagem de [escolha uma palavra estilo esperança, depoimento, agradecimento ou o que melhor couber] em http://sitegenerico.com/carta .”
    Imagino que um texto bem escrito citando o problema, mostrando o que ocorreu, mostrando o exemplo da família dela e deixando claro que o texto não foi descartado, embora não tenha ido para o boletim, deva agradar a todos. Mas é apenas a minha opinião…

    Abraços e paz

  8. Você pode montar um pequeno texto seu e dizer que o tópico já seria coberto na nota que você iria fazer. Algo lamentando a morte daqueles atingidos pelo desastre e ressaltando que todos estão muitos sentidos, “em especial nossa colega de trabalho Fulana, que apesar de ter família em uma das regiões mais atingidas, todos passam bem, mesmo com os prejuízos financeiros que sempre podem ser recuperados […]” ou algo do tipo.
    Mas a idéia do Lucas também é muito boa: “escala pro superior.”

  9. manda pro superior como disseram ou coloca somente os trechos q não fazem menção a religião e apenas a agradecimentos, depois explica pra ela que foi falta de espaço ou que um texto longo fica desinteressante pro pessoal ler, afinal é um boletim, não um jornal.

  10. Tenta compilar a carta, e corta a parte religiosa, ou no máximo diz que ela se sente agradecida a deus pela família estar bem. Se ela empombar porque tu não evangelizou o departamento, explica exatamente o que tu explicou aqui: isso poderia trazer problemas ao hospital. De preferência já imprime o trecho da lei que fala sobre assedio religioso no trabalho, e anda com esse texto dentro do bolso quando estiver falando com ela, qualquer coisa tu saca o texto e pronto.

  11. Eu faria como já indicaram: empurra a pica pro superior. Se for possível, até por sensibilidade com a colega, veja se é possível colocar o texto entre aspas, como manifestação exclusiva dela, ou mesmo “em anexo”.

    Se não der, destaca apenas alguns trechos onde ela agradece o apoio dos colegas e tal.

    E se ela vier falar com você depois, diga que, infelizmente, são ordens superiores.

    Depois nos conte o que fez.

  12. kkk É fácil!!!
    Mostre ao seu chefe a carta. Pergunte o que ele acha, pois você está em dúvida, e deixe que ele vete por conta própria.
    Depois apenas informe a ela que o chefe vetou.
    Grave o vídeo dela despirocando com seu chefe, acusando-o de preconceito religioso, e poste aqui no blog pra gente!

    Simples!

  13. Puts, tenta falar com seus superiores, ai você diz que eles não deixaram você publicar. Única coisa que me vem à mente!

  14. That’s easy, Izzy (rá!):
    1) Ela está feliz pq todos os parentes dela estão vivos, apesar de estarem quebrados;
    2) Vc comentou que tem trocentos outros filipinos trabalhando aí no hospital;
    3) Questione como ela acha que os demais colegas filipinos que tiveram parentes ou até mesmo famílias inteiras aniquiladas iriam se sentir com o regojizo egoísta dela?
    4) Pedido indeferido!

  15. Izzy.
    Use o mesmo caminho do Happy Holidays menciona a história dela neutralizando o teor religioso, acho que se você usar termos genéricos com “bless” ou algo assim você não desrespeita cristãos, nem judeus e acho que nem árabes. É tentar reportar a coisa da forma mais neutralizado possível, se tiver o mesmo talento em escrever em inglês que tem em português, acho que você consegue fazer isso de forma que ela nem note (e nem reclame).

  16. Izzy, apesar de achar que você é um tanto preconceituoso quanto ao cristianismo (mesmo eu não sendo cristão), devo concordar que o ambiente corporativo não tem espaço para um posicionamento religioso específico e no seu lugar, chamaria ela para conversar e educadamente diria: “fico feliz por sua família estar a salvo, mas vamos deixar Deus fora desse informativo, pois isso não seria encarado positivamente aqui”… E pronto… Finish her…

  17. Essa mensagem foi de 2013, então, com certeza você já tomou uma decisão (eu queria até saber qual foi). Mas, mesmo assim, postarei a minha opinião. Eu acho que uma sociedade laica não é aquela atéia, e sim aquela que respeita todas as crenças (contanto que não desrespeite o direito do outro). Por isso, se eu fosse você, eu relataria o que a mulher disse, colocando aspas. Com isso, você não estaria emitindo uma opinião religiosa em nome do hospital, mas estaria demonstrando que o hospital respeita as crenças de seus funcionários. Se o hospital tiver uma política proibindo qualquer tipo de menção religiosa nos seus boletins semanais, aí sim a única alternativa é conversar com ela sobre isso e dizer que não pode colocar todas as palavras que foram escritas. Neste caso, ela não se sentiria “censurada”. Abraços!

  18. Faça um comentário sobre o sofrimento dessas famílias e de como algumas se agarram na fé para um conformismo pacífico, publicando a carta da pessoa com a “família sobrevivente” Dessa forma estará neutro, tanto para críticos quanto para cristãos.

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