Os 5 chatos que SEMPRE aparecem em toda Copa do Mundo

Mesmo sabendo que alguns se irritarão com essa declaração, você sabe tão bem quanto eu que não é mentira — nós brasileiros não temos muuuuuuitos motivos pra nos orgulhar da nossa bandeira.

Tirando ser o maior país da América Latina, como se fosse um moleque grandão com quem ninguém mexe no recreio, e o fato de que fomos geograficamente abençoados com a ausência de furacões ou terremotos,1 não sobra muito que nos faça dizer “rapaz, que SORTE de ter nascido no Brasil!”.

E sim, tem países bem piores que o nosso, eu sei. Não importa quão inútil seja o português no cenário global (ahhhh, se falássemos espanhol como nossos vizinhos, ou inglês então… Imagina como seria massa assistir seriado no Netflix sem precisar ficar sempre olhando pros pés do Frank Underwood, procurando as legendas…), ou quanta raiva você passe quando suas muambas chinesas ficam presas em Curitiba por duas eras geológicas, é incalculavelmente melhor nascer no Brasil que na Eritréia ou Coréia do Norte.

Mas então. Apesar das mazelas do nosso país, de quatro em quatro anos nós brasileiros temos um motivo pra nos orgulhar do nosso berço pátrio — a pentacampeã seleção canarinho, que neste ano foi representada por uma versão do Piu Piu que acabou de chegar em casa e descobriu que o vizinho do andar debaixo estacionou na sua vaga por engano de novo.

“Vou riscar o carro desse corno TODINHO. Tô nem aí se ele vai saber que fui eu, amor! Acho bom ele saber mesmo!”

Só que toda Copa do Mundo, literalmente TODA Copa do Mundo (e com uma pontualidade tão infalível que poderíamos usa-la como substituta de relógios atômicos) surgem cinco tipos de chatos pra cagar em cima da alegria do povo brasileiro que só queria sentar na calçada acompanhado dos amigos e um engradado de Itaipava com a inocente esperança de ver mais uma estrelinha surgir na camisa da seleção.

E eles são…

O diferentão que tem que falar pra todo mundo, em todas as ocasiões, que não torce pro Brasil

Um dos assuntos mais irrelevantes e desinteressantes que possa existir é ouvir maluco narrando um sonho que ele teve na noite passada. A menos que o sonho esteja sendo descrito pra você por um(a) parceiro(a) sexual em potencial naquele peculiar ritual de acasalamento moderno em que se inventa um sonho sexual pra medir reação do pretendente, 2 ninguém se interessa em ouvir uma fanfic que seu cérebro inventou quando você estava dormindo.

Mas até essas conversas de sonho ficam em segundo lugar pro bate papo mais irrelevante possível na história da comunicação verbal — o cara que precisa anunciar a todos que o rodeiam que ele, diferentíssimo, especial e iconoclasta, não torce pra seleção nacional.

Eu conferi rapidamente aqui no Código Penal e realmente, admito que não há (ainda) lei obrigando um brasileiro a vibrar com os garotos de verde e amarelo toda vez que reafirmamos nossa hegemonia futebolista no gramado. Então, não pense que meu ponto aqui é culpar alguém por sua predileção pelas seleções da Nova Nepal, Sudão do Leste ou Gâmbia Setentrional. Não, não — a minha irritação é com os malucos que enchem a boca pra te informar isso (quer você tenha perguntado ou não, o que é uma pegadinha porque NINGUÉM JAMAIS PERGUNTOU) como se fosse algo louvável, impressionante, ou de uma coragem inigualável.

Eles realmente não conseguem se segurar. Alguma coisa lá dentro da alma dessa turma começa a dar cotoveladas insistentes assim que o assunto da Copa aparece. “VAI LÁ FALA PRA ELES URGENTE QUE TU TORCE PRA PORTUGAL!!!!!”

Tem sempre uma justificativazinha, né? O sujeito sempre engata essa ousada declaração com um “mimimi é que sou descendente de não sei o que”. “Ah, é porque desde a Copa de 1998 eu pápápá bububu”.

Eu sempre achei estranha essa dinâmica do cara me oferecer uma justificativa pra um fato com o qual eu não me importo. Pra mim é como se um sujeito sentado à mesa ao lado, que eu não conheço, viesse me explicar que o motivo pelo qual chegou atrasado no jantar dele é porque houve um problema com o motor do carro.

Não me importo nem com o seu atraso e tampouco com o motivo, Luís Henrique.3 A minha curiosidade é literalmente zero. Você não tem que me explicar nada.

Nem fale comigo, estou tentando destruir essa picanha aqui. Cala a boca antes que eu rasgue essa sua camisa da Itália.

O cara que de quatro em quatro anos se preocupa com salário de professores

Vasculhe o seu Facebook e rapidinho você achará o filósofo moderno que, não entendendo forças simples que regem o mercado, posta ensaios quilométricos com um insight único e incisivo — como pode o Neymar ganhar 95 bilhões de dólares por mês em barras de ouro, quando Adamilton, meu professor de Geografia, ganha tão pouco que precisa suplementar sua renda fazendo malabares na avenida?4

Em primeiro lugar, há uma forma simples de explicar porque seu professor de história ganha consideravelmente menos que o Neymar. É o mesmo motivo pelo qual uma Ilha vale menos que uma Black Lotus — enquanto há milhões do primeiro, a oferta do segundo é muito mais reduzida. Teremos sem dúvida um boom de Neymares nomeados em honra do atual, mas vai demorar outros 16 ou 17 anos pra saber se eles são bons em futebol também, então que o que temos no momento é o único.

É trivial explicar porque alguém que é visto como um melhores profissionais DO MUNDO em seu ramo, e que rende milhões ao seu empregador, ganha mais do que um professor que se formou numa turma de 30 outros com capacidade mais ou menos igual. Tão elementar, aliás, que não entender isso só pode ser burrice ou fingimento — ambos em serviço de sinalização de virtude.

O que o sujeito que fala isso quer não é realmente que professores ganhassem mais, mas sim que você saiba que ele queria que professores ganhassem mais. Pergunta quantas vezes ele sugeriu que a diretoria da escola do filho dele cobrasse mensalidade maior pra dar um aumento aos professores.

Aliás, ele nem precisa que a escola aumente, ele próprio pode dizer “é X por mês? Não. Quero pagar X + 100 reais, divide esses 100 entre o corpo docente.”5

Em segundo lugar, o fato de que esse seu amigo manteve silêncio em relação a salário de professores entre 13 de julho de 2014 até 14 de junho de 2018 faz esse sentimento de solidariedade com a classe parecer muito menos autêntico e sim uma pescaria de likes no Facebook.

Se você interromper mais um lance com esse papinho de que professor ganha pouco eu vou te dar uma cotovelada.

O cara que se acha inteligente por não gostar de futebol

Decimus Iunius Iuvenalis, melhor conhecido como Juvenal, era um poeta e escritor romano que viveu no Primeiro Século. Por volta do ano 100, Juvenal escreveu:

iam pridem, ex quo suffragia nulli / uendimus, effudit curas; nam qui dabat olim / imperium, fasces, legiones, omnia, nunc se / continet atque duas tantum res anxius optat, / panem et circenses

Meu latim está meio enferrujado (a ponto de que torna-se um risco de tétano inclusive, espero que você seja vacinado), mas Isso se traduz mais ou menos assim:

“Há bastante tempo, a gente não vendia voto pra ninguém! Era tudo nosso: o exército, o governo, as legiões… agora esses merda abdicaram seus deverem e responsbilidades e só querem saber de pão e circo!”

Curiosamente, eu seria capaz de apostar meu cu na praça que 99% das pessoas empregando o termo não fazem a menor idéia de quem era Juvenal, e jamais leram Sátiras, mas citar livros que você sequer leu para ilustrar-se como mais culto que os oponentes é uma tradição rica na internet.6

Não precisa saber quem era Juvenal ou sequer ler Sátiras — tem uma expressão lá que me permite considerar todo o resto do povo abaixo de mim intelectualmente? Isso é tudo que eu preciso aprender da literatura romana clássica.7

VÁ LER UM LIVRO, eles berram no Twitter ou no Facebook enquanto certamente não estão lendo um livro. Ou pelo menos, não um livro INTERESSANTE, porque senão estariam passando páginas e não vergonha sendo presunçosos na frente de todo seu círculo social na internet.

Eu não sei de onde vem essa noção insuportavelmente pedante e lugar comum8 de que gostar de futebol e, sei lá, apreciar uma boa literatura são mutuamente exclusivos. Um livro é on demand, sabe? Ele não é uma novela que passa no mesmo horário do jogo. Eu posso pegar e parar quando eu quiser — posso botar na mesa durante o jogo do Brasil, e retornar a ele quando o juiz ladrão 9 apita a conclusão da partida.

Como disse rainha Gertrude em Hamlet, “Parece-me que a dama faz protestos demasiados”. Se você gosta tanto de ler seus livros vai ler seus livros e não enche a porra do saco porque o segundo tempo acabou de começar!

O sujeito que reclama de quem só acompanha futebol na Copa

“ORA ORA ORA”, inevitavelmente diz o chato. “Quer dizer que AGOOOOOOORA você gosta de futebol?! Cadê você quando o Ferroviário jogou com o Itaquarema Futebol Clube na disputa pelo terceiro lugar da Série D do Brasileirão?!??!”

Os gringos, que tem nome pra tudo, também batizaram essa qualidade de babaquice — o nome disso em inglês é “gatekeeping“, o hábito (extremamente panaca e boçalmente insuportável) de questionar o comprometimento de alguém com o hobby, a fim de… não sei exatamente. Declarar-se o único verdadeiro fanático pela coisa…? Insinuar que todos são fingidores e posers, singrando as ondas da modinha e conveniência, enquanto você é o único que ainda é capaz de um sentimento autêntico…?

Porque como sabemos, alguém só pode gostar de um passatempo se dedicar literalmente todo o seu tempo livre a ele. Não se pode gostar casualmente de alguma coisa como futebol. Se você não estava lá no Complexo Esportivo da Ulbra pra honrar o clássico Atlético Juazeiro do Norte x Clube de Regatas de Maringá, pode tirar essa camisa verde e amarela e mudar o canal — jogo da seleção é apenas para os REAIS fãs do esporte!!!111

Não é que o sujeito realmente precisa que expliquem pra ele que durante a Copa, mesmo quem nem se interessa em futebol quer ver o Brasil ganhar, porque é algo geneticamente inerente ao brasileiro. Ele SABE disso, a menos que seja um imbecil completo, o que eu admito que é uma possibilidade mas darei o benefício da dúvida.

Essas declarações enjoadas de “ain mas você nem assiste futebol e agora tá torcendooooo…”10 tem o único e fundamental propósito de telegrafar “EU SOU UMA PESSOA GENUÍNA, ENQUANTO VOCÊ É UM ÍMPIO FARSANTE”

Pessoas assim merecem, você adivinhou, uma cotovelada na cartilagem cricóide.

“Ainnnnnnn quer dizer que só agoooooora depois de anos é que você aprendeu o nome dessa cartilagem??? Eu já sabia desde 2005!”

O cara que reclama desses outros quatro

Ou seja, eu.

Eu estou catalogando todos os hábitos irritantes, como se eu mesmo não tivesse uma montanha deles, e me achando superior a esta ou outra pessoa por causa de suas pequenas idiossioncracias de personalidade, e autorando um artigo de duas mil palavras que implicitamente diz que eu sou melhor que essas pessoas, porque pelo menos eu não faço ESSAS coisas aí.

Se formos ver com um pouco mais de boa vontade, talvez o cara que quer vestir uma camisa de Portugal durante Copa só tem ESSE momento pra realmente mostrar seu orgulho de suas raízes.

O cara que compara salário de professores com de jogadores é um idealista que quer ter uma conversa franca sobre o valor que damos a certos profissionais.

O sujeito que te recomenda ler um livro queria apenas poder discutir Stephen King ou Tolkien com alguém com o mesmo entusiasmo e profundidade que ele vê em ação quando comentamos o jogo da noite anterior.

E o cara que menciona o outro futebol com o qual você não se empolga tá te convidando a apreciar outras facetas do esporte que não são a mais lugar comum e celebrada.

Já eu não tenho desculpa. Eu sou chato mesmo.

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comments

8 comments

  1. Caramba Izzy!!!
    Que texto foda! O final foi o melhor.
    Acompanho seu blog desde 2006 (eu acho), e raramente comento.
    É incrível como você mudou! Aquele seu vídeo sobre abandonar o Twitter e rever certas atitudes fez uma diferença enorme.

    Parabéns!

  2. E ESSE PLOT TWIST?!!?!

    Mas então, o problema da alegação sobre o salário dos professores é pior. Desconsidera-se totalmente que 99% dos jogadores de futebol do país devem ganhar (juntos) 1% do salário do Neymar, se é que recebem regularmente. Se o professor não for um Pachecão da vida (e sim, o fato de que eu só consigo citar um professor famoso pelo seu trabalho de cabeça *é um péssimo sinal*), não dá pra comparar salários assim.

  3. Sr. Israel
    Vossa senhoria é um tremendo FELADAPUTA por nos deixar tanto tempo sem seus textos.
    Não faça mais isso ou serei obrigado a lhe dar uma cotovelada bem no meio de sua columela!

  4. Cara, gostei do jeito que você finalizou o texto. Mostra que você realmente está empenhado em mudar “esse jeitão de tretador”. Gostei mesmo, já admirava seus textos, agora está melhor ainda!! Continue assim!!

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