Há algum tempo estou sendo cobrado uma opinião sobre a mais recente confusão no Oriente Médio entre o Estado de Israel e o Hamas. Não sou nenhum especialista em política externa e é possível que eu fale um monte de merda aqui que será corrigida com brilhante eloquência por um comentador com alto calibre no assunto. É o risco que eu aceito correr nessa “profissão” de opinador de internet.

israel

Vamos lá. Como vocês devem saber, o pau tá quebrando lá por aquelas bandas de novo. Não é novidade: a situação é tensa lá há décadas, muito antes de nossos pais nascerem, e infelizmente é provável que continue assim muitas décadas após a nossa morte. Guerra no Oriente Médio já virou parte do nosso folclore contemporâneo.

A versão resumida da história é que Israel se instalou na região após a Segunda Guerra, e o povo palestino (e o mundo árabe em geral, por proxy) é contra isso. Israel teve apoio Ocidental, e por isso acabou se desenvolvendo como um poderio militar sem similares na região — e que claramente não tem muitas ressalvas sobre usar esse poderio pra revidar os ataques do Hamas, e de quem mais se atreva.

E é justamente dos tais ataques que eu queria falar, especificamente. Percebo atualmente, de uma forma que eu não notava há uns 10 ou 15 anos, um apoio político/social bem maior do povo e causa palestina. Talvez porque não tínhamos os mecanismos para opinar publicamente, talvez porque recebíamos notícias de fontes mais limitadas na época (Jornal Nacional versus uma MIRÍADE de sites e vídeos noticiosos de outros países, caso você fale alguma língua além do português), mas hoje é BEM comum ver pessoas apoiando a Palestina de uma forma que eu jamais vi quando era mais novo.

E acho que isso é bom. Mostra que estamos tendo mais informação do que naquele tempo, e que estamos mais alertas em relação ao conflito. E a causa palestina (do POVO palestino, que fique bastante claro) MERECE apoio. Mas voltando aos ataques e, mais importante, às mortes resultantes.

Graças às mídias sociais, podemos ver a realidade não-filtrada do conflito. Prédios destruídos, civis mortos ou deformados, aquela desgraça clássica que ilustra matérias sobre a situação, mas bem mais rápido e em muito mais abundância que o pouco que víamos nos jornais 10 anos atrás.

E essas imagens geram o principal argumento contra o Estado de Israel — elas ilustram, argumentam os críticos, a carnificina que o país promove. E não há como refutar que matar quase duas centenas pra revidar contra ataques de foguetes que quando muito matam um é realmente desproporcional.

Mas, como tudo nesse mundo, a situação não é tão fácil de resumir assim. Existem elementos em jogo aqui que alguém disposto a simplesmente criticar um lado ou o outro com uma afirmação simples e categórica (“Israel mata mais que a Palestina, logo, é tudo culpa deles!”) está ignorando.

O Hamas é, acima de tudo, uma organização terrorista, racista, facista, e sexista. Pra você ter uma noção do nível de revisionismo histórico que eles empregam, o Hamas é contra dar aulas sobre o Holocausto em escolas da Faixa de Gaza. Seus líderes negam que ele sequer tenha acontecido.

Não há também liberdade de expressão ou de imprensa — dois importantíssimos pilares da democracia, diga-se de passagem.

E o que é mais trágico: faz parte do modus operandi do Hamas instalar plataformas de lançamentos de foguetes em proximidades de áreas populadas, como mostra o vídeo abaixo (e inúmeros outros):

Isso é deliberado, a propósito — a idéia é justamente atacar com impunidade, na esperança de que a parte agredida se constrangerá em revidar fogo quando que efetuou o disparo se esconde no meio da população.

E aí que tá. Quando Israel resolve retaliar ao ataque (como uma nação soberana, completamente cercada por países que a odeiam, poderia levar mísseis na cara e não fazer algo a respeito…? Que nação no mundo inteiro NÃO retaliaria…?),  num esforço pra diminuir as vítimas elas ligam pra regiões que irão bombardear com antecedência, avisando a população da iminente destruição para que tenham tempo de evacuar a área.

Essa “cortesia” não seria necessária, a propósito, se o Hamas obedecesse convenções de guerra que proíbem a prática de se esconder no meio de civis; acontece que a idéia deles é justamente (explicitamente) usar a população como escudo humano.

Agora, olha a merda. A IDF avisa pra galera (por rádio, panfletos soltos por aviões e até mesmo telefonemas) que vai retaliar contra ataques terroristas, e que eles precisam evacuar a região; o Hamas vai e fala pra galera ficar quietinha onde estão; que é “blefe” dos israelenses. Como seus dirigentes não valorizam tanto assim a vida, nem mesmo a vida de palestinos, vêem a morte como lucro espiritual e principalmente, político.

E ESSE é o ponto que eu não estou vendo ninguém comentar. Tá vendo a imagem abaixo?

Se algo serve como consolo é o fato de que as coisas tem se acalmado nos últimos anos!

Talvez você tenha visto essa:

palestina2

É inegável que Israel está provocando mais casualidades contra a Palestina, do que o contrário. A parte realmente desgraçada da equaçao é que é exatamente isso que o Hamas quer.

Para o próprio Estado de Israel, ou para qualquer pessoa que condene a ação militar israelense no solo palestino, esses números são uma desgraça nacional, uma vergonha indefensável.

Já para o Hamas, é a concretização da cartilha terrorista seguida pelo próprio Bin Laden — ataque um inimigo poderoso, e se esconda no meio de civis (ou seja, deliberadamente os colocando em perigo). Se o inimigo alertar a população sobre o iminente contra-ataque, convença-os a continuarem servindo de escudos-humanos. O inimigo então gastará tempo e dinheiro detonando os inocentes tentando te pegar, e com isso você fortalece a própria base ideológica podendo apontar para os agredidos e dizer que são ELES os reais facínoras.

Esses números não são vistos como o Hamas como uma fatalidade (como eu, você, e sim, o próprio Estado de Israel vê), e sim o resultado esperado de uma estratégia deliberada. A reação internacional forte condenando Israel é o real objetivo destes ataques débeis.

A vida humana é secundária à agenda política de grupos terroristas, e essa vida humana nem sempre precisa ser do inimigo. Às vezes provocar a morte da própria população serve também.

Israel tá cometendo cagadas na região desde que foi colocado lá por fruto das circunstâncias do final da Segunda Guerra, isso é inegável. Paz só ocorrerá no local quando/se Israel finalmente abrir mão dos territórios ocupados e reconhecer o Estado Palestino.

O povo palestino merece dignidade e segurança, e mais importante, um governo que não cometa ações deliberadas pra trocar suas vidas pela propagação de sua agenda política.

No livro The Osama bin Laden I Know, o jornalista inglês Peter Burgen explica que o real plano do Bin Laden não eram os 3000 mortos no World Trade Center, aquilo era um “bônus”. A real idéia por trás do Onze de Setembro era jogar a isca para que os EUA se enfiassem naquela guerra no Afeganistão, onde o país desperdiçaria recursos sem um fim claro e mais importante, seriam condenados pela comunidade internacional por brigar com alguém “menor”. Michael Scott Doran fez o mesmo argumento no artigo Somebody Else’s Civil War — a idéia era matar indiretamente civis no Afeganistão, o que geraria condenação global dos EUA e mais importante, do mundo islâmico em geral, e assim fortificar sua própria agenda.

O Hamas segue a mesma cartilha, ao custo de vidas inocentes israelenses E palestinas. E Israel, por sua parte, bem que poderia fazer esforços MAIORES pra aplacar a ira do mundo islâmico. É difícil mensurar quem está “mais errado”, ou quem poderia fazer mais pra resolver a situação, mas numa situação complicada como essa, eu tenho a tendência de ficar do lado que exerce democracia.

Democracia é o pior método de governo, com exceção dos outros, já parafraseava Winston Churchill — e eu concordo. Eu não acho que um governo que usa morte dos próprios cidadãos como moeda política (“olha que coisa indignante Israel fazer exatamente o que nós planejamos deliberadamente que eles fizessem!”) seja a melhor escolha, ou uma digna de apoio.

Os palestinos merecem algo melhor. É uma pena que a cagada já tá feita, e que a retórica e o governo do Hamas é cada vez mais fortalecido pelas matanças de retaliação de Israel, então tá tudo fodido mesmo.

Como planejava Bin Laden contra os EUA, por mais que Israel esteja se defendendo legitimamente ele cai na arapuca do Hamas, reage desproporcionadamente, mata gente inocente, e se fode perante a comunidade internacional. É um jogo em que todos perdem.

E você achando que a política no nosso país era podre.

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