criador

Quando eu comecei o HBD em 2002 (!!!), era fácil definir o que eu fazia: eu postava num blog. Eu era um blogueiro. Pronto.

Anos mais tarde com o advento do YouTube e de câmeras acessíveis, pus minha cara feia nas internets e aí virei blogueiro E vlogueiro — um vagabundo em dobro.

Pouco tempo depois comecei um podcast com o Jurandir Filho, o 99Vidas. Aí além de blogueiro e vlogueiro, tornei-me também um radialista internético. Um podcaster.

Lancei um livro. Blogueiro, vlogueiro, podcaster, autor.

Comecei a fazer streams no Twitch. Blogueiro, vlogueiro, podcaster, autor, streamer.

Já é bastante coisa pra fazer, especialmente se você considerar que eu trabalho E estudo E tenho uma esposa com quem dividir minha atenção.

Por causa de todas essas atividades, eu não sei mais o que me define na internet. O que me traz mais views/paga mais contas é o vlog; entretanto, eu comecei com um blog, então me vejo sempre como blogueiro em primeiro lugar (por mais que o HBD esteja um pouco negligenciado ultimamente). Aliás, é curioso — lá nos idos de 2012 ou 2013, quando meu vlog começou a ter uma certa ascenção, a maioria das pessoas com quem eu esbarrava aí pela vida diziam que adoravam meu vlog, e só. Não citavam o HBD.

(Se pá tem uma fração grande dos meus inscritos que nem sabem que eu tenho um blog)

O que gerava uma sensação estranha de ciúme, porque eu levava meu canal no YT na época com total casualidade, e quase me ofendia que os textos que eu produzia com muito mais esmero estavam ficando em segundo lugar pra vídeos que eu fazia de qualquer jeito. Dava quase vontade de falar “tá, ok, vídeos, whatever. Mas você lê meu blog????”. É bizarro, mas chegava a me dar uma pontinha de raiva quando eu esbarrava com algum brasileiro aqui no Canadá e o sujeito me identificava como vlogger e não como blogueiro.

Por outro lado, tem MUITA gente que só me acompanha pelo 99vidas, por exemplo — pra estes, eu sou um podcaster e nada mais.

E é por isso que a alcunha meio nebulosa de “produtor de conteúdo” é a que mais se adequa a mim. Tal qual o pato, que é um animal aquático, terrestre, e ainda por cima voa, minha hiperatividade de produção desafia uma definição muito específica. Falando nisso, se o pato é tão capaz em tantas áreas, por que o adjetivo “patético” tem conotação negativa?!

Até herói da democracia ele é

Existe um termo no mundo de negócios chamado “core competencies”, que significa mais ou menos “aquilo no qual somos realmente bons”. É fundamental pra empresas identificar seus core competencies pra que possam investir tempo e energia justamente neles, e abandonar projetos paralelos que gerem menos rendimento.

E por isso às vezes eu me pergunto — quais sao os MEUS core competencies? Tenho minha teoria, mas a minha própria visão é extremamente limitada. Queria saber o que o pessoal que me acompanha acha. É poder mostrar a vida no Canadá? É tentar abordar situações com imparcialidade (o que me rende alternativamente as alcunhas de coxinha num vídeo e petralha no outro)? É contar histórias em que me fodo?

Tem dois criadores de conteúdo que eu acompanho fielmente.

tim urban

Esse é o Tim Urban, o autor do WaitButWhy. Considero o WBW o melhor blog da internet, e não apenas da internet atual — a qualidade do WBW o torna retroativamente/atemporalmente melhor que qualquer outro blog passado também. O Tim tem um talento incomum de pegar um assunto que muitas pessoas não entendem bem (como, digamos, criogenia ou os perigos de inteligência artificial) e fazer posts gigantes destrinchando toda a parada com um senso de humor literalmente invejável. Quem me dera ser tão engraçado quanto ele.

Seja quando ele está viajando pelo mundo e escrevendo textos fantásticos sobre os países em que acabou indo parar, ou simplesmente descrevendo arte medieval inusitada de uma forma hilária, basicamente tudo que o cara produz é de altíssima qualidade e é garantidamente cheio de insights incríveis ou fenomenalmente engraçado. Ok agora vou parar de lamber as bolas dele porque meu pescoço já tá começando a doer.

Eu diria que a core competency do Tim é sua capacidade de explicar assuntos de forma interessante, e seu estilo de escrita lembra muito o tom de uma conversa informal.

O meu outro criador de conteúdo favorito no momento é o…

…Casey Neistat. Mas se você me acompanha no Twitter isto não é uma surpresa pra você.

O Casey é um vlogger americano bastante popular, com mais de dois milhões de inscritos. O cara é expert em storytelling, ou seja — pegar o seu dia a dia e transformar isso numa pequena narrativa com começo, meio e fim, editados com uma veia meio cinematográfica — trilha sonora, cenas em timelapse, tomadas com câmera pré-estabelecida numa posição como se fosse uma câmera de filme e ele estivesse quebrando a quarta parede ao entrar no frame e falar diretamente com ela.

O Casey me motiva a produzir com mais frequência e com mais qualidade. Com pouquíssimas exceções eu gosto de praticamente tudo que ele faz, e eu me identifico com o estilo de vida louco dele de fazer mil coisas ao mesmo tempo (marido, vlogger, CEO de uma empresa de tecnologia). Eu diria que essas são as core competencies dele — a garra de produzir conteúdo não importa o que, e a capacidade de fazer um dia relativamente normal parecer interessante o bastante através do poder da edição e do storytelling.

Não que o cara seja acima de qualquer crítica. Como ele expõe muito de sua vida pessoal, inevitavelmente algumas… particularidades de sua personalidade acabam emergindo, e estas são decididamente menos atraentes que outras. Sua insistência em voar seus drones em zonas populadas, acima de linhas de alta tensão, e em locais como o Rio Hudson em New York, que é uma movimentada linha de aproximação final de um dos maiores aeroportos do mundo gera muitíssimo incomodo mesmo entre o fandom do cara.

Aliás, o subreddit dedicado ao cara é repleto de críticas ao comportamento às vezes meio histriônico dele — como por exemplo, dar chilique porque a American Airlines não renovou um agrado que dava pro malandro, o que o fez soar como uma criança mimada, ou reclamar que “copiam” seu estilo quando é bastante notável que ele modelou muito de sua imagem (e seus vídeos, e a própria aparência do estúdio dele) no Tom Sachs, um artista e cineasta novaiorquino.

Apesar disso, é bacana acompanhar o dia a dia do Neistat. Eu diria que suas core competencies é a habilidade com a câmera, e em narrar o cotidiano de forma interessante.

Que criadores de conteúdo você acompanha, e por que?

albundy

No episódio Oldies But Young ‘Uns da icônica Married with Children, o protagonista Al Bundy é atormentado com um fragmento de uma melodia que ouviu no rádio e não conseguia identificar. Eis um compilado das cenas em que ele tenta usar seus amigos e familiares como uma versão analógica do Shazam, e falhando miseravelmente. Aliás, vocês ainda usam o Shazam pra isso? Eu migrei pro Soundhound.

(Eu era ao mesmo tempo atormentado pelo demônio da puberdade, provocado pela Christina Applegate em seu papel mais famoso.)

Hoje em dia, essa frenética e desesperadora busca por uma canção não-identificada é apenas mais um desses plot devices de sitcom antiga que, graças aos smartphones, se tornaram comicamente datados. Assista um episódio de Seinfeld, ou de Friends, e você perceberá que os inúmeros desencontros, mal entendimentos, e correrias de um lado pro outro pra resolver alguma confusão seriam completamente anulados se alguém tivesse um iPhone no bolso.

Eu estava pensando nisso outro dia, mas aí reparei que ainda existe, sim. Voltemos ao ano de 2005.

Como já mencionei aqui no blog, quando eu cheguei aqui no Canadá eu passei por uma “segunda adolescência”. Eu já tinha quase 20 anos, mas o grupo de gringos que me acolheu em seu círculo social era mais novo (15-16 anos), então eu entrei no “way of life” da pivetada, porque afinal de contas eu não tinha escolha.

Paupérrimo — já comentei que minha primeira cama no Canadá foi um sofá que tirei do lixo, né? — e sem saber falar inglês direito, eu tinha é que agradecer aos deuses o fato de que ALGUÉM queria ser meu amigo.

A galera era tudo metaleira (a Bebba, pros leitores novatos, era inclusive gótica!), e ir aos showzinhos locais nos muquifos lá de Oshawa (a primeira cidade em que morei no Canadá) era um programa comum nosso.

O local onde mais íamos é um clube chamado The Dungeon, que era um nome ambicioso pra definir o ambiente do estabelecimento: era o porão de um prédio onde operava um salão de laser tag.

Laser tag, pra quem não sabe, é tipo paintball — mas ainda MAIS sem graça. Acredito que a parada foi popularizada nas terras brasileiras graças ao How I Met Your Mother. Não assisti muito a série, mas se lembro bem o pouco que vi, a série deixava claro que um entusiasta assíduo do “esporte” é alvo de chacota.

lazer

Então. Num desses shows no Dungeon, ia tocar a bandinha de um amigo da minha mulher. O cara tocava violino clássico, mas era fã de metal, então ele incorporava a melodia característica do instrumento ao som mais pesado e 190% mais satânico que é o som do rock pauleira.

O show foi foda. Tocaram alguns covers do Metallica, do Tool, de algumas outras bandas que não lembro, e aí finalizaram com uma música deles. Era meio melódico (talvez por causa da adição do violino), com uma pegada mais “dirty”, mais grunge; aliás, lembrava um pouco o próprio Tool que eles fizeram cover.

A música era foda; a adição de violino dava aquele toque meio etéreo, meio “épico”, à música. Mas até onde sei os caras nunca gravaram um disco, então não tenho como descobrir que música era, não lembro NADA da melodia, afinal isso rolou uma década atrás. Não sei nem o nome do maluco, já que minha esposa perdeu contato com ele há anos.

Eu NUNCA MAIS vou ouvir aquela música na vida. Pior, se algum dia ouvisse novamente por acidente (digamos, na extremamente rara circunstância dos caras ficarem famosos e a música entrar no topo das paradas das rádios com um feat. Nikki Minaj ou sei lá quem), eu nem seria capaz de reconhecer a música mais, a essa altura.

Me sobrou apenas a lembrança de que a música era foda. E como gostos mudam, é possível que ouvindo-a hoje eu nem gostasse mais tanto. Aí entra num assunto filosófico ainda mais cabuloso (simulacros e o caralho), mas isso é intelectualidade demais pras 8 da manhã de uma terça feira quando eu ainda estou de cueca na frente do computador.

Você tem alguma “música perdida” também? Vamos debater nos comentários. A minha é sem esperança, já que eu duvido que havia no ambiente um leitor do HBD que gravou um bootleg da apresentação (mas se tiver, me manda no email aí plis); já a sua música perdida, alguém pode te ajudar a identificar. Mande seu “hmm hmm hiiim…” nos comentários!

Vamos voltar mentalmente ao ano de 1995.

izzy 11 anos

 

Eu tinha 11 anos. Nerd como eu era, estava animado pra abandonar o infantil “Ciências” da quarta série e conhecer a Física e Química da quinta série. Tinha acabado de ver o Brasil ganhar o tetracampeonato numa Copa do Mundo, também, então na minha mente infantil eu tinha aquela impressão de que somos literalmente invencíveis no futebol — afinal, o Brasil ganhou 100% das Copas do Mundo que eu havia assistido até então.

Tínhamos um Pentium 133mhz lá em casa, com extravagantes 64mb de RAM. Na época, o “normal” era 4-8mb, os chutadores de pau de barraca compravam 16mb, e os REALMENTE pica grossa compravam 32mb. A configuração do PC que meu pai montou era TÃO absurda que a maioria dos meus amiguinhos da escola achavam que eu estava exagerando; meu pai sempre se divertia em ver a cara de choque dos amigos “micreiros” quando ele falava quanta RAM o computador tinha.

Aliás, “micreiro” era como chamávamos “esse pessoal viciado em computador” na época.

Foi nessa época em que fui apresentado à internet. Meu primeiro vício internético foi o mIRC; é curioso o QUANTO eu gostava daquela merda, porque era a coisa mais boba — um bate papo aleatório com um bando de gringo anônimo, numa época em que eu mal falava inglês.

mirc

Pode parecer exagero pra você, mas ESSA IMAGEM AÍ representava o fim de semana pra mim. Não é exagero: eu vejo esse screenshot e imediatamente me sinto transportado para aqueles fins de semana nos anos 90 em que a família toda ia pra praia e eu fingia estar com dor de barriga pra ficar batendo papo na internet.

Por que fim de semana? É que por causa do pulso único, algo que a criançada de hoje nem deve manjar que sequer existiu, o uso de internet no Brasil nos anos 90 era limitado aos sábados e domingos.

Funcionava assim: na época, as operadoras telefônicas ofereciam um “desconto” nas ligações que aconteciam entre duas da tarde de sábado e seis da manhã de segunda feira; você podia ligar pra alguém e ficar pendurado na linha por essas 40 horas e apenas um “pulso” era contabilizado — ou seja, você só pagava alguns centavos por várias horas de uso. E por isso eu passava o fim de semana INTEIRINHO no mIRC.

O pulso único também estava em operação da meia noite às seis da manhã todos os dias, mas era um horário impraticável na época — só viríamos a nos tornar eremitas notívagos sem vida social alguns anos mais tarde.

Então, tínhamos uma internet lenta e limitada aos fins de semana. Já existiam celulares, mas eram proibitivamente caros. Eu acho que já tinha ouvido falar de GPS, mas era aquele negócio meio Star Trekiano que só era usado por malucos como o Amyr Klink.

Uma TV de tela grande era a de 29″ do meu pai, comprada especificamente pra assistir a Copa do Mundo. Em matéria de tecnologia portátil, tínhamos os Palms que começavam a despontar no horizonte… se você tinha muita grana. Mais comum eram as agendas eletrônicas, ou mais comum ainda, aquele relógio da Casio que tinha uma calculadora.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Meu pai tinha um, que eu pegava emprestado com frequência. Ele acabou me dando.

A família tinha câmera fotográfica (que tirava lá suas 36 “poses” e ficava então meses sem filme porque ninguém lembrava de comprar). Alguns mais abastados tinham câmeras filmadoras; as fitas eram ainda mais caras que filmes, e a bateria durava, se muito, uns 40 minutos.

E se os filhos eram bem comportados, às vezes tinha um SNES ou um Mega Drive no quarto deles. E que (pelo menos na minha casa era raro, mas vale mencionar) era às vezes plugado na TV “gigante” da sala — aquela lá de 29 polegadas.

Se eu queria saber os filmes que estavam em cartaz no cinema, eu ligava pra um número (acho que era 195?) e uma voz automática lia TODAS AS SESSÕES DE TODOS OS FILMES DE TODOS OS CINEMAS DA CIDADE.

Esse era o nosso relacionamento com tecnologia naquela década. Voltando ao ano de 2015, uma das melhores formas de perceber a drástica mudança que as últimas duas décadas causaram é constatar que o que rolou não foi apenas uma melhoria incremental da tecnologia que já tínhamos na época.

Nós literalmente ganhamos super poderes que seriam inimagináveis vinte anos atrás.

O acesso à internet, por exemplo. O que era limitado aos fins de semana, no único computador da casa, e em detrimento da habilidade da minha mãe de ligar pra minha avó, hoje é acessível o tempo inteiro, em uma velocidade completamente inimaginável pelo Izzy de 11 anos de idade. Naquelas tardes de mIRC, meu pai conheceu um israelense que o enviava musiquinhas em MIDI; a primeira música que pirateamos na vida foi a musiquinha de abertura do seriado do Batman dos anos 60. Essa aí:

Meu pai ficou estupefato vendo o arquivo rodando no seu computador; um arquivo que segundos atrás estava do outro lado do mundo. Ele tentou me explicar o quanto aquela transferência quase imediata de informação (demorava um cadim pra baixar uma MIDI numa conexão de 36.6 kpbs); e ele fantasiou sobre um futuro com uma conexão tão veloz que poderíamos reproduzir a música sem precisar baixar.

Alguns anos mais tarde, após o advento do Napster, meu pai foi além — ele teorizou um dia em que as conexões seriam tão rápidas, mas tão rápidas, que poderíamos assistir FILMES sem baixar.

E hoje eu faço isso no meu celular. Um celular, aliás, que tem um processador de 1.4Ghz, contra os 133Mhz daquele Pentium da nossa família. Celular, aliás, que é também uma câmera com capacidade infinitamente maior do que as câmeras que meu pai tinha — tanto a fotográfica, quanto a filmadora.

Falando em filmadora, o meu celular não a única que eu tenho. Eu tenho uma OUTRA filmadora, específica pra isso, que tem mais ou menos as proporções de uma caixa de fósforos e é melhor que a filmadora do meu pai em todos os aspectos — qualidade da imagem, som, longevidade da bateria, espaço de armazenamento de vídeo, TUDO.

Voltando ao meu celular, ele é também um GPS — algo que era antes um brinquedo luxuoso de aventureiros ricos, mas que agora vem embutido em todos os telefones quer você queira ou não.

E é também um mini-videogame.

grafico ingame

Gráfico in-game de Afterpulse, um jogo de iPhone

Falando em videogame, o Izzy de 2015 tem acesso a não um, mas VÁRIOS aparelhinhos portáteis com capacidade de comportar todos os jogos que eu achava foda quando pirralho. Se você me falasse que eu teria UM eu não teria acreditado, porque seria fantasioso demais algo assim sequer existir. Ter vários então?!

nao sao todos

E esses nem são todos que eu tenho!

Todos aqueles joguinhos de SNES pelos quais eu ficava babando em cima do balcão da seção de eletrônicos da Mesbla não apenas estariam a um clique de distância, mas gratuitamente, e eu ainda poderia leva-los pra qualquer lugar?! Apenas magia satanista poderia explicar isso.

Como tenho que tomar banho, convido os amigos a compartilharem outros exemplos de habilidades que eram simplesmente inimagináveis na nossa época. Mas o que realmente me deixa intrigado é:

O que teremos, daqui 20 anos, que é inimaginável hoje?

Será possível ainda que um futuro avanço tecnológico nos pegue totalmente de surpresa, a ponto de que HOJE não podemos imaginar o que seria…? Mais ou menos como uma GoPro era inimaginável numa época em que uma filmadora era um trambolho pesado que você apoiava no ombro.

É meio arrogante pressupor que já inventamos tudo — geralmente quem faz essa previsão quebra a cara –, mas ao mesmo tempo, eu me sinto tão preso no paradigma do que temos hoje em dia que é difícil visualizar algo revolucionário. Consigo imaginar melhorias incrementais (um iPhone com melhor bateria, exemplo; um Netflix com maior catálogo), mas e as grandes mudanças de paradigma que tivemos nas últimas décadas? A TV de 62 polegadas lá na minha sala, com a grossura de um caderno…? Eu sequer teria imaginado isso; pareceria um exagero imaginativo quase cômico.

Assim como um aparelho portátil através do qual eu posso acessar todo o conhecimento humano acumulado praticamente de graça. Ou um livro “eletrônico” onde posso carregar uma biblioteca inteira. Ou um relógio através do qual eu posso receber mensagens instantâneas da minha esposa (preciso resenhar meu Pebble pra vocês, aliás).

Enfim. Tente se imaginar em 2035. Que tipo de tecnologia existirá quando eu tiver 51 anos que nos fará pensar “caralho, e a gente achando que os smartphones da nossa época eram legais…”?

louco

Por usar a internet há TANTO tempo — quase vinte anos, mano! –, eu já me meti em muita discussão maluca. Porém, acho que a mais maluca de todas, a mais frustrantemente circular, a mais ENLOUQUECEDORA, foi uma que tive com um broder do colegial.

Quando cheguei no Canadá, eu era muito velho pra fazer high school “normal”. Por isso, tive que optar por uma escola “alternativa”: aquela escola menor, com má fama, pra onde a galera que engravidou na adolescência/foi expulso do sistema educacional por envolvimento com crime ou drogas/foi reprovado repetidamente vão parar. A escola tem um nível um pouco menor, pra ajudar essa turma a pelo menos terminar, finalmente, o segundo grau.

Nessa escola, eu conheci uma garota chamada Barb. Era ela super gente boa. Esta história não é sobre a Barb.

É sobre um maluco que estudava na mesma escola, com quem eu não conversava muito, mas era próximo à Barb. Um belo dia há alguns anos, vi a Barb compartilhando no Facebook um post desse maluco cujo nome eu não lembro. No post ele se propunha a “acabar com a pobreza no Canadá”. Sim, existe pobreza aqui.

A idéia do cara era a seguinte: uma loteria obrigatória. Todo os canadenses com idade para trabalhar (acho que dá uns 10 milhões, mais ou menos) teriam 1 dólar descontado de seu salário todo mês. No mês seguinte, rolaria um sorteio entre esses caras, e um felizardo ganharia 10 milhões de dólares. Ele então seria removido da loteria, e começava novamente no mês seguinte. Através dos cálculos dele, após um número X de meses, todos os canadenses estão milionários e acabou a pobreza.

E para o meu desgosto com o sistema de educação deste país, os amiguinhos do cara estavam tudo “porra que boa idéia mano vou mandar um email pro primeiro ministro essa idéia é muito boa!“. Me senti compelido a entrar na discussão.

Expliquei pra ele que loterias já existem, e nem por isso a pobreza se resolveu porque loterias não criam riqueza, elas apenas tiram um pouquinho de cada um e dão pra um outro. E que o sistema que ele descreve funciona mais como uma pirâmide financeira; é matematicamente impossível que todos ganhem porque o sistema vai eternamente depender de “não-ganhadores” contribuindo na base pra gerar a bolada lá em cima. E ainda pensei em mencionar o argumento de que um sistema compulsório de redistribuição de renda não é, historicamente, o melhor método de combater desigualdade socioeconômica, mas deixei quieto.

O cara não queria de forma alguma dar o braço a torcer. Ele continuava argumentando que seu sistema era essencialmente perfeito, que bastava os governantes do Canadá “darem uma chance” à idéia dele. “Em questão de poucos anos todos seríamos milionários, seria o primeiro país de milionários no mundo!“, ele repetia.

Tentei explicar que se subitamente as pessoas tivessem um monte de dinheiro, isso apenas criaria inflação. Ele rebateu que não, porque o governo não está imprimindo novas cédulas, apenas redistribuindo o que já está em circulação. O que é uma admissão não-intencional de que nada está sendo adicionado à economia do país; logo, será impossível criar valor através de redistribuição.

A discussão se estendeu por algumas horas. Mandei links explicando teoria econômica básica, esquemas de pirâmide, mas o cara estava completamente irredutível. Na cabeça dele, todos estamos a um passo de sermos milionários — basta o governo canadense pôr em prática o plano dele.

Essa foi possivelmente a discussão mais frustrante que eu tive na VIDA. Qual foi a sua?

fazer

 

Já comentei antes aqui no meu blog, mas eu lia BASTANTE quando era pirralho. Mas muito MESMO. Eu era o tipo de criança que roubava livros da biblioteca da escola, porque queria rele-los infinitamente sem precisar ficar me preocupando em renovar o “aluguel”, e levava livros pra mesa do almoço, um hábito que revoltava minha mãe.

Só que algo triste me aconteceu lá pelos meados dos anos 90 — a internet. A internet veio semeando em mim o hábito do hiper-multitarefismo: fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo, frequentemente não dando o foco apropriado pra nenhuma delas. Mil abas abertas no Chrome, música tocando, Twitter aberto em outra janela… no ano passado upgradeei pra uma configuração com dois monitores, e aí é ainda MAIS DIFÍCIL me concentrar em uma única atividade no computador.

Com exceção de edição de vídeo, que é infinitamente mais produtiva com múltiplos displays, aquela tela ali do lado apenas dilui minha concentração em qualquer tarefa que eu esteja tentando concluir

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E esse culto do multitarefismo tornou quase IMPOSSÍVEL me concentrar pra ler um livro. Num iPad é particularmente difícil, porque há joguinhos, notificações, Netflix e o caralho — por isso eu descobri logo cedo no meu uso do iPad que ler livros nele é algo que pra mim não funciona.

Então comprei ereaders (e ganhei dois da Livraria Cultura!), e eles funcionam muito melhor pra separar a leitura de um livro da hiperatividade em redes sociais… contanto que seu celular não esteja no bolso. E contanto que você não seja o tipo de semi-esquizofrênico que gosta de ficar compartilhando insights a cada parágrafo lido.

Então, parece-me que a internet me estragou no que diz respeito a leitura de livros. Era algo que eu fazia DEMAIS quando mais novo; o que realmente mais me dava prazer na vida quando mais jovem era deitar na cama numa tarde preguiçosa com um dos meus livros favoritos. Até que a internet veio, deu um overclock no meu consumo de mídia, e tornou quase impossível se concentrar na leitura por mais de 10 minutos de cada vez.

Estou tentando consertar esse erro, mas tá foda.

Que hábito você lamenta ter perdido?

natal

Este ano minha mãe finalmente imigrou para o Canadá, finalizando uma década de distância entre nós. Por isso, a Bebba estava super empogadada pra fazer um Natal em família, mas não apenas isso — ela queria saber como é o Natal no Brasil, pra preparar algo similar aqui. A Bebba é dessas que curte fazer artes caseiras e tal; no apartamento antigo a mesa da sala era completamente dominada pelas miçanguinhas e tecidos e cola plástica e whatevers dela. Então ela já estava planejando abrasileiras nossas decorações natalinas pra melhor recepcionar minha mãe.

“Bom”, falei, “o Natal brasileiro é meio que igual ao daqui, de certa forma. Os símbolos são os mesmos — pinheiro, (boneco de) neve, Papai Noel, etc”.

Ela franziu a testa.

“Mas não tem nada especificamente típico do Brasil nas celebrações de Natal de vocês que a gente possa fazer aqui pra ela se sentir mais em casa…?”

Nunca fui ao Brasil com ela durante o Natal (aliás, o último Natal que passei no Brasil foi em 2002), então subitamente caiu a ficha de que ela nunca viu um Natal brasileiro.

Puxei um pouco mais na memória e balancei a cabeça negativamente.

“Nem tem. As nossas imagens natalinas são 100% baseadas no que vemos nos filmes americanos, então a gente adota toda aquela iconografia…”

Ela fez uma cara de dúvida e eu respondi a próxima pergunta dela antes que ela a fizesse.

“Sim, eu sei que não faz nenhum sentido. Não apenas não neva no Brasil*, mas o Natal cai no nosso verão — o que torna a decoração natalina que a gente vê no shopping ainda mais incongruente.”

Expliquei pra ela que isso acontece porque o Natal brasileiro não tem nenhuma identidade própria; a gente basicamente emula o que vemos em filmes americanos.

Deixa logo eu esclarecer antes que os chatos de sempre rasguem os cus de ódio nos comentários: não acho que haja nada de errado com isso. Não sou desses ativistas Carta Capital-style que brada furiosamente que o imperialismo estadunidense estraga tudo e mimimi e sim, são estadunidenses porque “TODOS SOMOS AMERICANOS, ELES NÃO SÃO DONOS DO CONTINENTE INTEIRO!!111″ e etc.

Eu não vejo nada de errado em por algodão na vitrine da loja pra simular neve. É como conhecemos o Natal, afinal de contas. Vão usar o que?

Mas o ponto é inegável: o Natal “de verdade”, o Natal conforme conhecemos através de Esqueceram de Mim e O Grinch e Milagre na Rua 34 e pinheiros e neve e gorrinho e velho agasalhado pra entregar presentes, é o Natal americano mesmo. Nós não temos uma identidade natalina nacional, e por isso emprestamos a de alguém que tem.

É tão bizarra a nossa falta de espírito de natal que comerciais como esse passam no Brasil e ninguém acha estranho — mesmo com música em inglês e tudo, porque foda-se, não vão botar Simone – Então É Natal.mp3 na porra do comercial né?

O processo de assimilação do Natal americano já é tão velho, e portanto aceito sem qualquer ressalva, que a gente não vê nada de estranho num comercial de uma data comemorativa completamente lotado de referências estrangeiras. Por mais que cause revolta ouvir que nosso Natal “não é de verdade”…

Essa garota no Twitter, por exemplo, que não entendeu o ponto de forma alguma e está revoltada até agora.

…é algo que já aceitamos como norma. Não é que o “natal de verdade” PRECISE ter neve — é que, por bem ou por mal, essa é a única interpretação que existe, quer isso faça sentido no seu país ou não.

Pra que você realmente aprecie o quão sem sentido aquele comercial de Natal da Coca Cola é, imagine que este vídeo terminasse com um letreiro dizendo “FELIZ FESTAS JUNINAS!”

Por causa disso, quando eu cheguei aqui em 2003 — especialmente porque cheguei no final do ano –, minha primeira impressão foi “nossa, o Natal aqui é igual ao dos filmes!”. O que, meio que por tabela, o torna o Natal “real”; o que nós convencionamos no Brasil a emular, embora não faça muito sentido num país tropical.

A pergunta real aqui é — se não fosse a onipresente influência norte-americana, como seria um autêntico Natal brasileiro…? Essa padronização do Natal americano como o Natal “real” é global…? Existe algum país que celebre Natal com iconografia diferente? Ou padronizou geral já? Se o estilo já é usado no mundo inteiro, ainda vale sequer classifica-lo como “Natal americano”?

*Sim, eu sei que você vai se ater à literalidade e mencionar que nevou uma vez em 1900 e alguma coisa e outra vez dois anos atrás. O ponto é que neve não é um fenomeno meteorológico comum o bastante no nosso país pra que representações natalinas nevadas façam sentido para um país tropical.

Outro dia eu estava assistindo Robin Hood (aquele com o Russell Crowe cujas resenhas na época não foram tão boas ou algo assim…? Olha, eu até que gostei!) e durante uma das cenas de batalha campal, eu pratiquei um dos meus hobbies mais antigos e baratos:

Simular mentalmente qual seria o resultado da batalha caso um dos lados tivessem tecnologia bélica atual.

Claro que se a guerra fosse entre um exército da Idade Média versus um pelotão de Marines americanos, não teria nem graça. O que eu imagino exige um pouco mais de desafio: e se UM dos participantes da luta tivesse, sei lá, um fuzil de assalto moderno como o M4? Sem dúvida o lado desse viajante do tempo estaria em vantagem, mas sendo ele apenas um homem (e que poderia ser, sei lá, acertado por uma flecha e tal), ainda haveria uma chance pro outro lado.

Se o sujeito tivesse um TANQUE a sua disposição, por outro lado, eu vejo como literalmente impossível a vitória do exército medieval oponente, independente do seu tamanho.

Mesmo com munição e combustível limitado, bastaria alguns disparos certeiros do blindado (além da desmoralização completa de ver suas flechas e lanças provocando ZERO efeito no monstro metálico) pra debandar um exército de milhares de homens. Além do canhão principal esse M1 Abrams ainda vem em configurações que colocam umas M60 ali na turret; não haveria qualquer chance pra um inimigo de séculos atrás.

Aí eu levei o exercício pra outra esfera. Digamos que você se vê transportado para o Brasil do século 18, no período colonial e tal.

Esta seria a sua realidade

Digamos que o transporte fosse irreversível, ou seja — tu ia ter que se virar no passado. Que objetos você traria consigo pra garantir que se tornaria um homem influente/poderoso na cultura do local?

Pense bem. Ah, e a regra da parada é que não pode ser nada ABSURDO — cê não vai ter um AH-64 pra dominar tudo na base exclusiva da força e terror. Tente se manter a algo relativamente fácil de obter.

Fiz a pergunta no tuíter e deram umas respostas bem interessantes. Eis a minha lista:

Um ereader com inúmeros artigos sobre o Brasil colonial daquele período. Personalidades, empresas, associações, eventos importantes, todos os detalhes históricos possíveis sobre a região. Conhecimento é poder, e sendo um total recém chegado eu precisaria de todas as informações possíveis pra me estabelecer no local.

– Uma lanterna. Dispensa explicar porque, né?

– Um carregador solar pra calar a boca de quem vai falar “MAS A BATERIA DESSES ELETRÔNICOS IA ACABAR IZZY“.

– Um canivete. Aliás, teve uma época da minha vida que eu sempre deixava um no chaveiro (tirei quando alertaram que isso ia detonar a ignição do carro), imagina então viajando no tempo. Seria obrigatório.

– Uma Beretta M92F com 10 magazines carregadas de balas hollow point. Não, uma arma de fogo simples não entra na categoria de “absurdo”. Penso que aquele período era meio sem lei, ainda mais pra um forasteiro desconhecido. Auto-defesa seria importante.

(Não venham encher meu saco sobre minhas opiniões de dúvida sobre a eficácia de uma população armada, o contexto aqui é completamente imaginário)

– Um colete de kevlar. Sim, já tinham armas de fogo naquele tempo (embora primitivas), e alguém com a influência e dinheiro que eu teria em pouco tempo atrairia muita atenção negativa. Melhor previnir que remediar.

– Um isqueiro. O combustível ia acabar eventualmente, sim, mas melhor que nada.

– Todas as joias de ouro que tenho em minha posse. Não são muitas (duas alianças de casamento, uns dois colares da Bebba. Nenhum de nós dois é muito chegado nessas coisas), mas seriam o suficiente pra conseguir ALGUM dinheiro e não ter que dormir na rua.

– 500g de penicilina. No século 18, mais de cem anos antes da invenção do antibiótico, isso seria praticamente a CURA DA MORTE.

– Uma mochila pra jogar essas porras todas dentro.

– Meu treinamento como paramédico (esse aí valeria mais que o ouro que citei antes. Ainda incompleto, mas já ajudaria muito)

E acho que isso. Alguém no tuíter sugeriu (possivelmente como galhofa) levar camisinhas também; com tanta penicilina e quase 200 anos antes do surgimento da AIDS, eu não me preocuparia tanto em gastar espaço com caixas de Jontex. Foda-se.

O importante logo de cara seria conseguir roupas da época, pra não chamar muita atenção. Feito isso, iria pra capital (que era o Rio nessa época, sempre quis morar no Rio) e tentaria arrumar emprego na área de saúde.

Com meu detalhado conhecimento sobre as empresas e personalidades da época, não deveria demorar nem um ano pra que alguns investimentos bem posicionados me colocassem pelo menos no nível de classe média.

E olha que estou indo pelo lado Lawful Good da parada, claramente. Com tanto conhecimento sobre a galera da região, uma pistola semi-automática e um colete à prova de balas, não seria difícil ir pro Lado Negro e manipular a galera de formas antiéticas/ilegais. Se eu encarnasse meus antepassados cearenses e partisse pra CANGACEIRICE, seria certamente o fora-da-lei mais bem sucedido da história do Brasil — mais de cem anos antes do Lampião.

O que você levaria pra uma viagem ao passado do Brasil? Seja criativo!

Estava passeando pelo tuíter neste domingo, sem nem pensar em atualizar o HBD nem nada, e vi este tweet da Rosana.

O vídeo em questão é o Doodle do Google de hoje, um vídeo emocionante celebrando a queda do muro de Berlim. Das aula de história, eu lembrava que a data comumente associada com a queda do muro é 1989, o que me confundia — eu lembrava CLARAMENTE de ver matérias ao vivo na TV sobre a queda. Lembro até mesmo de estar brincando no chão da sala com bonequinhos e carrinhos quando a queda foi televisionada.

Como eu poderia lembrar disso…? Em 1989 eu teria 4 ou 5 anos, dependendo do mês.

O que rola é que o muro só terminou de cair “oficialmente” em 1992. Entre as matérias mostrando a retirada final dos últimos pedaços do muro, a Globo certamente rolou VTs dos momentos iniciais da queda três anos antes, e por isso o que provavelmente aconteceu é que as memórias de ambos se mesclaram na minha mente.

Então. A Rosana comentou se emocionar vendo esse vídeo-homenagem do Google, e eu parei pra pensar nos vídeos que me fazem chorar.

Entra aqui a vantagem de ter um público mais velho. Eu imagino que outros blogueiros/vloggers, se fizessem a mesma pergunta ao seu público mais jovem (pré-adolescentes, talvez…?), seriam inundados com acusações de “viadagem” — a julgar pelos comentários extremamente homofóbicos que alguns de meus colegas de profissão vivem recebendo.

Então. Que vídeo da internet te faz chorar?

Um dos primeiros vídeos de internet que extrairam essa reação de mim foi o clássico “Where the Hell is Matt?”, de 2008. O cara viajou pelo mundo inteiro e se filmou dançando com a galera:

Não é o primeiro vídeo do cara na categoria; a primeira aventura dançante do cara é de 2006. Escolho o segundo porque neste, filmado quando o Matt já tinha uma certa fama na web, foi feito com colaboração de diversas pessoas em cada país que ele visitava. Por isso, esse me passa uma impressão mais forte de união mundial; de que as linhas imaginárias que nos separam são essencialmente apenas isso — imaginárias.

Além desse, teve também o clássico Free Hugs, com música do Sick Puppies.

Com tanta notícia ruim no mundo, é muito tentador abraçar a noção de que este planeta é uma desgraça infindável e que a raça humana deveria ser extinguida o mais rápido possível, porque não fazemos nada que preste. Um vídeo como esse acima ajuda a dispersar um pouco esse sentimento.

Eu poderia ter incluído um vídeo aqui de um cachorro com câncer que precisava ser sacrificado — com o seu dono abraçando o cachorro durante a injeção e o confortando, dizendo que “seu trabalho está terminado” –, mas aí chega a ser trapaça. Eu, que nem tenho cachorro há muitos anos, chorei aqui até soluçar.

Outro tipo de vídeo que costuma me fazer chorar são as retrospectivas do Google. Como esta:

Uma outra que não pode faltar numa lista como essa é a irrepetível final da Copa de 1994, que eu tive o privilégio de assistir ao vivo. Olhaí:

Quando o Baggio chutou pra fora e subiu a música de vitória do Senna, um dos nossos maiores heróis nacionais que havia recentemente morrido naquela época, já foi suficiente pra arrancar lágrimas por reação pavloviana mesmo. Aquela música, talvez mais que nosso próprio hino, simbolizava orgulho nacional.

Aí veio a maior surpresa. Quando os jogadores desenrolaram uma faixa dedicando a vitória ao piloto (que também era favorito pra virar tetra-campeão naquele ano), aí que a galera desandou a chorar MESMO. Até eu, que era tão novo na época e nem era nenhum fã de Fórmula 1, chorei quando caiu a ficha da homenagem.

Hoje, 20 anos depois, é impossível rever a cena sem lábrimas nos olhos.

Agora é a sua vez. Qual vídeo te faz chorar?

playcount

Eu me pergunto se tem gente que consume música igual eu. Quando descubro uma música que eu gosto, eu baixo em todos os meus aparelhos que reproduzem músicas, coloco nas playlists mais relevantes, e aí escuto a música sem parar pelas próximas duas ou três semanas — até o ponto de fadiga mental da música. Infelizmente, em minha falta de auto-controle, eu acabo estragando a música pra mim mesmo de tanto ouvir no repeat. Ouço até que a música pareça mais curta de tão acostumado que meu cérebro esteja a ela, porque passo a ouvir sem nem prestar atenção.

Não tem jeito. É o jeito que eu sempre ouço uma música bacana recém-descoberta.

A música que estou ouvindo sem parar no momento é este remix de From Nowhere, do Dan Croll.

Você provavelmente está reconhecendo essa música de algum lugar, né? Ela apareceu na E3 desse ano, no vídeo de anúncio do GTA5 pros consoles next gen. A música, como falei, é o remix meio pop synth oitentista dessa música:

A trilha sonora de GTA5, e suas escolhas musicais em seus trailers, é sempre afiadíssima — e com esse remix de From Nowhere, eles acertaram pra caralho novamente. Está perdendo no momento só pra Sleepwalking, do Chain Gang of 1974, também com a mesma pegada pop synth oitentista, e do mesmo jogo (e que foi usada no melhor trailer dele):

Essa música marcou o ano de 2013 pra mim, e foi outra que eu tou ouvindo sem parar até agora. Ela tem uma longevidade incomum!

Em que música você está viciado no momento?

Sei que perguntar isso NO PRÓPRIO HBD é meio contra-senso, mas acompanhe o raciocínio aqui. E mais importante que isso, participe da conversa — essa parte será essencial.

Antes de mais nada, um pequeno histórico sobre o HBD para os recém chegados.

Um screenshot do meu site, como ele aparentava em 2003

Eu comecei este blog em 2002, no finado Weblogger. Na época, eu estava habitando aquele limbo de “terminei o terceiro ano mas o resultado do vestibular não saiu ainda”. Ou seja: eu não tinha NADA pra fazer em casa, nenhuma obrigação estudantil ou trabalhística, e a internet ainda não era tão interessante (embora o fato de que eu já passava todo o meu tempo livre nela pareca contradizer isso).

Eu descobri os blogs nessa época. Eram blogs de raíz — garotos compartilhando suas vidas. E os mais engraçados, mais inteligentes, que tinham mais insight sobre as coisas, eram os famosinhos da época. As proporções eram bem diferentes: ter mil acessos por dia era INACREDITÁVEL nessa época. A turma mais notável daquele período tinha lá seus 2 mil acessos por dia em seus blogs.

Eu sempre gostei de escrever, então abri o meu próprio. Os textos eram bem medíocres, mas fui aos poucos ganhando atenção da comunidade. Um ou outro texto se tornaram populares, e atraiam muitos novos leitores (aposto que você mesmo chegou aqui por causa de algum texto meu compartilhado no seu Facebook).

Em 2008 conheci os vlogs, e igualmente entrei nessa “indústria”. Hoje meu canal no YouTube é minha principal atividade na internet; é onde consegui o maior espaço, inúmeras oportunidades insólitas, o maior retorno financeiro. Já comentei isso no meu Twitter, mas foi uma mudança muito curiosa quando eu parei de ouvir “gosto muito do seu site” e comecei a ouvir “gosto muito dos seus vídeos”. Historicamente, o HBD era meu xodó, meu projeto principal, o motivo pelo qual alguém na internet conhece meu nome.

E por isso, quando o meu canal passou a receber mais atenção e ser mais visitado que o HBD, eu senti um estranho “ciúme de mim mesmo”. Mesmo aqui em Calgary, por haver um núcleo grande de brasileiros, eu sou rotineiramente reconhecido e invariavelmente o sujeito fala “pô cara, adoro seu canal!”. Minha reação externa era agradecer, claro, mas internamente eu pensava “pô… e o site, cara? Cê não curte o site…? Você sequer SABE que eu tenho um site…?”

E isso pouco a pouco foi erodindo a minha motivação pra escrever aqui. Escrever é uma arte morte, e ler — pelo que percebo — é um hábito esquecido. O retorno do HBD é bastante baixo em todas as esferas, fazendo — compreensivelmente — que eu acabe me focando mais nos vídeos. Se ao entrar no HBD você só vê textos derivados dos meus vídeos, agora você entende por que.

E isso me entristece um pouco. Como já comentei em algum post que já me esqueço o link mas certamente os leitores com melhor memória colocaram nos comentários pra mim, eu sempre tive uma motivação intrínsica pra manter meu site — eu gosto de imaginar que o dia de alguém foi, ainda que apenas levemente, melhorado ao entrar no meu site e dar de cara com um texto novo. Me inspiro muito numa anedota sobre o Steve Wozniak em que ele conta sobre um disk-piadas rudimentar que ele desenvolveu quando estava na faculdade. A cena aparece no filme Piratas do Vale do Silício, que foi celebrado pelo próprio Woz por ser bem fiel aos eventos daquele período.

Pra evitar a fadiga, copiarei aqui o que já escrevi sobre a história:

Em 1973, o Wozniak bolou um sisteminha de Disque Piadas (isso ainda existe?) na casa em que ele dividia com o Jobs. Ele gambiarrizou um gravador a um telefone; este tocava uma mensagem pré-gravada sempre que o telefone não era atendido após X toques. Uma espécie de secretária eletrônica rudimentar..

Todo dia o Woz gravava uma piadinha diferente, e pessoas ligavam o dia inteiro pra ouvir a “piada do dia” dele — algo que ele conta ao Jobs com muito orgulho. Ele adiciona que comprou um novo livro de piadas de polonês (piadas de polonês são o equivalente americano das nossas piadas de português, pra quem não sabe) só pra diversificar mais o serviço.

Jobs, sempre businessman da dupla (e caso você goste do seu iPod ou iPhone ou iPad, saiba que esse instinto do cara foi o responsável pela existência desses aparelhos e da própria Apple), indagou qual era o propósito daquilo, já que não havia como “vender” o serviço — de fato, o serviço custava dinheiro ao Woz em vez de dar qualquer lucro.

O Woz responde, da forma dócil e levemente infantil que era marca registrada dele, que ele não tinha interesse em ganhar dinheiro com aquilo. Ele explica que pessoas ligam o dia todo pro serviço dele só pra ouvir a piada do dia, e que, mais importante que isso — e essa foi a parte que me pegou –, que esse serviço torna o dia da pessoa melhor.

O indivíduo liga, ouve a piada, dá uma risada talvez, e através de um gesto tão pequeno o dia da pessoa agora é um pouco melhor. E, por menor que seja essa melhoria, ela foi causada pelo trabalho do Woz em manter o serviço. Ele se satisfazia com a idéia de que era um agente de mudança positiva, por menor que fosse essa mudança, na vida de pessoas que ele nem conhecia. O Jobs julgou esse sentimento pueril, idealista, e talvez seja mesmo.

Aquela cena me marcou na primeira vez que assisti o filme, e olha que o HBD nem existia ainda. Agora, ela é ainda mais importante pra mim. Sempre que eu entro no painel de controle do HBD pra escrever um texto, eu tenho em mente VOCÊ, um leitor hipotético que vai abrir a home do site aleatoriamente na expectativa de um novo post, e vai se alegrar ao ver o site atualizado. É assim que me sinto quando acesso meus sites favoritos, e eu me senti devastado quando um site outrora favorito foi definhando em atualizações até a inevitável morte.

Resumindo essa ladainha: esse leitor hipotético que fica feliz ao entrar num HBD atualizado ainda existe, ou é fruto da minha imaginação? Os leitores fiéis já debandaram, ou migraram pra outro tipo de humor na web brasileira, ou ficam só nos vídeos mesmo, como é? Devo continuar gastando tempo E dinheiro mantendo esse site (hospedagem na web, ao contrário da casa da minha avó quando foi em Fortaleza, não é grátis), quando vlog é uma atividade infinitamente mais rentável e de maior reconhecimento?

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