Esse é possivelmente o meu post mais pessimista, e que mais provocará a ira de meus leitores e me renderá alcunhas políticas, mas vamo lá.

Não seria exagero dizer que uma das mais distintas características do povo brasileiro é uma histórica inércia que se manifesta num sentimento generalizado de “ah, relaxa, deixa do jeito que tá, tá tudo bem“.

Por tanto tempo estivemos entretidos com novelas e carnaval e Big Brother e Brasileirão (ou ao menos é a queixa que sempre ouvi dos intelectuais), que chega a ser surpreendente a recente mobilização política que estamos presenciando no país. Tenho apenas 30 anos, então evidentemente minha visão pessoal é limitada, mas arrisco dizer que nunca vi a população brasileira tão engajada em relação a política. Talvez seja porque a putaria parlamentar chegou a um nível impossível de ignorar, ou talvez porque essa nossa geração é mais acostumada a trocar idéias e se organizar usando métodos digitais, o resultado é o mesmo — atualmente, TODO MUNDO FALA DE POLÍTICA.

Até mesmo eu, um cara que escreveu um relato de como cagou no tapete do próprio banheiro.

Então. Por um lado, essa mobilização é um sinal de que pelo menos não estamos mais levando na bunda impassivelmente. Revoltar-se contra o governo — e mais importante, externalizar essa revolta — é o caminho para mudanças, não é? Não é?! Ficar quieto e deixar do jeito que está não resolverá nada. Certo?

Certamente, deixar tudo da forma que está fará com que as coisas apenas tendam a piorar. É impossível discordar disso; as coisas não vão simplesmente melhorar do nada sem a pressão popular.

O problema é que a defesa que me oferecem dessa súbita conscientização política (ou seria mais apropriado chamar de mobilização partidária…?) é a falsa dicotomia “se deixarmos como está, tudo piorará; logo, manifestação contra o status quo necessariamente melhorará tudo“.

E o problema é que isso não é necessariamente verdade. Enquanto inação certamente não muda a situação, as ações, motivações e o espírito errado podem piorar AINDA MAIS as coisas.

Deixa eu exemplificar pra você. Estão acontecendo manifestações generalizadas no Brasil (recebendo atenção internacional, a propósito) há mais ou menos dois anos. Nos últimos dois anos, eu não sou capaz de apontar nenhuma — NENHUMA — mudança positiva, por menor que seja.

Alguns falarão que dois anos é pouco tempo, evidentemente. Estou sendo “imediatista”, porque existe alguma regra universal que rege quanto tempo demora, exatamente, pra que uma manifestação popular comece a render frutos. Tem que ser pelo menos 400 dias úteis, valendo entre 9 da manhã e 5 da tarde, com os ajustes necessários do horário de verão!

Pra determinar que dois anos de protestos brasileiros é “muito pouco tempo”, precisamos ignorar que é perfeitamente possível que protestos mostram resultados com muito menos tempo que isso.

A Primavera Árabe derrubou ditadores em meses. Na Tunísia, o presidente pediu pra sair após menos de um mês de protestos. No Yemen, botaram o presidente pra correr em menos de um ano. Na Líbia, após oito meses escorraçaram um ditador que estava no poder por quatro décadas. E isso tudo, não esqueçamos, em protestos que o governo respondia na base de bala. Então calcule a disposição desses governantes a continuar no poder a qualquer custo, compreenda o quão impressionante é que tenham renunciado.

As estimativas são de que mais de 170 mil pessoas morreram nesses protestos.

E não precisamos nem ir tão longe. No nosso próprio Brasil, os Caras-Pintadas chutaram pra fora um presidente em pouco mais de um mês.

Então, não. Paremos com essa desculpa esfarrapada de “mas foi pouco tempo ainda!”. A história nos mostra que sim, é possível mudar a estrutura de poder de forma drástica em relativamente pouco tempo. Pra defender as manifestações, você terá que me dar uma justificativa melhor que essa. RESULTADOS seriam o melhor argumento, mas como não temos literalmente nenhum ainda…

A única “melhoria” que me ofereceram como resultado dos protestos é que a Dilma anunciou um pacote anti-corrupção. Aquele mesmo que o Lula ofereceu ao Congresso em 2005, lembra? Aquele que resolveu todos os problemas de Brasília!

Esse é resultado sendo celebrado. Não é só a inação brasileira que é já folclórica, é nossa memória curta também. Tão curta que parecemos esquecer que a mulher é aliada de paladinos da moral e honestidade política como Collor, Renan Calheiros e Sarney, mas ainda assim nos animamos por ouvir que ela ofereceu um pacote anti-corrupção.

Aliás, se você parar pra pensar de 2013 pra cá TUDO piorou. Quanto você pagava pra encher o tanque do seu carro naquela época? Quanto chegava a fatura do seu cartão após compras no eBay? Então. Eu não tenho como avaliar os protestos como benéficos baseando-se em resultados, e nem posso me satisfazer com “ahhh mas tem pouco tempo ainda” porque não existe uma data de corte pra que manifestações comecem a produzir efeito, e temos incontáveis exemplos de manifestações (tanto no nosso país como fora) que tiveram algo a mais pra mostrar em MUITO menos tempo.

Ok, então parece que até agora não temos tantos bons resultados dessas manifestações pra celebrar. Mas, seguindo a máxima que mencionei antes, melhor isso do que não fazer nada, não é mesmo? Se a alternativa é completa imobilização, é melhor sair na rua e protestar.

É aí que eu tenho que discordar novamente. Não, o protesto por si só não é inerentemente positivo para o futuro do Brasil — ESPECIALMENTE quando ele divide completamente a nossa nação.

Eu nunca vi o Brasil tão partidariamente dividido. Acompanhando as eleições presidenciais americanas de 2004, eu fiquei chocado com o nível inflamatório da retórica republicana versus democrata. O nome “Estados Unidos” pareceu mais irônico do que nunca para o país, considerando o veneno que um partido vertia em direção ao outro.

E isso me parece fichinha hoje considerando o cenário político brasileiro. Chegamos ao ponto de que o termo “petista” já virou de fato um xingamento, e os oponentes do partido em poder não são seres humanos com opiniões, sugestões ou posicionamentos — são COXINHAS.

Chegamos ao ponto de que existem vídeos no YouTube de manifestantes batendo uns nos outros por reação pavloviana ao ver alguém usando uma “camisa comunista”.

E vemos agressão vindo do outro lado, também:

https://www.youtube.com/watch?v=gMZSwqaYlY8

Não bastasse essa “conscientização política” não estar nos dando resultados tangíveis, ela está alimentando uma histeria partidária sem igual no nosso país. O ódio não é mais nem contra um ou outro partido, é contra as próprias pessoas. Termos como “coxinha”, “reaça”, “petralha” e derivados acentuam a demonização, a despersonificação do debatedor. E o fato de que estas alcunhas são lugar comum no nosso país, sendo jogados como granadas ideológicas na cara uns dos outros, me preocupa pra caralho.

Sabe por que? Porque nesse ambiente de histeria ideológica é que as MAIORES MERDAS costumam acontecer. Essa guerra de classes, essa demonização do oponente ideológico/político, essa dogmatização cega de “todos os nossos problemas são por causa daquele grupo X ali, esses FILHOS DA PUTA!” são os mecanismos que possibilitam um Terceiro Reich, ou uma revolução soviética, ou os mujahideen afegãos.

Lembra da Primavera Árabe? Você talvez tenha pensado “mas que bom que o povo se levantou, né? Que solução perfeita, que coisa bonita. Tá vendo, a solução pra tudo é o levante popular mesmo!“. Exceto que no Egito, colocaram no poder Mohamed Morsi, um sujeito ainda pior que o primeiro ditador — e aí foi preciso quebrar pau por uma segunda vez pra tirar esse SEGUNDO maluco do poder. Ah, e no processo da eleição do cara, acabaram montando um cabinete presidencial com participação de representantes de um pseudo-partido político considerado por países da região como um grupo terrorista, um grupo do qual Morsi era um orgulhoso membro.

Olha só que BELEZA.

A putaria foi tamanha que executaram inúmeros apoiadores do Morsi quando ele foi deposto pelos militares. Se arrepender de votar num presidente é uma coisa; imagina então ser executado quando tiram o cara do poder. Virou bagunça total.

E falando em bagunça, não esqueçamos do que tá rolando na Síria. Uma guerra civil estourou no país durante a Primavera Árabe, e que beleza, né? O povo protestando, clamando por direitos/mudança governamentais, sírios unidos jamais serão vencidos! Acontece que no meio dessa bagunça, um grupo oposto chamado ISIS cooptou a briga e o resultado disso você deve ter visto nos jornais. Uma boa fatia do país é agora controlada por terroristas cuja missão professa é matar ocidentais e expandir o governo totalitário muçulmano. Já morreram uns 200 mil nessa.

Meta uma coisa na sua cabeça — protestos, por si só (especialmente esses que fomentam esse tipo de divisão entre o povo) não são uma coisa boa para o país. Leia a frase anterior 3 vezes se for necessário.

Eu sei que você está achando bonito o povo engajado, e o quão melhor isso é do que a total paralisia, mas eu convido você a analisar cuidadosamente a verdade inconveniente de que às vezes, esse tipo de protesto sai pela culatra de forma catastrófica.

Estou sendo exagerado/catastrófico, né? Essa total insatisfação do povo — que aponta pros seus próprios compatriotas como a raiz de todo o mal — não iriam dar margem para a ascenção de figuras extremistas ou coisa do tipo, não é mesmo? Hitler, Lenin, esses caras que tomaram poder em situações similares são coisas do passado, não é mesmo?

Este é Jair Bolsonaro. O cara tá na vida pública desde os anos 80, mas atualmente goza de uma relevância política inédita — surfando a onda da insatisfação nacional com “esses petralhas filhos da puta”. Este homem defende a ditadura militar, acredita que um pai deve bater pra “curar” o filho homossexual, defende a tortura, fez comentários favoráveis à eugenia, argumenta que mulheres deveriam ser pagas um salário menor, acha que o povo indígena é “fedorento e não educado“, diz que preferia um filho morto a um filho homossexual (mas isso não se conserta batendo, de acordo com ele?), e diz que seu filho jamais se apaixonaria por uma negra porque “foi bem educado dentro de casa“.

E o que acontece quando esta ilustre figura (que foi um dos deputados mais votados no Brasil nas últimas eleições) com ideais tão idôneos aparece entre os manifestantes? Bom, taí o vídeo.

https://www.youtube.com/watch?v=TAzIRgFfPj8

Então vamos recapitular. As manifestações até agora não afetaram positivamente o status quo político (pelo contrário, a Dilma aparece AO LADO DO SARNEY pra oferecer um pacote anti-corrupção requentado), está levando o nosso povo a uma histeria coletiva e uma divisão ideológica ímpar, e de quebra permite que figuras como o Bolsonaro não apenas se tornem um dos políticos mais relevantes do nosso país, mas ainda o dão inspirações presidenciais.

Eu te pergunto novamente: o que toda essa “conscientização política” nos trouxe de bom, exatamente, até agora?

Sim, protestar é preciso. Sim, ficar na mesma não melhorará as coisas. Eu sei disso.

Mas parem de ver protestos e “conscientização” como fins em vez de meios, como elementos inerentemente positivos sem qualquer potencial pra dar merda e que que não precisam ser criticados ou analisados. Recordem-se de momentos cruciais na história em que esse tipo de histeria e divisão popular deu merda ATÔMICA, atentem nas figuras que estão cooptando esse zeitgeist de raiva popular.

Antes que seja tarde demais. Afinal, até mesmo o melhor remédio ainda tem efeitos colaterais.

Ah, e uma última coisa que quase esqueci. Num desses protestos contra corrupção, uma padaria em Fortaleza teve mais de uma CENTENA de produtos furtados por manifestantes.

Me pergunto se, ao se revoltar e exigir mudança dos políticos vez de nós mesmos primeiros, estaríamos talvez tentando construir uma casa começando pelo telhado.

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